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Muito bom dia e muito obrigada por estar com a Rádio Observador. Hoje o nosso convidado é o realizador Paulo Carneiro. Bom dia, Paulo. Obrigada por ter vindo às Manhãs 360.

Bom dia, obrigado.

O seu documentário "Bosto Frio ou Le Ciel rejoint la Terre" é passado na aldeia que dá nome ao filme, fica no Conselho de Boticas, e a história é muito pessoal. Durante 70 minutos, vemos o Paulo entrevistar várias pessoas para saber mais sobre o seu avô. O seu pai é filho de pai incógnito, como milhares de portugueses, e o documentário é, no fundo, uma procura do seu passado. Pergunto se encontrou as respostas que queria.

É assim, no fundo, isto é um filme que reflete acerca da minha identidade e todas as questões familiares e elos familiares que estavam um bocado perdidos. O filme procura isso mesmo. Eu acho que é um bocado spoiler eu estar a dizer se encontrei ou se não encontrei, porque este filme é uma criação de um retrato. Mas é um retrato que de certa maneira nunca é visível e é dado pela oralidade, porque é em torno destas conversas que se vai criando uma ideia de quem foi o meu avô, mas acho que o filme acaba por não ser sobre o meu avô. É uma busca pelo meu avô, mas para falar de outras coisas, ou seja, a busca pelo meu avô é um veículo para refletir sobre uma série de questões.

Que questões são essas?

Eu posso falar de algumas coisas, nomeadamente, por exemplo, o valor da mulher na sociedade durante o Estado Novo. Acho que o filme reflete sobre isso. Para mim, é muito importante, porque fala muito sobre a forma como as pessoas que vivem em isolamento nesta região de Trás-os-Montes têm uma força incrível para conseguir resistir a isso.

Estamos a falar de uma aldeia com cerca de 30 pessoas, com uma forte ligação à terra.

Exatamente. É um bocado um Portugal que aqui na cidade as pessoas ainda têm um bocado a ideia que já não existe, mas que é um Portugal que se calhar é pobre num sentido, mas é bastante rico noutro. E eu acho que é um filme que tem esse lado didático.

Mas o Paulo já tinha ido a Bosto Frio ou vai só para este documentário?

Não, eu já tinha ido.

Faz parte da infância?

Faz parte da minha infância, faz parte do meu imaginário de infância, porque passava lá férias, etc. E foi também este lado de ligação à terra, porque muita gente fala que quando se faz um filme numa aldeia, há um exotismo da forma como as pessoas trabalham no campo ou como tratam dos animais. Este exotismo da lavoura, do rural, e eu acho que não tem esse exotismo. Não é uma coisa que me faz sentido, porque faz parte de mim.

E vive com ela. Foi fácil falar com as pessoas? As pessoas mostraram abertura? Como é que foi? Já tinha isto tudo previamente planeado? Ou foi chegar lá, está a fazer uma cara. Ou as pessoas olharam com alguma desconfiança, não é?

Claro, não foi fácil. Aliás, eu parto para fazer este filme exatamente por isso, porque o meu pai nunca desenvolveu muito a questão do assunto do meu avô, porque é uma coisa que, no fundo, o moldou um pouco enquanto pessoa, então era um bocado um assunto tabu. E parto para fazer este filme, essencialmente para descobrir coisas que não sabia anteriormente. E essas pessoas, como é óbvio, escondem muito. Então o filme é mesmo esta busca e este forçar as pessoas a falarem, etc. E que acaba por se ramificar para uma série de outras questões. Eu já frisei uma, mas há outras mais.

O papel da mulher e não só, porque estamos aqui a falar de moral, de sexualidade. Estamos a falar de uma questão que passou por muitos portugueses. Agora, não existe a figura do pai incógnito. É isso? Mas é uma questão que está na maior parte das famílias portuguesas, eventualmente.

São 150 mil portugueses, dizem os números. E parece que, de repente, é uma coisa que não se fala. Eu, por acaso, quando estava a fazer o filme, antes de fazer o filme, tinha encontrado uma notícia acerca disso, depois fui pesquisar um pouco mais e realmente parece que é uma espécie de um assunto tabu. E o filme vai se construindo assim, com o desenvolvimento das perguntas, a partir daquilo que as pessoas dizem.

Quando começa, não sabe qual vai ser o resultado final, basicamente.

Basicamente, é isso. Mas acima de tudo, existe uma ideia de construção. Não se sabe porque mesmo eu próprio não sabia e muitas vezes sou surpreendido por aquilo que me dizem.

As respostas que ia ter.

Informações que eu não sabia.

Paulo Carneiro, realizador do filme O Bosto Frio, estreou no ano passado no Indie Lisboa, recebeu logo a menção honrosa do júri no prêmio Árvore da Vida, depois disso arrecadou mais prêmios. Entretanto, está já no circuito comercial em várias salas do país. Paulo, como é que é ver este trabalho, que começou por esta descoberta pessoal, ter este sucesso todo?

É assim, por acaso, há uma coisa engraçada, que é: a equipa, nós somos todos amigos, nós fizemos o filme entre quatro pessoas, somos todos amigos e estamos sempre a falar uns com os outros, a discutir outros projetos. Entretanto, eu já fui por outros caminhos, já fiz outras coisas e é engraçado que eu há uns dias estava a falar com o meu colega, o Ricardo, que é o diretor de som do Bosto Frio, e ele dizia: "Quando nós estávamos a filmar, nunca ninguém imaginaria que isto iria chegar aos cinemas". É incrível, essencialmente porque o circuito comercial para o cinema português e para um documentário português é muito estrito. E então, de repente, nós temos o filme em sete salas no país, que embora pareça muito pouco para um documentário, é muito complicado chegar a estas salas. E vamos ver qual vai ser a reação das pessoas. A verdade é que eu já corri um bocado o mundo com o filme, já experienciei em diversos continentes como é que as pessoas reagem ao filme.

E reagem de forma diferente?

Sim, é engraçado que a própria conjuntura política em cada país molda um bocado a ideia e a forma como as pessoas veem o filme. Essencialmente, eu posso falar, e isso para mim é importante, as pessoas conseguiam ligar muito politicamente o filme e perguntavam-me sempre: "Isto aqui passou-se durante a ditadura?" E eu: "Sim, e não, é porque a nossa ditadura também oprimia e conseguia-se perceber que um pai não reconhecia um filho porque havia muita pressão da própria sociedade". Mas no circuito comercial, o que acontece é que é um público diferente, então estou à espera para perceber como é que vai ser, porque um público de festival é um público de festival, um público comercial é um público diferente, mas eu acredito e estou na esperança de que seja um filme que consiga agradar às pessoas e que tenha um bocado esta ideia de efeito espelho, porque acredito que funciona mesmo assim.

O realizador Paulo Carneiro, nosso convidado ao vivo das manhãs 360. O documentário Bosto Frio já pode ser visto nas salas de cinema. Paulo, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite e felicidades.

Muito obrigada vocês. Bom dia.