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"Boa sorte, boa sorte ao mais forte e ao mais sortudo. Boa sorte, boa sorte e o chocho bigalhou. Boa sorte, boa sorte ao mais triste e ao mais sisudo. Boa sorte, boa sorte e o chocho bigalhou, e o chocho bigalhou".

Beatriz não foi. Gabriel tampouco. Peninha já vai ilibada e Amâncio não podia sequer ter pensado em semelhante coisa. Quem terá, afinal, procurado fazer mal à Fatinha? E as autoridades competentes, por que ninguém as chama? Até podíamos pedir ajuda ao ChatGPT, mas, meus amigos, esta história está cada vez mais humana. É que sabem, a faca e o alguidar são o ponto de suspensão do progresso. E enquanto a polícia não dava sinais, Amâncio, que já nos apareceu como Osíris, tentava apalpar a justiça com as próprias mãos.

Fatinha, pensa comigo: tu estavas no armazém, só que eu estava aí no momento da explosão. Por isso, segundo os meus cálculos-

Homem, já passou. Respira, inspira, expira. Fogo, deixa lá as tábuas, as tabuadas. Olha, por que não preparas antes uma tábua de queijos e relaxas o sistema nervoso, homem?

Não dá. A lactose comigo dá-me a quinta sinfonia. Já alguma vez te cheirou a Beethoven? Não queiras. E tu não percebes, Fatinha. Tu podes ter um stalker.

Credo, Amâncio! Eu sabia. Isso apanha-se nos tapetes de ioga, não é? Ai, meu Deus, que nome, que doença é essa, Amâncio?

Não é uma doença, Fatinha. Ou melhor, quer dizer, é uma doença, mas neste caso não é tua. O que eu quero dizer é que anda por aí um doido à solta atrás de ti. Eu tenho a certeza que tu tens um stalker.

Mas tu queres ver. Tu sabes que há uma voz que eu ouço, que só eu é que ouço. Parece assim que estou a falar com um walkie-talkie. Juro-te. Às vezes ela até me diz o que é que vai acontecer. Só que desta vez, realmente, ela não me disse nada. Tu queres ver que é ela que manda a seguir?

Fatinha, como tu és, a vida que tu emanas, isto é coisa de quem tem contactos privilegiados com o criador desta porcaria toda. A voz não te segue. A voz és tu, boa mulher. Assim, alguém te quer fazer mal. Parece um presságio. É que segundo os meus cálculos...

Olha lá, para. Ó Mother Teresa de calcular, tu deixa lá as tuas teorias, está bem? A explosão só pode ter acontecido por causa de uma fuga de gás.

Não foi, Fatinha. Eu já fui espreitar os bicos. Quer dizer, do fogão. Está tudo ok.

E foi uma explosão? Ou não foi só a porta que desabou? Tu olha que a construção parece barata.

Não, Fatinha. Eu fui ver as plantas deste Minipreço, está tudo certo. O arquiteto diz que chegou a viajar de flexibus com o primo de um sobrinho-neto do Gaudí.

Amâncio, a sério, estás a cansar-me a beleza. Tu sabes conspirar, é que tu sabes mesmo, mas para, está bem? E olha que a conspiração não é como uma constipação, ouviste? Isso não tem remédio, querido. Isso não te vai fazer bem.

São os factos, Fatinha. Tive cinco anos no Shotokan.

No Shotokan? Cinco anos no Shotokan? Eu enxoto o cão em cinco segundos, Amâncio, e se eu estiver com a neura, ele até vai com o rabinho entre as pernas.

Não é isso. O que eu quero dizer é que eu pratiquei marcha. Eu, para além de uma lombalgia crónica, guardei segurança nos meus passos. Mas fiz esgrima. Sei dar uma alfinetada, mas também sei encaixar um alfinete. Eu tenho aqui qualquer coisa no meu corpo que me diz que alguém te quer fazer mal, Fatinha. Sabes uma coisa? Aqui há gato.

Porque continua Amâncio a investigar por si o atentado à Fatinha? É a cegueira do amor. Meus amigos, a Fatinha já sabe muito e o Amâncio procura saber. Atrás da grelha dele, mesmo ao pé do forno do pão, estava já montado um daqueles quadros de cortiça gigantes. Estava repleto de post-its e de fotografias de indivíduos ligados entre si por desvairados fios de caneta. O quadro típico de quem anda a beber café de madrugada. Já Beatriz Severo, da cárcel, trouxera sabedoria.

Tomei uma decisão e vocês precisam de saber. Eu, o meu Manolo, a minha filha, as cadelas, vamos viver um ano para Gibraltar com os babuínos. Sim, fiz as pazes com ela. Ela quis os sapatos que quis. Aceitámos todos levar uma low life. Eu, no fundo, já não sei bem se sou freak, sou ecobeta, não sei o que é que sou.

Vai viver com os babuínos, Beatriz? E de que se vai alimentar?

É fácil, querida, é só estar ali à cata dos turistas, roubar gelados, sandes, com sorte uns amendoins.

Fogo, Beatriz, a prisão fez-lhe mesmo bailar a já duvida.

Sim, mas tu não terias estofo, meu menino. Na prisão é tudo diferente. Uma pessoa conta os dias de outra maneira, mas também, digo-te uma coisa, não há cá uva sem grainha, não penses.

Mas a Beatriz só esteve 39 minutos numa cela comum?

Sim, exatamente, mas cada minuto demora um dia a passar.

Eu não me dou nada bem com estas cálculos.

Em cada um desses 39 minutos, aí sim. Aí é que eu percebo o que era a vida. Mas meus meninos de cor, eu não vou sair daqui sem antes fazer uma megainvestigação, uma última, antes de dizer adeus a esta vida mediática, de glamour, de chão de mármore.

Vamos finalmente falar disto do eclipse? Vamos a fundo?

Não, Peninha, por favor. O eclipse é sério, mas é demasiado fora da Terra. Eu quero qualquer coisa que parta pedra. Estão a perceber? Partir pedra.

Eu já percebi tudo. Ela quer inventar uma história com esta explosão do armazém.

Atenção, vamos lá a ver que isto pode ter sido uma explosão de gás.

Não foi, passei lá ontem, está tudo ok com os bicos.

Então e o edifício? Cá para mim não houve explosão, o barulho foi só o barulho da porta a desabar. Alguém desenhou mal uma vida.

Nada disso. Eu fui à câmara, a planta daquele Minipreço é perfeita, é imaculada. Eu acho que o arquiteto foi fazer Erasmus com um rapaz que uma vez apertou mossa e desviara.

Bola, a Beatriz já vai lançar.

Mas olha que isto do eclipse é muito sério.

Está bem, isso eu deixo contigo, Peninha, mas agora vão lá pra antena. Eu vou ao Minipreço, tenho que comprar creme pra tatuagem que fiz aqui na prisão.

Olha, diz a amor de mãe.

Está gira, não está?

Ao chegar ao Minipreço, Beatriz não pensava em mais nada que não fosse resolver o problema da explosão. Quando chegou ao posto de Amâncio, os olhos explodiram-lhe. A investigação estava montada. Amâncio já tinha um quadro de cortiça ao estilo do FBI. E enquanto não chega a autoridade verdadeira, lá vão eles com a sua verdadeira autoridade. Boa sorte, boa sorte, espécie maldita.

Boa sorte, boa sorte ao mais forte e ao mais sortudo. Boa sorte, boa sorte e o chocho bigalhou. Boa sorte, boa sorte ao mais triste e ao mais sisudo. Boa sorte, boa sorte e o chocho bigalhou, e o chocho bigalhou, e o chocho bigalhou.