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É o capitalismo da classe média. É assim que o New York Times olha para o discurso de 40 minutos que Kamala Harris fez ontem em Pittsburgh. A candidata democrata, diz o jornal, quer que os eleitores saibam que ela não é socialista, a ponto de o elogio aos empresários ecoar a candidatura do republicano Mitt Romney há mais de uma década. Na acirrada corrida com o ex-presidente Donald Trump, as sondagens mostram que a economia continua a ser o maior problema e que muitos dos indecisos estão preocupados com a capacidade da democrata nessa área. E assim, no que foi anunciado como o grande discurso econômico, Harris procurou dissipar dúvidas. João Diogo Barbosa é especialista em relações internacionais. Obrigada por estar conosco mais uma vez. Kamala Harris abraçou definitivamente o capitalismo, considerou-se uma pragmática. A candidata sente que para vencer esta eleição tem de se mostrar despida de ideologia?

Olá, Judite. Eu acho que, em primeiro lugar, Kamala Harris tem de se mostrar, e foi isso que ela fez. E em segundo lugar, de acordo com as sondagens, Kamala Harris tem de se mostrar na economia. É muito interessante que os eleitores acham que, por um lado, o assunto mais importante da campanha é a política econômica dos candidatos e acham que o melhor candidato relativamente à economia é Donald Trump. E, portanto, Kamala Harris tinha aí um problema fundamental para a sua campanha e que não deixou de ter, que é o assunto mais importante da eleição, os eleitores não confiam em si. E o que ela está a tentar fazer é colar-se um pouquinho à perspectiva vencedora ou àquela que os eleitores preferem, e não tanto à perspectiva de Joe Biden. É interessante que Donald Trump viveu, durante o seu mandato, a pandemia, que teve consequências econômicas sérias, desemprego, recessão e tudo mais, mas mesmo assim os eleitores associam o período 2016 a 2020 do mandato de Donald Trump a sucesso econômico, enquanto que Joe Biden, que beneficiou de toda a recuperação que se seguiu, porque teve, sobretudo, o problema da inflação, continua a ser um peso para os democratas mais em geral. Indo à substância, Kamala Harris, tal como tem feito um pouco em toda a sua campanha, está a tentar despir, lá está essa imagem, de candidata radical de esquerda, colada um pouquinho das primárias para 2020. Mas a verdade é que os eleitores ainda hoje sentem que não a conhecem, que não a conheceram nos últimos quatro anos e que sendo uma candidata recente, é difícil perceber exatamente o que ela é. E eu acho que um dos grandes desafios para Kamala Harris, independentemente do conteúdo das propostas, vai ser comunicar aos eleitores que ela é um "safe pair of hands", ou seja, alguém em que eles se podem confiar para ser presidente em tempos de incerteza econômica e alguém que não vai, a partir de janeiro de 2025, implementar uma política econômica comunista ou socialista, que é muitas vezes o discurso dos republicanos, de Donald Trump e de J.D. Vance. O sucesso que essa apresentação de Kamala Harris terá com o eleitorado ainda está por decidir, mas eu acho que nós vamos ver durante as próximas semanas, quer de um lado, quer do outro, muito mais dos candidatos e, no caso de Kamala Harris, muito mais da candidata sobre assuntos econômicos e a tentar passar uma perspectiva que é mais conciliatória com a direita ou com os republicanos, do que propriamente abraçar as políticas da administração de Joe Biden, que tinham um vincadamento à esquerda e que queria ser progressista em toda a linha.

E por falar nisso, os analistas dizem que Harris podia ter escolhido um caminho diferente, talvez mais progressista, em que podia ter apontado aos vilões da economia, nomeadamente às grandes empresas. Seria um erro?

Não necessariamente. Esse tem sido um dilema da campanha de Harris nos termos econômicos.

Aliás, logo no início da campanha, Harris culpou as grandes empresas pelos elevados preços, depois abandonou essa teoria.

Sim, que era a grande teoria da inflação à esquerda, que começa com Elizabeth Warren e depois vai descendo um pouquinho por todos os democratas e até é adotada por Joe Biden. Não é totalmente verdade, mas tem sido uma bandeira política importante. E Kamala Harris tem tentado usar essa bandeira, a de que a política econômica de Donald Trump é uma política que vai beneficiar os mais ricos, que vai implicar custos para as famílias americanas. Mas eu acho que Harris tem um problema fundamental, que é a política econômica de Donald Trump para o próximo mandato, ou a proposta de política econômica, tem muito a ver com o comércio externo e com as tarifas que ele quer aplicar a todos os produtos estrangeiros e especialmente aos produtos da China, que teriam uma taxa mais elevada. Harris não concorda exatamente com esse aumento, mas a verdade é que as tarifas que Donald Trump aplicou no seu mandato de 2016 a 2020 foram mantidas pela administração Biden, e Harris não se consegue libertar, na principal bandeira de campanha de Donald Trump, da política econômica que tem sido mais discutida e que tem gerado mais interesse junto dos americanos. Portanto, ela tem de fazer o discurso de há vilões, há o outro lado que só quer beneficiar os mais ricos e há todo aquele discurso da economia de oportunidade que virá com os democratas a partir de 2025, mas ainda não conseguiu ir ao conteúdo, à substância da principal política econômica ou promessa de política econômica de Donald Trump, que é tarifas no comércio externo. Qual é a visão dos democratas sobre isso?

Ontem foi transmitida uma entrevista à MSNBC, a primeira individual, em que a candidata apresentou-se como uma defensora da classe média, mas evitou grande parte das perguntas diretas, exatamente como estava o João Diogo Barbosa a dizer, sobre como governaria. Falta esse plano concreto.

Sim, e essa entrevista é bastante notável nessa perspectiva, porque tal como aconteceu no debate, Harris é uma candidata disciplinada, que tem uma mensagem, que tem determinadas frases e ideias que resultam, ou que pelo menos lhe dizem que resultam e ela usa com frequência, mas evita muitas das vezes ir ao centro da discussão, tentar desenvolver mais e parece-me que tem sido muito difícil para os americanos a conhecerem dessa forma. Mas também não é absolutamente irrelevante, estando do outro lado Donald Trump, que não é um candidato propriamente da escola de Atenas e muito dedicado aos detalhes, mas é alguém que tem ideias-chave que funcionam e que as pessoas conhecem muito bem. Harris dá ontem a primeira entrevista a solo. É difícil de imaginar como é que isto é possível, estando nós no final de setembro. E se a campanha não conseguir inverter essa tendência, novamente, é uma candidata muito recente, teve muito que fazer nos últimos meses, mas se a campanha não conseguir tornar Kamala Harris mais visível para os eleitores e eventualmente disponível para ir um pouco mais à circunstância, vai ser muito difícil para ela ultrapassar o autoconceito que existe, em que os eleitores consideram a economia o tema fundamental da campanha e acham que para temas económicos, Donald Trump é mais sólido que Kamala Harris. Sem aparecer na televisão, vai ser muito difícil fazer com que os eleitores mudem de ideias.

Isto é a campanha a seguir um caminho seguro para que não haja erros difíceis de emendar a tão pouco tempo das eleições.

É, mas não deixa de ser estranho, porque é uma campanha muito bem comportada a tentar seguir as regras. Ao mesmo tempo, é também uma campanha que diz que concorre como sendo a campanha underdog, ou seja, a menos favorita, aquela que tem de lutar contra Donald Trump, que estará na liderança. E a verdade é que Kamala Harris tem tido boas e más sondagens. A campanha está mais ou menos empatada neste momento e orientar uma campanha 100% segura, 100% bem comportada e sem correr riscos, parece a estratégia de alguém que tem uma grande vantagem, que neste caso não parece existir. Acho que se em novembro as coisas correrem mal a Kamala Harris e bem a Donald Trump, os democratas vão estar exatamente a discutir por que a Kamala Harris foi uma candidata tão sensata, por que não arriscou mais, por que não foi mais ao detalhe e, sobretudo, por que não apareceu mais vezes, tendo sido uma vice-presidente discreta e alguém que entrou na corrida quando a corrida já estava na sua fase final.

A mais recente sondagem da CNN Internacional mostra que entre os prováveis eleitores, 48% pretende votar Harris contra 47, que vota republicano. Agora, entre os eleitores que se declaram independentes, os dois candidatos presidenciais estão praticamente empatados. Também embora Harris tenha uma ligeira vantagem, 45 pendem para Harris e 41 para Trump. As diferenças são maiores se se considerar o gênero dos eleitores independentes. Entre as mulheres, 51% apoiam Harris, contra 36 que votam Trump. A divisão na América também é de gênero?

Seguramente. E tem sido uma tendência para os democratas, ou seja, os democratas partem para eleições sabendo que têm de ganhar o voto das mulheres por uma margem maior do que aquela que perdem o voto dos homens. E é uma divisão que é muito interessante, não inteiramente explicável com candidatos, porque nós podemos dizer: "Kamala Harris dá-se bem com o voto das mulheres porque é uma mulher candidata". Mas é uma tendência que já vem de Joe Biden e que vem em muitas eleições ao nível estadual, por exemplo, e não é exatamente fácil de perceber, ou aliás, não é difícil perceber por que é assim desta vez. Não só porque Kamala Harris é uma candidata que é mulher, mas porque para além da economia e das migrações como temas fundamentais da campanha, os eleitores têm dado muito peso ao tema do direito das mulheres, do aborto, à contracepção, etc. E o facto de esse tema ser, desta vez, um dos grandes temas da campanha e um daqueles que beneficia o candidato democrata também por natureza, em relação ao candidato republicano, e se na economia era Harris a tentar colar-se à direita para conquistar votos, Donald Trump tem vindo um pouco mais para o centro neste tema dos direitos das mulheres. É muito interessante que, tal como Harris não está a colar na economia, Donald Trump não está a colar no direito das mulheres. E acho que vai ser muito difícil para Donald Trump fechar essa margem, até pela sua personalidade, não só por ser um candidato republicano, mas por ser aquele republicano específico, por todo o seu passado e por ser uma personalidade conhecida dos eleitores e conhecida precisamente por não ser propriamente o maior defensor ou até o melhor aplicador dos direitos das mulheres, e vai ser muito difícil até ao final da campanha fechar isso. Agora, o que as duas campanhas vão tentar perceber é quem é que perde por mais margem cada lado, ou seja, Kamala Harris ganha mais os mulheres ou Donald Trump ganha mais os homens.

Obrigada, João Diogo Barbosa. E já que acabamos a América Dividida a falar de homens e mulheres, ficamos com Nina Simone.

" da Nina Simone ]