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Parece que estás refém da tua própria rotina, não é?

Porque tu não confias em ti quando estás fora da rotina. Eu tenho medo que se eu não seguir esta rotina, de repente vou tomar decisões erradas que me vão levar à Catarina que eu desesperadamente não quero ser. Eu antes era daquelas que acordava, saía de casa e ia correr de manhã, e eu cheguei à conclusão que isso para mim já não mega funciona. Mas eu sinto que às vezes quando eu faço isso, parece que eu estou a fugir da vida.

Eu quando gravo, para eu estar no meu melhor, eu gosto de ir correr primeiro.

É um diálogo interno que é: eu estou a ir correr porque eu quero, não porque eu tenho.

Mas achas que curou a tua relação com a comida?

Olha, eu não sei se a minha relação com a comida alguma vez vai ser curada. Infelizmente. Foram tantos anos, que é inevitável, quando dou por mim e sentir que não estou a conseguir controlar. Parece que intuitivamente não me vem à cabeça, "não tem mal, simplesmente estás estressada." Parece que para mim é tipo, não, o mundo vai acabar. Na altura dos meus pais e até eu a crescer, eu tinha uma alimentação ultraprocessada. E eu acho que os meus pais davam isso sem terem a noção que realmente eram coisas que não eram boas para ti. Hoje em dia, chegaste a um ponto em que tu estás a ver as consequências desse tipo de alimentação.

Mas com tanta informação, como é que se encontra qual é que é a alimentação certa?

Toda a gente tem uma vida mega corrida e a vida é feita por prioridades, não tens tempo para tudo. Mas eu acho que é uma pena, que eu acho que nós não vivemos a 100% da nossa capacidade, porque a tua vida muda drasticamente se tu dormires oito horas por dia, não comeres coisas ultraprocessadas, fazeres exercício todos os dias e estares com pessoas de quem gostas. Faz isso, a tua vida muda radicalmente.

Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramos domingo à hora do costume?

Que nós estávamos a treinar juntas e ela pegou-me e eu ganhei alguns seguidores a partir daí e foi naquela de "olha, vou tentar ser ativa nas redes."

Mas então nunca tinhas feito nada de digital, foi mesmo a partir da Alice?

Foi a partir da Alice. E começaram a me seguir mais naquela dos treinos. Isto foi para 2017, 2018, 2019, por aí. E eu ainda experimentei, só que eu não adoro estar nas redes, não é uma coisa que me saia mega orgânico. Eu vivo a vida e esqueço-me, sou daquelas pessoas que é péssima no WhatsApp, então lembrar-me de tirar uma fotografia e publicar e engagements com as pessoas.

Sim, como nunca cresceste, se calhar, nesse formato, é-te difícil de sair organicamente, de vou gravar para publicar.

Exatamente. Houve uma altura que eu até tentei ser mais ou menos ativa. Foi muito engraçado, porque eu não tinha muitos seguidores, mas eram super engaged. Usar imenso inglês porque eu estou habituada a pensar em inglês. E eu lembro que era uma comunidade muito próxima e eu acho que eu comecei a me sentir super intimidada.

Pelas pessoas conhecerem a tua vida?

Nem tanto isso. Eu lembro-me de pensar: "Eu sou tão imperfeita e eu entro em pânico de malta que olha para mim quase como esta tem tudo resolvido e eu estou longe de estar tudo resolvido."

Não queres passar essa imagem.

Sim, de role model, quando eu ainda tenho tanto para resolver e depois eu dei por mim a sentir que eu fazia muitas coisas a achar. Não era bem a achar, mas era naquela de: "Não, mas agora eu tenho que, eu tenho que fazer, porque existe esta expectativa e esta é a minha persona." E eu sinto que eu comecei a não ter uma relação assim tão saudável, eu já não estava a fazer as coisas por mim, mas era quase pela obsessão.

Mesmo a nível de treino, que sentias que treinavas para partilhar?

Não, imagina, não treinava para partilhar, mas estava presente aí que tinha que partilhar, porque realmente existia esta expectativa e eu sentia que é tipo agora a Catarina acorda todos os dias às 5 am e vai treinar. E what if há um dia, porque toda a gente tem isso e estás na semana do período e não consegues e não queres ver ninguém à tua frente, e eu sentia que eu não tinha espaço para essa imperfeição, ou eu não me dava esse espaço. E eu tenho noção que é tudo de mim para mim e é a minha cabeça. E então eu devagarinho fui me afastando e depois foi com o lançamento da Tarwi, que até tem graça, porque eu queria que fosse o oposto. Eu queria lançar a Tarwi e ser super aberta, mas foi tão difícil, foi muito mais difícil do que eu estava à espera de começar a Tarwi, que eu dei por mim a afastar-me cada vez mais, porque eu sou daquelas que quando tem um problema, eu afasto-me.

Também eu.

E então eu dei por mim a não comunicar, porque eu acho que as pessoas não pensam nisto. Vêem um business e provavelmente tu sabes isso com o teu podcast. O podcast é um negócio e tu tens que o gerir e tens que ter a certeza que há um lucro. Ou seja, é uma parte hobby, sim, e vai com o idealismo por trás, porque havia uma razão de ser pela qual tu querias montar isto e tinhas uma mensagem que tu querias partilhar, mas como tudo na vida, vem com responsabilidade e as coisas têm que acontecer. E o que aconteceu com a Tarwi, às tantas, era problemas atrás problemas, problemas entre equipa, entre fundadores, porque depois é muito difícil, eu comecei a Tarwi com amigos, e passar de amigos para business partners, não é igual.

Sim, eu tive uma marca de roupa e também sinto o paralismo nisso, de quando eu estava a construir a marca, surgiram imensos problemas, que eu optava por não partilhar. E só quando a marca chegou ao fim é que eu: "Ok, agora..."

Agora posso. Sim, mas que por outro lado, é pena porque...

Mas eu sinto que agora tu estás a partilhar imensa coisa do processo, mas sinto que ainda não é essa camada toda.

Não, está total. É um bocadinho também aprendizado, que é nunca vai ser perfeito. E um negócio, por natureza, a minha função é resolver problemas. E se eu estiver à espera que não hajam problemas para eu partilhar, eu vou chegar ao final da vida a sentir: "Olha, nunca aproveitei mesmo."

E se calhar nem ias gostar da vida assim, sem problemas para resolver.

Exatamente.

Tens essa cabeça.

Exato. É só um bocadinho mais assustador, porque quando é um negócio, de repente há muita coisa que depende de ti, há um produto que depende de ti, de repente recebeste investimento e as coisas têm que acontecer. Portanto, é tudo mais assustador e principalmente quando é no início, eu não sei se aconteceu isso com a tua marca, mas no início estás a lidar com dinheiro e de repente é tipo, estou a dever aquilo, estou-me a dever aquilo. Eu não sei explicar, vem com uma pressão muito mais adulta que é completamente diferente.

Sim, e também passou a ser o teu trabalho, não é? Estavas a construir uma família e de repente tudo depende do sucesso disto.

Ya, exatamente.

Da minha vida e dos meus cofundadores também.

Exatamente. É um bocadinho diferente, porque eu fui a única que me despedi.

Ok.

Tanto que nós, entretanto, a relação foi evoluindo. Nós éramos três, um deles saiu totalmente.

Ok. Está só a Alice.

E mesmo assim, a Alice, hoje em dia já só comunica a marca. Ou seja, ela não está envolvida no dia a dia de construção da Tarwe, mas vai comunicando, ou seja, quando há momentos-chave, ela comunica.

E tu decidiste voltar, portanto estiveste 15 anos em Londres e decidiste voltar por causa da Tarwe? Eu lembro que tu partilhaste no podcast da Nur, achou que sentias que Lisboa te causava uma ansiedade de não pertencer aqui.

Ai, total. E continua.

Continua?

Sim, continua. Eu tinha imenso medo de voltar para Lisboa, porque eu saí daqui. Eu fiz licenciatura cá, eu fiz licenciatura na Católica e saí logo, portanto, eu nunca trabalhei em Portugal. E eu sinto que eu ainda saí um bocadinho uma criança por formatar. Eu virei adulta em Londres. E, portanto, eu saí daqui uma pessoa, que entretanto cresci e amadureci, mas sempre que eu voltava, dava de caras com a Catarina que eu era quando cá estava. E eu acho que eu tinha muito esse medo do voltar e voltar a entrar dentro da caixa. Tanto que quando nós decidimos voltar, eu tinha requisitos, que era: eu recuso-me, por exemplo, eu recuso-me a ir viver para Campo de Ourique, recuso-me a estar na bolha portuguesa. A minha filha está numa escola inglesa, eu estou num bairro onde é só estrangeiros, em que eu vou buscar um café e falam comigo em inglês e isso faz-me sentir em casa. Portanto, eu decidi que ia voltar, mas ia voltar nos meus termos e nesse sentido é mais fácil, porque eu não estou a viver no bairro onde eu cresci com os meus pais, não estou na zona onde eu andei na escola e então sinto que não tens tanta experiência ou tanto encontro com o passado.

Mas as pessoas continuam a ser as mesmas, não?

Continuam a ser as mesmas, a verdade é que eu não tenho tanto tempo. Ou seja, continuam a ser as mesmas, mas o meu círculo de amizades foi evoluindo e eu sinto que agora tenho um círculo pequenino, mas forte e vou mantendo essas amizades, mas as outras, o que acontece mais, que para mim foi estranho no início, é eu estou habituada em Londres, ninguém me vê e eu aqui, de repente, estou nas Amoreiras, é tipo: "ui, esta pessoa que eu não vejo há 15 anos e de repente tem cinco filhos."

Sim, 15 anos é uma vida.

Sim, é muito tempo.

Mas por que decidiste voltar?

Decidi voltar porque tanto eu como o Tomás, que é o meu marido, cada um de nós tem a sua empresa. Nós estávamos em Londres apenas por razões profissionais, somos ambiciosos e queríamos crescer. E profissionalmente, para nós já não fazia diferença estar lá ou não, porque eu estava a trabalhar para Portugal, porque entretanto as operações da Tarwe são todas cá, eu comecei a construir a equipa cá e ele igual, ele estava a construir a equipa cá e ele está meio que a trabalhar para o mundo. E então chegamos a um ponto que foi: não faz diferença eu estar aqui, estar na China, estar em Bali ou estar em Lisboa. Para mim, eu vou para Lisboa, porque dá mais jeito até com a Tarwe. Eu tenho a família, o Tomás é português, ele é de Lisboa, portanto a família dele também está aqui. Nós só temos uma filha e eu acho que provavelmente não vou ter mais filhos e, portanto, ela aqui pelo menos está com a família, não está tão isolada e eu acho que é importante crescer com esse apoio. Então foi: "olha, acho que se é para voltar, é para voltar agora." Também sentimos que o capítulo de Londres já estava a fechar. Londres mudou muito com o Brexit e esquerda a entrar no governo.

Mas tu estavas a entrar muito com a Tarwe no Reino Unido, não é?

Pronto, a ideia da Tarwe no início, quando nós começamos, a ideia era a Tarwe era ser inglesa. Só que enquanto que tu vais aos Estados Unidos, tinha imensa graça, a história da Tarwe foi, eu deparei-me, porque eu com a minha banca de saúde e bem-estar, eu decidi experimentar ser vegan. Eu fui vegan durante dois anos. E eu sou extremista em tudo aquilo que eu faço e estou a tentar encontrar o meu equilíbrio. E eu, no meio do meu extremismo, eu já tinha o extremismo um bocadinho do exercício e quando eu decidi ser vegan, eu tinha imensa dificuldade com proteína vegetal, porque realisticamente vendem-te de come lentilhas e come grão e come feijão, mas a verdade é para tu teres o aporte de proteína que tu precisas.

E para o que tu treinas.

Exatamente, tens que consumir imenso. E eu não conseguia digerir. Eu parecia que eu estava constantemente grávida de quatro meses com barrigão. E então deparei-me a cortar nas leguminosas e só consumia soja, ou seja, estava sempre era o tofu, ou tempeh, ou tofu, ou tofu. Pronto, e teve imensa graça, porque eu vi depois uma empresa australiana na Amazon estava a vender flocos de tremoço, era tipo "the protein top up to your meals" e eu: "What? Tremoço? Como assim?"

Tremoço só vê com cerveja.

Eu: "Como assim?" E eu sou daquelas que lê a informação nutricional e vejo é 100% tremoço, 40 gramas de proteína por 100 gramas, 40 gramas de fibras, zero hidratos. E eu: "What? Isso não acontece." Ainda por cima é proteína vegetal, tens que combinar arroz e feijão. Ou seja, há sempre estas combinações para tu teres uma proteína completa. E again, Catarina nos seus extremismos, começa a ler research papers sobre o tremoço, percebia tipo 0,001% e percebi que o tremoço é uma proteína supercompleta, igual à soja. Ou seja, tu comeres um peito de frango ou comeres um tremoço.

É sério?

Sim, tem todo o perfil do aminoácido completo, não tem lectinas, e as lectinas são as proteínas que estão nas leguminosas, que estão em plantas e tu não as consegues digerir. E é isso que causa o desconforto, causa gás, causa aquele tipo inchaço. E o tremoço não tem isso, então é muito mais fácil de gestão, para além de não ter hidratos de carbono, é literalmente só proteína e fibra. E eu depois comecei a ver startups nos Estados Unidos que estavam a lançar o tremoço como tipo "the next superfood." Tu vais aos Estados Unidos e vais ao Whole Foods e é tremoço em todo lado. E eu: "Como assim?" Eu vivo em Londres há 15 anos, eu era daquelas que comecei a seguir o wellness antes do wellness ser uma indústria. Sou portuguesa, como é que eu não sei que isto existe, que o tremoço é isto? E eu na altura estava a trabalhar em finanças, mas já com vontade de saltar para outra coisa Eu não sei explicar, foi tipo gut feeling. Eu nem sabia o que eu queria fazer, eu só sabia: "Eu quero ir vender tremoço, porque se não for eu, vai ser alguém." E então eu despedi-me.

Foi uma grande visão.

Fui ter com o Tomás e disse: "Ó Tómazinho, eu acho que me quero despedir e vender tremoço."

Mas foi logo assim, decidiste logo?

Literalmente, porque basicamente isto tudo começou porque foi um verão que eu estava com a Alice, foi nesse verão, foi o verão de 2019, eu estava com a Alice e eu tinha acabado de voltar de licença de maternidade, porque eu entretanto achava que estava destinada a ser personal trainer.

Tinha de ser algo relacionado com wellness.

Exatamente.

Personal trainer, alimentação. Mas tu alguma vez tiraste alguma coisa de nutrição?

Sim, calma. Eu tirei o curso de PT porque eu achava que eu estava feita pra ser PT, estava na indústria errada, tipo, estou no mundo corporate, mas isso não é pra mim. E eu descobri que estava grávida e a minha gravidez foi meio turbulenta e eu durante a gravidez tirei o curso de PT e quando a Alice nasceu e eu estava de baixa de maternidade, foi tipo: "Olha, estão a me pagar a licença." Inscrevi-me num ginásio low cost como PT e comecei a treinar os meus clientes.

Ai, não posso.

Sim. Eu deixava a Alice com uma senhora que ia lá pra casa e eu ia treinar os meus clientes. Estava às 05:00 da manhã a limpar passadeiras. Foi uma vida paralela. E depois eu fiz isto ainda durante cinco ou seis meses, foi literalmente a minha licença toda. E o que eu cheguei à conclusão foi: "Olha, eu adoro isto, mas eu adoro isto pra mim, porque eu adoro o movimento mais de um ponto de vista mais holístico."

É um momento pra ti.

É um momento pra mim, e não só, eu sou extremista em tudo o que eu faço, então não era o exercício, era eu tenho um desequilíbrio aqui, era quase já ir para fisio e motricidade humana, que é eu tenho um desequilíbrio, eu estou mais fraca do lado direito e aqui o meu glúteo deste lado está a causar imbalances do outro lado. Portanto, é muito mais movimento como um todo que me interessava. E como é que tu traz isto na tua qualidade de vida todos os dias. E a verdade é que quando tu estás num ginásio, principalmente num ginásio low cost, realisticamente, as pessoas vão ter contigo é: "Olha, eu vou casar-"

É, é um padrão standard de-

"Vou casar daqui a dois meses, quero perder peso assim." Estás a ver? E eu não me identificava com isso. E o PT, infelizmente, é um curso que é relativamente fácil de tirar e, portanto, havia lá muita gente que era: "Eu sou PT, porque aí só é ser um delivery boy, eu não quero ser um delivery boy." Então não me identifiquei e eu percebi que realmente eu gosto da componente business, eu gosto de estar num escritório e, portanto, eu voltei depois pro trabalho e foi bom até, porque olha, fechei o capítulo, experimentei, não era pra mim. E nesse verão, eu estava de férias com a Alice, a Alice estava a falar: "Estava aqui a pensar fazer alguma coisa fora do digital. Experimentei as bolas da Delícia Ceilândia, aquilo é mega fácil, é só triturar umas tâmaras." Eu tipo: "Bora, vou vender," extremista, "vamos fazer um negócio juntas e vamos vender bolas energéticas." Chego a Londres e vou falar com um amigo meu e disse: "Olha, vou vender bolas energéticas." E ele: "Olha, eu acho que isso não é assim uma grande..."

Uma grande ideia.

Exato, ou seja, a não ser que sejam lives.

Já havia muitas marcas que faziam isso. Se calhar, em Portugal não é tanto, mas em Londres, certeza.

Exato. Em Portugal, se calhar na altura, isto era 2019, acho que já começavas a ver, apesar de estar no início, mas ele fez um bastante bom ponto, que é why are you better, why are you different? Tem que haver uma razão de ser, a não ser que tu queiras realmente que seja só um lifestyle business, se é algo que tu tens lá. Aí ficou e voltou o tremoço, e foi aí que eu comecei a ir mesmo de deep dive. Isto foi no verão e eu em setembro comecei a mergulhar no tremoço e vi que havia muitos programas da União Europeia a puxar a produção de tremoço na Europa, porque o tremoço cresce naturalmente na Europa, mas não existe produção suficiente local. Ou seja, todo o tremoço hoje em dia que tu vês aqui ou vem da Austrália ou vem do Chile. Só que o tremoço faz frente à soja e a única razão pela qual não existe mais produção é porque não existe mais procura. E não existe mais procura porque ninguém sabe que existe.

É isso, em termos de informação, é um grande trabalho que vocês têm de fazer.

Exatamente.

Pra mostrar que o import protein também faz diferença na alimentação diária.

Portanto, o meu desafio era, já começam a fazer este trabalho nos Estados Unidos, eu achava, é uma questão de tempo até alguém fazer isto aqui. Comecei a querer lançar em Londres, porque Londres é um mercado perfeito em termos de posicionamento pra isto, mas o que eu percebi foi: ainda não há o interesse do tremoço, portanto, sou eu a criar esse interesse e o custo de criar esse interesse é massivo. Nós fechamos agora uma ronda de investimento, mas antes disso era eu a financiar a Tarwi. Tu vendes um hummus a €3. Eu tenho que vender muito hummus pra conseguir ter dinheiro pra fazer uma campanha de marketing. E em Portugal as coisas estavam a correr bem, sem nós investirmos. Então a ideia foi: "Olha, vamos mas é voltar pra Portugal, investir em Portugal, Espanha e investir noutros mercados onde o tremoço já é cultural e é só mais reposicionar como algo saudável." Isso tudo puxou a volta pra Lisboa também. Agora os nossos investidores estão baseados no Dubai, eu estou a ir imenso lá, ir pra Riade.

Pois, eu tenho visto que também tens feito imensas viagens pra lá.

Sim, que é todo outro mundo. Quem diria que eu ia acabar a minha vida a vender tremoço na Arábia Saudita.

Principalmente uma pessoa que é tão focada em rotinas e hábitos, não deve ser fácil. Como é que lidas com isso?

Olha, isso por acaso foi uma das coisas boas que a Tarwi me deu, era muito seguir um plano.

Tu não és de acordar às 04:00 da manhã?

Sim, continuo. Quer dizer, agora a volta a Lisboa, eu troco um bocadinho o cérebro, mas eu sou uma pessoa da manhã e eu às 21:00 vou pra cama. E obviamente, quando tu viajas, isso atrapalha-se, o que eu tento fazer, eu faço na mesma a minha rotina de acordar mais cedo, mas deixei de me agarrar tanto. Enquanto antes era, se eu não cumprisse a rotina, literalmente o meu mundo caía. Eu hoje em dia já me consigo encontrar e já tenho as minhas âncoras e são coisinhas que eu fui arranjando. É tudo da cabeça.

É terapia?

Olha, eu fiz terapia durante imenso tempo, tanto que o Tiago, meu psicólogo, mandou uma mensagem ontem, porque eu já não faço terapia desde fevereiro. E eu assim: "Eu não sei como é que eu ainda estou viva." Mas sim, eu antes disso, eu comecei a fazer terapia em 2015 E ainda era um bocadinho tabu fazer terapia nessa altura. E mudou-me a vida. E eu acho que com isso e muito desse trabalho. Eu sinto que limpei, ia dizer limpar o prato, mas não sei se essa é a palavra certa, mas é tipo blank canvas. Eu comecei a fazer terapia e comecei a questionar tudo da minha vida. E com isso comecei do zero e comecei a escrever imenso e a pensar imenso. E, portanto, eu acho que foi uma combinação dos dois. A terapia dá-te imensas ferramentas e uma coisa boa que eu tive, porque eu quis fazer terapia porque eu sabia que não estava bem. E para mim terapia era uma coisa non-negotiable, pode não me apetecer ir, mas eu vou. E eu tenho muito esta coisa que é showing up. Às vezes a coisa mais difícil é tu simplesmente apareceres e deres a cara. E não é só aparecer, é apareceres na tua totalidade. Eu estar aqui e conseguir ser 100% honesta contigo.

Sim, não fazer por fazer.

Exatamente. E, portanto, se eu vou aparecer na terapia, eu vou aparecer e vou dizer exatamente aquilo que me vai na alma e na cabeça, e isso ajuda-me a processar. E depois eu tirava o que tinha com todo o desconforto que vem atrás, porque obviamente havia sessões que era tipo...

Tu chorava à bem-te-vi.

Sim.

Depois horas para recuperar da sessão.

Sim. Não é fácil. E tu tens que estar ok com tudo o que traz ao de cima, porque traz tudo ao de cima. Mas isso, depois sentar e parar para pensar e fazer isso durante muitos anos, eu sinto que hoje em dia é rotina. Para mim o que é estranho é, eu todos os dias, eu imagino, não quer dizer todos os dias porque não é verdade, mas vou dizer 80% dos meus meses, das minhas semanas, digamos, eu acordo, eu faço ioga, e depois ainda tento fazer algum exercício leve, mas se não, pelo menos um ioga, e depois faço matcha e sento-me. E é literalmente escrever o que me vem à cabeça. E é um escrever, mas sem pensar. Eu tanto posso escrever: "Tenho que ir ao supermercado, after school, atividades depois da escola da Alice, tenho que comprar não sei o quê, ou tenho que fazer aquele trabalho." Eu tenho dois planners, isto é assustador, mas eu tenho o meu livro de rascunhos, é um mental dump de tudo aquilo que eu tenho para fazer, e depois eu tenho um outro que é: "Ok, agora bora estruturar isto," que é o meu dia hoje, o que eu tenho hoje, o que eu posso fazer. E isso ajuda-me imenso. Foi-me ajudando a perceber onde é que eu tinha bloqueios.

Muitas vezes também estamos ali ocupados na nossa cabeça de que tenho imensas coisas para fazer e só ansiosos para o dia, não é? Ajudar a estruturar e pôr as coisas no papel.

Sim.

As coisas estão organizadas, deixa só fluir.

É, e acaba por ser uma approach para o dia consciente. Ou seja, não é o dia que me leva e as coisas que vão surgindo. Não, eu tenho noção que eu hoje só tenho tempo para fazer isto e isto são as minhas prioridades. E estes 15 minutos que eu tiro de manhã, 15 minutos a meia hora para pensar, faz toda a diferença, porque há mini coisas, principalmente do meu lado, e acredito que para ti também, porque tu estás a gerir o teu negócio, mas há tantas mini coisas que é tão fácil tu te esqueceres. E eu adoro esta coisa deste silêncio de manhã em que não há nada, porque o mundo inteiro está a dormir e eu acabei de acordar, então estou numa paz massiva, não há aqui emoções no meio.

Imagino que uma filha também, estar acordada antes dela acordar para tu poderes ter o teu tempo, não é?

É, eu acho que qualquer pessoa que tenha filhos percebe que ter tempo para eles antes dos filhos acordarem é uma bênção. E eu tenho imensa sorte de eu ser uma pessoa matinal e da Alice, que é o nome da minha filha, a Alice adora dormir. E, portanto, é aqui o equilíbrio perfeito.

E costumas também fazer o teu exercício de manhã. É 04:00 a.m., é muito cedo.

Não, isso por acaso é algo que eu noto que era mais fácil em Londres do que é aqui, eu acordar tão cedo. Eu agora por norma eu gostava que fosse 05:00 a.m., mas eu dou por mim aqui muitas vezes a ser pelas 06:00 a.m. Tenho noção que estamos em Roterdam e para a maior parte das pessoas isto é supercedo. Eu estou habituada a acordar às 05:00 a.m. e das 05:00 a.m. às 06:00 a.m. é o meu momento de acordar, não acordar, fazer ioga, etc. Depois das 06:00 às 06:30 a.m. é quando eu escrevo e depois aí começa a rotina. Eu antes era daquelas que acordava, saía de casa, ia correr de manhã e eu cheguei à conclusão que isso para mim já não mega funciona. Gosto de vez em quando, gosto ao fim de semana, mas eu sinto que às vezes quando eu faço isso, parece que eu estou a fugir da vida.

O ir correr?

Sim, eu não sei se isso te aconteceu, porque eu comecei a correr, o correr foi assim minha primeira ferramenta.

É comigo.

Eu estava em Londres, eu claramente não estava bem, estava superansiosa, foi quando eu comecei a trabalhar, o meu primeiro trabalho, Londres ambiente supercompetitivo. E eu sempre fui uma pessoa insegura e tinha as minhas inseguranças. E eu quando estou insegura ou quando estou com medo ou nervosa, eu desconto na comida. E eu estava a ganhar algum peso, ainda por cima com a mestrado em cima, que é festas, etc. E eu estava a perceber, isto aqui não está mesmo a correr bem. E literalmente comecei a correr, mas eu corria, eu tinha um miniparque à porta da minha casa e corria 10 minutos. E depois fui, que as coisas foram evoluindo. Mas eu sinto que eu estava a correr porque eu estava a tentar fugir da pessoa que eu era. E por isso é que eu gosto muito mais do ioga hoje em dia, porque tu no ioga não foges, tu enfrentas.

Não sei, porque eu acho que na tua fase anterior, se calhar.

Tu sentes que ainda estás a fugir?

Não, eu acho que não estou a fugir, mas eu vejo a corrida como um mecanismo para eu me sentir melhor todos os dias. Por exemplo, hoje para gravar podcast. Eu quando gravo, para eu estar no meu melhor, eu gosto de ir correr primeiro.

Concordo 100%, mas imagina, depende de onde é que tu vens e volta tudo ao mental, é tudo da tua cabeça. Eu hoje em dia sinto que tenho que fazer um diálogo interno que é: eu estou a ir correr porque eu quero, não porque eu tenho. E eu acho que muitas vezes eu ia correr, não só porque eu estava a fugir de mim, mas era porque eu queria perder peso, porque eu estava a perder o peso, eu queria ser Algo que eu ainda não era. Então havia esta obrigação, e ainda é meio um conflito, que era algo que me dá imenso prazer, mas que ao mesmo tempo eu sentia-me refém porque eu tinha que ir. Não sei bem explicar, é uma coisa estranha.

Sim, eu sinto um bocadinho isso. Se eu agora fiquei doente uma semana e meia sem conseguir correr. É um sufoco, porque é a minha ferramenta.

Exato, para lidares com o que quer que seja.

Cabeça.

Exato, com a cabeça. Mas o que eu aprendi é, para mim, hoje em dia, corrida é uma dessas, e eu adoro correr, mas eu podia não ir correr, eu podia fazer uma bicicleta, eu hoje em dia sou apaixonada por fazer bicicleta, eu tenho uma Peloton em casa e adoro isso. Podia fazer ioga. Ou seja, aqui é, eu estou a fazer porque realmente me ajuda a processar ou às vezes vou para a passadeira e ando só em incline. E é mais um movimento do que a corrida em si. Muitas vezes, para mim, a corrida eu tinha que sentir que estava literalmente a…

Mas tu já fizeste imensos desafios de corrida, mesmo maratona.

Sim.

E tu disseste na altura, no podcast, que fazias estes desafios porque no final te dava a confiança, tu sentias que eras capaz.

Completamente, mas aí é que está. Eu já não o faço pelo físico, eu faço pelo mental. E é muito mais desta prova de mim para mim que eu consigo fazer coisas difíceis. E a corrida para mim começou do físico, que era literalmente, eu não gostava da minha forma física. Pronto, havia muito mais coisas por trás disso, mas na sua essência, eu comecei a correr porque era: eu quero perder peso, eu não me estou a sentir bem comigo própria, e comecei a correr e depois houve uma ligação que era realmente dar resultados e a corrida veio muito a partir daí. Mas depois, por outro lado, dava-me imenso prazer. Eu amava acordar de manhã e ver o nascer do sol, estar a correr quando o mundo estava mega silencioso. E eu adorava isso, mas eu sinto que eu hoje em dia, enquanto que eu antes precisava de começar o dia quase a fugir, hoje em dia eu sinto que existe-

Estás mais equilibrada, não precisas.

Sim, eu acho que é sempre uma forma de tu lidares, é sempre de ti para ti, uma forma de tu lidares com as tuas emoções da melhor forma possível.

Mas achas que curou a tua relação com a comida?

Isso é uma very tricky question. Olha, eu não sei se a minha relação com a comida alguma vez vai ser curada, infelizmente.

Percebo.

Porque acho que está tão enraizado em mim.

É fases.

É fase. E o que eu noto é, nunca é sobre a comida. E tem sempre a ver com alguma coisa da qual eu estou a fugir emocionalmente e por isso é que eu vou comer. E depois é a bola de neve, porque eu estou constantemente a fugir.

A tapar buracos, não é?

Sim, exatamente. E infelizmente, eu sinto que quando eu estou emocionalmente instável, eu compenso na comida, vem me inevitavelmente aquele pensamento de "fuck, fuck, fuck". Eu não sei se posso dizer isso no podcast.

Podes.

Ok. Que é: estás a perder o controle. Porque o meu problema sempre foi-

E é uma bola de neve.

É uma bola de neve. O meu problema sempre foi compulsão alimentar. E eu sei que há quem acha que tem compulsão alimentar, se calhar não tem. Eu tenho noção que eu tenho compulsão alimentar, tenho imensos problemas. Tive imensos problemas com a alimentação e muito deste trabalho, até com a terapia, foi eu conseguir ter uma melhor relação com a alimentação. Mas foram tantos anos, que é inevitável. Quando dou por mim e sentir que não estou a conseguir controlar, sabes quando estás numa montanha-russa e eu não estou a conseguir agarrar e acalmar. Parece que intuitivamente não me vem à cabeça de "não tem mal, simplesmente estás estressada." Parece que para mim é tipo, não, o mundo vai acabar.

Não há saída daqui.

Exatamente.

Vou entrar outra vez no buraco.

Exatamente. E a única coisa que muda é que eu tenho isto com muito menos frequência e quando estou lá, não dura tanto tempo quanto durava antes. Ou seja, eu antes se calhar ficava meses ou semanas. Hoje em dia é duas horas. Estás a ver? E imagina.

Eu também ouço imensas vezes pessoas a falar de, tipo, estou curada e nunca mais tive. Eu não acredito bem nisso. Acho que pode ser uma fase em que-

Sim, não sei. A minha própria experiência, eu estava no outro dia, quer dizer, no outro dia foi há meses, mas fiquei super surpreendida, porque sabes a Jane Fonda?

Não.

Aquela é uma atriz, foi ela que começou, na altura dos nossos pais, ela era a fitness woman, que fazia com pesos, etc. E era um role model americano e um sinônimo de beleza. E ela fez um podcast com a Alex Cooper.

Sim, "Call Her Daddy".

Exato. E ela fez um podcast com ela em que ela falou que tinha bulimia e que sofreu durante anos de bulimia. E eu não fazia ideia. E ela disse: "Olha, simplesmente um dia, eu não sei." Ela disse: "Eu sempre achei que ia morrer muito cedo por causa da bulimia. E simplesmente houve um dia que parou. Eu simplesmente deixei de o fazer." E isto foi com ela, ela disse no podcast, eu posso estar a mentir totalmente, mas mais do que 30. Eu acho que ela tinha para aí os seus 40, quase 50 anos. Posso estar a mentir, se calhar era mais perto dos 30, mas era por aí, já era uma adulta. E, portanto, eu não sei, eu acho que chega a um ponto em que se calhar alguns dos comportamentos que tu tinhas, realmente como tu vais amadurecendo e deixas de dar tanta importância à tua forma física e percebes que a vida é muito mais do que isso, porque realmente perdes esse hábito.

É um mecanismo de escape, podes arranjar outros que substituam, não sei. É a mesma coisa que, por exemplo, o álcool, tabaco.

Pois, eu acho que isso é um bom ponto, porque acho que é um bom ponto de se calhar arranjas outro-

Há quem consiga também deixar de fumar, não é?

Sim, eu por acaso acho que isso é um ótimo ponto, que é se calhar tu arranjas um outro mecanismo Que simplesmente não é esse. Mas somos humanos, toda a gente tem problemas.

Mas sim, é total lidar emocionalmente mal, lidar mal com as emoções, no fundo, não as processar.

Exatamente.

E é este o mecanismo de esconder isso.

Exatamente. E eu acho que de um ponto de vista da alimentação, principalmente nas mulheres, como para nós existe tanta pressão na forma física, que não existe nos homens, vamos ser honestas, não existe. Eu acho que quando o teu mecanismo de defesa, de lidar com o estresse da vida, a alimentação, acaba por ser um problema muito maior, porque é visível. Eu digo imensas vezes isto ao Tomás, o Tomás, meu marido, porque ele tem um trabalho superestressante e ele tem fases em que está ótimo e está a treinar e está bem com a vida e tem as rotinas certas. E depois tem períodos de estresse em que ele, literalmente, fuma aqueles IQOS, em que de repente virou um pacote numa noite. E eu digo: "Mas isso era exatamente a mesma coisa que eu tivesse comido todo o armário da cozinha para lidar com o estresse." Só que eu, para mim, se eu fizesse isso sempre, a diferença é que o tabaco tu não vês o que estás a causar aos teus pulmões. Connosco tu ganhas o peso e depois quando és mulher, eu lembro-me, ainda por cima eu vivia em Londres, as primeiras coisas que me diziam sempre que eu vinha a Lisboa: "Estás mais magra. Estás mais gordinha." Por que o primeiro comentário sobre mim tem que ser sobre a minha aparência física? Por que não é sobre o que eu alcancei ou parabéns pelo não sei. Não, parabéns, estás mais magra ou estás mais gordinha, estás estressada, o que é que se passa? Tipo, deixem-me. E isso por acaso foi uma das coisas que eu acho que eu precisava de sair de Lisboa nesse sentido era: deixem-me ser quem eu sou. Eu não quero ter pressão. Eu amei isso de Londres, achei tão libertador. Eu acho que eu até comentei no podcast da Nur, dos primeiros dias que eu estava lá, estava a andar de autocarro, olho para o lado, está uma senhora de pantufas, pijama e robe, na rua, completamente descalçada. Nem quer saber. E eu acho que em Londres, depende obviamente dos bairros onde tu estás, mas em Londres, regra geral, existe mais liberdade de ser.

Mas tu também sentes mais liberdade porque estás fora.

Porque eu não sou de lá, completamente. E também porque não sou de lá.

Sabes perfeitamente que ninguém te vai conhecer, não é?

Sim, exatamente. E depois tu começas a entrar e como tudo na vida, tens os bairros londrinos e tens a socialite de lá e às tantas andávamos a viver num bairro que começava a ver o bairro da escola da Alice, em que tu vês aquele que é o conhecido. Isso existe em todo lado e essa liberdade também vem de eu estar numa cidade que não é minha e que é muito maior do que Lisboa. Mas eu acho que mesmo assim, eu pelo menos tenho a impressão, posso estar totalmente errada, mas a minha impressão é que o português dá muita importância às aparências. E eu dou por mim, eu estou em sítios a almoçar, desde que eu voltei, e as pessoas à minha volta só falam sobre a vida dos outros. É assustador.

Faço o paralelismo, por exemplo, com o gravar. Eu já estou nas redes sociais há anos, mas quando eu vou para fora, sinto muito mais vontade e muito mais à vontade para gravar. E aqui em Lisboa, por exemplo, eu fui uma vez a um café, lembro-me perfeitamente, e queria gravar um clipe, fui com o meu tripé e estavam lá umas estrangeiras, eu estava super OK, vou pôr o meu tripé, porque eu sei perfeitamente que ninguém me conhece. Depois entra um grupo de portuguesas e eu: "Ah, depois vou tirar, não vou gravar."

Sim.

Podem me conhecer ou vão falar sobre isto e vão me deixar incomodada.

Eu sei que isto é um podcast para estar a falar comigo, mas por acaso eu tenho curiosidade se essa vergonha, vergonha entre aspas, não sei se é a palavra certa, de ser vista a gravar e a criar conteúdos alguma vez passe. Porque imagina, eu sinto muito isso, eu sinto um bocadinho uma pressão de que eu devia estar a publicar mais das redes, porque eu devia estar a mostrar a história e como é que é construir a Taro, mas para mim não é natural e é uma coisa que é desconfortável e é estranho para mim, mas para vocês, que já é algo que fazem, que faz parte do vosso dia a dia, tu continuas a sentir?

Sinto. Acho que é por fases. Se eu tiver uma fase mais confiante comigo, com a minha imagem, com aquilo que estou a fazer, sinto mais vontade de gravar, de aparecer e sinto mais OK em gravar publicamente. Mas na rua, gravar e falar à frente de pessoas portuguesas, eu não consigo.

Sim, percebo.

Eu sei que quem fica há muitos anos nisto, fica habituada, mas eu não consigo.

Sim, se calhar nunca ficaria.

E depois, lá está, uma fase um bocadinho pior, mais insegura, se calhar não me sinto tão bem ou estou numa fase em que não estou a acreditar bem naquilo que estou a fazer ou não gosto muito daquilo que estou a comunicar, estou mais insegura e é quando menos publico. E depois isto também acaba por ser uma bola de neve.

Sim.

Quanto mais desaparece e menos te apetece gravar, continuando neste registo, mais desconfortável vais ficando. Portanto, é mesmo continuar, mesmo não apetecendo e não estando à vontade.

Para além de que a essência do que faz requer imensa vulnerabilidade. E às vezes sentes aquele choque de vulnerabilidade, porque já me aconteceu de eu às vezes partilhar coisas e pensar: "Eu estou OK em partilhar isto, porque realmente é a minha verdade." Eu tenho um bocadinho esta coisa de eu gostava de morrer sem segredos, porque quer dizer que pelo menos as pessoas conheceram a Catarina em toda a sua essência. Mas, não sei, é sempre um bocadinho assustador.

Eu nunca me arrependi de nada que partilhei, mas eu tenho muita coisa que eu não consigo ver. Está lá, mas eu não consigo ver.

Sim, eu percebo. Eu também, por exemplo, o podcast eu faço, eu não oiço. Eu não quero saber. Não quero saber foi o que foi.

E às vezes penso que partilhei demais e dizem que partilhei demais, mas se naquela altura me fez sentido partilhar, vou confiar naquilo que eu fiz e não vou olhar para trás.

Sim, percebo.

E acho que aquilo também, voltando ao início da nossa conversa, que estavas a dizer que quando estavas pior ou os mais problemas que foste tendo com a Taro, e não só, que tens dificuldade em partilhar, eu acho que é aí que nós devemos partilhar e mostrar esse lado também, porque é aí que vai acrescentar

Sim, é verdade.

Porque mostrar só a parte bonita é um pouco mais do mesmo, não é?

Sim, isso é verdade.

E tirar essas camadas, claro que custa e claro que é muito mais difícil sermos vulneráveis nesse sentido, mas eu, por exemplo, o ano passado sinto que estava numa fase muito mais embaixo e só tinha duas opções: ou desaparecer e não publicar, porque é o que me apetece fazer logo instantaneamente, ou então ser honesta. E ganhei muito mais com isso. E acho que é nesses momentos que temos de tomar esta decisão, que custa um pouco mais, mas que no futuro acho que vai trazer coisas boas.

Sim, 100%. É verdade, eu concordo 100%.

Entrando um pouco mais na parte da alimentação, foi em Londres que tu também entraste mais no mundo de alimentação saudável. E eu queria também explorar um pouco contigo, que eu acho que hoje em dia temos aqui esta trend de corrida, bem-estar. Tu achas que isso é uma trend ou que a nossa forma de alimentação e de posicionamento na vida está a mudar, de lifestyle?

Não sei, eu acho que isso é uma pergunta muito difícil. Depende também de qual é a tua definição de trend, tendência.

Começando pela alimentação, por exemplo, hoje em dia a trend é falar muito de proteína e quereres comer todos os níveis de proteína para treinar e focar muito nisso. Mas já houveram outras trends de outras dietas no passado que depois não ficaram.

Sim.

Achas que isto é uma trend ou achas que isto é o caminho?

Imagina, eu acho que o caminho é definitivamente a alimentação mais saudável, eu já parei um pouco para pensar sobre isso. Na altura dos meus pais e até eu a crescer, eu tinha uma alimentação ultraprocessada. Era daquelas que em casa dos meus pais eu tinha tudo, tinha Chocapic, Estrelitas, Chips Ahoy, eu comia Filipinos, aqueles donuts cobertos de chocolate, era assustador os meus lanches. E eu acho que os meus pais davam-me isso sem terem a noção que realmente eram coisas que não eram boas para ti, porque para eles, de certa forma, era novidade. A alimentação mudou muito ao longo do tempo. E tu, hoje em dia, chegaste a um ponto em que tu estás a ver as consequências desse tipo de alimentação.

Achas que já estamos a ver?

Eu acho que já. Quer dizer, eu acho que já, tens muito mais câncer, a taxa de obesidade é massiva. Eu agora noto imenso, por exemplo, eu estou muito mais no Medio Oriente, eles lá, a maior parte da população anda com glucose monitors no braço, porque a maioria da população é diabética ou pré-diabética.

Vejo.

Eu acho que se calhar em Portugal, mesmo assim, Portugal, Espanha, a dieta mediterrânica não é tão impactada como se calhar os Estados Unidos ou o Medio Oriente, que são muito dependentes de uma alimentação ultraprocessada e, portanto, os níveis de obesidade são massivos. Mas eu acho que, pelo menos eu já começo a ver pessoas muito mais novas a terem câncer, pessoas da minha idade que já começam a ter câncer, e eu acredito que muito disso venha de hábitos e da alimentação e de presença com algumas toxinas que fazem mal. Isto para dizer que eu acho que as pessoas já começam a ter essa noção, obviamente em alguns sítios mais do que outros, mas eu acho que devagarinho tu começas a perceber que realmente não é sustentável e tu estás desconfortável. Acho que há uma razão pela qual hoje em dia toda a parte de personal development e wellness explodiu. É porque eu acho que grande parte da população-

As pessoas estão a acordar e a perceber que não está bem.

Não se sentem bem. E é holístico, acho que vem da alimentação, vem da forma como tu vives a vida, se calhar muito mais agarrado aos ecrãs. Mas voltando aqui ao teu ponto de tendência, eu acho que existe uma consciencialização de que eu não como 100% bem e eu devia comer melhor, ou pelo menos isto não me faz muito bem, e com isso vai gerindo. Acho que depois existe sempre, há quem esteja mais ok em sacrificar, ou seja, há quem dê mais importância a isso ou não. Por exemplo, grande parte dos meus amigos não é supersaudável, apesar de terem uma noção de que querem comer melhor, grande parte dos meus amigos ainda continua a comer não a 100%. Mas eu acho que tu vais começando a adicionar isto à tua dieta e à tua vida e realmente vês os benefícios e a diferença que faz tu comeres bem ou comer mal. Portanto, eu acho que alimentação saudável, em geral, acho que é uma tendência que fica. Agora, o que é que é alimentação saudável para mim, pode não ser o que é uma alimentação saudável para ti. E eu acho que é aí onde morrem e nascem trends, que é, por exemplo, keto. Keto é ótimo para algumas pessoas e não é ótimo para outras pessoas. Eu vim a descobrir que, isto não é diagnosticado, é eu com as minhas leituras, mas eu tenho quase a certeza absoluta que eu tenho ADD, ADHD. E pessoas com déficit de atenção, é muito benéfico tu teres uma dieta com muito menos hidratos de carbono, ou seja, muito mais rica em proteína. E eu, por trial and error, eu aprendi que realmente isso para mim faz toda a diferença. Por exemplo, durante anos, no mundo de wellness, vendiam-me: "Olha, de manhã coma um porridge." Eu comia um porridge, eu ficava em ácidos, eu não me conseguia concentrar.

Bué açúcar logo de manhã.

Sim, exatamente.

Ficas logo com o pico.

Pico de glicemia massivo. E, portanto, isso para mim não funciona. Agora, para certas pessoas, isso é ótimo e isso é uma alimentação saudável. Não estás a comer ultraprocessada, é aveia, estás a comer aveia com leite, com frutas.

Mas com tanta informação, como é que se encontra qual é que é a alimentação certa?

Para mim, foi trial and error, e eu acredito muito que seja tentativa e erro. Eu posso estar a dizer a maior barbaridade da vida, ok? Portanto, vamos só pôr aqui o asterisco, que isto é a minha ideia, e que é zero fundamentada. Mas eu acho que tal como nós temos diferentes tipos de pessoas, ou seja, tu hoje em dia vives num mundo muito mais global. Certo? Mas back in the day, tu não tinhas acesso a todo o tipo de alimentação. Portanto, eu acho que tal como tu tens pessoas com tom de pele mais escuro ou mais claro, que lidam melhor com o sol ou pior com o sol, eu acho que há pessoas que lidam muito bem com uma dieta apenas à base de plantas, há pessoas que não lidam bem com uma dieta.

Sim, há pessoas que não conseguem processar Lactose, por exemplo.

Exatamente. Tu tens um bocadinho de tudo e eu acho que, infelizmente, tu só vais saber o que é que funciona pra ti se tu experimentares e te deres espaço para experimentares e explorando.

E acho que numa rotina tão caótica, não tenho tempo pra fazer nada. Tenho tempo pra ler e perceber e tentar trabalhar na minha alimentação para? Ou vou só comprar coisas proteicas porque dizem que faz bem e vou comprar barras.

Eu percebo o teu ponto e concordo, eu acho que tem a ver com prioridades. Eu fiz disto uma prioridade pra mim e eu explorei imenso e veio com imensa tristeza, porque eu comecei a explorar isto puramente duma parte física e só depois é que foi mais para o bem-estar. E foi aí, por exemplo, eu experimentei vegan e foi: "Isto é ótimo pra muita gente, pra mim não funciona". Tanto que eu hoje em dia continuo a comer muita coisa à base de plantas, mas já não é só isso. E eu consumo salmão, consumo ovos, já consumi carne vermelha porque realmente não consigo digerir bem, mas é só experimentando e estando ok em experimentar. E eu percebo o que tu queres dizer, toda a gente tem uma vida mega corrida e a vida é feita a prioridades, não tens tempo pra tudo. Mas eu acho que é uma pena, porque eu acho que cada um de nós, não sei, isto é um generalismo, se calhar, um bocado injusto, mas eu às vezes sinto que nós não vivemos a 100% da nossa capacidade, porque a tua vida muda drasticamente se tu dormires oito horas por dia, vou dizer oito horas por dia. Não comeres coisas ultraprocessadas, fazeres exercício todos os dias e estás com pessoas de quem gostas. Faz isso, a tua vida muda radicalmente. E eu acho que tu vivendo assim, porque eu noto isto comigo e, portanto, acredito que tu também sintas isso contigo. Um dia em que tu, se calhar, acordas, porque dormiste bem e fazes as escolhas certas na tua alimentação e vais correr e faz um trabalho que pra ti realmente te adiciona.

Tudo corre melhor depois.

Tu sentes-te melhor.

Mesmo até as tuas relações.

Exatamente. E depois quando tens o teu dia off, que é: dormi cinco horas, bebi 50 cafés, comes whatever. Tu vês como é que tu és nesse dia e, portanto, imagina um dia em que, um mundo em que a maior parte da população vive desta forma. Eu acho que ia ser um mundo muito mais feliz e muito mais produtivo, é a minha opinião.

E a rigidez que estavas a falar no início, trazes também pra parte da alimentação e de hábitos?

Trouxe, definitivamente. Hoje em dia, eu acho que eu trouxe imensa rigidez e eu acho que até muito do trabalho. Eu não sei se concordas comigo, mas eu acho que tu às vezes tens que ir pra um extremo e depois encontrar o equilíbrio.

Sim.

E então era, eu estava num extremo do não saudável e de péssima relação comigo própria, com a alimentação, com a vida, com o mundo, e fui pra outro extremo, porque eu estava desesperada. Eu só sabia que eu tinha que sair daquele buraco e eu não sabia de outra forma. Portanto, foi ler e foi implementar tudo aquilo que eu lia.

E a tua forma de controlar é ir pra esse extremo.

Exatamente, é quase eu estou a fugir tanto do outro lado que eu estou me a agarrar aqui, que eu não consigo a mim o suficiente.

Identifico-me 100%.

E depois eu acho que devagarinho tu largas um, e tipo: "Ah, o dia não está aí." Largas outro.

Que era o que estavas a falar em relação ao exercício.

Exatamente. E tu, por exemplo, eu antes, se eu não fosse correr às 7:00 da manhã, foda-se o meu dia, não sei se posso dizer palavrões.

Pode, à vontade.

O meu dia acabou. Pronto, já não vais correr. Eu nem conseguia fazer mais nada porque só pensava no fato de eu não ter ido correr. E depois comia qualquer coisa. Pronto, já não foste correr agora.

Agora vais logo estragar tudo e pronto, amanhã começa outra vez.

E és um desastre, e nunca consegues, e nunca se consegue, e sempre vais fazer, e depois nunca. Um loop de negative self-talk assustador. E eu acho que tu devagarinho o que começas a ver é, ok, actually, eu comecei a aprender que é, eu posso não ir correr às 7:00, mas eu até gosto de ir correr às 11:00 da manhã. Quem diria?

Ou até gosto de ioga e...

Exatamente.

Eu até gosto de um dia em que se calhar não fiz nada.

Dá mais prazer acordar de manhã e fazer ioga. E eu não estava à espera disso. E por isso é que é muito difícil pra muita gente, é porque tu tens que te dar algum período de graça e eu acho que principalmente pra pessoas extremistas e perfeccionistas, que não sei se é o teu caso, mas pelo menos é o meu, é muito difícil quando tu estás nesse messy middle e nesse limbo. Eu digo que é uma maionese, porque é superdesconfortável.

Parece que estás refém da tua própria rotina, não é?

Sim.

Ela é que manda em ti.

É, exatamente. Porque tu não confias em ti quando estás fora da rotina.

Sim.

Não confias nas decisões que vais tomar, pelo menos isso era o meu caso. Eu tenho medo que se eu não seguir esta rotina, de repente vou tomar decisões erradas que me vão levar à Catarina que eu desesperadamente não quero ser. E por isso é que eu me agarro tanto nesse outro extremo.

Por exemplo, mesmo a questão do álcool. Eu cortei completamente o álcool há uns meses, porque estava com medo de que quando eu bebesse, perdesse esse controle. De depois já vai estragar os treinos, já vai estragar tudo, já vou querer comer porcaria a seguir. Então cortei. Agora, neste momento, já estou num ponto de equilíbrio, em que já consigo beber um copo, consigo sair e está tudo bem no dia a seguir.

Sim, interessante. Eu por acaso também cortei o álcool, mas foi porque eu não gostava de perder o controle na pessoa de quem eu era. Sei lá, dizes coisas que se calhar não querias dizer, fazes coisas que se calhar não querias fazer. Mas isto foi universidade, que eu cortei. E hoje em dia, depois eu comecei a me voltar a permitir, porque depois eu comecei a criar a identidade da Catarina que não bebe álcool. E depois estás refém do: "Agora eu não posso beber álcool, porque eu sou a Catarina que não bebe álcool." E eu não gostei disso. E durante muito tempo era a minha dificuldade, depois quando bebia álcool, era tipo, estou a trair a minha essência. Mas pronto E hoje em dia eu dou por mim, porque comecei a me permitir de vez em quando ir beber álcool, e hoje em dia, muitas vezes eu permito-me, se eu quero, mas eu dou por mim a pensar: "Não quero, porque eu por acaso amanhã quero ir correr." E eu genuinamente quero estar bem a correr, porque eu já tive vezes em que eu fui correr tendo bebido álcool, já tive vezes em que eu fui correr não tendo bebido, já tive vezes em que fui correr em que não bebi, mas arrependi-me de não ter bebido porque não aproveitei. E tu começas a perceber-

Sim, mas no dia a dia vais gerindo, faz sentido eu beber, não faz sentido, apetece-me, não me apetece.

Mas eu acho que isso é a natureza da vida, até na tua pergunta de como é que uma pessoa começa e vive, tu tens que ir experimentando coisas. E tens que ir percebendo o que é que funciona pra ti, o que é que tu gostas, o que é que tu não gostas. E isso só vais conseguindo com muitos dias de vida acumulados e muitas experiências acumuladas. E vivendo e percebendo como é que tu reages às diferentes influências ou coisas que a vida te atira à cara.

De que forma é que lidas com a Alice neste tema de alimentação?

Alice, minha filha?

A tua filha. Tens medo que ela também sinta esta pressão?

Tenho imenso medo, até porque eu acho que os miúdos aprendem mais por aquilo que te veem fazer do que tu dizes. E eu tenho noção que a minha relação com a alimentação nunca foi 100%. E a Alice tem agora sete anos, e já foram sete anos acumulados em que ela já me viu passar por muito e tu às vezes pensas que ela é bebê e se calhar não me vê ter compulsões alimentares, mas que se calhar ela vê-te ter compulsões alimentares. E houve uma fase em que eu comecei a ver que ela estava com compulsão, ela estava numa escola.

A sério?

Para pôr o contexto que Londres é extremamente exigente, então com miúdos é extremamente exigente. E principalmente em escolas particulares, existe muito esta competitividade entre pais e entre escolas, que é tipo a minha escola tem que ser a melhor e o meu filho tem que ser o melhor. Então muitas vezes os miúdos nos colégios privados, eles estão a lhe a dar o currículo do ano acima, que é pra tu quando tiveres a concorrer com o resto do país, o teu miúdo sabe sempre mais. Imagina, ela estava na creche, mas já estava a ter como se estivesse no primeiro ano de escola. A Alice tinha três anos, a miúda tem dois ou três, deixa nem ser uma criança e estavam a puxá-la. A Alice nasceu, eu quando estava grávida descobrimos que ela tinha um problema genético. Ela está super ok agora, mas uma das sequelas, digamos, ela tem algumas dificuldades de aprendizagem e teve alguns atrasos motores. Portanto, a Alice começou a andar muito mais tarde do que as crianças normais. Vês que aquilo no cérebro dela há coisas ali que não conectam e ela demora mais tempo a perceber as coisas. É uma miúda super normal e super sociável, mas na parte mais acadêmica ela não é inacreditável. E nós pusemo-la numa escola privada que era ótima, que era ao pé da nossa casa, e era muito acadêmica, e era destas que puxava os miúdos com dois ou três anos.

Logo muita pressão desde cedo.

Exatamente, muita pressão desde cedo. E ela, como já estava atrás dos outros miúdos, porque ela ia evoluindo, mas ao seu ritmo, eu acho que ela começou a sentir esta ansiedade, e tu não tens noção, mas ela abria o frigorífico e começava a tirar coisas.

Mas achas que é por te ver a fazer isso?

Eu não sei, eu acho que isso é a maior dificuldade, que é tu enquanto mãe, tu separaste tu mãe. Eu tenho os meus medos, e os meus medos não são os medos da Alice, porque ela vê o mundo de uma forma totalmente diferente de mim e ela é uma junção de mim, do pai dela, dela própria, e, portanto, não quer dizer que se eu vá reagir de uma forma, ela vá reagir. Mas o meu medo visceral é que eu não quero que ela passe pelo que eu passei. E, portanto, quando eu vejo isso, inevitavelmente, a culpa pode não ser minha, porque se calhar ela podia roer as unhas, podia ser mil outras coisas, mas pra mim é tipo-

Inconscientemente.

"Eu passei isto, eu passei isto, eu passei isto, que falha, que mãe horrível, que horror, e como assim, como é que a minha filha pra mim não é importante o suficiente pra me controlar e pra me ajudar a curar a minha relação com a comida." Mas a forma como eu giro, eu tento não ser extremista com ela, ou seja, tento educá-la no sentido em que é comer bem pra ter energia pra brincar, não é comer bem e não ligar o comer às aparências. Tanto que houve uma vez a minha sogra disse: "Ah, não, porque as meninas têm que comer pouco pra ser magras." Eu tipo: "Não, nunca, nunca alguém vai dizer isso à minha filha. Tens que comer bem, porque queres ter energia pra viver." Ser um pouquinho como exemplo e dizer, e mostrar, porque esta é a alimentação que eu sigo, a alimentação que nós seguimos em casa, ela tem noção de isto é mais saudável, isto é menos saudável, mas, por exemplo, ao fim de semana, nós fazemos exceção. Ou seja, é mais, comer bem é a norma, comer mal é errado.

Sim, mas, ou seja, a alimentação principal ser comida funcional e teres a parte do prazer também associada à comida de vez em quando.

Exatamente. E o prazer é subjetivo. Imagina, nós, todos os dias, depois de jantar-

Sim, estou a dizer que estamos a assumir que comida saudável não é prazerosa.

Exato.

É um mito.

Exato. Imagina, e o Tomás às vezes diz-me isso, "estás a lhe negar um McDonald's". Ela nem sabe o que é bom ou mau pra ela. Mas, por exemplo, nós todos os dias, depois de jantar, ela pede uma mousse de chocolate. E eu faço um oikos e ponho um pouco de nata de taro e é mousse de chocolate. E pra ela isso é superprazeroso. Mas depois, ao fim de semana, ela me pede pra ir ao McDonald's Eu tipo: "Ok, bora!" Porque apesar de eu pessoalmente não mega concordar, é algo que ela gosta, os primos fazem, e eu não lhe vou negar isso, porque também é uma parte social, mas é mais ir gerindo este equilíbrio e tentar normalizar as coisas, e esperar que ela depois traga isso para o dia a dia dela quando for mais velha.

Achas que na escola, tal como agora também falamos muito mais de saúde mental, de literacia financeira, achas que a parte alimentar também devia fazer parte?

Sim, 100%.

De que forma é que achas que isso podia acontecer?

Eu acho que pelo menos aquilo que servem nas escolas, acho que é muito importante, aquilo que dão aos miúdos, porque impacta a tua capacidade de concentrar se eu tiver almoçado uma pizza ou se eu tiver almoçado um peito de frango com legumes e um bocadinho de arroz e depois comer uma fruta, do que se me derem, vou dizer uma pizza ou uma lasanha e depois uma sobremesa, sei lá, ser uma fatia de bolo, não tem comparação, depois como é que vai ser a minha performance. Portanto, eu acho que eles deviam ensinar isso, nem tanto pela teoria, mas mais pela implementação e pelas coisas que eles vão mostrando para ser o normal. Acho que o problema aqui é que tu normalizaste o snack em bolachas ultraprocessadas e não tanto o snack na fruta.

Nos bares, os paniques e as bifanas, essas coisas todas. Não há muitas opções, se pensares bem.

Pois não, por isso é que nós estamos a pôr tremoços em todo lado.

Um bom tremoço. Muito bom. Olha, e como é que está a correr tudo com a Tarwi, com o regresso a Portugal? Achas que estás a conseguir que o tremoço seja mais do que um acompanhamento à cerveja?

Acho que vai ser um caminho. Acho que devagarzinho, nós estamos a fazer imenso trabalho com nutricionistas e cada vez mais eu vejo as nutricionistas a comentarem, pessoas a virem ter connosco. Portanto, sim, sem dúvida, acho que já começa a haver essa perceção, pelo menos mais do que há cinco anos. Acho que obviamente é algo que se vai fazendo e neste momento ainda é um nicho de pessoas que querem comer bem, que realmente têm essa noção. Quando nós começámos a Tarwi, o foco era Reino Unido, e portanto, nós nunca fizemos um grande trabalho de construir a marca em Portugal, tanto que a maior parte das pessoas com quem nós falamos ainda não sabe que a Tarwi existe e só agora é que nós estamos a investir em equipa e realmente investir em marketing para fazer esta parte mais educacional e as pessoas saberem mais sobre a Tarwi, sobre o tremoço, sobre os nossos produtos, etc. E isso tem sido uma coisa muito gira, porque obviamente eu estive fora tanto tempo que dá-me imenso gozo, imenso prazer de ver, eu estar a construir uma marca que realmente quer penetrar este mercado.

Sim, ser a primeira em Portugal com este tipo de conceito.

Sim, e eu tenho um pouquinho um sonho, quando eu estava a entrevistar pessoas para a equipa da Tarwi, eu dizia muitas vezes: "Por que não ser a próxima Sagres? Por que não?" E eu penso imenso nisso, tipo, why not me? Why not? Por que não? É de ser eu a tentar montar isto. Tal como alguém fez a Sagres ou fez a Prozis, havia uma pessoa por trás que não fazia a menor ideia do que estava a fazer, simplesmente foi louco o suficiente para ir atrás e tentar fazer as coisas acontecerem. E eu gostava imenso de tentar fazer com que a Tarwi a certo ponto fosse um household name nas casas em Portugal, sabendo que eu sou muito mais ambiciosa do que isto. Portanto, eu adoro Portugal e Portugal é casa, mas do ponto de vista de negócio, Portugal é um mercado-

Faz sentido primeiro atacar mercado a mercado.

Exato, e Portugal é um mercado muito pequenino e, portanto, hei de querer ir para fora. Mas o regresso a Portugal está a ser bom, obviamente com uma adaptação, porque eu nunca trabalhei aqui e, portanto, a forma de trabalhar é completamente diferente.

Mas deve ser giro também ter equipa e trabalhar no escritório e coordenar tudo, não é? Porque tu trabalhavas, se calhar, à distância, não é?

Imagina, eu antes disso, antes da Tarwi começar a ter equipa, era só eu e outra pessoa, portanto, ia trabalhar remote. E perguntaram-me isso no outro dia, eu acho que é muito mais desafiante do que trabalhar sozinha. São coisas completamente diferentes e vêm responsabilidades diferentes. Eu agora tenho pessoas que dependem de mim e eu tenho que lhes pagar um salário e há objetivos a serem cumpridos e isso é assustador. Mas, mesmo assim eu acho isso mais fácil do que todos os dias a batalha mental de acordar-

Tomar decisões sozinha.

Sim, estares sempre tu com a tua cabeça. E acho que tu enfrentas mais monstros, porque quando estás rodeada de pessoas e de equipa, falas e vêm coisas ao de cima e trocas ideias e é assim que as coisas surgem. Há coisas que tu estás a dar imensa importância, mas depois vês com uma leveza, porque alguém diz qualquer coisa e tu riste. Quando estás sozinha, és tu e o teu cérebro constantemente no diálogo interno, e eu tiro o chapéu a pessoas que só trabalham sozinhas, porque eu acho mesmo muito difícil.

E no fundo, seres empreendedora, tu podes seguir todos os caminhos que tu quiseres e isso também é difícil, não é? Ter muitas possibilidades à tua frente. Qual é o certo? Eu não sei, ninguém sabe, mas com quem é que eu posso falar para debater para onde ir? Qual é o teu maior desafio neste momento?

Tantos. Olha, eu vou te dizer o que eu acabei de ultrapassar, que eu sinto, era realmente sentir-me em casa aqui. Acho que isso para mim foi um desafio enorme. Não estava à espera que fosse ser tão difícil. E o outro desafio que não sei se ainda está ultrapassado 100%, mas a nível de trabalho e Tarwi, foi de repente não ser uma coisa de dois e ser uma equipa, e é muito mais institucional, ou seja, de repente tu tens que ter uma visão, tens que ter uma estratégia e tens que pensar: "Ok, qual é a minha estratégia agora nos próximos seis meses?" Eu antes disso era tipo, as we go, é as portas que abrirem. Obviamente que havia uma mini ideia, mas era vamos atirar o barro à parede e ver o que é que cola e o que é que faz sentido e por aí. Agora as coisas têm que ser um pouquinho mais estruturadas e tens processo, e tens reuniões de equipe.

E lidar também com outras pessoas. Estás bem? Progressão de carreira, gerir também a cabeça de outras pessoas, não só a tua.

Completamente.

No dia a dia.

Sim, se bem que eu acho que uma coisa boa que nós temos na Tarwe, e eu acho algo que é muito vindo de mim, também de aprendizado, que é: não há nada por dizer. E isso ajuda muito. Eu sou a pessoa mais honesta que tu possas conhecer. Ou seja, se eu tenho um problema contigo, na hora ou segundo que eu sinto que há um problema, eu vou falar contigo e falamos sobre isso. Porque eu sinto que as coisas morrem em conversas que não se têm, coisas que ficam por dizer e tu começas a criar ranço porque eu fiz ou disse alguma coisa com a qual tu não concordavas e depois não disseste nada, e depois isso foi acumulando e de repente tu dás por ti, passou um ou dois meses e estás em Nárnia e odeias-me, e eu estou tipo: "O que é que eu fiz?" E isto foi algo que eu fui aprendendo muito com a Tarwe desde o início, eu acho também o facto da Tarwe ter começado com amigos, obrigou ter conversas muito duras, muito honestas desde o início, porque é completamente diferente uma relação de amizade versus uma relação profissional, principalmente quando eu me despeço para fazer isto acontecer e portanto, tem que haver um alinhamento de prioridades e de objetivos e isso força a ter conversas muito desconfortáveis, mas que olha, por outro lado, fica bastante boa ter conversas desconfortáveis, aprendes a ficar confortável com isso. E eu sinto que hoje em dia isso acaba por ser mais fácil.

Passar pra tua equipe também?

Sim. É sempre um desafio, obviamente, até porque quanto mais pessoas tu trazes com mais diferentes tipos de personalidades e formas de trabalhar, é bastante desafiante.

Olha, estamos aqui a chegar ao fim. Só tenho mais uma pergunta pra ti, que era: se hoje tu encontrasses a Catarina de 15 anos atrás, perdida, que mensagem é que tu lhe darias?

Olha, primeiro eu dava-lhe um grande abraço. E acho que dava um grande abraço, porque eu acho que durante imenso tempo estive em guerra comigo própria. E acho que era mais aquele abraço do tipo: "It's okay."

Vai dar certo.

Sim, vai dar certo. E eu tenho muito isto, tem graça, porque ontem também tive uma entrevista e fizeram-me essa pergunta, perguntaram: "Qual é que foi o maior erro na tua carreira?" E a minha resposta foi não ter apostado em mim mais cedo. E eu acho que era isso que eu lhe dizia, era tipo, aposta em ti mais cedo. Eu acho que durante imenso tempo achava que havia uma regra única de viver a vida, que havia um caminho a seguir e era tipo ou está certo ou está errado. E por causa disso eu nunca me permiti explorar muito, porque eu ia para os-

Dizes a nível também acadêmico. Fazes um curso, saltas pra ter a vida já planeada desde que nasceste.

Sim, eu acho que acadêmico, profissional, ou seja, tudo profissional e pessoal, eu achava que há uma forma certa de ser. Há uma forma certa em termos de aparências, de caminho a seguir, amigos que se têm, há uma forma certa de viver a vida. E eu sempre senti isso e eu acho que começou um pouquinho com a minha jornada depois de ir pra Londres e de eu me encontrar, de chegar à conclusão que não há uma forma certa de viver. E, portanto, aposte em ti e faz as coisas como tu achas. Tem os teus valores bem fixos, que eu acho que isso foi algo que eu aprendi muito tarde na minha vida, foi saber quais é que são os meus valores. Eu só parei pra definir os meus valores há seis anos, eu não tinha escrito num papel. E usar isso um pouquinho como a minha bússola, que é, não há um caminho certo, simplesmente eu sei que eu quero ser honesta, eu quero ter coragem e, portanto, é quando eu sinto alguma coisa, dá um caminho, é tipo, estás com medo, estás a fugir. E isso é um pouco o que guia as minhas decisões, tudo o resto, olha, é o que for.

Achas que tinhas chegado a esse ponto se não tivesse ido pra Londres?

Não. A melhor coisa que eu fiz foi sair daqui. Eu juro, porque imagina, eu adoro Lisboa e eu sou mega sortuda, e os horrores, meus pais vão ouvir isto e devem achar, as pessoas acham que eu-

Não gostam de nós.

Exatamente. E de todo, os meus pais são inacreditáveis, eu tenho uma ótima relação com os meus irmãos, super sortuda, uma ótima casa, andei num colégio privado, a minha vida foi ótima, mas também foi muito protegida. E eu acho que a bolha, eu ia dizer o problema, eu não sei se é um problema, mas a dificuldade de tu nunca saíres da tua terra mãe ou da tua cidade mãe, é que tu tens uma rede de apoio enorme, e isso não é mau, mas é muito difícil tu cresceres se tu não estás fora da tua zona de conforto. E estar fora da nossa zona de conforto não é uma coisa fácil ou agradável de se estar. E, portanto, às vezes é mais fácil quando te atiram aos tubarões e é salve-se quem puder e desenrasca-te, do que é tu estares na tua zona de conforto e ires atrás desse desconforto. Não estou a dizer que não pode acontecer, eu acho que é mais difícil tu ires à luta. E eu acho que nunca teria ido à luta, porque nunca teria achado que seria capaz. Porque eu sempre fui muito protegida e, portanto, nunca estive fora dessa proteção. E foi quando eu cheguei a Londres e de repente era: "Eu não conheço aqui ninguém e é um sistema financeiro que eu não conheço, e tenho que abrir uma conta no banco, e como é que as coisas funcionam, o sistema de saúde é completamente diferente." E eu tive que aprender a "rely on myself" de uma forma que aqui nunca teria, porque qualquer coisa, tipo, mãe.

Provavelmente nem sequer terias chegado à Tarwe.

De todo, eu estava neste momento pra ir trabalhar na Deloitte.

And now we're here.

And now we're here. Sim, eu às vezes dou por mim. Tu tens noção, eu às vezes gostava de estar na Arábia Saudita e ter uma câmera ao meu lado, porque estou eu no meio de toda uma cultura completamente diferente.

Mas devias ter uma câmera ao teu lado, Catarina.

Eu estava a dizer à Ana, eu acho que o próximo hired marketing devia ser um full time videógrafo pra filmar o behind the scenes.

Behind the scenes of Tarwe.

Porque estou eu, principalmente na Arábia Saudita, que é 90, na parte de business é homens, 100% Então sou eu rodeada de homens, todos eles com os seus, não é burca, não sei como é que chamam. Culturalmente é completamente diferente e eu pensar: nem se tu me dissesses há três anos atrás.

Que isto ia estar a acontecer, eu acreditava.

Isto foi do nada, isto surgiu-me no verão do ano passado. Eu nunca faria ideia que era aqui que eu ia chegar, por isso é que eu estava a dizer isto do apostar em ti própria, porque eu acho que quando tu apostas, o mundo abre-te portas que tu nem sabias que existiam e é mega assustador. O meu slogan de vida é "be brave enough to live," porque eu estou constantemente com medo. O Pedro, que foi uma das pessoas que começou a Tarte e que entretanto saiu, estive com ele no fim de semana passado e ele estava a perguntar como é que estavam as coisas e eu disse: "Sinto que eu estou constantemente com medo." E disse isto meio triste, porque tenho imensa pena de eu estar constantemente com medo, eu não adoro viver a vida assim. E a resposta dele foi: "Aren't we all?" Eu acho que realmente, todos nós, de certa forma, temos algum medo em nós por alguma coisa. Ou seja, para mim é: "E se a Tarte Week corre mal? E se estou a fazer isto errado?"

Mas o medo é uma coisa boa.

Sim, eu acho que o medo é saudável e é natural.

Significa que estás fora da tua zona de conforto. Estás te a desafiar.

Depende de como tu lidas com ele.

Desde que não seja um impeditivo, se te está a fazer avançar.

Sim, eu sinto é que muitas vezes para mim, às vezes o medo congela-me e eu não adoro isso. É como é que tu sentes medo, e é tipo: "Vai de cabeça, enfrenta, não penses demasiado, vai." E eu sinto que muitas vezes o meu default ainda é tipo. E por isso é que eu gosto tanto do escrever, porque às vezes eu sinto medo e nem sei que estou com medo.

Te está a bloquear. Olha, Catarina, adorei a nossa conversa. Obrigada por teres alinhado.

Não, obrigada pelo convite.

Estou ansiosa por provar tudo da Tarte. Espero que corra mesmo bem, está super giro e mesmo diferente.

Obrigada. Espero que gostes.

És mesmo uma inspiração a nível pessoal, de tudo o que já passaste e enquanto empreendedora também, ainda mais.

Obrigada.

Obrigada, Catarina.

Obrigada.

Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume?