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Boa sorte, boa sorte ao mais triste e ao mais sisudo. Boa sorte, boa sorte e um chocho bigaludo.
Olá outra vez. Aproximamo-nos a largos passos do fim desta radionovela, pelo menos assim o espero. E continuamos sem saber quem quer fazer mal à Fatinha, que já tinha escapado não uma, mas duas vezes à morte certa. A sacana custa a apanhar. Assim como as personagens nas novelas acordam sempre maquilhadas, aqui também as obras de reconstrução são feitas de um dia para o outro. Apesar da cratera no teto do Minipreço, provocada pela cadeira ejetada a toda a velocidade da caixa um, no dia seguinte, era como se nada tivesse acontecido.
Não, isto é impossível.
Então, Amâncio, o que é que se passa hoje?
Passa-se tudo, Fatinha, olha lá para cima. Não há vestígio sequer que houve aqui uma cratera.
Ai valha-me Nossa Senhora. Mas o que é que se passa aqui, Amâncio? Terão vindo arranjar durante a noite?
Não. Isto era trabalho para três, 15 dias, à vontade. Isto é muito estranho, Fatinha. Eu acho que a resposta vem de cima, não sei porquê.
Olha, Amâncio, também não vale a pena a gente ficar aqui os dois assim feitos parvos a olhar para o teto. Escapei uma, escapei duas. E à terceira-
Não, não vai haver terceira, eu juro-te. Nem quarta, nem por aí fora. Eu quero e vou descobrir quem está por trás disto tudo.
Amâncio já tinha interrogado o Gabriel, a Peninha, a Beatriz, mas faltava uma pessoa.
Quem? Posso saber?
Fatinha, não terão sido estas supostas tentativas de homicídio simplesmente uma forma de a Fatinha estar nas bocas do mundo e de alcançar uma fama atómica?
Olha, ó narrador, tu deves andar a tomar os cházinhos da Beatriz, só pode. Pois ficas a saber que se eu quisesse só fama, eu tinha chamado logo os jornalistas, os bombeiros. E eu não tenho nada a ganhar em ver-me morta. É que nothing.
Por alguma razão milagrosa, Fatinha consegue sempre sair ilesa de todas as armadilhas muito bem montadas, mas sem qualquer efeito. Será porque a autora destes atos vis é ela mesma, a Fatinha?
Fatinha?
Diz, Amâncio. Mas olha, diz rápido, está bem? Que eu preciso meter a caixa um em ordem. Que por acaso também está como nova. Mas o que é que se passa aqui?
Fatinha, tu dás-me a honra de um passeio comigo pelos corredores às 17h?
A sério, Amâncio?
Uhum.
Ai, está bem. Às 17h. 1-7 H, não é? Às 17h. Da tarde.
Sim.
Pois, nos corredores dos frescos.
Pode ser.
Está bem, Amâncio. Está combinado.
Gabriel e Peninha continuam a conversar nas horas vagas. O tempo parece correr mais lentamente quando estão juntos. As horas vagas passaram a ser todos os bocados fora do trabalho. Tinham até combinado ir ao Minipreço para Peninha ajudar Gabriel a fazer as compras da semana, de uma forma mais consciente e organizada. Ainda nem começaram e eu já estou aborrecido. O que estarão eles a conversar? Queremos mesmo saber ou passamos à frente? Ainda falta muito para as 17h?
Tem de haver sempre fruta em casa, Gabriel, e convém ser da época para sentir melhor o sabor. Toda a fruta tem o seu mês perfeito. A fruta de novembro e dezembro são: a amêndoa, o ananás, a anona, a avelã, a castanha, o diospiro, a laranja, a maçã, a noz, pera, pinhão, kiwi, roma.
Paris, Londres.
Pumentina e uva.
Fogo, tu sabes tanto sobre os meses e sobre fruta, Peninha. Incrível. Pois, tal como eu calculava, nas novelas há sempre um casal que nos dá seca, e este é o meu favorito nessa categoria. Nem andam, nem desandam, mas ficam ali retidos por algum tempo em conversas vãs, mas informativas, claro. São 17h, Fatinha olha para os queijos em promoção. Amâncio aproxima-se.
Fatinha, eu não queria fazer isto.
Isto o quê?
É neste momento que sai por detrás de Amâncio, Beatriz Severo, com um tablet na mão e um vídeo em pausa.
Com que então, Fatinha, afinal a culpada és tu.
Amâncio? Beatriz? Mas o que é que se está a passar?
Cala-ma. Vou aproveitar que a Fatinha está calada pela primeira vez e faço a leitura do vídeo que estamos a ver. Na noite da explosão, vemos uma pessoa a entrar no armazém já depois das portas fecharem. Reparem. Olá, eu sou a Fatinha. Como podem ver pelo meu rabo de cavalo amarelo, bem esmigalhado, eu vou só aqui meter o pau junto à porta. Tcharam, é ela.
Impossível! Essa não sou eu. Vocês vejam com olhos de ver o que eu estou a ver. A gente vê o quê? Uma pessoa de costas e é alguém que se está a fazer passar por mim. Amâncio. Amâncio, tu tens óculos, Amâncio.
Eu vou ser sincero, Beatriz. Também não me parece que tenham a mesma silhueta.
Agora mudaste de ideias.
Não, quer-me parecer que as ancas da Fatinha são diferentes. Eu conheço. Quer dizer, eu conheço. E até o jeito de andar parece-me ser outro.
Amâncio, não mudes de ideias, sabes bem que foi ela a culpada. Só pode ter sido ela. É que tem mais a ganhar com todo este burburinho à sua volta.
Não acredito nisto. Amâncio.
Diz.
Tu combinaste com ela
Com a Beatriz para me engorrelarem.
Eu?
Isto é uma armadilha.
Nunca na minha vida. Nunca! Beatriz, nós tínhamos combinado. Tem calma, amor. Agora não. Não fale com essas aqui. Não. Beatriz, nós tínhamos combinado que eu ia conversar com a Fatinha, a sós. Era só conversar. Eu nem sabia que ela ia aparecer. Fatinha, olha para mim.
Traidor, tu és um traidor. Tu tinhas me de mandar por cima.
Mas elas estão no ar, Fatinha. Eu nem sequer te estou a tocar.
Fatinha. Let's cut the bullshit. Fatinha, cut the bullshit. O teu tempo aqui acabou.
É por isso que você está vestida de casaco de cabedal e óculos escuros. Está mascarada de inspetor.
À saída do Minipreço e sem saber o que se passava no corredor dos frescos, Gabriel e Peninha estranham a ausência de Fatinha na caixa um. Passam por eles dois polícias que deixam dois cavalos estacionados à porta do Minipreço. Mas este casal delírios estava tão entretido em coisinhas sem jeito nenhum, que nem viram o que aconteceu nas suas costas. Nem os polícias, nem os cavalos. Até metem nojo.
Larguem-me. Eu é que sou a vítima disto tudo. Eu não vou de cavalo, eu não saio daqui. Eu não vou de cavalo a lado nenhum. Larguem-me, soltem-me. Eu não preciso de magiar pessoas.
Caros ouvintes, eu até acabava esta radionovela já aqui. Fatinha foi detida. Afinal, ela era uma personagem dissimulada. Fingiu ser perseguida quando era ela mesma a encenadora destes teatrinhos dramáticos disfarçados de policial. Parece que o casamento consigo própria também não ia de vento em popa. Por mim, isto podia acabar aqui, mas ainda faltam alguns episódios. É o tempo de fazer a minha mala para o meu monte no Alentejo e reunir-me com o meu grupo de-- bom, já estou a falar de mais. Até para a semana e boa sorte, Fatinha, agora na prisão.
Boa sorte, boa sorte ao mais triste e ao mais sisudo. Boa sorte, boa sorte e um chocho bigeludo.