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A porta está trancada. Como é que vamos entrar? Arrombar não dá. Já não se fazem madeiras daquelas.

Peninha, o que estás a fazer?

A sobreviver como a Fatinha. Este mistério hoje não passa.

Boa sorte, boa sorte. Ao mais triste e ao mais sisudo. Boa sorte, boa sorte. E um chocho bigodudo.

Parem de fazer buracos na minha rádio.

Caros ouvintes, a cegueira de descobrir quem se esconde por trás daquela parede difícil de derrubar, fez com que quase ninguém tivesse percebido que durante sete minutos o dia se fez noite. Peninha picotava com o berbequim. E mal, porque estava tudo às escuras e porque não tem jeito nenhum. Peninha, para. Não estás a perceber o que está a acontecer? Está tudo às escuras. Está a acontecer finalmente o eclipse, Peninha. Para.

Eu quero que o eclipse vá para o quinto carvalho, Gabriel. Eu vou descobrir quem é que anda a fazer de nós parvos.

Xana, Peninha, querida, tu tens mesmo de começar a fazer alguma coisa por ti. Tu vai para o FIR, tira um curso de pronto a vestir, sei lá, come umas bagas goji, cantar Céu Lindião, mas assim não dá para continuar.

Não se vê rigorosamente nada. O que é isto? Saiam da frente. Eu vou entrar.

Caracas, Amâncio. Olha aí o buraco, querido.

Amâncio? Fatinha? Mas vocês estão aqui, afinal?

O Amâncio tirou-me da prisão.

Mas como? Não se vê nada.

Gabriel, cale-se que isso agora não interessa para a novela, canseira. Quem entra primeiro sou eu.

Cuidado, Beatriz, não se vê nada e o impostor pode estar armado.

Beatriz, pare de me apalpar.

Não me diga. Luís Figo? É você, Luís? Não estou a acreditar nisso.

Não, não sou o Figo. O meu nome é Brito e Melo da Cunha Souto Maior e Menor também.

A mim não me diz nada.

A luz está a voltar.

Aleluia!

Bons olhos a vejam.

Acabou o eclipse, finalmente. Estás a ver, Peninha? Não era preciso fritar a pipoca, amor.

Agarrem-me ao meio. Eu estava à espera que a luz voltasse, sabes para quê? Para não falhar a pancada.

Ui, Amâncio, fica quieto. Ai, credo!

O que foi?

Ai a tua cara.

Não, eu estou muito irritado e quando fico irritado, fico com eczema. Portanto, não olhes para mim. Eu devo estar hediondo, não olhes para mim.

Não estás nada, Amâncio.

Não?

Não, querido, tu és perfeito.

Sou?

Mesmo com essa rosácea.

Sim.

Canoso. Posso narrar? Dão-me licença, se faz favor?

Claro. Já que insiste.

Finalmente, depois de 26 episódios, espontaneamente, sem eu ter de ditar, a Fatinha e o Amâncio beijam-se apaixonadamente.

Soto Maior, era mesmo precisa aquela questão da entorse dos serris?

Isso foi por azelha sua, Gabriel. Lá vedei as minhas mãos. Esta brejeirice está a dar cabo de mim.

Peninha, estás despedida.

Olha que se ela vai, eu também vou.

Vai. Chega! Será que nem num momento romântico vocês escalam um minuto? Fogo! E olha lá, voz ao Brito Melo, sei lá o quê. Eu quero saber porquê. Não olhes assim para mim, porque tu agora vais ter que dizer o que é que tu tens contra mim para quereres que eu desapareça. Pois, o que faz um saco-cama aqui? Tu por acaso estás a viver aqui?

Eu posso explicar. Amâncio, por favor, não me prenda os pulsos, porque eu usei fitas de vários festivais de vinhos durante anos e ganhei uma alergia muito chata.

Tu fica mas aquieto. Está quietinho, seu frango mal parido. Sabes qual é a tua sorte? A tua sorte é que eu estou calmo. Eu estou calmo e acalma-me sempre que penso que a mulher da minha vida deu-me um beijo na boca.

Como podem ouvir pelo som do comboio, estou a usar transportes públicos pela primeira vez. Sigo rumo ao meu monte alentejano. Como escapei à prisão? Ora bem, eu não escapei. Eu saí ontem. Já se passaram dois anos desde esta radionovela maldita que denegriu o meu nome. Fatinha sabia todos os meus segredos. Só ser viciado no jogo bastava para ser excluído do grêmio dos narradores, que têm como rotina comer lampreia na época dela, discutir livros, vinhos e quem será a próxima voz de Portugal. Enfim, eu não quero estar para aqui a falar muito disso. Fui excluído, está tudo pronto para sempre, siga. Depois querem saber o que aconteceu aos nossos personagens nestes dois anos? Ora bem, eu conto. Beatriz Severo continua diretora da Rádio Observador, mas a partir de Espanha, mudou-se para Menorca com o seu namorado. A sua despedida foi épica. O Manolo veio buscá-la de helicóptero.

Adiós, muchachos, spirits. Adiós. Me voy, pero tenho sempre o WhatsApp ligado. Estoy mirando todos, chiquititos. Adiós. Manolo, leva-me agora.

Quanto a Gabriel e Peninha, para o caso de alguém querer saber, Peninha foi mesmo para Ofir. Tirou um curso de primeiros socorros, começou a fazer cycling, essencialmente tudo o que foi sugerido pela Beatriz ao longo do tempo e ficou exatamente na mesma. Gabriel tirou um ano sabático da rádio e é agora produtor de hortícolas. Depois de dois anos, Gabriel e Peninha vão ter o primeiro date. Estes dois são uma seca. Agora sim, o casal que interessa, o principal. A Fatinha e o Amâncio começaram a namorar. Amâncio anda a escrever uma peça para Fatinha interpretar. É um musical.

Boa sorte! E um chocho bigalhudo.

Fatinha, está lindo. Que voz maravilhosa. O meu coração até paira no ar.

Eles continuam a trabalhar no Minipreço e até recentemente houve um momento que deixou todos os clientes boquiabertos.

Olá, daqui fala o Amâncio. Estou no alto-falante do Minipreço e peço imensa desculpa de interromper os nossos clientes das vossas compras, porque eu tenho um pedido muito especial a fazer. Fatinha, tu sabes que eu te amo perdidamente, não sabes?

Pára o todo!

O que foi?

Cala-te, pelo amor de Deus. Tu não me podes pedir em casamento no alto-falante do Minipreço. Pelo amor de Deus, Amâncio. Pára. O que foi? Não caberam?

Pronto.

Vem lá. Vou fazer compras. Isso, queridas. Fofas, lindas.

Isso, isso. E dindo. Já viram o preço do bacalhau? É de aproveitar.

Está um espetáculo, amor. É verdade. E podem acumular pontos no cartão Minipreço, que depois dá descontos. Está bem, amores?

É gente.

Vai virar francos.

Já desliguei o microfone.

Vai virar francos. Isso. Vai. Ainda ninguém ouviu.

Ainda não foi desta, mas o amor continua a prevalecer entre os dois, no Minipreço, na Rádio Paredes Maias e aqui no meu monte. Agora sim, paz e sossego. Ninguém acaba só. Eu mesmo me abraço ao meu sobreiro favorito, o Elias, e jamais voltarei a praticar tiro ao prato. Sim, paz e sossego. Fim. Custou, mas acabou.

Boa sorte, boa sorte ao mais triste e ao mais sisudo. Boa sorte, boa sorte e um chocho bigaludo.