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Boa sorte, boa sorte. Ao mais triste e ao mais sisudo. Boa sorte, boa sorte. E um chocho bigaludo. E um chocho bigaludo.

Nesta novela, que agora assume policiais feições, Fatinha continuava a vida sem qualquer espécie de medo ou preocupação. Se alguém lhe queria fazer mal, pois que fizesse. Medo é que ninguém lhe metia. Uma pepita de ouro como ela podia tudo, menos viver trancada num cofre. Para parar Fatinha, só mesmo atentando contra a vida dela. Digamos que o medo é uma coisa que à Fatinha não lhe assiste.

Exatamente. É que eu nem morta quero que me escondam. Mandem vir um mausoléu. Tu já viste o Amâncio? Ele está a ficar tolo. Está completamente maluco das conspirações. Ele tem mais medo de quem me quer fazer mal do que eu própria da minha pessoa. E isso tem-se notado na qualidade do frango. Aquilo está uma miséria, em vez de tostado, bem queimado. Ele está frito da cabeça.

Certo, Fatinha. Ele que se perca na investigação. Quanto mais perdido, melhor.

Quanto mais perdido, melhor. A sério? Tu tens de parar de ser tão enigmático.

Fatinha, vozes de burro não chegam ao céu.

Não me digas. Pois então fica sabendo que vozes de burro do céu também não chegam à Terra. Está bem? Ouviste? Apontaste? Então anota. Tchau. Chochos bigaludos.

Deus me dê paciência para aturar esta. Como dizia, Fatinha continuava a vida como se nada fosse. Todos os dias passava na rádio deixando as suas dicas, todos os dias atendia pessoas, de cabeça erguida, olhos nos olhos, na caixa um do Minipreço.

Ora bem, um queijinho, pip. Um bombinho, pip. Como é que é? Dinheiro ou Multibanco? O quê? MB Way? A gente não tem MB Way, amor. A gente não é com bitcoins, aqui é biscoitos e marcadia. Lúcio!

Quê?

Aqui é o caraças. É assim que falas pra tua balhota? Anda cá. Não me abanes a cabeça. Anda pra aqui pra caixa um coto que eu tenho que ir fazer uma coisa, se faz favor. Ele já vem aí, está bem? Com licença.

Fatinha ausentou-se. E porque se ausentou? Isso gostava eu de saber. O que é verdadeiro é que mais uma vez, e por um milésimo de segundo, o mal não chegara à Fatinha. Antes que esse tal Lúcio se sentasse à frente de todos os que estavam no Minipreço, a cadeira da caixa número um ejetou-se e entrou teto adentro. Gabriel estava na fila e até deixou cair a última bolacha do pacote. Sim, ele é daqueles que come qualquer coisa enquanto está nas compras e depois no fim paga só a embalagem. Era uma urgência noticiosa e era preciso avisar Peninha de imediato.

Estou, Peninha? Estou, é urgente, Peninha.

Finalmente. Vais dar-me dois minutos pra falar do eclipse, Gabriel?

Não, Peninha, não é isso. É aqui no Minipreço, Peninha.

Mais um, não acredito. Também já só tens a explosão do armazém na agenda, não é?

Não é. Acabou de haver outra coisa aqui no Minipreço. Desculpa lá, mas é que isto é muito estranho. Não parece um ato isolado. Foi agora mesmo, a Fatinha estava na caixa um, levantou-se para ir não sei onde e bum! A cadeira dela fez um barulho danado e saiu disparada pro teto. Isto não é normal, tens que vir aqui.

Ai, credo, Gabriel, e ela está bem?

Sim, ela safou-se, mas isto está o caos aqui.

Cá para mim andou aí metida com as revendedoras da Avon e falei-me aquilo, já sabes como é.

Não sei.

Agora andam atrás dela também, eu sei bem, já me aconteceu.

Mas devias vir aqui cobrir isto, isto está o caos, Peninha. O Amâncio está a pagar ali ao canto como um doido.

Ok, eu vou, já saí.

E o facto é que mais uma cena de crime se montava agora no Minipreço. Primeiro, a explosão. Agora uma cadeira de supermercado a ejetar-se como uma cadeira de um caça. Estaria montada a caça à Fatinha? Será que a nossa estrela é sol de pouca dura? Parece que há quem a queira eclipsar para sempre. Começa a parecer óbvio. Mas quem? E com que corpo? Amâncio mergulhava irritado nestas perguntas.

Fatinha, outra vez? Tu tens de emigrar, mulher, eu fujo contigo. Vamos pro Taiti, vamos pro Dubai. Eu até vou pra Orinda ou Liberdade, o que tu quiseres. Vivemos da pesca, da fruta, mas, mulher, eu já fiz mil quadros, eu não consigo entender como é que alguém te possa querer mal. Mas isto é evidente. Fatinha, anda, tu foges comigo, vamos zarpar daqui pra fora.

Tu estás maluco? Ouve lá, tu não estás bem, a sério, tu deves estar a precisar de medicação. Tu largar a tua grelha e eu largar a rádio assim sem mais nem quê?

Fatinha, isto é-

Olá, vai te tratar, Amâncio.

Minha mulher, vou. Isto é uma questão de vida ou morte, rapariga.

Olha, então que seja. Que seja, que eu prefiro estar viva, quase morta do que morta-viva, ouviste? A mim ninguém me tira do meu caminho, que eu estou aqui a dar o peito às balas. Olha, e a face, ele que me venha aqui na minha face. Ouviste? Aqui. Ou eu não me chamo Fatinha Abreu.

Fatinha estava chocada, revoltada. Por que quem lhe queria fazer mal não marcava um mano a mano? O segundo atentado a enchia não de medo, mas sim de uma tremenda raiva. Em menos de dois tempos, Fatinha inscreveu-se no kickboxe. Mas Amâncio, que vira Fatinha negar-lhe o mais tropical dos sonhos, mantinha acesa a brasa da investigação. Precisava de avisar a Beatriz Severo. Um outro atentado. A tese de ambos estava quase confirmada. Alguém queria fazer mal à Fatinha. Olha que sabichões. Mal eles sabem que aqui todas as chamadas estão sob a minha escuta.

Tu, Beatriz?

Sim, Amâncio.

Vamos traçar um plano. Voltou a acontecer. Tentaram fazer mal à Fatinha outra vez.

O quê? Outra vez? Amâncio, temos história.

Mas qual história, Beatriz? Isto é um perigo.

Fatinha tinha sofrido mais um ataque à sua existência e mais uma vez nada lhe aconteceu. O mistério adensa-se e o perigo parece estar em todo lado. Fatinha finge estar tranquila com a situação, porque será? Qualquer pessoa no seu lugar teria mais cautela ou pelo menos metia umas férias, mas Fatinha decide continuar a dançar com o destino. Temo que precisemos de mais alguém para nos ajudar a resolver este bico de obra. Mas quem? Isto é coisa para demorar mais quê? Um mês? Boa sorte. A quem por aí vier, que seja breve, que eu tenho muito o que fazer.

Boa sorte, boa sorte. Ao mais triste e ao mais sisudo. Boa sorte, boa sorte. E um chocho bigaludo. E um chocho bigaludo. E um chocho bigaludo.