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Boa sorte, boa sorte ao mais forte e ao mais sortudo. Boa sorte, boa sorte e o Xoxo bigalhou. Boa sorte, boa sorte ao mais triste e ao mais sisudo. Boa sorte, boa sorte e o Xoxo bigalhou.
Olá, amores, cá estou eu. E que sorte a minha. Olhem, estou trancada, fechada. Estou na sala de visitas da prisão. Podem prender o meu corpo, mas a minha voz não apanham. E eu vou descobrir quem se fez passar por mim pra me tentar matar depois de ter casado comigo. Esqueçam o buzeirão, que a partir de agora quem narra a história sou eu, e é o Fatinha de Abril.
Comigo? Mas o que é isto, Fatinha? Estás doida? Tu nem sequer tens carta de narração. Mas será que tu não morres?
Mas também tenho um buzeirão, se eu quiser, boss.
Não quero saber. Estás proibida de pegar na história. O tu ouvires-me já é demais.
Ai, é? Então deixa-te estar que eu já te apanho. Vou ali fazer uma chamadinha. Uma chamadinha daquelas. E já te digo como é que elas mordem, ouviste?
Como elas mordem? Estás a falar pra quem? Fatinha, tu não me digas que estás outra vez a falar sozinha. É a quarta vez que eu te visito esta manhã e tu não paras de falar pro ar.
Qual quê, Amâncio. Eu já estou é a pensar como é que eu vou sair daqui.
Não precisas, minha querida. Já está tudo pensado. Nós vamos fugir. Sabes por quê? Eu já tenho a planta da prisão tatuada no meu corpo. Queres ver? Eu vou-te mostrar.
Está quieto. Baixa a camiseta. Estás doido? E qual fugir, Amâncio? Tem calma contigo. Eu vou é apanhar quem se fez passar por mim pra me tentar fazer mal. E vou sair daqui sem dívidas à lei, ouviste?
Fatinha já havia dominado os corredores do Minipreço e agora, na prisão, chamavam-lhe a rainha da ala. E para Fatinha, claro, não havia limites de visitas. Amâncio estava sempre lá, quem sabe até mais preso do que ela. Ela era a rainha da ala. Dizia-se entre os guardas que Fatinha era feita do mesmo tecido que é feita a vitória. Mas valha-nos Deus, neste jogo, neste tabuleiro, que hipóteses tem uma rapariga da caixa contra as forças invisíveis que a perseguem? Nenhuma. Na rádio, só Peninha não se conformava com a prisão de Fatinha.
É muito estranho isto. A Fatinha consegue casar-se consigo própria, depois é presa, acusada de tentar matar a cônjuge, ou seja, ela mesma. Parece que obedece a uma lei à parte. Ela sim, não tem personalidade jurídica.
Sim, senhora, obedece à lei da leviandade. Rege-se pelos princípios básicos da desconstituição. Só celebra contratos à luz do Código Fabril. De facto, não há julgamento possível.
Mas o que é isto, Gabriel? Desde quando tu emites opiniões, Gabriel? Por favor.
Sim, Gabriel, ainda por cima tão ácido, pareces mesmo um jurista. O que se passa, homem?
Desde que perdeu os tomates de ser rico, parece que os ganhei, Peninha. Ando com uma vontade incontrolável de dizer tudo o que penso, uma incontinência mesmo.
É normal, é o Júpiter que está retrógrado.
A sério?
Eu já não entendo nada desta trama. Então a freak não era eu? Agora temos aqui o quê? Dois discípulos da Maya? O que se passa convosco? Isto é um autêntico freak show. Já não sei o que se passa aqui.
É o freak show, sim. Eu, por acaso, estou a pensar virar-me para o entretenimento.
Olha, eu apoio-te, Peninha, até me visto de gorila, se for preciso. Chama-me Adriano.
Espera. Tu que és um macaco sem o fato, mas que és de fato do macaco? Peninha, não te deixes desviar. Estávamos a falar da Fatinha.
Olha, um número fixo e desconhecido. Tou?
Gabriel Graça? Eu ouço-te bem.
É a Fatinha.
Deixa ouvir.
Sim, mete em voz alta.
Ok. Diz, Fatinha, o que queres? Olha que estás a gastar a única chamada na prisão pra me ligar. Não achas que é um desperdício?
Não, amor, eu já mando nos corredores. Eu ganhei chamadas aos outros no monopólio e acabei de ligar pro cassino de Monte Gordo. Eu tenho um furo jornalístico e a notícia está precisamente, especificamente, no sítio onde vocês estão.
Como assim, Fatinha?
Peninha, tu também estás aí?
Sim, estou lá.
Está bem, prontos, não faz mal. Olha, então já agora, eu preciso que tu uses a tua sensibilidade. Eu já sei quem me tentou matar e sei onde ele está. Está aí na rádio convosco.
Fatinha, mas tu estás a acusar-nos? Nós já fomos ilibados, Fatinha.
Não, não são vocês. O meu primo disse-me que ontem estava um homem perdido no cassino a gritar que ia matar uma tal rapariga linda, loira, maravilhosa, toda boa, no Minipreço, e que estava farto de dormir no estúdio da rádio.
O estúdio três? É o estúdio três aqui da rádio que está ocupado há meses.
Olha, ainda no outro dia lá bati à porta e gritaram: "Ocupado".
Sim. E como é que era a voz que respondeu?
Olha, era sexy, era ressonante.
É isso mesmo. É ele, é a voz que eu ouço. Aí está a coisa que me quer tentar fazer .
A porta está trancada. Como é que vamos entrar? Arrombar não dá, que já não se fazem madeiras daquelas.
Peninha, o que estás a fazer?
A sobreviver como a Fatinha. Este mistério hoje não passa.
Sim, sou eu que vivo no estúdio. Fui eu quem tentou matar Fatinha e só me pesa o não o ter conseguido. Queria que isto tivesse acabado o quanto antes, receber a minha soma e desipotecar o meu monte no Alentejo. Queria finalmente poder abraçar o meu sobreiro favorito, o Elias, cuja cortiça já foi dos quadros para pionés às rolhas de Moët & Chandon. E de repente, caro ouvinte, se acredita que o mal não compensa, mesmo quando eu estava prestes a ser apanhado, no exato momento em que o buraco na parede ficou feito, toda a luz se apagou. E apagada permaneceu por sete perfeitos minutos. Já não há sorte que nos valha. A partir de agora, já só temos sabedoria.
Boa sorte, boa sorte ao mais forte e ao mais sortudo. Boa sorte, boa sorte e o Xoxo bigalhou. Boa sorte, boa sorte ao mais triste e ao mais sisudo. Boa sorte, boa sorte e o Xoxo bigalhou, e o Xoxo bigalhou, e o Xoxo bigalhou.