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Muito bem-vindos ao oitavo episódio especial de "As Histórias da Bíblia". Todas as semanas estamos aqui às quintas-feiras para responder a uma pergunta dos nossos ouvintes sobre a Bíblia. Têm sido muitos os que nos ouvem todas as semanas e aqueles que nos têm enviado perguntas, comentários e sugestões para o nosso e-mail: ashistoriasdabiblia@observador.pt. Muito obrigado a todos. Tem sido até difícil escolher aquelas a que damos resposta aqui, porque são realmente muitas. Também aqueles que têm deixado perguntas nos comentários do YouTube e das plataformas de podcast. Já sabem, nós estamos aqui aos domingos, às 09:00, na Rádio Observador e sempre em podcast, para falar sobre um episódio ou uma personagem da Bíblia, e também às quintas-feiras, para um episódio mais curto, esse exclusivamente em podcast, em que respondemos às perguntas dos ouvintes. Todos aqueles que quiserem colocar questões aos padres João Basto e Daniel Nascimento sobre a Bíblia, podem escrever-nos para ashistoriasdabiblia@observador.pt. Nós, no episódio do último domingo, estivemos a falar sobre Maria Madalena, uma das personagens mais injustiçadas da história da Bíblia. Se não ouviu na Rádio Observador, pode ainda encontrar o episódio em podcast, em todas as plataformas. Esta semana vamos manter-nos mais ou menos no tema. Vamos tentar responder a uma pergunta que nos foi enviada por uma jovem nossa ouvinte, a Carolina, de 15 anos, que nos enviou o seguinte e-mail. Ela diz que é uma adolescente católica com 15 anos e diz que há algumas passagens bíblicas que lhe geram certas dúvidas e que gostava de esclarecer. E depois dá três exemplos, dois exemplos da carta de São Paulo aos Coríntios e um da carta de São Paulo a Timóteo. São passagens, diz a Carolina, que falam muito sobre as mulheres. "Existem coisas que me deixam um pouco assustada, porque apesar de ainda só ter 15 anos, tenho muitos objetivos". Ela fala aqui de uma série de sonhos da vida dela e diz que não consegue perceber porque é que o papel da mulher é tão desmerecido na Bíblia. Finalmente, ainda fala sobre uma das passagens de uma carta de São Paulo, sobre o facto de se as mulheres devem ou não devem cobrir a cabeça quando rezam. A Carolina depois termina o seu e-mail dizendo que gostava muito que me pudessem explicar para perceber melhor a fé cristã. João, o que é que nós podemos dizer a esta nossa ouvinte que nos trouxe aqui algumas inquietações, que possivelmente são inquietações de muitas mulheres cristãs quando leem a Bíblia e encontram passagens se calhar difíceis de compreender aos dias de hoje?

São difíceis de compreender. Antes de mais, olá Carolina, se nos está a ouvir. Há uns episódios atrás, até nesta questão das perguntas, nós dissemos que era mais importante do que defender a Bíblia, compreender a Bíblia. E é isso que vamos tentar ajudar a fazer em três pontos. Ponto um: é crucial reconhecer que estes textos, nomeadamente os textos de São Paulo, que são aqueles que a Carolina fala, mas há também uma carta de São Pedro que tem uma afirmação até mais forte, foram escritos numa época e no meio de uma cultura judaica, de uma cultura greco-romana, que eram profundamente machistas e patriarcais. A mulher ocupava uma posição de subordinação em relação ao homem. O uso do véu era um sinal de decoro e de honra na esfera pública, tanto que muitas vezes, aquilo que pude pesquisar, só escravas e prostitutas é que andavam de cabeça descoberta. Isto não é necessariamente uma coisa cristã. Pensadores como Plutarco e até algumas tradições judaicas registradas no Talmud, prescreviam até que a mulher deveria aprender em casa com o marido e não ir para a sinagoga falar ou perguntar alguma coisa.

Só para contextualizar estas citações que a nossa ouvinte incluiu aqui no e-mail, mas enfim, são exemplos de muitas outras coisas que podíamos encontrar, mas são citações que dizem, por exemplo, que a mulher não deve falar quando está na sinagoga e se tiver questões deve falar com o marido em casa.

Que tem que cobrir a cabeça. E depois, em Portugal, há uns tempos atrás, coincidiu com a altura da retirada do Afeganistão das tropas americanas, veio uma polêmica de uma leitura que muitas vezes se lê para os casamentos, onde São Paulo diz, na carta aos Efésios, que as mulheres se devem submeter ao marido como convém no Senhor.

Essa não é um dos exemplos que a Carolina aqui envia, mas é outra das mais controversas.

Aliás, é nessa linha que depois São Pedro também diz que tal como Sara foi submissa a Abraão, as mulheres devem ser submissas ao seu marido. E depois o texto é um bocadinho mais sanguinário, às vezes, do que o de São Paulo. Acima de tudo, neste primeiro ponto, é importante nós percebermos que Paulo, ao dar estas instruções, não está a criar uma nova lei, mas está a partilhar e a aplicar um conjunto de dados culturais e religiosos comuns do seu tempo e que nós, por exemplo, não conseguimos reconstituir na totalidade. Um exemplo é o facto de as mulheres cobrirem ou não a cabeça. Um comentário que encontrei de um biblista italiano chamado Franco Manzi, defende esta posição de que possivelmente na comunidade haveria uma troca do costume, ou seja, é normal os homens terem o cabelo mais curto que o das mulheres e é possível que tenha havido ali um momento em que as mulheres tinham o cabelo mais curto que o dos homens. E isso terá feito com que se criasse a norma do véu ou da cabeleira, porque nós não entendemos muito bem se aquilo era necessariamente um véu, um xale para meter na cabeça, ou se era também uma espécie de peruca, para não subverter a ordem natural do cabelo, de quem tem o cabelo mais comprido. Ainda assim Segundo ponto: Paulo faz isto com uma certa preocupação pastoral. É óbvio que ele está aqui, na nossa ótica, a oprimir as mulheres, mas há aqui uma certa razão que ele tenta explorar. Normalmente, em Corinto, atitudes como rezar de cabeça descoberta poderiam ser interpretadas como um sinal de uma espécie de emancipação rebelde ou vistas como associadas a comportamentos sexuais e morais pouco dignos e pouco puros. Paulo possivelmente temia que estes comportamentos subversivos escandalizassem os fiéis mais recentes ou afastassem os não cristãos de uma possível conversão. E por isso ele faz esta recomendação e, mesmo no caso do silêncio, a proibição parece ser mais direcionada não à oração em si, mas ao facto de poder parecer fator de desordem uma mulher no meio de uma sinagoga se levantar para questionar um homem. Portanto, é verdade, se nós hoje ressuscitássemos São Paulo e perguntássemos o que ele achava sobre os direitos das mulheres, possivelmente a posição dele não seria a nossa, mas há aqui uma espécie de procura de criar uma boa imagem da comunidade cristã. No entanto, só para também sossegar um bocadinho quem nos ouve, apesar de Paulo aplicar estas regras sociais da época, ele introduz princípios teológicos que acabariam por subverter estas mesmas regras. E acho que é isso que se deve salientar. Paulo é um homem do seu tempo, mas apesar disso, introduz princípios teológicos que são novos. Três: apesar de exigir o véu, o texto mostra completamente, capítulo 11 da carta aos Coríntios, que as mulheres devem rezar e profetizar nas assembleias cristãs exercendo um papel ativo, por exemplo. O autor, por exemplo, São Paulo, na carta aos Gálatas, declara também abertamente que no batismo não há homem nem mulher, o que numa sociedade estruturalmente patriarcal era uma afronta. Aliás, essa questão, por exemplo, das mulheres serem submissas ao seu marido, São Paulo a certa altura diz que o marido também deve ser submisso à mulher e, portanto, num mundo em que o casamento não era necessariamente a união entre dois iguais, era claramente uma atitude revolucionária, que não se deve só a São Paulo. De facto, as comunidades cristãs no início fomentaram uma certa, mesmo que imperfeita, suspensão de hierarquias e tabus sociais. Por último, esta visão estabelece que o homem e a mulher, a partir de São Paulo, têm igual dignidade em Cristo. E esta será talvez a chave de leitura que irá possibilitar a condenação posterior da discriminação que o próprio Paulo é testemunha nestas práticas que para nós hoje são claramente descontextualizadas.

Daniel, como é que interpretamos em 2026 estes textos que realmente podem chocar com a nossa mentalidade contemporânea?

Como o João bem explicava, muito disto são os códigos culturais desta sociedade, que até se formos comparar com o mundo grego contemporâneo, ainda era mais patriarcal, machista, diríamos. E, portanto, esta ideia também que há princípios teológicos que de certa forma vão subvertendo tudo isto, quer no que toca à relação com as mulheres, quer o tema da escravatura, por exemplo, que também não é negado em si por Paulo, mas que é virado um pouquinho ao contrário na carta a Filemon, por exemplo, proporciona as chaves de leitura que eventualmente vão tornar no cristianismo natural um contexto social aqui muito diferente, em que há uma igualdade entre pessoas, entre seres humanos. E, portanto, acho que a fé cristã sempre procurou, e esse também é um ponto-chave, diria, na própria missionação da Igreja ao longo dos séculos, esta ideia de uma fé que deve inculturar-se, ou seja, deve encarnar numa determinada cultura e, portanto, somos chamados a perceber o que é devido a culturas próprias e também conseguir ao mesmo tempo relativizar isso e perceber se são coisas a ser ultrapassadas ou não. Este é um dilema também do cristianismo primitivo, que nasce num mundo judaico e os judeos tinham certos preceitos alimentares, não podiam comer certo tipo de coisas, os homens tinham que ser circuncidados. E depois todo este movimento inicial, muito bem percebemos isso nas cartas de Paulo, percebemos isso no livro dos Atos dos Apóstolos, percebeu-se que não era esse o foco, não era isso essencial e, portanto, na missionação aos cristãos, digamos, aos não judeus, aos gentios, isso não foi exigido. Da mesma forma, um raciocínio paralelo, também podemos aqui aplicar, percebendo nós que não faz sentido esta visão cultural tão diferenciada entre homem e mulher e, portanto, não lemos à letra este tipo de códigos de usar véu e não usar véu, porque esses são devido a esta cultura e a este enquadramento cultural do tempo.

O que é que podemos dizer a uma jovem mulher que-

Que pode ir à missa sem véu.

Que pode ir à missa sem véu.

Não, mas que olha para estes textos com algumas dúvidas e alguma inquietação também para a sua vida nos dias de hoje.

Eu acho que tem razão quando diz que os textos causam inquietação. Eu acho que o foco deve ser evidenciar que a linha que venceu foi aquilo que Paulo introduziu de novo, aquilo que muitas vezes nos causa escândalo. Paulo está a copiar a sua cultura e muitas vezes a tentar ser, podemos dizer, até mais papista que o Papa com esta questão do véu na comunidade de Corinto. Mas aquilo que venceu foi: não há escravo nem homem livre, judeu nem grego, homem ou mulher, todos somos iguais diante de Cristo.

Muito bem, fica por aqui este episódio especial em que procurámos responder à dúvida enviada pela nossa ouvinte, a Carolina. Já sabe, se quiser enviar uma pergunta para o podcast As Histórias da Bíblia, pode escrever-nos para o e-mail ashistoriasdabiblia@observador.pt ou então deixar um comentário na plataforma onde nos estiver a ouvir. Nós voltamos no próximo domingo com mais um episódio desta segunda temporada, em que vamos falar sobre Pedro, o discípulo escolhido por Jesus para liderar o grupo dos cristãos. Na próxima quinta-feira voltamos para responder a mais uma pergunta dos nossos ouvintes. Até domingo.