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Este é o som do América Dividida. Eu sou a Maria João Simões e esta manhã contamos com a análise do Ricardo Silvestre, investigador e autor de Ciência Política e colunista do Observador. Bom dia, Ricardo. Muito obrigada por teres aceitado o nosso convite.
Bom dia, Maria João. É sempre um privilégio estar de volta.
O gosto é nosso. Ricardo, vamos ainda ao debate dos candidatos a vice. A opinião geral é que fez sobressair J.D. Vance e por isso pergunto se os democratas tivessem escolhido um outro nome para número dois, sei lá, o governador da Pensilvânia, Josh Shapiro, no lugar de Tim Walz, as eleições estariam mais garantidas?
Vamos começar pela primeira parte daquilo que acabaste de dizer. Se o facto de J.D. Vance teve algum aumento na dinâmica eleitoral por causa da sua participação. As sondagens não dizem isso. Toda a gente, desde a CNN até a YouGov, CBS, até o Political, basicamente dizem que foi um empate. E era preciso que Vance tivesse um desempenho verdadeiramente vencedor, um debate onde ele tivesse dominado, tivesse realmente feito com que agora a campanha Trump pudesse ter um ressalto, portanto, digamos assim, mais pontos percentuais. Eu não vi isso acontecer. Aliás, deixa-me dizer muito rapidamente, há aqui uma estatística muito interessante, porque a CNN depois corre uma sondagem: o quanto você gostou do candidato, o quanto você tem uma imagem favorável do candidato. E o Walz, o candidato a vice-presidente pelos democratas, passou de mais 14 pontos para mais 37 pontos, portanto, um aumento de 23 pontos percentuais das pessoas dizerem: "Eu gostei daquele candidato". Também é verdade que Vance passou de -22 para -2.
Ficaram todos com uma visão muito melhor, não é?
Ora bem, relativamente à pergunta de Josh Shapiro, para os nossos ouvintes, Josh Shapiro é o governador do estado da Pensilvânia, um estado muito importante para se ganhar as eleições. É uma daquelas perguntas hipotéticas. Na minha opinião, eu acho que não, no sentido em que Tim Walz apela a uma parte do eleitorado que é muito mais importante de captar para esta candidatura da Harris, que é mais aquele homem branco, cristão, rural, que é preciso mais do que aquele jovem com estudos superiores, mais urbano, que Josh Shapiro, por exemplo, poderia apelar mais a esse grupo.
Entretanto, nas sondagens mais recentes, Trump reduziu a distância em relação a Kamala Harris no Michigan e Wisconsin, onde surgem empatados. Ricardo Silvestre, Donald Trump está de alguma forma a recuperar?
Eles estão tecnicamente empatados. Os dois estados que tu disseste, tanto Wisconsin como Michigan, a candidata Harris está ligeiramente à frente. Em Michigan tem 1,6 pontos percentuais, em Wisconsin tem 1,7. Mas realmente as margens de diferenças normalmente costumam ir entre 2,5 pontos. Pode ser que tecnicamente estão empatados. Relativamente à tua pergunta, sim, todos os analistas dizem isto, era de esperar que os resultados começassem a estreitar-se, estas diferenças comecem a ficar cada vez mais pequenas. É uma sociedade muito polarizada. As pessoas, muitas delas votam republicano porque votam republicano e não há outra coisa que podem fazer e também a mesma coisa para os democratas. De qualquer maneira, deixa-me dizer-te que alguns dos estados, que são os estados de critério, diga-se assim, são os estados que se caírem para um lado ou para o outro, podem dar a eleição, esses era de esperar que as coisas estivessem muito empatadas. Pensilvânia está a menos de um ponto de diferença, Georgia está a menos de um ponto de diferença. Isto vai ser muito renhido até ao fim, isso não há dúvidas nenhumas.
Mas Ricardo, o facto, como falavas há pouco, de as pessoas terem ficado com uma opinião mais positiva, por exemplo, de J.D. Vance também, pode favorecer Donald Trump? E o mesmo em relação ao Tim Walz, mas foi quem subiu mais, não é, J.D. Vance.
Excelente pergunta, porque é o seguinte: quem vai fazer a diferença nestes votos são os independentes. Porque o que tu disseste, e muito bem, foi: será que o desempenho de um candidato pode fazer a diferença? Isto está tão fraturado que mesmo que tu sejas democrata ou sejas republicano e o teu candidato teve um péssimo debate, não faz diferença, porque tu vais votar naquele candidato na mesma. No entanto, também novamente a CNN, os independentes, 58% gostaram mais do desempenho do Walz, o candidato democrata, enquanto 42 gostaram mais do desempenho do candidato republicano, do J.D. Vance. Portanto, nesse aspecto, mais uma vez, eu não concordo com a análise de que Vance e Trump, por inerência, possam ter saído deste debate com uma dinâmica vencedora, mas vamos ver nos próximos dias.
Exatamente. Entretanto, Trump voltou foi aos ataques pessoais, disse que Kamala Harris é deficiente mental. Ricardo, é possível alguém achar aceitável este tipo de discurso? Isto é campanha, isto traduz-se em que tipo de votos?
Ai.
Não temos tempo para tanto, não é?
Ai, faz-me ficar com o coração do tamanho de uma pequena noz. Por quê? Porque eu, sendo um democrata, e acredito na política como uma arte nobre da gestão da sociedade, da negociação entre pessoas que têm opiniões diferentes, este baixar o discurso para este nível tão rasteiro, tão no esgoto, de dizer este tipo de insultos, tu disseste, eu não preciso de repetir. Aliás, até disse que o presidente Biden era a mesma coisa, mas que a Kamala tinha nascido com esse problema. Tudo coisas absolutamente Deploráveis de dizer. Mas vamos responder à tua pergunta. Ele tem uma base de votantes, eu diria, à volta dos 30%, 35% no máximo, que eles até acham piada a essas coisas, Maria João. Este eleitorado vê a política agora como aquele esporte americano que se chama wrestling, que é tudo fingido, e o pessoal odeia-se, mas depois gostam uns muito dos outros. Portanto, isto é tudo teatro, uma espécie de teatro político. E eles acham imensa piada a estas coisas. Por exemplo, deixa-me dar-te um exemplo de 30 segundos, que é: quando Donald Trump fala sobre a interrupção voluntária do aborto, e eles perguntam aos seus eleitores: “Mas você concorda com as posições dele?”
Da gravidez.
Interrupção voluntária da gravidez, obrigado, ou aborto, vai ser mais simples.
Exatamente.
E eles perguntam aos eleitores. Os eleitores dizem assim: “Nós sabemos que o Donald Trump já pagou por abortos. No entanto, quando ele diz que é contra o aborto, a gente gosta do que ele diz”. Portanto, há esta dissonância cognitiva. Finalmente, para responder à tua pergunta, se apela ao eleitorado, eu acho que há uma franja do eleitorado, olha, por exemplo, estes independentes ou os conservadores, que têm mais bom senso a nível destas questões políticas, que se sentem horrorizados por isto, mas não se vê nas intenções de voto, como estavas a dizer há pouco e muito bem.
Ricardo, antes de irmos à curiosidade que trouxeste a este “América Dividida”, há novos detalhes sobre a tentativa de Donald Trump reverter a derrota eleitoral de há quatro anos, 2020. O procurador especial Jack Smith fala em esforços cada vez mais desesperados do ex-presidente.
Isto vai ser, e já está a ser, mais uma daquelas notícias explosivas nos Estados Unidos. Vamos ver o quanto contamina as eleições. Maria João, se reparares, estamos sempre a falar a mesma coisa. O que é que isto faz às eleições? Mas sim, muito rapidamente, o procurador especial fez um novo caso depois do Supremo Tribunal ter dito que atos oficiais não podem ser investigados criminalmente. E ele apresentou um conjunto de provas que, deixa-me dizer-te, Maria João, num mundo normal, o Donald Trump hoje retirava-se da cena política e se calhar até tinha que fugir do país, porque realmente são provas atrás de provas, atrás de provas, que ele tentou ilegalmente, criminalmente, mudar o resultado da eleição de 2020, com iniciativas que são verdadeiramente preciso ler, ou podemos depois ter uma conversa mais detalhe sobre isto, que são coisas que fazem o teu queixo cair e bater na mesa aí do estúdio onde estás.
A fechar, e como curiosidade, trouxeste um aniversário. O presidente Jimmy Carter fez 100 anos esta semana, no dia 1 de outubro. É o primeiro ex-presidente a chegar ao centenário. Será que o facto de querer ver uma presidente mulher fará com que tenhamos o presidente mais uns largos meses conosco, Ricardo?
Pois, tu pediste-me para trazer aqui um trivia, portanto, um assunto mais light, mais engraçado. E sim, há muito esta brincadeira que se está a fazer agora, neste momento, que é: será que o presidente Carter está a prolongar a sua vida o máximo que puder para poder votar na Kamala Harris em novembro e vê-la presidente em janeiro? É uma brincadeira, sem dúvida. Eu acho que o senhor presidente terá outras motivações para além desta, mas quem sabe? Essa também pode ser uma muito importante.
Ricardo Silvestre, muito obrigada pela análise no “América Dividida”. Foi um gosto, Ricardo. Um bom dia pra ti.
Obrigado, eu. Obrigada.