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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais o que fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.

Paulo, diz-nos uma coisa, voto secreto e disciplina de voto são conceitos incompatíveis?

No Parlamento são até uma espécie de água e azeite. Em muitas ocasiões não se misturam, onde está um não está o outro e acabou. E ontem essa lei da física voltou a confirmar-se. Nós olhamos para a eleição falhada de Tiago Antunes para o cargo de Provedor de Justiça e foi isso mesmo que aconteceu. O nome indicado pelo PS já estava a ser contestado em surdina, também entre os socialistas, não apenas, mas também. E de nada adiantaram os apelos ao voto em Tiago Antunes que foram feitos pelos líderes parlamentares, quer do PS, o que era natural, mas também do PSD. Feitas as contas, o candidato a Provedor teve 104 votos a favor, ou seja, dos 149 deputados das bancadas da AD e do PS, 45 não seguiram as indicações de voto dos partidos. Agora, saber quem foram, aqui entramos então na questão de voto secreto. Nunca saberemos. Por isso é que os deputados, nestas ocasiões, estão muito à vontade para violar muitas vezes aquilo que é a disciplina de voto da bancada.

Pois é. Estava aqui a fazer contas.

Estavas a pensar.

E também a pensar noutra coisa.

Diz lá.

Seguro fez as escolhas seguras para o Conselho de Estado?

Dir-se-ia que sim, olhando para os cinco nomes que escolheu, escolheu perfis conhecidos, com currículo sólido, político e acadêmico também. E há poucos motivos aqui para levantar sobrancelhas e desconfiar. Alberto Martins, antigo ministro e líder parlamentar do PS, Nuno Severiano Teixeira, também antigo ministro da Defesa, professor, Isabel Capelo Gil, reitora da Universidade Católica. São três dos cinco nomes indicados pelo presidente que não causam muitos sobressaltos e ainda menos sobressaltos deverão causar a cientista Maria do Carmo Fonseca e o investigador Miguel Bastos Araújo, Maria do Carmo Fonseca, que foi mandatária nacional da candidatura de António José Seguro à presidência. Nas reações, o tom foi mais ou menos esse, de escolhas previsíveis, equilibradas, politicamente confortáveis. Nada contra, nada que mude essencialmente o guião. E isto para uns é estabilidade dentro do perfil também de António José Seguro, outros veem aqui falta de algum rasgo ou de risco. E no meio fica a sensação de que tudo correu como esperado e às vezes é esse exatamente o objetivo, e terá sido muito certamente esse o objetivo de António José Seguro com estas escolhas para o Conselho de Estado.

Escolhas seguras, não é? Andamos a brincar à transparência, Paulo?

Andamos a brincar à transparência, andamos a brincar com a transparência e no fundo andamos a brincar com isto tudo. Com o regime, com a imagem dos partidos, com a confiança dos cidadãos na atividade política, que nunca é famosa. Esta ideia, de facto, de tornar secreto o nome e a identidade dos doadores de financiamento dos partidos e das campanhas eleitorais, em nome de uma proteção de dados, isso é, de facto, uma ideia inaceitável e representa um recuo, um retrocesso de décadas na transparência do exercício da política. Mas parece que os burocratas falam mais alto, porque andam à procura de vírgulas das leis. A Entidade de Contas e Financiamento Públicos diz que o Bloco de Esquerda, o PCP e o Chega vieram questionar, de facto, se a revelação da identidade dos doadores dos dinheiros dos partidos não violava o regime da proteção de dados. E a partir daí as tais vírgulas das leis fizeram a sua magia. Parece que não se pode publicar agora essa identidade. Há três partidos com explicações a dar sobre isto e há um Parlamento que tem que fazer o seu trabalho se quiser que isto regresse à normalidade, evitando mais este pântano, que é no fundo, fazer as alterações legais para que as próprias leis não se atropelam umas às outras.

Bruno, então e a Europa? Está na reserva?

Na reserva está o meu carro.

E o meu. O Paulo não tem este problema.

Agora tem sido assim de ano a ano.

O Paulo tem a carregar.

Mas também chega à reserva.

Pois, também é verdade. Mas na Europa o ponteiro já está a descer e pode começar a ser preocupante. A Agência Internacional de Energia diz que a Europa terá combustível para aviões para cerca de seis semanas. Não é exatamente ficar a seco já amanhã, mas também não é uma folga muito confortável. E nós sabemos que o problema começa no estreito de Ormuz, por onde passa uma parte relevante do petróleo mundial, mas não é esse o principal problema para a Europa, porque a maior parte desse petróleo destina-se aos mercados asiáticos. O problema são os produtos refinados, como o jet fuel, ou seja, o combustível para os aviões. E aí, sim, a Europa está muito dependente dos produtos que passam pelo estreito de Ormuz. Para já, o impacto vai sendo gerido. Algumas companhias já ajustaram voos, outras olham, claro, para custos e fazem contas, mas este cenário já está montado. E se o bloqueio se prolongar, é de esperar mais cancelamento de voos nos próximos tempos. As companhias de aviação não vão já encostar o carro ou o avião à berma e fazer o sinal de boia. Mas o que é pior do que isso é que aqui não há bomba de combustível que resolva o problema e por isso podemos ter mesmo cancelamentos de voos muito significativos.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais o que fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer