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Começa agora o novo episódio do "América Dividida", sempre com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis, em directo dos Estados Unidos. Bem-vindo, Bruno.
Olá, obrigado.
Bruno, pegando no nome do nosso programa, a América está de fato dividida até nos desastres. Trump usa o furacão Helene para atacar a administração Biden e Kamala Harris acusa o governador da Flórida de recusar falar com ela e também com Joe Biden.
Sim, é realmente assim. Tradicionalmente, de facto, na política americana, por muita acrimónia e disputa que houver em termos eleitorais, geralmente este tipo de desastres naturais eram até uma ocasião para os políticos mostrarem que estavam dispostos a um compromisso para, numa mesa, dar prioridade às necessidades das pessoas, mas de facto não é isso que está a acontecer. É mais uma demonstração desta extrema polarização. Temos, como dizias, Trump a acusar Joe Biden e Kamala Harris, como vice-presidente, de desviarem dinheiro da agência que está encarregue da resposta de emergência, da Proteção Civil, que aqui é conhecida como FEMA, desviar esse dinheiro para imigrantes. Isso é desmentido pela própria agência, pela própria administração e até por alguns governadores republicanos. Apesar de tudo, também é preciso dizer isso. Por exemplo, o governador da Geórgia fez questão de dizer que o presidente Biden tinha sempre atendido as suas chamadas e todos os seus pedidos. Até o próprio governador da Flórida, apesar de não ter atendido as chamadas do presidente Biden e Kamala Harris, também confirmou que realmente todos os pedidos de ajuda ao governo federal tinham sido respondidos de forma positiva. Mas realmente isso mostra como há aqui uma extrema polarização. Ao mesmo tempo, também se percebe que, sobretudo, eu já não digo o presidente, mas sobretudo a vice-presidente que está em campanha, que realmente para o governador da Flórida, que está a lidar com os desastres, também se calhar não seja a primeira prioridade atender esse género de telefonema. Mas realmente é um sinal desta extrema polarização e de facto parece ter algum impacto. Por exemplo, mesmo aqui na capital americana, a conversar com uma pessoa local, veio precisamente com essa questão: "Eles até estão a desviar dinheiro que devia ir para a ajuda de emergência aos americanos para ajudar estrangeiros". Portanto, aparentemente, alguns eleitores acham que esse tipo de argumento faz sentido, mas realmente, como eu dizia, é um exemplo lamentável desta extrema polarização, que não para sequer para lidar com desastres naturais.
E depois do Helene vem aí um novo furacão, o Milton, que já obrigou a cancelar eventos da campanha na Flórida. Bruno, além disso, que outro impacto podem ter estas tempestades?
Há um impacto directo, que tem a ver exatamente com o que referiste, ou seja, isto complica a campanha em estados que são estados-chaves para a eleição. Por exemplo, a Geórgia, a Carolina do Norte, mas também a Flórida, embora a Flórida seja dada hoje em dia como mais republicana do que propriamente um estado oscilante. Mas em todo o caso, nesses estados, realmente vai afectar a campanha e pode também, e já está até a afectar um pouco as eleições. Temos falado aqui muitas vezes no voto antecipado, ele já está a decorrer, e obviamente, pior ainda será se depois afectar o próprio funcionamento das eleições no dia do voto. Apesar de tudo, parece haver um esforço grande, nomeadamente na Carolina do Norte e na Geórgia, para tentar facilitar o mais possível, sobretudo na Carolina do Norte, o voto. Curiosamente, nesse estado, não houve protestos da parte de Donald Trump, ele costuma sempre queixar-se muito de tudo o que seja votar, se não for no dia da própria eleição e com o máximo de garantias e restrições. Mas no caso da Carolina do Norte, se calhar, o facto de dos 13 municípios mais afectados, 11 terem votado a favor de Trump, se calhar isso ajuda a explicar porque é que neste caso ele não tem problemas com haver aqui um esforço de flexibilidade, que se percebe completamente. Ou seja, no fundo, facilitar o mais possível a pessoas que às vezes até estão deslocadas das suas casas, etc., por causa destas situações de emergência, poderem votar onde for possível.
Claro. Temos também de falar do facto de tanto Harris como Trump e até Biden terem falado do massacre do 7 de outubro. Bruno, que balanço fazes da ação e da reação dos Estados Unidos e também que diferença fariam se, em vez de Biden, estivesse Harris ou Trump no poder?
Este massacre terrorista terrível, é o segundo maior da história a seguir a 11 de setembro, mereceu uma condenação unânime nos Estados Unidos na altura e mais uma vez também um ano depois. Agora os grandes problemas começaram realmente a seguir, ou seja, como reagir, não no sentido, evidentemente, de dizer que Israel não tinha direito de se defender, isso mais uma vez também é consensual, mas sobretudo como o deve fazer, com que limites, com que intenções, com que objetivos. E aí, realmente, a administração Biden tem tido grandes dificuldades, porque não quer deixar de apoiar Israel, até porque tem receio que um sinal de distanciamento em relação a Israel possa ser visto, por exemplo, pelos inimigos de Israel na região, como o próprio Irão, como o Hezbollah, como uma espécie de licença para poderem escalar o conflito com Israel sem maiores consequências. Por outro lado, o próprio governo israelita também tem sido muito pouco disponível para soluções negociadas. Foi muito difícil conseguir aquele compromisso, apesar de tudo, muito devido à administração Biden. Em novembro do ano passado Que foi o único que permitiu a libertação de um número significativo de reféns e que deu algum alívio também importante à população civil. Também tem sido muito graças à administração Biden, porque mais auxílio humanitário tem chegado à população palestiniana de Gaza. Mas realmente em termos, por exemplo, do tipo de utilização da força por Israel ou da recusa de negociações mais amplas, de qualquer tipo de reiniciar das negociações com a autoridade palestiniana, o processo de paz com os palestinianos permitisse também, em termos regionais, uma normalização de relações com outros países árabes moderados. Tudo isso realmente não tem sido possível, a mim parece-me não tanto por incapacidade do presidente Biden ou da administração Biden, mas mais por falta de vontade dos beligerantes, dos actores locais no Médio Oriente e em particular também dos dois principais, ou seja, sobretudo o Hamas, que é completamente dominado por uma linha dura que rejeita qualquer compromisso, e mesmo pelo actual governo de Israel. Em termos de grandes diferenças entre uns e outros, os dois lados procuram um pouco dizer que sim, mas eu tenho algumas dúvidas que isso seja realmente assim. Ou seja, Trump diz que a eleição de Harris seria o fim do Estado de Israel, o fim da ajuda americana a Israel. Harris obviamente desmente isso, mas Harris também diz que Trump seria, no fundo, alguém que passaria uma carta em branco ao actual governo israelita e que acabaria com qualquer processo de paz. Ora, Trump é verdade que até conseguiu alguns acordos de paz entre Israel e Estados árabes moderados e apesar de uma retórica muito agressiva, por exemplo, em relação ao Irão, a verdade é que nunca se empenhou muito, nunca mostrou grande vontade de se empenhar em grandes conflitos armados que têm enormes custos, algo que Trump não gosta, sobretudo custos em países estrangeiros. Portanto, parece-me que se calhar os dois lados exageram aqui as diferenças em relação ao que iriam e ao que poderiam também, ao que seria irrealista esperar que os Estados Unidos pudessem fazer nesta região extremamente complexa, complicada e com actores locais muito resistentes a pressões externas.
As eleições de 5 de Novembro não são apenas para presidente, mas também para o Congresso, Câmara dos Representantes e um terço do Senado. Bruno, por que um terço? Quando é que é eleito o resto e como estão as coisas nesta corrida?
Realmente, temos de nos lembrar disso, que são eleições não apenas para presidente, mas para múltiplos outros cargos e em particular para o Congresso. Aí há essa curiosidade que é na Câmara Baixa, a Câmara dos Representantes, todos os representantes são eleitos de dois em dois anos, têm mandatos bastante curtos, mas no Senado, na Câmara Alta, que até é mais poderosa, por exemplo, na política externa, os senadores têm mandatos de seis anos. Isso significa que são eleitos em três turnos. Portanto, cada terço do Senado é eleito cada dois anos. Isso é feito de forma deliberada pelos pais fundadores para evitar, no fundo, esta ideia de um presidente de uma maioria, para reforçar esta ideia de separação de poderes e também de contrapeso de poderes. Portanto, é muito difícil, deliberadamente difícil, haver uma maioria nas duas câmaras do Congresso que seja exatamente igual à do partido que vence também a presidência. Em termos de corridas, este ano é um ano especialmente difícil para os democratas, porque por causa deste sistema um pouco peculiar, o que acontece é que os democratas têm muito mais lugares em eleição do que os republicanos. Vinte e três do lado democrata e apenas 11 republicanos, portanto há mais possibilidade de viragem de lugares democratas do que republicanos. É por isso que a maior parte dos analistas e ainda para mais há vários lugares, vários senadores democratas que ou se retiraram ou que vão agora novamente a eleições em estados que são cada vez mais conservadores, republicanos pró-Trump, estados como Ohio, estados como West Virginia, a Virgínia Ocidental. E portanto, a maior parte dos analistas consideram que a grande probabilidade é que seja que realmente os republicanos, independentemente do resultado das presidenciais, acabem por conseguir uma maioria no Senado, provavelmente não uma maioria muito folgada, mas não é impossível que os democratas consigam algo que seria quase impossível, que era manter essa maioria, conseguir um empate 50/50. Nesse caso, o voto decisivo seria do vice-presidente, como já referimos aqui, ou eventualmente até realmente manter ou até reforçar ligeiramente essa maioria se tivessem uma eleição que corresse excepcionalmente bem. Por exemplo, isso passaria por conquistarem o lugar de Ted Cruz, o famoso senador Ted Cruz no Texas, que tem uma margem mais estreita do que aquilo que seria expectável num estado tão republicano.
Bruno, e a terminar, hoje temos uma segunda curiosidade sobre a capital dos Estados Unidos, onde estás agora. Os habitantes de Washington DC podem votar a 5 de novembro, e até antes, como explicámos ontem, para presidente, mas não para o Senado que acabas de falar. Qual é a história por trás disto? Isto é bem aceito aí na capital?
Não é bem aceito, mas há realmente uma história por trás disto. De tal forma não é bem aceito que literalmente as matrículas oficiais, portanto não são aquelas matrículas individualizadas, matrículas oficiais têm todas elas um slogan que é "end taxation without representation", acabar com pagar impostos sem ter representação no Parlamento que decreta esses impostos. Isto tem a ver realmente com uma peculiaridade, ou seja, Washington DC, a capital, não faz parte de um Estado e não é um Estado, ou seja, é um distrito federal em que a autoridade última está inteiramente com o governo federal e não com qualquer Estado, portanto está inteiramente com o Congresso para questões legislativas e com o presidente. Na verdade, desde os anos 60 que há um governo local, ainda assim sempre qualquer legislação pode ser vetada pelo Congresso e há uma série de poderes no Executivo que são reservados para o governo federal. E realmente os eleitores daqui em Washington DC têm três eleitores neste colégio eleitoral, que é o número mínimo para qualquer Estado, independente da população ou da dimensão. Até se poderia pensar que é uma zona muito pequena com pouca população, mas há Estados igualmente pequenos em área e há Estados também com populações tão pequenas ou até mais pequenas do que Washington DC, como as Dakotas. Portanto, não é essa a questão, é realmente esta ideia de que o governo federal deve ser plenamente soberano na sua capital e não depender de nenhum Estado, por exemplo, para garantir a sua segurança. Há um famoso episódio precisamente na história da fundação dos Estados Unidos, de uma multidão de soldados veteranos insatisfeitos que marcha em direção ao Congresso, é o mais próximo que temos do 6 de janeiro. E de facto, a capital na altura era em Filadélfia e portanto o Congresso não tinha autoridade para lidar com isso, dependia inteiramente ou do governo municipal ou do governo do Estado da Pensilvânia e portanto quis deliberadamente evitar isso, mas realmente é bastante impopular aqui com os habitantes da capital. O problema é que os republicanos sabem que a capital vota sempre de forma muito consistente no Partido Democrático e portanto no fundo alterar isto seria "oferecer dois senadores aos democratas" e obviamente os republicanos não vão concordar com isso. E sem o acordo dos republicanos não há a revisão constitucional que seria necessária para alterar este estado de coisas.
Bruno Cardoso Reis em direto dos Estados Unidos. Bruno, muito obrigada pela análise. Bom descanso, até amanhã.
Muito obrigado.
Até amanhã.
Boa noite.