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Começa agora mais um episódio do podcast "Ao Volante do Futuro". É uma parceria do Observador com a Critical Tech Works, onde descobrimos todas as semanas as principais inovações tecnológicas do mundo automóvel. Eu sou o Nelson Ferreira, o condutor desta viagem e ao meu lado segue hoje o Pedro Vieira da Silva, é Chief Technical Titan na Critical Tech Works e hoje vamos ficar com ele a saber tudo sobre mobilidade elétrica. Pedro, muito bem-vindo, obrigado.

Bom dia, obrigado.

Pedro, esta é uma realidade cada vez mais presente nas estradas, a mobilidade elétrica. Já grande parte do parque automóvel será elétrica, mas é ainda uma tendência ou de facto os carros elétricos são mesmo o futuro da mobilidade?

Se são o futuro, e se calhar ainda é um bocadinho cedo para dizer, mas claramente o futuro passa por carros elétricos, passa por eles serem cada vez mais uma componente e estarem cada vez mais no nosso dia a dia. Não há dúvida nenhuma que os carros elétricos vão continuar a aumentar, vão continuar a massificar-se. Poderão, eventualmente, não servir para todas as nossas necessidades, pelo menos num futuro próximo, mas vão ser, certamente, uma das bases do futuro daquilo que é a mobilidade e daquilo que os fabricantes vão nos ter para oferecer.

E nem só aplicado aos carros, até às bicicletas e às motas.

Exatamente.

A mobilidade como um todo.

Exatamente. E vemos isso não só no automóvel particular, mas vemos também naquilo que são os transportes públicos, os meios de deslocação não motorizados, ou clássicos, mas que são as bicicletas e os trotinetes, etc. Tudo isso cada vez mais tem essa componente.

Este pode ser um tema polémico. A mobilidade elétrica é, de facto, ambientalmente mais sustentável?

Sim e não. É uma pergunta complicada. Efetivamente, se nós pensarmos naquilo que a mobilidade elétrica nos traz a médio e longo prazo, claramente a sustentabilidade existe. Se nós pensarmos em elementos mais curtos no tempo de comparação, como fabricar uma bateria, fabricar um carro, que é construído também por essa componente, etc, há aqui questões em que se calhar a sustentabilidade pode ser discutível. Agora, nós não podemos olhar para um carro elétrico única e exclusivamente pelo fabrico ou pela construção. Temos que olhar por tudo aquilo que ele vai trazer, a pegada ecológica que ele vai aportar durante o seu ciclo de vida, que é substancialmente diferente de um veículo de combustão tradicional.

Digamos então que para a mobilidade elétrica ser ambientalmente mais sustentável, falta é que o fabrico possa sê-lo um bocadinho mais.

Certo. É uma das componentes importantes, e isso há esforços em muitos sentidos, e no caso particular da BMW, isso também acontece. Desde a mineração, vamos a este nível, ou seja, os metais que são necessários para construir as baterias, queremos usar fontes sustentáveis. As próprias empresas que fazem esta mineração estão a optar por formas mais sustentáveis de fazer, etc. E tudo isto entrar na cadeia que vai ligar ao carro, e portanto, contribuir também para essa sustentabilidade e diminuir aquilo que é a pegada ecológica e transformar os carros cada vez mais sustentáveis.

Esse será apenas um dos desafios da mobilidade elétrica. Quais é que perspetiva que sejam outros? A duração das baterias, a duração dos carros, se calhar o ciclo até de vida da bateria pós fim da sua vida. Quais são os principais desafios da mobilidade elétrica atualmente?

Esses são uns dos principais, esses dois. Um, efetivamente, aquilo que é a autonomia. Toda a gente já ouviu falar daquilo que é denominado de ansiedade da autonomia, o range anxiety.

Já existe um termo psicológico para isso.

Exatamente.

Nem sabia.

Exatamente. E é aquela questão de será que vou chegar, será que não vou chegar?

O ponto de carregamento.

Onde é que eu vou carregar, onde é que não vou, ou posso ir a esta velocidade e ligo o ar-condicionado. Todas estas coisas têm um impacto. Obviamente, uma forma de eliminar isto é aumentar as capacidades das baterias e há inúmeras tecnologias que estão neste momento em fase de desenvolvimento ou até já em fase inicial de produção e que vão diminuir este problema. Estamos a falar de duplicações e triplicações das capacidades atuais. Nos próximos cinco, 10 anos.

Da bateria?

Da bateria. Nos próximos cinco, 10 anos, isto vai ser um fator.

Sim, desde que surgiu até aqui, está sempre a aumentar.

Está sempre a aumentar, exato. E não pode aumentar só por aumentarmos a bateria, ela tem é que ter maior capacidade para o mesmo volume que tem. Isso é um aspecto. O outro é o próprio carro fazer uma gestão eficiente Da sua autonomia, da sua energia, o software que está no carro trabalhar também nesse sentido, seja do ponto de vista do que consome, seja do ponto de vista como auxilia o condutor a fazer essa gestão e são todas estas componentes que entram em cena para garantir essa sustentabilidade.

E presumo que seja precisamente nessa área que a Critical TechWorks poderá ajudar a solucionar alguns desses desafios. Sabe dar-me algum exemplo de alguma tecnologia que estejam a desenvolver precisamente nesse sentido?

Certo. Para começar, temos a questão do software ser altamente eficiente e com isso também não contribuir.

Ele próprio não gastar muita bateria?

Exatamente. Ele próprio não contribui para o consumo, o que significa que tem que ser um software eficaz, não pode consumir muitos recursos e temos que ter em consideração estes aspetos. Por outro lado, usar funcionalidades ou dar funcionalidades ao condutor que lhe permita também ter o que a gente chama uma viagem, uma jornada, mais tranquila, pacífica e controlada.

Como, por exemplo, informação?

Informação.

Sobre o veículo.

Sobre o veículo, se a sua condução está ou não a contribuir para um consumo maior ou menor.

E o carro sugerir fazê-lo de maneira diferente.

Isto também, obviamente, entrando aqui um bocadinho na condução autónoma, depois também há outras valências aí. Há também a questão das rotas eficientes, tendo em conta tráfego, pontos de carregamento e adequar todo o trajeto em função daquilo que é a carga do veículo, os pontos de carregamento, o que é que vai acontecer do ponto de vista de trânsito e todas estas combinações, são coisas que têm que ser calculadas em tempo real, digamos assim, e que vai ajudar a que seja feita uma viagem com a maior autonomia possível e, ao mesmo tempo, consegui-la fazer no menor espaço de tempo possível, porque isso é fundamental.

Há pouco falávamos dos desafios da mobilidade elétrica, não falámos tão aprofundadamente nos pontos de carregamento, porque desde o início que surgiu a ideia da mobilidade elétrica, toda a gente percebeu que isto iria depender de uma rede em que fosse possível carregar facilmente os nossos veículos. Às vezes as marcas têm carregadores próprios, há as tradicionais estações de serviço ou bombas de gasolina, que também já têm os seus carregadores, mas há aqui ainda um trabalho pela frente a fazer, no que toca a uma espécie de uniformização de todos os sistemas de carregamento e até de operadores e das distâncias em que eles distam uns dos outros.

Certo. A rede é um problema, é uma das dificuldades da mobilidade elétrica e isso é conhecido. Portugal, apesar de se calhar muita gente não saber, não é dos países mais atrasados, pelo contrário, nós temos uma rede até com alguma capacidade, bastante integrada. É possível fazer o carregamento em diferentes operadores, diferentes postos com a mesma conta, o mesmo cartão, etc. Tudo isso existe. Mas para a densidade e o tipo de funcionamento de um carregamento, aquilo que é necessário, não é ainda aquilo que é desejável. E isso está a ser trabalhado até a nível da Europa. A União Europeia tem uma série de legislações, de implementação de redes de carregamento, etc. E há muito a fazer ainda para ter uma rede que realmente suporte as nossas necessidades, a par, obviamente, de nós querermos também carregar o carro com alguma rapidez, porque é aí que também irá haver um impacto diferente na rede, a partir do momento em que nós temos uma experiência similar àquilo que é abastecer hoje um carro com combustível, e não termos que esperar 15 minutos ou 20 ou 30 para conseguir fazer mais uns quantos quilómetros.

Esse continua a ser um dos grandes argumentos para os motores a combustão ou os motores elétricos de mobilidade elétrica. O que me parece que ninguém tem a resposta é se, e voltando aqui um bocadinho ao início do programa, essa mobilidade elétrica é o futuro na medida em que todos os carros serão elétricos. A isso ninguém consegue dizer se isso vai acontecer ou não, não é?

Certo.

Se calhar as tecnologias também evoluem junto dos motores a combustão e ainda estamos numa fase em que o mercado tem muitos híbridos, em que tem os dois sistemas a funcionar.

Há uma coisa inevitável, e isso nota-se exatamente pela questão dos híbridos, que é o fator elétrico ou a componente elétrica vai integrar cada vez mais os carros e vai fazer parte.

Até já o faz na Fórmula 1.

Já o faz na Fórmula 1, por exemplo, nos ralis, que é aquele desporto que toda a gente achava que como é que raios um carro de ralis vai ter uma componente, isto existe. Isto vai entrar, já entrou, quer dizer, não haja dúvidas, e as pessoas tendencialmente até basta ver o mercado automóvel e as compras que estão a ser feitas e como é que o nosso próprio mercado em Portugal tem evoluído, cada vez mais híbridos, cada vez mais elétricos. As pessoas já perceberam as vantagens, já perceberam a comodidade. Há todo um conjunto de coisas associadas que realmente é um fator forte para que vá nessa direção. Agora, as pessoas também querem conforto, também querem segurança no sentido da sua deslocação, não estarem com receios de poderem chegar. Quer dizer, em Portugal nós temos aquele hábito, vamos todos para o Algarve de férias, tipicamente, a grande maioria, e não poder fazer isto de uma vez, tipicamente, é algo estranho para nós, nós não estamos habituados.

Depende de onde se vive.

Certo.

Do Porto ao Algarve pode ser mais complicado.

Pode ser diferente. Pode ser mais difícil.

Mas se calhar de Lisboa ao Algarve já se.

Lisboa hoje já faz. A questão é, somos tantos a ir nessas alturas, nesses momentos, queremos ficar naquelas filas parados à espera para abastecer. Vou ter um carregador disponível? Quanto tempo é que vou levar a carregar? E se calhar, de repente, uma viagem de uma hora e meia.

Não podem fazer férias numa altura de ponte, feriado e ponte. Aí é que se formam as maiores filas.

E acho que para nós, nenhum de nós está disposto a condicionar a nossa vida por causa do nosso transporte. Tem que funcionar ao contrário.

Muito bem, hoje falamos de mobilidade elétrica aqui com o Pedro Vieira da Silva, Chief Technical Titan na Critical TechWorks. Pedro, muito obrigado pelos seus esclarecimentos. Junte-se a nós no próximo episódio deste podcast "Ao Volante do Futuro" e ouça todos os programas no site do Observador e nas plataformas de podcast. Eu sou o Nelson Ferreira. Até para a semana.