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Hoje vou trazer aqui uma convidada que quando eu comecei a preparar este episódio eu percebi que tínhamos bem mais coisas em comum do que eu achei, porque é uma pessoa que veio para Lisboa quando tinha 19 anos em busca do sonho, neste caso, o sonho da comunicação. A Maria Petronilho hoje em dia trabalha na MegaHits, está no The Voice Portugal, na televisão, e com 24 anos já conquistou imensa coisa. Veio para aqui para Lisboa sozinha, de Coimbra, sem saber basicamente como entrar neste mundo, nem saber aquilo que queria fazer, um bocadinho à descoberta de como crescer num sítio completamente sozinha. Então eu identifico-me muito com ela, porque eu também vivi um bocadinho dessa fase quando tive a minha mudança para Lisboa para tentar encontrar o meu caminho, neste caso, no digital. Portanto, a conversa que vamos ter aqui hoje vai ser muito à volta de: ainda não sabemos bem qual é o caminho certo a seguir e sentimos que estamos nos 20 e que temos de ter sucesso rápido, de alguma forma, e ao mesmo tempo em que nos sentimos completamente perdidos, porque ainda nos estamos a descobrir, ainda não sabemos quem somos. E é uma fase que é um bocadinho ingrata, porque estamos a passar por tudo isto longe de casa e sem aquele apoio perto que nos faz falta nesta fase de crescimento também. Identifico-me também muito com a Maria, porque ela, apesar de estar no mundo da comunicação, nunca esteve e não está numa caixinha só. Falamos também de equitação, que também é um grande sonho dela. Falamos de ela ter tido uma marca de biquínis que hoje em dia também decidiu terminar. Portanto, foi uma pessoa que está constantemente a meter-se em coisas novas, a querer explorar outras áreas, a querer experimentar e acho que é disto que os 20 são sobre isto. É sobre experimentarmos, é sobre arriscarmos, é sobre crescermos no caminho, mesmo que hajam coisas que correm bem e outras que não correm tão bem e que fazem parte do processo. Portanto, acho que para quem está a passar um bocadinho por esta fase ou que já tenham passado, provavelmente vão se relacionar, se também sentirem que são pessoas que gostam de explorar todas as áreas que gostam, todos os temas e tentar coisas novas sem medo, ir atrás e arriscar sem medo. É muito sobre isto que vai ser esta conversa, portanto, eu espero muito que vocês gostem. Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume?

Ai, não.

Não? Sabes que tens 24.

Tenho 24.

Fiquei mesmo surpreendida.

A sério?

Não pareces nada que tens 24 anos.

Pensavas que era mais nova?

Achei que eras mais velha.

A sério? Eu tenho uma irmã dois anos mais nova e estão a dizer: "Ela é mais velha." E eu digo: "Não, come on."

Por acaso a tua irmã é bem vis-- vocês parecem mesmo gêmeas.

De quem?

Tu e a tua irmã.

Sim, mas aí somos iguais. Ela agora cortou o cabelo pelos ombros, ela quando tinha o cabelo comprido.

Iguazinhas.

Eu estive este fim de semana lá em Coimbra, eles estão nos cavalos, voltamos as duas. Elas estavam em competição e bué malta conhecia o namorado da minha irmã, já há anos, e conhecia também a minha irmã, chegava, cumprimentava-me, dava um grande abraço e eu: "Tu não me conheces." E tipo: "Sim, então?" Abracinhos, beijinhos. Depois, entretanto, chegava a minha irmã e as pessoas faziam: "Ai, desculpa, eu dei-te um abraço, achava que eras a Joana."

Mas ela é mais velha?

Ela é mais nova, dois anos. Também é um escodez. Imagina eu dizer: "Olha, não me vais dar um abraço, sabe bem, porque não sou o namorado da Joana."

Não, isso acontece com gêmeas, agora assim com irmãs, com distância de dois anos.

Ficamos cada vez mais parecidas. Normalmente é crianças e depois afasta completamente e estamos iguais.

E a tua irmã está em Coimbra?

A minha irmã está em Coimbra. Ela odeia Lisboa. Eu digo: "Vamos lá jantar em Lisboa." E ela: "É só trânsito." Não é nada, é trânsito às 18h, eu não vou estar em Lisboa às 16h. Não entendem muito bem. Eu sei, mas ela ainda não deu sequer a oportunidade. Então está só, eu odeio Lisboa, e eu disse: "Ok, mas se vai haver uma competição de cavalos em Lisboa?" "Sim, vou." É aquilo que ela gosta. Eu adoro ir para Coimbra, porque dá para sair da cena toda, parece que vou para o campo. Então prefiro mil vezes ir lá e estar com eles do que propriamente estar a chamar e ter 400 planos que têm obrigatoriamente que correr bem, senão ela mete-se no primeiro comboio que houver para Coimbra. Bem, é a mesma relação com o trabalho. É, ela tem um feitiozinho lixado, eu sou mais tranquila, ela é lixada. Quando tu quiseres.

Pronto, é que podemos assim continuar esta conversa.

Boa.

Exato, porque uma coisa que eu também queria falar aqui contigo era mesmo sobre esta cena de Lisboa, Coimbra, ou seja, a tua família continuou toda em Coimbra?

Toda.

Tu vieste para aqui com 19 anos?

Sim.

Como assim?

É assim, eu tenho a minha sorte de viver com a minha avó.

Ah, ok. Está um bocadinho em casa, fora.

Exato, é um bocadinho em casa, ainda que eu desde criança nunca tive muito o hábito de vir a Lisboa com os meus pais, então a minha relação com a minha avó era se calhar a mais distante que eu tinha aos meus 19 anos. Não a mais distante, mas não era tão próxima como a minha família em Coimbra. E foi muito giro, porque ao longo destes seis anos que eu já estou em Lisboa, isso é estranhíssimo de dizer.

E tu tens 24. Eu estava até a dizer, fiquei megasurpreendida, achei que tinhas a minha idade.

Maria, tu foste a primeira pessoa que disse que eu parecia muito mais velha do que era, portanto eu estou minimamente feliz.

Ficas feliz?

Fico feliz, mas pensar que já estou há seis anos em Lisboa é mesmo estranho, porque não me sinto assim tão crescida para estar a dizer que estou há seis anos a estudar e a trabalhar. E vir para Lisboa viver com a minha avó foi giro, porque durante estes seis anos nós criamos uma relação mesmo de amigas. Eu estou a arranjar, a minha avó está a ver, depois ela dá-me os produtos dela, dá-me roupa que ela nunca usou e gosta de usar. Portanto, essa relação com a minha avó foi construída e então consegui ter um bocadinho de casa em Lisboa, mas ainda é muito duro ter toda a minha família em Coimbra. O meu irmão agora foi pai, o meu sobrinho fez um ano, portantoTodo o grupo do WhatsApp da família está ali constantemente, todos os dias, conviver em jantares, em famílias, e eu estou em Lisboa.

Sentes que falhas a muita coisa?

Sinto. E às vezes bate-me ali um bocadinho aquela saudade de Coimbra e de não estar a ver tudo a acontecer. Receber maioritariamente as maiores conquistas da minha família, seja da minha irmã, do meu irmão, do meu sobrinho que começou a andar, e receber tudo por WhatsApp, ou receber tudo por chamada. E às vezes eu desligo as chamadas e fico tipo: "Não acredito, estou a perder isto tudo, estou a perder o meu sobrinho a andar, estou a perder a minha irmã a criar o negócio dela, estou a perder um almoço de família."

Isso faz-me tanta confusão, por exemplo, os almoços de domingo, não estar lá.

Sim, o almoço.

Coisas assim tão simples.

Eu estou em casa ou estou com as minhas amigas a um domingo, não me faz sentido. Felizmente, com as minhas amigas fomos criando um bocadinho, porque nenhuma delas é propriamente de Lisboa, então estamos assim todas um bocado deslocadas, e fomos criando também essa parte de: "Ok, não estamos em casa, não estamos com a família, bora reunir-nos." E criámos assim essa parte familiar.

Essa dinâmica.

De estar com as amigas e que é muito bom, mas ainda me deixa, e acho que nunca me vai deixar de incomodar, ainda que eu esteja superfeliz cá em Lisboa a fazer o que realmente gosto.

Eu estive três anos a viver aqui, eu pensava tantas vezes: "Porra, por que a minha família não vem viver para cá?" Era tudo perfeito!

Exato.

Eu tenho tudo aqui, tenho os amigos, tenho o trabalho, tenho tudo, falta a base.

Depois, sabes que eu acho que o facto de eu poder ir para Coimbra, porque às vezes estou super irritada de não estar na minha cidade a fazer o que eu gosto, por que as coisas têm que ser assim dessa maneira. Mas depois também penso: Coimbra é o quê? Duas horas de carro. Ok, calma, não estás a viver na Alemanha ou num país como a Austrália, mesmo longe. Está a duas horas. E depois também comecei a criar, ou pelo menos a querer olhar, para não me bater tanto essa tristeza, de é um fim de semana que vais viajar para fora. É um fim de semana que vais para fora, é um fim de semana que vais completamente desligar tudo o que fazes aqui em Lisboa e tudo o que esteja sequer relacionado com trabalho e vais para o campo, vais para casa, vais para uma cidade muito mais pequena, que não tem tantas pessoas e não tem tanta confusão. Então agora que comecei a olhar para isso, sempre que tenho um fim de semana já combinado de vou ter com a minha família, é mesmo tipo ok, vou.

Associas mesmo a desligar, ficar mais calma.

Então agora acho que já estou mais tranquila.

Gostas desse equilíbrio, desse balanço?

Sim, é ótimo.

E quando tu decidiste: "Vou para Lisboa, vou tentar, vou estudar e vou tentar trabalhar em comunicação," qual é que era a tua missão, o teu objetivo? Tinhas um plano definido ou foi tipo deixa ver o que é que dá?

Olha, eu tive muita sorte com os meus pais, porque eu fui fazer o 10º ano em Ciências em Coimbra. Queria ser médica e queria continuar em Coimbra. Lisboa nunca sequer foi uma opção, porque eu nunca vim muitas vezes para Lisboa. Sabes quando eras miúda e chegavas a Lisboa e era tipo: "Onde é que eu estou? Isto parece um país completamente diferente."

Estranho.

"Estou no estrangeiro." Bué coisas a acontecer. Então Lisboa sempre foi uma coisa muito estranha. Eu vinha para ir à Kids Zone e ia-me embora. Portanto, nunca me passou pela cabeça, sendo que ninguém da minha família, a não ser a minha avó e os meus avós e os meus tios que estavam em Lisboa, mas também iam muitas vezes a Coimbra. Portanto, isso foi todo um plano que os meus pais me foram ajudando a construir. Eu disse-lhes, sentei-me com eles na sala, completamente a tremer das mãos e disse: "Eu não quero mais ciências, eu não quero mais medicina." A minha professora de físico-química disse que eu era péssima a matemática, sou horrível com notas, os meus amigos gozam. Era motivo de gozo, mas não de mau gozo, não de bullying, era mesmo engraçado, que eu era genuinamente péssima aquilo. E a minha professora de físico-química, lembro-me mesmo bem, foi uma visita de estudo e ela disse-me que eu não precisava de me sentir mal de não ser boa naquilo, que eu não precisava de querer seguir aquela área, ia ter que me matar a estudar. Não era algo que era natural meu, ser boa a matemática, ser boa a biologia, ser boa a físico-química. E ela disse: "Tu falas tanto nas aulas, não queres, sei lá, experimentar comunicação, experimentar outra área, jornalismo, tens tanta coisa, ser professora." E a parte da comunicação, de facto, aí fez-me todo o sentido e eu nunca tinha pensado, se calhar porque também nunca tinha ligações a tal. Ou seja, eu adorava ver televisão, adorava ouvir rádio de manhã a ir para a escola com a minha mãe, mas era um mundo muito estranho.

Se calhar olhavas para isso como: "Não, são só os famosos que chegam lá."

Exato, era muito distante. Era tipo: "Isso é Lisboa, isso é um mundo completamente à parte. Eu sou muito ligada à minha família, eu não quero sair daqui. Vou ser médica." Foi um bocado por aí. Também não sabia muito bem o que é que queria fazer. E os meus pais disseram: "Ok, então olha, se calhar se a tua professora te sugeriu, a madrinha da tua irmã até está na parte da comunicação, vai ver o que é que ela faz, vai investigar um bocado e se isso te fizer sentido, nós ajudamos."

Isso é ótimo, eles darem-te essa abertura.

Eu fiquei chocada. Eu fico tipo: "Ok," então era só isto? Eu estou aqui a tremer toda, não consigo beber e comer, mas sei lá, é um bocado estranho. Existe aquele tabu do agora já foste estudar e é impossível mudares de área, esquece. E eu achava mesmo que os meus pais não iam ser tão abertos com: "Ok, queres mudar de área? Muda. Tranquilo, é um ano." E mudei. Pronto, mudei, eles disseram: "Ok, mas se vais mudar, então que seja um plano já minimamente definido e que não vás também às três pancadas para uma área que se calhar até pode nem correr bem."

Mas não estavas assustada? Uma miúda tão nova a tomar assim uma decisão que parece gigantesca.

Estava, e ainda por cima, porque no 10º ano é quando tu crias os teus amigos para o resto da vida. Eu tinha os meus amigos todos do 10º de Ciências.

Pois, trocar o círculo todo nessa altura.

Ir eu para uma turma completamente desconhecida, de malta mais nova, que naquela idade é bué estranho.

Bué cliquinha.

De 2001 para 2002, 2002 para mim já são bué novos. Então ia estudar com malta de 2002, para Humanidades, uma área que eu nem sequer sabia se ia gostar, mas os meus paisConfiaram bué e disseram que o processo ia correr bem. Eu adorei Humanidades. Eu tinha ótimas notas a História, eu adorava estudar Marx, eu disse: "Eu quero ser professora de Marx." Do nada, eu já queria ser imensa.

Quero ser professora de Marx.

Porque eu tinha vindo uma área que eu, de fato, não era mesmo nada boa. Eu era péssima a tudo. E do nada, tiro tipo um 18 a Marx, e eu: "Ah, eu nasci para Marx." Foi tipo as primeiras notas que eu recebi. Pronto, e fiquei bué entusiasmada, Humanidades correu super bem. Fiz amigos para a vida que ainda hoje em dia tenho. Os meus pais tranquilizaram-me muito e depois disseram: "Olha, se quiseres Comunicação, se calhar o melhor é mesmo Lisboa." E foi um choque, tu não tens noção. Imagina, em Coimbra, eu nem vivo bem no centro, é mais tipo aldeia, e os meus pais estarem a me dizer Lisboa. Bem, eu já me estava a imaginar-

Vou estar lá sozinha, não vou ter amigos, como é que eu vou fazer?

Sim, e o viver com os avós e estar a viver fora de casa. E isto parece um bocado parvo, mas eu tenho a sorte de viver numa casa em Coimbra e os meus avós vivem num apartamento em Lisboa.

Faz diferença.

É um choque, é uma estupidez estar a dizer isto.

Não é uma estupidez, eu sempre vivi em casa e numa cidade mega pequenina. Ou seja, é mesmo vida de bairrinho.

É completamente diferente.

Nós saímos à rua muitas vezes não trancamos a porta.

Sim, eu saio à rua descalça, atiro o lixo e vou descalça.

É muito diferente.

Sim, então aí foi um choque. Foi um choque Lisboa, foi um choque usar transportes, o metrô. O metrô é real, o metrô não é só lá fora, nos outros países. Tudo e mais alguma coisa, foi um grande choque e foi principalmente porque fui mesmo sem ninguém em Lisboa. Eu não conhecia ninguém da minha faculdade. Aquilo de forçar a ter amigos, para mim era buéda estranho. Eu ia para a casa de banho todos os primeiros intervalos da minha faculdade.

Para te esconderes.

Exato, para me esconder. Eu pensei: "Maria, tu tens 19 anos, 20, o que estás a fazer na casa de banho?" E tipo: "Ok, então vá, agora vou ver vídeos aqui, são 20 minutos de intervalo." Porque eu estava mesmo em pânico. É muita coisa a acontecer.

E se calhar, não sei se sentiste isso, mas há muita gente aqui em Lisboa, quem não é deslocado, que já tem os seus grupos, e então é isso, entrar.

Eu tenho os meus grupos, é malta só de Lisboa.

Estão habituados a ir tomar café ao fim do dia, mesmo que estejam a estudar noutro sítio, eles encontram-se sempre porque já têm os grupos formados.

Os locais são os mesmos. Agora que já estou há imenso tempo em Lisboa, eu percebo. Fazia exatamente a mesma coisa, ir para os mesmos sítios, combinar com a mesma malta. Eu agora que já tenho o meu grupo de amigos, às vezes se calhar não penso se estivesse na faculdade: "Quem é que está aqui deslocado, quem é que quer entrar no grupo?" E foi giro porque os meus pais, e principalmente a minha irmã, que na altura era novíssima, tinha 16, 17 anos, também me ajudou imenso de: "Não, tens de fazer amigas, vai, no máximo o quê? Ela diz que não quer ser tua amiga. Pronto, ok, não quer, acabou." E foi giro, porque depois a faculdade também ajuda imenso de trabalhos de grupo e fez com que eu fui começando a criar o meu grupo de amigas, depois praxe em Lisboa.

Fizeste?

Não é muito conhecida, a praxe em Lisboa não faz muito sentido. E na altura eu estava tão triste de não ter a experiência académica de Coimbra, que é a cidade dos estudantes, que eu obriguei mesmo a ir para a praxe. Aí também não conhecia ninguém, eu estava tipo: "Meu Deus, eu estou-me só meter."

Quero voltar para casa.

Quero voltar para casa, eu quero ir para a praxe de Coimbra, eu quero estudar em Coimbra. E o primeiro ano foi mesmo muito difícil a estudar. Ainda por cima porque eram cadeiras muito teóricas, e muito estudo, e muitos livros, e tipo: "Onde é que eu me fui meter?"

Tiraste o quê? Comunicação...

Comunicação Social e Cultural na Católica. No primeiro ano eu estava a odiar aquilo. Estava a odiar. Não tinha nada de comunicação em si, nada prático. Eu acho que sempre gostei muito de coisas práticas, mesmo em ciências, quando nós tínhamos que ir para o laboratório, eu adorava aquilo, que era muito mexer e aprender coisas práticas.

Se calhar tu pensas num curso de comunicação, é tipo: "Eu vou testar ser apresentadora, vão me pôr ali no green screen para gravar."

E de fato iam, mas era no terceiro ano.

Muito mais para frente.

E tradição dos grandes livros e teorias da cultura, e não sei das quantas, eu estava a odiar. Comecei a pensar: "Eu não quero estar em Lisboa, eu estou fora da minha casa, longe da minha família, o que eu estou a fazer à minha vida?" E os meus pais sempre ali: "Não, vai, está certo, calma. Também não pode ser tudo de mão dada. Tu queres ir fazer cenas práticas, vais chegar no terceiro ano, agora esforça-te e estuda." Depois também ajudou o Erasmus, porque saí, fui outra vez conhecer mais malta nova, e nessa querida foi mesmo giro. Adorei, grande experiência, muito prático, foi mesmo fixe, e foi meio aí também que eu comecei a perceber, ok, eu quero a área da televisão, eu quero a área da rádio, que era a área do marketing, também que estava ligada à comunicação. E depois tive as cadeiras obrigatórias de rádio, na Católica, que as minhas amigas todas já tinham tido nos outros semestres e me disseram que era uma seca e que era horrível, porque íamos estar a ouvir a nossa voz e tudo mais alguma coisa, e eu fui, experimentei, e a partir daí Lisboa começou a me fazer todo sentido.

Mas foi a partir daí que fez o clique que pá.

Sim, eu tinha as minhas amigas, mas ainda ia quase todos os fins de semana para Coimbra, porque senti que não tinha um propósito. Então todos os fins de semana eu ia para Coimbra ou durante a semana na faculdade combinávamos coisas com as minhas amigas e aí pronto, a vida académica fazia sentido, ia à praxe, também era gira, e tinha um pouquinho de Coimbra. Mas quando eu me apercebi que podia ser boa a fazer rádio, aí fez todo o sentido, porque as rádios são em Lisboa. Se eu trabalhasse em rádio, eu teria que ser cá em Lisboa, e fez-me sentido começar a pensar numa vida cá. Antes não.

E nunca pensaste: "Estou a sonhar demasiado alto em querer um percurso em rádio."?

Eu só não achava que sonhava demasiado alto, porque para mim era uma opção eu fazer rádio para Coimbra, por exemplo, para a RUC, para a Rádio Universidade de Coimbra, ou para uma rádio local em Torres Vedras. Eu gostava mesmo de fazer rádio e nunca para mim foi um choque, porque nunca pensei: "Eu quero é ir para a Mega, eu quero é ir para outra rádio grande." Não, eu queria ir para a rádio e rádios locais existem milhares.

Ou seja, nunca definiste contigo um goal, tipo: "É para isto que eu estou aqui, eu quero atingir isso, se eu não tiver, então vou voltar para casa."

Se rádio e televisão não funcionassem, eu queria ir para a EspanhaTrabalhar. Porque tive Erasmus em Espanha, em Valência, adorei. Sinto que sou metade portuguesa, metade espanhola, porque adorei, fez mesmo fit com a minha vida. Adorei estar em Espanha e adoro ir várias vezes durante o ano.

Era o teu plano B.

Era o meu plano B. O meu plano C era ir pra Coimbra, porque como já tinha tido toda a experiência e envolvência de Lisboa, e a verdade é que eu adoro Lisboa e faz todo o sentido, tudo e mais alguma coisa do que está a acontecer.

Sentes-te em casa?

Agora sinto. É estranho. Não me sinto tão em casa, obviamente, mas consigo sentir-me em casa e acho que isso é bom, porque também fui construindo a minha vida e às vezes já não vou tantas vezes a Coimbra porque tenho as minhas amigas e temos um jantar combinado e já me faz sentido ficar e já estou mais tranquila em perder, entre aspas, o que está em Coimbra, porque é a minha vida. Não posso estar constantemente a culpar-me.

E não podemos estar tanto a dramatizar, porque é pouco tempo de distância. Imagina, há pessoas que fazem isso de commute diário.

Completamente.

Pensa pessoas que moram no Brasil e fazem essa distância diário. Portanto, se tu precisares de estar lá em algum evento, provavelmente também consegues estar.

Às vezes, por exemplo, a minha mãe faz anos numa quarta-feira, eu vou jantar a Coimbra. E está tudo bem. E algo que também me tranquilizou foi, na altura em que eu quiser ter filhos, quiser estar casada, tudo e mais alguma coisa, eu também vou ter a minha vida numa casa completamente à parte e também vou eventualmente perder coisas da minha família. Não vou estar a viver com os meus pais e com a minha irmã e com o meu sobrinho, todos numa casa para não perder nada.

Tu pensas em Lisboa como uma fase ou achas que vais estar o resto da vida aqui?

Vou ficar e quero ficar.

Achas?

Ya, faz-me sentido. Especialmente se continuar e se puder continuar a fazer aquilo que gosto.

Pois, porque o teu trabalho também implica muito o estar cá. Impossível.

A não ser que eu pegasse neste microfone e fosse pra Coimbra pro meu quarto e fizesse rádio a partir de lá e do meu programa. Isso também não me faz sentido. Toda a envolvência do trabalho físico cá em Lisboa é o que eu mais gosto. E mesmo na parte digital, quando temos os events, quando temos este momento aqui, é cá, eu não consigo fazê-lo noutra cidade. Nem me faria sentido.

Sim, imagina, eu estou a morar no Porto, mas eu tenho vindo quase todas as semanas a Lisboa. Faço essa commute.

E faz-te sentido essa...

Porque eu já estive aqui vários anos e eu não tenho um trabalho como tu, em que eu tenho todas as semanas, todos os dias, de estar presencial. O meu trabalho é móvel, é comigo. Portanto, eu tenho é coisas que acontecem aqui em Lisboa e faço por estar aqui também. Mas também não dramatizo isso. É a minha realidade e está tudo certo. Eu pego um autocarro, são três horas.

Vens de autocarro?

Venho.

Eu odeio!

Venho sempre.

Eu curto bué do comboio, vou dormir e tudo mais alguma coisa, mas eu autocarro já tive tantas más experiências.

Eu adoro.

Odeio os autocarros.

É que imagina, a meia hora, estou no Uber. Então estou a ir, já estou a marcar o autocarro e se for o comboio, eu tenho que marcar com antecedência.

Percebo, ya.

A logística é muito mais fácil.

Sim. Não, mas as viagens fazem-se superbem. E se eu não gostasse tanto de fazer rádio como gosto, o meu objetivo a longo prazo era ter uma vida também assim super móvel, em que conseguia estar uma semana em casa, em Coimbra, com a minha família, a trabalhar de casa e depois eventualmente precisasse vir uma semana pra cá, vinha. Mas como eu gosto tanto de fazer aquele programa de rádio e ser isso algo da minha rotina diária, aí já estou mais tranquila em "OK, pronto, se calhar aos 50 anos," eu tenho essa vida remota, está a ver? Que dá pra andar de um lado para o outro.

Imagina, pode eventualmente depois fazer-te um clique mais tarde, quando tiveres filhos, não sei. Imagina, eu estava a morar aqui e sempre disse: "Eu quero criar família aqui, em Lisboa."

A sério?

Eu estava a morar em Campo de Ourique, eu adorava a minha rotina de bairrinho, eu estava a amar estar em Lisboa. Depois fez-me um clique. Aconteceu.

E quiseste voltar.

E quis voltar. E não digo que um dia não queira voltar a vir pra cá. Acho que é fase e está tudo certo.

É estar tranquila com as fases da vida e aceitar o que te apetece na altura.

Na altura, custou-me imenso a tomar a decisão, porque pensei, é definitivo, depois as pessoas vão associar-me a eu estar no Porto e depois vou desiludir pessoas se eu quiser voltar pra Lisboa. Não, está tudo certo.

Eu achava mesmo que tu estavas em Lisboa.

A sério?

Ya. Portanto, desapareceu completamente. Achava mesmo.

Por quê? Literal, estou sempre cá. As pessoas perguntam sempre: "Onde é que estás? Estás no Porto ou Lisboa?" É sempre assim.

Sim. Não, eu fins de semana, houve uma altura em que eu cancelava tudo e mais alguma coisa que eu tinha cá aos fins de semana, que eu pensava, não, é obrigatório eu ir pra Coimbra. E toda a minha família depois também me ajudou. Eu tenho bué da sorte nisso, porque tranquilizam-me imenso de "pá, não precisas vir todos os fins de semana. Tu também precisas descansar um bocado, de aproveitar a tua vida em Lisboa, estar com os teus amigos, com a tua rotina."

Combinar também que é bem importante.

Ya, combinar uma cena durante a semana com as minhas amigas é completamente combinar um fim de semana em que vamos estar o dia inteiro tranquilas a fazer o que nos apetece, ou mesmo eu sozinha, a fazer as minhas coisas em casa.

Arrumar a casa também.

Ya, que é importante. E houve um ano, há dois anos, foi quando eu entrei na Mega, que eu todos os fins de semana ia pra Coimbra e eu nem era exausta de trabalho, porque felizmente tenho uns horários fixes e consigo conciliar isso, mas a nível de ok, sexta-feira, não sei o quê, às 8:00 da noite, sai, vai pra Coimbra, não sei quantos. Eu só vinha segunda-feira de manhã e ia direto pro meu trabalho. O fim de semana era a correr. Porque depois eu no meu próprio fim de semana estou tão preocupada em estar com toda a gente e não perder absolutamente nada que andava a correr sempre de um lado pro outro.

E depois se calhar quando vais a Coimbra tens que picar os pontos todos e não podes deixar ninguém de lado.

Sim, e ainda hoje em dia é assim. O meu irmão liga-me: "Olha, vou dar banho ao meu sobrinho." Ok, eu vou. A minha irmã: "Olha, agora eu vou andar a cavalo." Ok, eu vou. "Olha, agora a minha mãe vou lanchar." Ok, eu vou. Então eu ando o fim de semana inteiro, que é tipo...

Sim, já que não estou cá, quando estou lá tenho que ir a tudo. Mas isso é uma pressão que tu estás a colocar em ti própria.

Sim, claro. Não são eles.

Claro.

Sou eu que sinto mesmo, eu já estou a perder tanta coisa durante a semana que durante o fim de semana não quero perder nada.

Eu estou aqui para vocês todos.

Eu vou, eu tenho 4 mil braços e sete carros e ando sempre de um lado para o outro. Mas acho que também ao longo de...

Vais encontrando um equilíbrio.

Ya, vou encontrando um equilíbrio e já estou cada vez mais tranquila com isso. Antes era estresse autêntico.

Olha, a última vez que eu estive aqui, na semana passada, fizemos uma coisa muito gira.

Foi giro, mas eu não andei. Eu não andei, eu não mexi os braços. Eu desci e doíam-me os abdominais, tu não tens noção. Mas foi mesmo fixe, eu gostei bué. E isso também é uma coisa que eu tenho estado a obrigar, que é ter essa parte mais obrigatória, rotina pessoal minha, de ir treinar.

Porque tu estavas me a dizer que tu tens feito todas as semanas, pilates, mesmo certinho.

Sim, voltei agora pra equitação. Só tinha equitação em Coimbra, meti cá também numa escola cá. E adorei ter ido treinar, porque foi mesmo fixe conseguir conciliar algo que eu tinha projetado pra mim a nível pessoal, tipo ir treinar e tirar tempo pra mim, e trabalho, que também é uma coisa que adorei. Eu quero muito ver o vídeo.

Pronto, porque é assim, eu quando me desafiaram a fazer pilates, eu pensei logo: "Ah, eu sou das corridas, isto pra mim vai ser fácil, não vai custar nada." Sabes? Mas foi um grande desafio.

Ya, aquilo é puxado.

Foi muito puxado. E eu já fiz uma ou outra aula de pilates reformer, que foi o que nós fomos fazer, mas aquela foi duríssima.

Também puxaram por nós.

Puxaram. Ele queria ali as nossas reações.

Mas sabes que eu acho que é fixe puxarem por nós, principalmente eu, que a nível pessoal eu tipo, se não puxarem por mim, eu não vou fazer nada.

Sempre pensei que eu estou num PT, pra ele puxar por mim todos os dias.

E ele foi muito fixe.

Pronto, mas olha, nós hoje estamos aqui com o apoio da Tampax, que estão agora com uma campanha que se chama "Estou In" e portanto desafiaram-nos a nós estarmos in pro plano de pilates reformer. No fundo, é uma campanha muito à volta de nós nos sentirmos livres, prontas pra fazer qualquer coisa, seja no verão ou noutra altura qualquer. E nós fomos então fazer uma aulinha de pilates reformer, filmaram toda a experiência e temos um videozinho pra ver.

Eu quero muito ver. Quero muito ver o vídeo.

Está mesmo pró.

Depois não fiz nada. Vai experimentar. Muitas vezes vais amar. Maria, trouxeste os tapetões? Ah, sim, tenho mesmo. Quer já? Não, agora estou confortável. Obrigada.

Nós duas felizes tipo à la né.

Agora não grave. As reações tão épicas.

É mesmo um desafio. Achei que ia ser fácil, não é? Vai mais uma.

Nós a tremer todas.

Isso mesmo. Aqui. Não é?

Não é ali.

Quem é que nos trouxe para aqui?

Este foi horrível.

Odiei este.

Roubei-lhe um. Esta parte tem balanço.

Devíamos ter feito isto o treino todo, assim fingíamos que estávamos a treinar.

Aqui foi quando nós demos um berro, quando soubemos que era alongamento.

Ainda por cima porque o André estava a fingir que nós íamos fazer outro exercício.

Tens aqui estes novos também são os super.

Olha, se calhar primeiro-

Eu já usei os super todos.

Esses?

Quero muito experimentar.

Olha, agora descer as escadas depois do treino.

Estão todas a tremer. Não sei como é que não pingei.

Adorei, quero muito voltar. E não somos só nós que podemos ter estas experiências. A Tampax dá-te a liberdade com oferta de 500 € pra poderes ter as tuas aventuras.

Está giríssimo.

Ai, gostei muito.

Está lindo.

Podemos ir treinar outra vez.

Bem, mas foi giríssimo.

Eu adorei.

Adorei.

Eu quero este vídeo.

Está épico, as mesmas reações.

Está mesmo giro e eu acho que nós fomos guerreiras autênticas, porque o André não poupou.

Ya.

Ele não poupou.

Eu fui pra lá, imagina, era às 08:00 eu, na minha cabeça era tipo: "Não, nós vamos fingir que vamos fazer alguma coisa."

Eu também achava.

Porque é tipo, é pra um vídeo, não sei o quê. Não, foi uma aula e foi das mais puxadas que eu já fiz.

Ele também não deixou. Nós queríamos estar a descansar ou a ver se, por exemplo, havia partes em que o nosso videógrafo estava a gravar e eu estava a descansar. Tipo, não, agora grava.

Não, é pra fazer a aula a sério.

E o André tipo: "Maria, estás parada?"

Não é suposto ficar só bonita pro vídeo? Não, não, de todo.

Foi mesmo fixe.

Foi muito giro.

E a cena de passado um, dois dias estarem a doer os músculos.

É bom sinal, é ótimo. Eu adoro essa sensação.

Eu adorei.

Sinto que treinei.

Sim, exatamente. Agora estava com vontade que este vídeo, por motivos random desaparecesse e nós tivéssemos que ir fazer outra vez. Foi mesmo divertido.

Temos que combinar outra vez.

Exato. Foi mesmo ótimo.

Olha, e assim um bocadinho sobre menstruação, histórias de como é que isto tudo começou na tua vida. Tu lembras-te de alguma coisa do momento em que te veio a menstruação pela primeira vez, que tiveste usar um tampão pela primeira vez?

Olha, eu lembro a primeira vez que me veio a menstruação, eu não me lembro muito bem da idade, mas eu lembro-me de ficar chocada, porque na altura era super tabu, não sei por quê. Não que fosse algo estranho ou não falado na minha família ou nos meus amigos, mas sei lá, na escola era um caso...

Mas tu foste das primeiras ou das mais velhas a ter?

Não, das mais velhas. Ou seja, era tabu, porque eu ouvia as minhas amigas, era tipo, eu não consigo aplicar tampões, eu não vou fazer a visita ginecológica.

Parecia que era mesmo difícil.

Parecia que era um filme de terror.Autêntico. Eu estava assim: "Oh, meu Deus, agora chegou a minha fase. Não quero. Chegou. O que eu faço? É suposto eu contar? É suposto eu não contar?" Mas na altura contei, foi supertranquilo. Depois a minha mãe foi-me comprar tampões e eu lembro-me que a primeira coisa que eu lhe disse foi: "Não, eu não quero, pelo amor de Deus, isso é horrível, isso é tipo um filme de terror. Eu não sei o que vou fazer ou como é que isto vai acontecer, mas eu não vou." E a minha mãe tipo: "Não, Maria, calma, é ok."

A tua mãe usava?

Sim, a minha mãe sempre usou e disse: "Ok, se estás um bocado com pânico vou-te comprar com aplicador. Depois lês as instruções se quiseres", essas coisas. Deixou-me supertranquila. E de facto, depois no dia a seguir cheguei à escola e pensei: "Bem, vocês estão a dramatizar imenso, isto é supertranquilo."

Mas tu pensaste logo em usar tampões?

Sim.

Porque tinhas de, porque era mais habitual.

Era hábito da minha mãe também, sempre foi algo tranquilo. A parte dos pensos higiênicos era mais a dormir, à noite ou em casa, durante o dia, durante o fim de semana, por exemplo, para ser diferente e como não ias sair à rua. Como eu sempre fiz muito desporto, sempre foi logo incutido: "Olha, os tampões se calhar é o melhor para estares a usar." Eu na altura acho que fazia equitação. E depois fui para o vólei, depois fui para a natação, e depois fui para essas coisas todas.

Sim, quando tinhas jogos.

Tinha que ser, era obrigatório. E a minha mãe criou-me toda uma bolsinha, romantizou ali a situação de uma maneira agradável. E foi tranquilo na altura. O que eu depois estranhei foi, por exemplo, nas aulas de Educação Física, no secundário, era subentendido se tivéssemos com a menstruação, não fazermos a aula.

Por acaso na minha escola também, só que eu como fiz ginástica acrobática de competição, isso nem sequer foi uma questão.

Exato, é normalizado.

Tu não deixas de treinar por nada, por nenhum motivo, muito menos por estares com o período.

Com o período, exato.

Pões um tampão. As mais velhas era sempre assim, põe um tampão e segue a vida. Por acaso eu lembro perfeitamente o primeiro dia em que eu tive de pôr um tampão, porque eu estava numa competição de ginástica.

E nunca tinhas posto?

Imagina, na ginástica controlas bué o peso, então eu tive a minha menstruação muito tarde.

Ok.

Eu fui das mais velhas a ter, tive tipo no décimo ano, que não é normal. Tinha 16 anos. Então todas as minhas amigas já tinham o período há imenso tempo e já usavam tampões e já não era essa questão que na altura foi para ti. Mas eu estava cheia de medo porque nunca tinha tido. E calhou numa competição de ginástica acrobática em grupo. Então eu era a mais nova, era um trio e tinha duas mais velhas, com 18 anos.

Ok.

Então foram as minhas irmãs mais velhas que levaram-me à casa de banho, ajudaram-me, ensinaram-me a pôr com o aplicador e tudo, porque eu estava em pânico e estava na competição, ou seja, não tinha como fugir.

Já tinhas os nervos da competição.

Não tinha como fugir, de repente: "Oh meu Deus, neste momento?" E eu estou à meia hora de entrar.

E foi agora.

À meia hora de entrar. Mas por acaso correu super bem, porque elas é que me ensinaram. Eu não sei se sentiste isso em termos de esporte, mas eu sinto que há muito esta entreajuda e muito esta cena de irmãs mais velhas se ajudarem e para mim foi essencial nesta minha fase também.

Eu sempre tive um conceito da minha família que as filhas dos amigos dos meus pais, nós chamávamos mesmo de primas. E eu tinha imensas mais velhas, então aí com elas, consegui normalizar toda esta situação. Mas eu lembro-me que na altura, na escola, era superdramático. Nós chegávamos às aulas de Educação Física e diziam tipo: "O WiFi fica joga em casa", todas as expressões à volta dessas coisas para não dizer tipo: "Estou com o período, estou com a menstruação", que era meio tabu. Mas depois eu e as minhas amigas aprendemos a normalizar com as mais velhas, que era supertranquilo e depois a nível de desporto, sempre usei e sempre foi algo tranquilo, ainda que tivesse ali um pânicozinho de receio, que é normal.

E alguma vez deixaste de fazer alguma coisa por estares com o período?

Deixava de fazer as aulas de Educação Física, mas era subentendido, então nós ficávamos todas ao conversa.

Era a tua desculpa.

Era uma desculpa, tipo: "Hoje é futebol, não queremos já, estamos com a menstruação." Mas eu acho que o que mais me deixava tensa e preocupada, todas as competições de equitação, todas as provas que tens que usar calças brancas e é meio leggings. Leggings brancas, pânico autêntico.

E tipo sempre com as amigas: "Vê se eu estou suja."

Sim. Aliás, tu se fores lá na rua e vires duas amigas em que uma vai à frente e a outra vai atrás, tu já estás a perceber o que é de situação, o que está a acontecer. E que devia ser cada vez mais normalizado. É como manchas de suor ou manchas de outra coisa qualquer, ninguém quer andar com aquilo, e está tudo bem. E eu acho que nunca deixei de fazer, porque como estavas a dizer no desporto, tu não vais deixar de fazer aquilo só porque estás com a menstruação e também te normalizam e deixam-te tranquila com isso mesmo. Mas havia, de facto, era uma preocupação. A tua cabeça não estava 100% focada naquilo, tinha 10% que estava preocupada com aquilo e sempre à procura de uma mulher para ver se estava a acontecer alguma coisa.

Ainda por mais com calças brancas, pânico.

Exato. Leggings, uma coisa assim calça, que até pode demorar ali a acontecer alguma cena, mas leggings é instantâneo. Mas não, sempre fui protegida e a minha mãe continuou a fazer-me aquele saquinho com os tampões, com os pensos, com a mudança de roupa se fosse preciso. E tranquilizou-me um bocado, mas não deixas de estar preocupada.

E não achas que as raparigas se ajudam muito nisso?

Completamente.

Estás super à vontade e uma rapariga que não conheces lá de nenhum: "Olha, tens um tampão, por favor?"

"Tens um tampão ou precisas de alguma coisa?"

Parece que nos entendemos todas, é tipo assim uma linguagem.

Sim. Aí também te deixa mais tranquila. Eu sei perfeitamente que se me acontecer algum desastre com a menstruação, tu és a primeira a dizer: "Olha, eu tenho um par de calças a mais, queres alguma coisa?"

Porque sabes o que sofremos com isso.

É a entreajuda entre as mulheres, é fixe.

Olha, e qual é que é o plano que tu estás sempre in?

Sabes que eu ia dizer estar com a minha família, mas eu aceito sempre ir ter com as minhas amigas e fazer coisas divertidas. Com a minha família eu agora já estou mais: "Ok, hoje apetece-me descansar, por favor, respeitem." Se eu estiver morta em Lisboa, eu vou na mesma, porque eu sinto que eu não vou perder nada. E fazer tudo com as minhas amigas. Ir treinar, vou. Ir beber um copo, vou. Ir jantar fora, ir ver o mar, vou. Porque eu adoro fazer esses planos todos com elas. E elas também alinham fazer muita coisa, porque eu agora voltei para a equitação e eu disse-lhes: "Têm que vir a uma aula minha." Elas alinham sempre. Então eu acho que estou sempre in e posso estar dead em casa e é tipo: "Eu quero descansar, eu preciso mesmo dormir."

És versátil. Desporto.

Ya. Gosto um bocadinho de tudo. Desde que seja com elas, gosto de fazer tudo.

Mas sentes muito FOMO?

Ya. Eu odeio isso. Deixem-me estar em casa a dormir, por favor. "Ah, queres ir?", ya vou. Ok, já me estou a vestir. A quantidade de vezes que eu estou em casa, janto, visto o pijama e recebo uma mensagem e visto novamente, é absurda, é não saudável.

Estás na idade para isso.

Claro. Digo não saudável na pressão que me faço a mim mesma de às vezes: "Não, tens que parar, tens que descansar." Mas depois eu adoro e chego a casa mesmo feliz e foi outro momento giro e depois é algo que eu consigo levar no dia a seguir para a rádio para contar coisas que aconteceram. No outro dia estávamos a comentar, porque eu levo quase sempre, no primeiro momento da rádio, histórias que me aconteceram no dia anterior e os ouvintes estavam assim: "Maria, porra, tens sempre histórias para contar." Eu penso: "Pois, porque eu chego a casa, visto o pijama e depois volto-me a vestir novamente e acontece o apocalipse quando estou em casa." Então é um vício, de não quero perder nada. E tenho esta idade, quando eu tiver 40 anos descanso. Ok. Ainda assim, alguns fins de semana quando vou para Coimbra.

Gostas de desligar.

De ficar no sofá.

Sim, por isso é que também sentes que com a tua família consegues ter os teus momentos mais chill e se calhar dizer mais que não, porque também te conhecem, também te percebem.

E gostam de descansar comigo. Eu digo: "Vamos ficar no sofá." "Ok, bora ficar aqui no sofá."

Olha, mas não somos só nós que podemos fazer estas experiências.

Verdade!

Portanto a Tampax também vos dá, a quem está a ouvir este podcast, a liberdade para poderem fazer o que quiserem, como nós fizemos esta experiência, e estão a oferecer 500 € para as próximas aventuras à vossa escolha. Portanto, é uma campanha que está a decorrer na compra de duas embalagens Tampax no supermercado ou na superfície onde costumam comprar. E basicamente têm de ir a um link que é www.tampaxestouin.com. Eu vou deixar também todas as informações na descrição. E depois é partilhar qual é o plano de verão para o qual estão sempre in. E as frases, os planos mais criativos escolhem 10 vencedores para este passatempo. Está a decorrer de dia 15 de maio até 28 de agosto, na compra de duas embalagens Tampax.

Muito tempo. Boa.

Exato, para termos liberdade e fazermos coisas novas.

E estamos sempre in.

Sim, e não sentirmos FOMO, como a Maria.

Eu vou participar, ok? Porque assim eu nunca vou perder nada e vou andar sempre feliz.

Pronto, o que é que eu queria falar contigo? Tu tens 24 anos e quem vê de fora já conquistaste imensa coisa. Tu sentes isso? Ou sentes que já devia estar ali, já devia ter feito aquilo?

Ai não. Eu acho que até estou à frente.

Sentes?

Eu sinto que, para me proteger, nunca quis estar muito "eu aos 23 tenho que estar ali, aos 24 não sei o quê."

Mas nunca definiste esse plano? Tipo, tenho que ter filhos esta idade, ou tenho que ter um trabalho esta idade.

Eu penso numa ideia que gosto, mas não quero muito definir. Ou seja, eu quero imenso ser mãe, mas penso para os 30, 31, 32. E se for aos 40 também está tudo bem. Ou se for aos 27. Não quero estar a meter tanta pressão, porque eu já defini tanta coisa quando tinha 17, 18, 19.

E não deu nada.

"Eu tenho um namorado, vou casar com ele." Não, ele desapareceu, já nem sei onde é que ele anda, se está em Portugal ou não. Tanta coisa. "Esta amiga vai ser para a minha vida inteira." Não, também já não falo. Portanto, eu acho que aprendi a não controlar tantas coisas, porque depois isso acaba por te deixar triste, não é? A minha melhor amiga, na altura, quando eu tinha 15 anos, em que eu dizia: "Vamos casar juntas e vamos ter os filhos ao mesmo tempo", essas coisas. E depois às vezes cai-te um momento na tua vida em que tu percebes que se calhar já nem falas com essa pessoa e isso deixa-te super triste. Portanto, eu acho que a nível profissional isso também pode acontecer e acho que a melhor maneira, sendo que também estou cá sozinha e às vezes quando as coisas não estão a correr bem, tenho-me a mim própria para me dizer: "Calma, as coisas eventualmente hão de correr bem." Então não meto assim tanta pressão. Óbvio que eu estou a amar fazer rádio, eu estou a amar fazer televisão, eu estou a amar trabalhar com o digital, tudo e mais alguma coisa, mas ainda assim gosto de pensar que tenho um plano B.

É por isso que crias os outros projetos?

Também, obviamente. Eu criei uma marca de biquínis para não ter a pressão a 100% que a parte de rádio e televisão e comunicação tinha que correr bem. Eu gosto de pensar que se isto fosse pelos ares, espero que não, mas uma razão qualquer, que ainda é ótimo ir estudar Marketing para EspanhaE tenho 24 anos e a minha vida supostamente já está toda definida, ou que me vou juntar e vou dar aulas de equitação em coimbra com a minha irmã. Gosto de pensar que isso pode-

Mas também é bom teres essa leveza e pensares: "Eu consigo fazer qualquer coisa, eu desenrasco-me."

Acho que é importante, ainda que as coisas estejam a correr bem, termos três planos a seguir. E que não sejam dependentes do que nós já estávamos a fazer. E agrada-me essa ideia. Eu também sinto que sempre gostei de fazer imensas coisas. Eu já quis ser cabeleireira, eu já quis ser maquiadora, eu já quis ter uma marca de sapatos, eu já quis ser designer, tudo e mais alguma coisa. Portanto, eu sinto que se estas primeiras coisas não correrem bem, que também vou ser feliz noutras áreas. Obviamente que eu quero que isto corra bem e que faço diariamente por isso. Mas acho que é importante tranquilizar-me, porque há um dia em que as coisas não correm bem e eu não fico tão em pânico.

Mas és uma pessoa ansiosa, por isso é que estás a criar todas essas estratégias para-

Não, eu acho que sou precavida. Em Portugal, a rádio e televisão vão pelos ares. Acabou, isso nunca mais. Ok, tenho o digital. As redes sociais vão pelos ares. Ok, estou na equitação, adoro aquilo também.

Não sei se tens muitos amigos que estejam no percurso tradicional, in corporate ou não, mas muitas vezes é tipo: "O nosso trabalho é muito mais seguro, porque tens o salário ao fim do mês." Olham para isto da comunicação e do digital como uma coisa muito mais insegura. Mas se formos ver na prática, layoffs, tudo mais, acontece muito mais frequentemente do que desmoronar-se tudo aquilo que tu tens vindo a construir há anos. E que tu, a partir daqui, eu acho que quem está no digital ou comunicação ou nestas áreas, se desenrasca muito para fazer qualquer coisa. Tu estás a fazer rádio, daqui a não sei quanto tempo podes estar só no digital ou podes estar a criar um podcast ou estar na tua marca, o que for.

A minha segurança, obviamente que é rádio, porque à partida, espero eu, é uma cena segura, o salário é o final do mês, é o meu horário obrigatório. Com o digital não tenho o meu horário obrigatório, tirando alguns momentos. Mas o facto de eu pensar que se não fizer isto, posso continuar com outra coisa que eu tenha. E às vezes há imensas pessoas que me perguntam: "Por que estás a fazer tanta coisa?" Eu estou a fazer tanta coisa porque felizmente a rádio tira-me cinco horas do meu dia, seis horas do meu dia, o digital tira-me duas ou três, e a televisão tira-me um dia completo esporadicamente. Portanto, ainda bem que eu consigo fazer essas coisas todas. E eu acho que também, não pensando em plano B, mas que na comunicação tu estares nesta área, fazeres aquilo e outra coisa completamente diferente, consegues interligar tudo e dá-te valências. O facto de eu estar na rádio, se calhar, não me vai fazer eu estar aqui tanto com "hã" ou a demorar a pensar. A televisão exatamente a mesma coisa, eu ter vindo aqui, se calhar hoje já tenho coisas para contar na rádio.

Dá-te histórias.

Essas coisas todas acabam por se interligar e deixam tranquilas quem está a começar nesta área, porque de facto, entrar numa rádio, entrar numa televisão e mesmo assim entrar no meio do digital, é difícil e tem sido cada vez mais difícil, porque há cada vez mais pessoas a tentar entrar. Mas se fores começando aos poucos, estejas por uma área completamente mais distante, que ainda assim te ligue a isto. Por exemplo, eu sigo médicas que começaram nas redes sociais e que hoje em dia já têm um podcast de saúde. Portanto, tu consegues chegar por vários caminhos. Não precisas de ir tirar o curso de Comunicação Social, fazer um mestrado em rádio. Não, calma. Os meus pais disseram: "Maria, vai para o mestrado." Não quero, não me faz sentido.

É seguires aquilo que tu estás a sentir, o que tu gostas de fazer, experimentar, testar. E estamos na idade para isso. É sobre isso.

Não me fazia sentido fazer mestrado. Nunca gostei de estudar, de fazer apontamentos. Eu só gostava de fazer os desenhinhos nos apontamentos e dizer que tinha feito. Nunca gostei e aquilo não me fazia sentido. Fazia-me sentido eu ir brincar para a Kidzânia, para a rádio, e estava lá, por ser prático. Fazia-me sentido eu comprar um estúdio para ter em casa e andar a brincar aos DJs. Isso era o que mais me fazia sentido. Portanto, acho que estas valências todas é giro e que dá para combinar e que não é obrigatório seguires essa parte que as minhas amigas que trabalham das nove às cinco, se calhar tiveram que seguir. Porque em muitas áreas, e obviamente que é importante, se és advogado, se és médico, tens que fazer o curso até ao final e acabar. Mas esta parte de comunicação, felizmente, temos essa liberdade, entre aspas. Um dos exemplos é o Francisco, que faz rádio comigo. Ele é professor da Nova, de Gestão. Ele não tirou Comunicação. Ele é ótimo a comunicar, é ótimo a contar histórias, é superengraçado.

Sim, hoje em dia mesmo, por exemplo, com o digital, tu consegues dar a volta e chegar a outros lados. Eu também estudei Economia, que nada tem a ver com isto.

E tens um podcast, não precisas de tirar Comunicação para teres um bom podcast. Uma coisa não invalida a outra.

Mas como é que te aconteceu na Mega e no The Voice e tudo isso? Como é que surgiu?

Eu lembro-me super bem. Eu digo sempre que foi um processo tranquilo, porque não tive dois, três, quatro anos como algumas pessoas estão para entrar na área. Eu tive muita sorte, mesmo.

Achas que é sorte?

Não sei. Mas eu esforço-me imenso e trabalhei para estar aqui.Eu nunca gostei muito de estudar, eu era péssima aluna, mas a rádio eu chegava mais cedo, eu preparava tudo em casa, eu ia aprender as coisas no YouTube. Alguns colegas meus que estavam em rádio, em projeto rádio na Católica, os professores é que ajudavam a editar e eu já chegava com as coisas editadas de casa, porque aprendia no YouTube ou via os professores a fazer. E aí sempre me esforcei muito. Eu acho que não foi sorte eu ter entrado e estagiado na Mega e ter ficado eventualmente, foi sorte eu ter entrado tão cedo. Porque a nível de timings, houve mudanças de mercado, houve vagas. Eu tinha acabado de terminar o estágio há um mês e na cabeça do meu diretor, felizmente, fez sentido chamar, mas se eu tivesse estagiado há um ano, poderiam estar outras pessoas à minha frente, porque na comunicação tens imensas pessoas que são ótimas e que se destacam da sua própria maneira.

Sim, para quem olha para este mundo é muito sete cães a um osso.

Exato. Não, mil cães para um osso. É surreal. Eu todos os dias recebo mensagens: "Maria, estou a estudar comunicação, o que eu faço?" E eu fico tipo: "O que queres que eu te diga? Não sei." Eu também não sei. Não há um trajeto que eu te diga: "Se tu fizeres isto, tu chegas lá."

Sim, não é como outros cursos que são mais lineares. Tu sabes, vais tirar isto, depois tiras mestrado, depois fazes isto.

Exato.

E consegues ir para uma consultora que depois te vai dar, não é assim.

Exato. E mesmo nessas-

Mesmo nessas também, entrar também é difícil.

Já é super difícil. Comunicação, então, é preciso mesmo confiar no processo.

Mas tu aconselhas as pessoas a trabalhar o digital?

Muito. Não acho que seja obrigatório, não acho que seja um peso muito importante, mas ajuda para dares a conhecer o teu trabalho. Imagina que tu queres entrar na rádio, tu tens um podcast, as pessoas conseguem ouvir-te, conseguem ver como é que tu reages, como é que tu te ris, qual é que é o teu riso, qual é que é a tua expressão.

E não achas também que tu melhoras a tua forma de comunicar, porque estás todos os dias a treinar, a falar para um público, mesmo que seja pequeno numa fase inicial, estás a treinar.

Eu acho que há pessoas que dizem: "Eu tenho vergonha da parte do digital." Ok, mas e se correr bem, e se eventualmente entrares numa rádio e depois estás a apresentar um programa de televisão, e depois tens um podcast, e depois tens não sei o quê. Ah, pois. Então vai.

É sempre desconfortável no início, para toda a gente.

Óbvio que é sempre desconfortável. Eu no outro dia estive a ver uns vídeos, a primeira parceria que eu fiz. "Parceria," tipo, enviaram-me uns colares, eu era novíssima, estava para aí no décimo ano, nem isso, para aí o oitavo. Enviaram-me uns colares, que eu na altura não tinha umas fotos no Instagram. As redes sociais ainda nem sequer eram uma cena. E ainda o Facebook era muito mais do que o Insta. Eu lembro-me, na altura, recebi uns colares, eu tive duas horas, Mariana, a fazer um raio de um story, a dizer: "Então, recebi isto, não sei o quê." E depois, eu e a minha irmã íamos fazer unhas e pedimos, sem a minha mãe saber, para fazer extensões gigantes. Nós gostávamos de chegar à caixa do supermercado. Então pedimos as unhas gigantes. Eu chego a casa e minha mãe tipo: "Maria, vais cortar isso agora." As minhas estavam mesmo muito grandes. Então eu cortei com o corta-unhas, extensão, estás a ver? Estavam horríveis, estava péssima. E minha irmã até conseguiu limar um bocado e estavam bonitinhas. Eu recebi aquilo, eu entrei em pânico e pensei: "Marguerida, eu tenho que fazer um unboxing, tipo abrir os colares, tem que ser tu. Eu vou meter o telemóvel a gravar, vão ser as tuas unhas e eu vou estar a falar de trás." Então eu recebi isto e era a minha irmã a não conseguir abrir a caixa, e eu tipo: "Não, não está a dar." Eu tive duas horas. Óbvio, porque eu estava em pânico para fazer conteúdo no digital, porque toda a gente goza.

Sim, mas eu acho que hoje em dia já não é tanto isso.

Eu acho que existe.

Achas?

Sim.

Não acho de todo que seja como há uns anos atrás, que ainda não era uma cena.

Ok, ainda assim, eu percebo o pânico das pessoas de gozar. Simplesmente, eu acho que é calma, porque é muito mais fácil ficares viral. E se tu ficares viral, as pessoas não vão gozar.

Sim.

Tu fazes um TikTok a bater com a cabeça na parede.

Mas também, quem é que vai gozar? São as pessoas do teu círculo que não têm coragem de fazer isso.

Sim, mas isso sempre foi, desde o início, gozava quem não tinha coragem para estar a fazer, porque se tu estiveres a tentar, tu não vais gozar com uma pessoa que também está a tentar. Portanto, quem goza é quem está no sofá a tentar fazer algo que não depende de nada.

A lamuriar-se do trabalho que tem.

Exatamente. Portanto, eu acho que o objetivo dessa parte é mesmo tu pensares que quem goza é quem não está a tentar. E tu estás a tentar, independentemente de tu conseguires ou não, seja agora super cedo ou mais tarde, estás a tentar. Isso é super importante para ti, a nível pessoal. Portanto, eu percebo que as pessoas não queiram pegar nas redes sociais para já e que precisem de: "Entrei aqui, agora vou pegar nas redes sociais." Mas é fixe, é fixe para mostrar o teu trabalho. E eu acho que isso também foi uma das coisas que me ajudou imenso, porque eu na Católica, em projeto de rádio, colocava stories de coisas que eu fazia, porque eu criei uma rubrica que era o "Maria Não Vai Com as Outras", que entrevistava pessoas, meio podcast também, e publicava. E na altura, uma pessoa de uma rádio, que não é a Mega, que eu não estava, disse: "Olha, eu tenho estado a ver as tuas coisas, a ver lá se não queres vir fazer uma formação." Eu tipo: "Como assim?" "Vi as tuas stories." "Como assim tu vês as minhas stories?" Ou seja, eu acho que as redes sociais servem mesmo para te fazer autopublicidade.

É um palco.

E é um palco do teu trabalho e daquilo que tu consegues fazer. Não é só: "Ai, agora o meu cabelo." Não, não tens. Podes, obviamente, pode ser um extra, mas se queres singrar no mundo da comunicação, então usa as redes sociais como um modo de "eu faço isto, eu consigo fazer isto." Exato.

E como é que tu estabeleces os limites daquilo que queres partilhar, não queres partilhar, vida pessoal, profissional?

Eu tento não partilhar muito da minha família e da minha vida pessoalPorque acho que não cresce grande coisa, independentemente de às vezes me perguntarem. Acho que não acrescenta nada, e é a minha vida. É a parte mais privada que eu tenho da minha vida. Eu já conto tanta coisa na rádio, já conto tanta coisa na televisão, as pessoas já me conhecem com o autofoco focado em zoom, em vários trabalhos que eu faço. Eu acho que essa privacidade é algo que eu também gosto de manter. Obviamente que, por exemplo, a minha irmã criou agora uma escola de equitação. Toda a gente sabe que a escola de equitação é da minha irmã e que eu vou lá e está tudo bem, mas isso é meio também fazer publicidade a algo que a minha irmã está a criar.

Sim, e a equitação também é um lado que tu acabas por partilhar.

Exato, que eu agora voltei, e que me faz todo sentido, até porque gosto da ideia. Foi uma coisa que eu abandonei há 10 anos, a chorar baba e ranho, e que agora estou mesmo feliz, porque eu e minha irmã voltamos e era o sonho de miúdas, voltar para a equitação e podermos fazer isto também da nossa vida. Mas a nível de, tenho um sobrinho ou a cara do meu sobrinho, a cara da minha família toda inteira, essas coisas, sei lá, gosto de proteger, até porque há tanta coisa negativa na internet que eu nem quero correr o risco de um dia acordar e haver alguma coisa má a acontecer porque eu publiquei um story.

Sim, fazes bem a separação do que é o teu trabalho e o que não é. Não é partilhar esse lado que te vai pagar contas.

Exato. Então é uma coisa que eu gosto mais de manter. Não deixo de trabalhar ou de conseguir trabalhos, porque não publico essas partes. E toda a minha vida pessoal, isto pode parecer um bocadinho estranho, mas por exemplo, eu às vezes estou num sítio, vou beber um copo com as minhas amigas. Se eu publico no dia a seguir que estive lá, não sei, é estranho.

Não costumas partilhar no próprio dia? Eu não costumo fazer isso.

Eu não partilho no próprio dia, a não ser, sei lá, fui treinar ou uma coisa assim, que é um sítio fechado com marcações. Não por medo de: "Meteste uma story, estou aqui." Não por isso, mas sei lá, a quantidade de vezes em que já fui sair à noite e me vêm abordar porque me ouvem na Mega, eu fico mesmo desconfortável de: "Estou a curtir. Estou nos copos." É uma coisa que toda a gente faz, mas que bué pessoas pensam: "O quê? Tu vais trabalhar amanhã e estás aqui?"

Sentes esse tipo de julgamento?

Não sinto, eu oiço mesmo. Já fui sair à noite, eram 05h00, trabalhava no dia a seguir às 16h00. "O que estás aqui a fazer? Tu não trabalhas amanhã?" Sim, e tu? Não trabalhas também? Qual é a abertura para me estares a dizer isso, se não me conheces?

Eu acho que é o dares um bocadinho de ti, que dá espaço para as pessoas acharem.

Claro. Então não quero dar a abertura da minha família ou da minha vida pessoal, amorosa, seja o que for, porque parece que isso dá abertura às pessoas para comentar. Eu não quero comentários.

Não queres que seja tema.

Não quero.

Tens já tantos temas que podem falar.

Exato, falem à vontade. Sei lá, de eu falar no microfone, na rádio ou de um podcast que eu venha, uma coisa qualquer.

E próximos projetos que tenhas? Já estás metida em tanta coisa.

Não sei.

Estás agora de volta na equitação.

Sim, agora voltei para a equitação, como tu estava a dizer, era uma coisa que eu e minha irmã já queríamos há imenso tempo. Compramos um cavalo.

Jura?

Yeah. Compramos um cavalo, era mesmo sonho de miúdas.

E está em Coimbra.

De sempre, e está a correr muito bem e acho que isso também foi muito fixe porque uniu-nos imenso. Eu e minha irmã sempre fomos ligados e ela para mim é a mesma pessoa mais importante de sempre, mas o facto de eu ter vindo para Lisboa não nos afastou, mas de certa forma eu estou afastada. E não estou lá para ela quando ela precisa ou quando tem uma má nota na faculdade, ou quando acaba com um namorado, ou quando acaba com uma amiga, uma amizade, uma coisa qualquer, e isso afasta-nos. E esta parte da equitação é fixe porque junta-nos e é uma coisa que nós ambas gostamos e amamos muito e que nos junta ali. E acho que também é um ponto que me faz e que me dá tanta força para voltar.

Mas por que tu saíste?

Olha, eu saí porque é um desporto muito caro e eu e minha irmã éramos novíssimas, estávamos sempre a cair, aquilo era um aperto no coração dos meus pais e eles: "Vocês não querem sair. Vocês não vão fazer isto de competição, de vida." É um desporto caríssimo, ou tu tens uma grande herdade com cavalos e tudo mais alguma coisa, ou então é mesmo a sair do bolso diariamente. E os meus pais, na altura, sugeriram outro desporto, eu e minha irmã fomos para o vólei e adoramos e foi também grande experiência, depois jogámos paddle. Isso chegou a uma altura em que eu e minha irmã nos virámos uma para a outra e dissemos: "Não, já chega."

Agora somos adultas, com dinheiro de adultas.

Somos independentes agora.

E podemos voltar a equitação.

Agora temos até dinheiro, finalmente. Naquilo que gostamos e voltámos. E eu na altura voltava só com ela em Coimbra, porque quando ia passar o fim de semana a Coimbra, montava e estávamos as duas e também com o namorado da minha irmã. E fiquei tão entusiasmada de: "Ok, isto é mesmo uma cena que eu e minha irmã possamos fazer." E como ela faz diariamente, eu só fazia aos fins de semana de: "Ok, não, eu quero estar ao mesmo nível que ela para fazermos exatamente a mesma coisa."

Então inscreveste-te cá.

Inscrevi-me cá, também estava a curtir imenso e acho que foi a primeira vez que eu consegui em Lisboa, sair de Lisboa, cá.

Para Chanteira.

Por ser uma coisa tão ligada a campo, a animais, a tudo e mais alguma coisa, é uma coisa que me deixa tipo: "Uau, estou mesmo aqui, em cima de um cavalo, a levar com o vento." E é mesmo fixe, portanto, novos projetos, competição de hipismo.

A sério?

Ya, é mesmo uma coisa que eu quero voltar.

Que giro!

E que a minha irmã também me está a apoiar, porque ela já voltouContinuar na rádio. Adoro o programa que faço, adoro o horário que faço e com as pessoas que faço. A televisão da The Voice vai continuar. Espero que continue por mais tempo e com mais projetos, e agarrada mais ao digital, porque acho que consigo conciliar tudo e é uma vida que eu também estou a gostar de levar.

Sim, também podes explorar um bocadinho outros lados teus, não é?

Mais criativos.

Sim. Se calhar outras coisas que tu gostas, outros temas.

Sim. Eu tive uma marca de biquínis desde 2019, portanto há imenso tempo.

É guapa.

Ya. Antes de vir para Lisboa. Foi algo que eu criei com uma amiga e que eu este ano decidi mesmo não dar continuidade, porque eu não conseguia focar-me e oferecer aquilo que eu queria oferecer. Eu, para mim, tinha que ter um serviço 24/7 para clientes, entregar tudo e mais alguma coisa. Se era uma troca, eu queria que a troca chegasse no dia a seguir ou dois dias depois, e eu com três trabalhos, não consigo ter um quarto. Consigo, mas não dou 100% a todos. E isso estava a fazer muita confusão.

Se calhar já estás mais a confiar que a comunicação é-

É o caminho.

É o plano A e a tirar um plano E do caminho.

Ou seja, eu gostava muito e já chorei a pensar que terminei a marca, porque foi algo que também me saiu lá de baixo, do meu bolso, dinheiro que eu estava a poupar há anos, do Natal, da minha família, que comprei as minhas primeiras máquinas de costura. Eu aprendi a costurar no YouTube e foi assim que nós fizemos os primeiros biquínis e nós durante três anos, nós é que costurávamos aquilo. Nós fizemos tudo de raiz.

Mas também foi um projeto que tu aprendeste certamente imenso. Eu também tive uma marca de roupa, portanto identifico-me muito com isso. E aprendi imenso, cresci muito e fez parte de uma fase que se calhar me dá valências para outras coisas que sigam a seguir.

Deixa-me triste, mas deixa-me superfeliz ter ido com aquilo para a frente, ter tido a coragem de criar uma marca, entrar no mercado português, de cenas burocráticas, tipo bancos e registos de marca.

Não, é tanta coisa que as pessoas não fazem ideia.

Ya, não fazem ideia. Aquilo é muita coisa, mas deu-me estaleca para resolver problemas bem rápido.

Para não dramatizar tanto.

Não dramatizar tanto. Eu tinha pânico de falar em chamadas, tipo: "Tenho que ligar ao fornecedor. Meu Deus, tenho que ligar ao fornecedor, nunca ligo ao fornecedor. Eu tenho vergonha, tenho que ligar." Não, ok, Maria, liga ao fornecedor. Pelo amor de Deus. E agora normalizei tanta coisa, aprendi tanta coisa por ter criado a marca, mas é algo que vou deixar de lado, mas que olho com muita felicidade e foi mesmo um projeto muito giro de fazer. O digital dá-me essa parte criativa que eu tinha na marca, e que agora tenho no digital e que tenho estado a gostar de explorar.

Sim, por acaso, quando eu tomei também a decisão de fechar a marca, custou-me imenso porque eu olhava muito para aquilo como se fosse o meu bebê. Eu dizia sempre: "É o meu bebê." Não. A partir do momento que eu me mudei para: "Não, é um projeto." E na vida tu vais ter vários projetos, várias fases, coisas que vão fazer sentido numa certa fase, mais para frente deixam de fazer e está tudo certo. Tu mudas e nesta idade estamos sempre a mudar. Tu tens 24 anos, ainda vais mudar muita coisa. E espero que a comunicação seja a base, o foco de tudo e que seja por aí, mas se não for também, olha, vais ser professora de quê que eu sei. Está tudo certo.

Ou de Max, estás a ver?

Ou de Max.

Volto a ser professora de Max. Não, mas é isso. Muito feliz, mas acho que a nível de projetos também estou-

Tens imensa coisa "on your plate."

Ya, eu tenho aqui imensa coisa também, se calhar "too much," mas também estou a conseguir gerir tudo e continuo a chegar a casa, a vestir o pijama e a vestir novamente para ir sair com as minhas amigas.

E estás numa fase de FOMO? Olha, eu já passei para a fase de JOMO. Joy of missing out.

A sério? Eu não conhecia esse conceito, tenho que começar a conhecer.

Eu estou nesse lado do TikTok, é de JOMO.

Não, às vezes sabe-me bem, mas eu ainda adoro. Tenho amigas tão diferentes, personalidades diferentes, que adoro combinar sempre imensas coisas com elas. E foi um bocado a família que eu criei cá em Lisboa. Então é mesmo bom estar com elas e sair um bocadinho de casa e falar de imensas cenas. Portanto, ainda estou com FOMO.

É importante também estares sempre a sair. Não estás só consumindo o teu trabalho. Tu estás numa fase bem tipo: "Ok, estou focada no trabalho," mas é importante teres planos diferentes, conversas diferentes, dares com pessoas que são de áreas completamente diferentes para ouvires outras coisas, que levas depois histórias, certamente também para a rádio.

Sim, estou sempre à procura. As minhas amigas estão sempre a falar comigo e eu estou ali meio amiga, meio produtora do conteúdo.

"Espera aí, deixa-me só ver as minhas notas."

Juro, da quantidade de coisas que eu tenho nas notas de pensamentos que elas têm, que eu achei mesmo engraçado e que vou e exponho aquilo, é mesmo giro.

E é importante viver para também teres histórias a contar.

Ya, contar histórias.

Olha, gostei muito de te ter aqui.

Eu também.

Obrigada. Temos agora que convidar a próxima à linha de pilates.

Sim, por favor. Portanto, agora se vens a Lisboa várias vezes.

Vamos combinando. Gostei muito. Obrigada. Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo ao hora do costume?