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Já está conosco o Pedro Lino, como habitualmente às sextas. Pedro, viva, bem-vindo. Vamos falar da Semana Mundial do Investidor, que está a terminar precisamente, não é?

É verdade. Bom dia, Paulo. Bom dia a todos. Vamos falar da Semana do Investidor e por que é muito importante pra Portugal. Ora, Portugal continua a ter um desafio enorme em termos de literacia financeira. Nós durante décadas habituamos a poupar, sobretudo através dos depósitos bancários, imóveis e os produtos de dívida, nomeadamente os certificados de aforro. Sim, são instrumentos importantes, mas só que a poupança não deve ficar limitada a essas alternativas, como temos vindo a falar nesses podcasts. Ou seja, é fundamental explicar aos portugueses que poupar e investir são coisas diferentes. Poupar é necessário e é essencial, mas depois investir é outra coisa. No fundo, poupar é todos os meses eu tentar colocar uma parte do rendimento de lado. Outra coisa é investir e pôr esse dinheiro a trabalhar e a render. Por isso, quando compramos, por exemplo, ações, nós estamos a participar no capital das empresas, estamos a rentabilizar esse patrimônio. Quando compramos obrigações, estamos a financiar ou empresas ou Estados, e também é outra forma de financiar e de rentabilizar o patrimônio. Por isso, todos estes instrumentos estão disponíveis nos mercados de capitais e é possível e é importante passar a mensagem mais uma vez, que os mercados de capitais não são um cassino, são um instrumento fundamental pra qualquer economia, por isso é que a economia americana é o que é, para financiar a economia, criar emprego e gerar riqueza.

Mas, Pedro, esse tipo de expressões, o cassino, o jogar, mesmo o jogar na bolsa, o risco que os políticos muitas vezes invocam quando falam publicamente, sobretudo sobre segurança social, isso é um paradoxo. Por um lado, deviam incentivar a poupança e precisamos de mais poupança. Por outro lado, os próprios políticos, com esse discurso, afastam muitos investidores do investimento.

Paulo, o problema é que há aqui uma elevada iliteracia financeira até dos próprios responsáveis políticos. E é uma pena que os políticos que nos estão a governar e que nos governam nos últimos 10 ou 15 anos, estão muito próximos da reforma e estão a tomar decisões que realmente não vão ter impacto neles, mas vai ter impacto em nós e para as próximas décadas. Por isso, essa é uma reflexão que eu gostava de fazer nesta Semana do Investidor, é que falamos da importância de investir pra reforma, de financiar as empresas, desenvolver o mercado de capitais. Isto são tudo chavões que são utilizados. Mas o problema é quando o responsável político investe em ações em Portugal, isto transforma-se rapidamente numa polêmica. Vamos, por exemplo, ver o caso do Governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, que tinha adquirido ações da Galp e da Jerónimo Martins e acabou por vender essas posições por uma questão de aplicação de regras do Eurosistema. Mas aqui é que tem que ser evidente o que são as regras de prevenção de conflitos de interesse, que são fundamentais e devem ser cumpridas, mas outra coisa é a utilização de informação privilegiada para negociar ações de empresas sobre as quais queremos tomar decisões. Ou seja, uma coisa é investir de uma forma diversificada e transparente e preparar o futuro, outra coisa é confundir o interesse legítimo com conflitos de interesse. E no caso do Governador, acho que foi uma pena, porque parece que investir era uma coisa péssima, horrível, e é só pra quem tem dinheiro e são os capitalistas. E é essa mensagem que temos que acabar de vez em Portugal, que é quem tem dinheiro e quem investe nos mercados, está a promovê-lo, está a promover não só a literacia financeira, mas também está a promover o investimento e o desenvolvimento do mercado de capitais.

Estás a defender que os políticos e dirigentes públicos, se quisermos, deviam dar o exemplo e investir também em ações, por exemplo.

Sem dúvida. Repara, como é que eu posso falar de desenvolver o mercado de capitais se eu não investir? E a maior parte dos nossos políticos não investem. Aliás, há um problema em Portugal, é que eles investem, se olharmos pro patrimônio dos políticos, está investido em quê? Certificados de aforro, depósitos e imóveis. Ou seja, os especuladores dos imóveis são eles, não somos nós.

E porque o investimento em ações pode gerar esse tipo de polêmicas, claro.

Gera esse tipo de polêmicas, mas gera porque, lá está, durante anos é um cassino. E por isso, o que eu defendo é que quem toma decisões sobre economia e poupança, pelo menos tem que perceber o funcionamento do mercado de capitais, porque todos os políticos nos últimos 15 anos dizem: "Não, mas temos que desenvolver o mercado de capitais português". É? O que eles fizeram? Se eles não investem, como é que eles podem desenvolver alguma coisa? Paulo, nós só podemos desenvolver e tomar decisões quando estamos com a mão na massa, e esta gente não está com a mão na massa, seguramente.

Por que achas que essa mudança de mentalidade é importante, de facto?

Porque Portugal precisa de ter investimento mais produtivo. E o investimento mais produtivo não é só as pessoas. Nós precisamos de empresas maiores, mais inovadoras, mais competitivas, e essas empresas precisam de capital pra crescer. Os mercados de capitais, como vemos nos Estados Unidos, e esta grande diferença pro mercado europeu, são uma alternativa fundamental ao financiamento bancário. Quando uma empresa emite ações, obrigações, está a captar recursos pra investir, inovar e criar emprego. É tudo positivo pro país. Quando as famílias investem através de fundos de investimento ou outros instrumentos pra participar neste processo de criação de riqueza, também estão a aumentar o seu patrimônio. Por isso, é aqui que a literacia financeira não é só uma questão individual, é uma questão de competitividade econômica. Eu quero relembrar o seguinte: nós temos em Portugal 100% do PIB parado. Ou seja, as empresas têm 83, salvo erro, mil milhões de euros parados em depósitos à ordem e depósitos a prazo. As famílias têm 207 mil milhões entre depósito a prazo e depósitos à ordem. Ou seja, são quase 290 mil milhões, 100% do PIB, a receber, em média, nos depósitos à ordem é zero, nos depósitos a prazo é 1% ou 1,2 antes de impostos Isto é capital que não produz nada.

É como se estivesse parado.

É como se estivesse parado.

A única função que está a ter ali é gerar liquidez.

E nós temos que aumentar a produtividade do capital deste país, principalmente para as pessoas.

Como é que podemos então incentivar os portugueses a investir mais sem desvalorizar os riscos, como é evidente?

No fundo, o primeiro passo é explicar que investir não significa especular, nem casino, nem nada. Depois, também não significa tentar adivinhar qual é a próxima ação a subir. Hoje vemos muito no YouTube, qual é a ação que vai dar mais. Não, não tem nada a ver com isso. Significa definir objetivos, compreender os riscos e diversificar e investir com horizonte temporal adequado. Também é fundamental explicar que não investir tem custos. O não investir tem o custo da inflação, que durante anos vai corroendo o poder de compra. Por isso, uma pessoa, se tiver o dinheiro parado, no fundo ele está a perder dinheiro sem nos apercebemos. Nominalmente, temos lá esse valor, na realidade, não temos porque compra menos. Por fim, acho que é preciso explicar às pessoas que não é preciso um grande património para começar. Hoje em dia, com 10, 15, 20 € por mês em ETFs, fundos de investimento, BPR, tudo, é uma forma disciplinada, fácil, de construir uma poupança relevante ao longo das próximas décadas.

Muito bem, Pedro, para fechar, uma ideia.

Paulo, havia tanta coisa.

Tanta coisa que dissemos.

Portugal precisa de mais literacia financeira nas escolas, nas famílias, nas empresas e no Estado, nos políticos. E precisa também de mais conhecimento nas instituições que decidem o nosso futuro. Por isso devemos combater as fraudes, devemos combater a informação privilegiada, mas devemos terminar com o investimento nos mercados financeiros é uma forma adequada de preparar a reforma e construir património financeiro.

Muito bem, Pedro Lino, a propósito da Semana Mundial do Investidor, ficamos aqui com um olhar sobre a forma como nós investimos e gerimos as poupanças. Pedro, bom fim de semana. Até para a semana.

Obrigado. Bom fim de semana, Paulo. Bom fim de semana a todos.