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Paulo, hoje falamos de sinais dos tempos, porque há muita coisa a mudar no mercado de trabalho.

É verdade, e uma parte dessa mudança vem da inteligência artificial e das mudanças que está a provocar ou que vai provocar. Um sinal disso: as quatro maiores empresas de auditoria publicaram no ano passado mais anúncios de emprego para recrutarem para si próprias especialistas em inteligência artificial do que para recrutarem auditores. São empresas de auditoria. Estamos a falar daquelas chamadas Big Four: a Deloitte, a EY, a KPMG, a PwC, que em todo o mundo empregam dezenas, talvez, no somatório, centenas de milhares de pessoas. Isto é uma conclusão do Financial Times, que analisou durante um ano os anúncios de emprego colocados por essas empresas para países que têm o inglês como língua oficial. Aqui estamos a falar dos Estados Unidos, do Reino Unido, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Irlanda. Mas é uma tendência que não escapa para outros países, como é evidente, uma tendência global, nomeadamente Portugal. E este número, indica o jornal, representa quase o triplo daquilo que se verificava em 2022, quando o ChatGPT foi lançado, e menos 2% dos anúncios publicados por estas empresas. A auditoria é uma das funções que mais depressa está a ser substituída, em grande parte, por mecanismos de inteligência artificial, porque é uma função de verificação de dados que as máquinas, por regra, fazem muito melhor, não implica depois uma validação.

Muito melhor, mais depressa.

Mais depressa, sem custos, sem greves, sem pagar pra Segurança Social e essas coisas todas.

Sem saber se depois tu pode confiar.

Sem licenças de amamentação. Por outro lado, as pessoas que se dedicam a essas tarefas rotineiras, que têm pouco valor acrescentado, muitas vezes, podem estar libertadas e dedicar o seu tempo a tarefas mais criativas e de maior valor acrescentado. Isso aplica-se na auditoria.

É sempre um equilíbrio.

Exatamente, na auditoria e noutras coisas.

Sem que as pessoas sejam dispensadas.

Pois, é isso. O mercado a médio e longo prazo acaba por depois encaminhar as pessoas para outras áreas. É um sinal dos tempos, de facto, que estas empresas, elas próprias que prestam serviço a outras empresas. Portanto, a tendência de emprego destas Big Four acaba depois por ilustrar aquilo que é a necessidade também das grandes empresas que são clientes destas, de outros setores todos.

E já que falamos em sinais dos tempos, o que os smartphones têm a ver com a sustentabilidade da Segurança Social?

Parece que não tem nada. Isto é um trabalho e um gráfico, também do Financial Times, do John Burn-Murdoch, um jornalista de dados do Financial Times, que divulgou há três dias um gráfico impressionante, gráfico baseado em dados, obviamente, e que tornou-se viral a esta dimensão nas redes sociais. O que esse gráfico e esses dados mostram? Mostra fortes declínios na fertilidade, nas taxas de nascimento, se quisermos, natalidade, em vários países, logo após a popularização dos smartphones e das aplicações móveis nesses países.

Tivemos um contracorrente muito interessante há uns tempos sobre isso, João, lembras-te? Eras tu também que estavas aqui.

Sobre a tecnologia e os ecrãs.

Exatamente.

O impacto direto.

A partir de 2010, com o início das redes sociais, mesmo países que tradicionalmente tinham muitos filhos, deixaram.

Deixaram. Mas é impressionante, porque o gráfico tem dados já agora para os Estados Unidos, para o Reino Unido, Austrália, França, Polónia, México, Marrocos, Indonésia, Gana, Nigéria e Senegal. Isto é, foi buscar países de vários continentes e com vários níveis de desenvolvimento. Para cada país, ele considerou o ano zero, o ano em que naquele país se popularizou o smartphone. Foi lançado em 2007, portanto, logo a seguir a 2007.

As redes sociais começam ali em 2008.

E o que é impressionante é que até o ano zero, em cada país, a taxa de natalidade é muito estável e depois, a partir do ano zero, em cada país, há um mergulho com quedas que vão dos 20 aos 40% da taxa de natalidade. Estamos a falar de um período que já tem 10 a 15 anos após a adoção generalizada dos smartphones.

Já dá pra perceber uma tendência e evolução.

Exato. Isto é, podia ser um movimento atípico por alguma razão naqueles países, de um ano, dois ou três, mas não. Há aqui uma tendência claríssima e há uma sincronização muito grande em todos os países. O que isso tem a ver, de facto, com a Segurança Social? Tem tudo a ver. Mais smartphones, os jovens começaram a passar muito menos tempo juntos na vida real. Há menos saídas, menos dates, se quiserem. Há menos encontros, há menos relacionamentos, há menos intimidade também dentro dos relacionamentos.

Estão sempre agarrados ao telemóvel. As pessoas não conversam.

Exatamente. Ou seja, as nossas pensões cada vez mais em risco com estes movimentos todos, mas estes dados são muito impressionantes.

Que interessante.

Façam bebés.

Isso.