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We choose to go to the moon, not because they are easy, but because they are hard.

Roger, roll pitch.

Arranca agora mais um episódio de "Cabeça na Lua", o podcast na Rádio Observador, para acompanhar a par e passo todas as novidades na missão Artemis 2. Está a caminho da Lua neste momento. É a primeira vez em mais de 50 anos que o homem se aventura nesta diáspora espacial. A missão dura 10 dias, mas este grupo de astronautas não vai chegar a pousar na Lua, vão apenas orbitá-la. O objetivo é também estudar a possibilidade de vir a alunar em 2028, daqui a dois anos. Já o objetivo deste nosso podcast é que o ouvinte da Rádio Observador não perca nada desta missão. Eu sou o Ricardo Lopes, hoje tenho a honra de ter a companhia do astrónomo José Matos, vai ser um dos especialistas que nos vão ajudar a perceber melhor esta viagem ao espaço. Seja muito bem-vindo, José, obrigado por ter aceitado o nosso convite.

Olá, Ricardo.

Vamos começar precisamente por falar neste quarto dia de missão. Os astronautas estão oficialmente mais perto da Lua do que da Terra e a notícia foi recebida desta forma.

"Your integrity crew is go for TLI. With this burn to the Moon, we do not leave Earth, we choose it. Humanity has once again shown what we are capable of, and it's your hopes for the future that carry us now on this journey around the Moon. And Integrity, Houston, we have some news to share with you. As of 30 seconds ago, you are now closer to the Moon than you are to us on Earth."

Aqui a NASA a anunciar que a missão Artemis 2 está mais perto da Lua do que está na Terra. José Matos, vamos começar por aí. Já podemos falar num tique-taque de emoções?

Sim, neste momento, já agora para dar uma ideia de distâncias, a Orion está a 182 mil km da Lua e em relação à Terra já está a 274 mil km de distância da Terra. Portanto, ela de facto já passou-

Está praticamente a metade.

Já passou o meio caminho e está tudo a correr bem. A missão está a decorrer dentro do previsto e dentro do que estava previsto nas simulações também. E já agora uma outra curiosidade, ela neste momento está mais ou menos a 3900 km/h, portanto 1 km/s, um bocadinho mais que 1 km/s. E vai deslizando pelo espaço fora a caminho da Lua.

Eu ia dizer exatamente isso que referiu. Ou seja, podemos falar aqui numa missão que neste momento está a correr na perfeição.

Sim, até porque há um aspeto também interessante a esse respeito, que é: de ontem para hoje era para ter sido feita uma pequena correção de trajetória. E acabou por não ser feita porque a nave está numa trajetória tão correta que nem precisa desta primeira correção de trajetória, o que significa que está tudo a decorrer conforme o que tinha sido planeado e até mesmo em termos da trajetória que ela está a seguir em direção à Lua, está a fazê-lo de uma forma perfeita, mesmo de acordo com aquilo que estava previsto.

Ótimo. Neste momento, como é que é o dia a dia dos astronautas nesta fase da missão?

Eles neste momento, no dia de hoje, por exemplo, estão já a preparar-se para quando passarem por trás da Lua, na próxima segunda-feira, fazerem uma série de fotografias. E podemos falar um pouco sobre isso, porque eles a bordo levam máquinas fotográficas, levam duas câmaras Nikon DS5, que é um modelo já antigo, é um modelo de 2016, mas que é um modelo conhecido por ser resistente no espaço, por exemplo, aos raios cósmicos e também por operar em condições de baixa luminosidade de forma eficiente. E eles levam essas duas câmaras por quê? Porque eles depois quando estiverem na segunda-feira a passar pelo lado oculto da Lua, eles vão fazer uma série de fotografias de álbuns lunares, de zonas lunares que estão selecionadas, e vão usar todas essas câmaras, porque a nave Orion não é propriamente uma nave para fazer observação científica da Lua, é uma nave para levar astronautas e trazê-los. Mas já que eles vão à Lua, a missão vai aproveitar para fazerem essas fotos, embora elas são feitas com o equipamento que eles levam dentro da nave e serão feitas a partir da janela da nave para o exterior.

A nave segue a grande velocidade, com vista para a Lua. O que é que já conseguiram ver com detalhe os astronautas?

Eles agora durante a viagem vão fazendo algumas imagens, nomeadamente da Terra, que está cada vez mais distante. E hoje também já foram divulgadas algumas imagens da Lua. Eles neste momento vão-se aproximando da Lua, neste momento já se observa bem dentro da nave. E eles, tanto de um lado como do outro, vão fazendo essas imagens. Mas são imagens mais para divulgação pública, ou seja, são no sentido mais daquela interface com o público em geral, do que propriamente imagens com valor científico.

Sim. Não se consegue ver grandes diferenças destas imagens para outras imagens que foram apresentadas, por exemplo, da primeira vez que o homem foi à Lua?

Sim, aí não há qualquer diferença. Esta viagem, não nos podemos esquecer, apesar da emoção que é acompanhar isto, é uma viagem que repete o que foi feito noutros tempos e repete um pouco o que foi feito a primeira vez no tempo das missões Apollo, na famosa missão Apollo 8 em dezembro de 1968, em que também uma nave com três astronautas a bordo, aqui enfim, aqui vão quatro, mas no passado eram três, fez também uma viagem deste género até à Lua e voltou para a Terra.

Serem quatro era uma questão que eu também tinha aqui para fazer. Para quem gosta de espaço pessoal, não é o melhor sítio para se estar dentro da nave. Acredito que o espaço seja bastante reduzido. Como é que está? Por exemplo, as camas estão em que disposição? Sei que não dormem todos ao mesmo tempo.

A nave tem, de facto, quatro lugares dentro dela. E esses quatro lugares, é curioso, porque são dois por cima e dois por baixo. Quando a nave está na horizontal, vê-se um pouco isso. E são esses lugares que eles ocupam. A questão do dormir é interessante. Por quê? Porque no espaço nós temos aquilo a que chamamos ausência de peso, temos imponderabilidade. Essa imponderabilidade permite que o astronauta durma em qualquer posição, porque não sente o peso do corpo. O astronauta pode até estar a dormir em pé ou estar a dormir de lado, enfim, numa posição qualquer. Ele consegue adormecer sem precisar de estar deitado propriamente numa cama. Tem essa vantagem. A nave não tem, ao contrário da estação espacial, que tem umas cabines verticais onde eles entram lá para dentro, têm um saco-cama e ficam dentro dessa cabine vertical e tem uma porta que fecha. A nave Orion não tem nada disso, é uma nave pequena e eles dormem nas cadeiras onde estavam sentados no lançamento ou em qualquer posição, porque podem dormir perfeitamente nessa situação de ausência de peso.

Perguntava-lhe, já agora que encaminhamo-nos para o final, queria fazer uma pergunta mais geral no sentido de: os humanos, a humanidade, a sociedade está de novo presa a esta questão da exploração espacial. É uma coisa que sempre cá esteve, o bichinho nunca foi embora?

Sim, é verdade. A exploração espacial, nomeadamente a exploração espacial tripulada do espaço, é algo que já vem desde os anos 60, desde 1961, quando foi feito o primeiro voo tripulado à volta da Terra. Agora, neste caso concreto da viagem da nave Orion, é um pouco diferente, porque os humanos estão a ir novamente para fora, eu diria, do aconchego da Terra.

Nunca estivemos tão longe, não é?

Nos últimos tempos, não. No tempo das missões Apollo, estivemos também longe. Aliás, esta missão vai bater um recorde interessante, porque quando foi do tempo das viagens Apollo, nomeadamente na Apollo 13, em 1970, a nave Apollo 13 chegou a estar a 400 mil km da Terra, em termos de distância. Esta vai bater esse recorde, vai estar nos 406 mil km de distância, será a tripulação humana mais distante da Terra que alguma vez esteve. Isso vai acontecer na segunda-feira quando eles fizerem o voo por trás da Lua. Mas já há muito tempo que nós não tínhamos uma tripulação humana, ou seja, há mais de 50 anos, desde 1972, que foi a última missão Apollo 17, não tínhamos uma missão humana tão longe da Terra e a caminho da Lua. E isto provoca uma emoção diferente nesta viagem, porque mostra que os humanos, novamente na história da exploração do espaço, estão se a aventurar para fora do aconchego da Terra e estão a ir em direção à Lua, que embora seja o astro mais próximo da Terra, mas mesmo assim são 300 e muitos mil quilómetros. É sempre uma viagem mais complicada do que estar unicamente em órbita da Terra. Mas tem esta grande emoção que é acompanharmos algo que já foi feito noutros tempos, há mais de 50 anos, mas que estamos novamente a reviver e com uma expectativa futura diferente, ou seja, desta vez nós queremos voltar à Lua, não para apenas ir lá e voltar e nunca mais regressarmos à Lua, mas sim para permanecer. Esse será o grande objetivo na próxima década, que é permanecer na Lua. Exatamente.

Sim, e como disse, eu também tenho sentido que não está aqui em causa se são os Estados Unidos ou que país é que está a ir. É a bandeira da humanidade que está de novo a conseguir ir à Lua e acho que isso tem tido um impacto muito positivo nas pessoas. As pessoas estão atentas e interessam-se.

Um aspecto interessante, Ricardo, é que o programa é internacional, ao contrário dos velhos tempos. As missões Apollo eram unicamente americanas, só tinham astronautas americanos. E nós, neste caso, nesta viagem, já temos um canadiano, que é a primeira vez que um canadiano vai à Lua. E no futuro vamos ter, com certeza, um alemão, um francês e um italiano também, e um japonês.

Um português, quem sabe?

Um português não vamos ter, porque nós não temos astronautas portugueses. E mesmo aqui na Europa, os grandes países europeus vão com certeza ter mais possibilidades de mandar um astronauta à Lua e por isso é que eu costumo referir um alemão. Provavelmente o próximo até será um alemão e depois eventualmente o italiano e o francês. E depois também temos um corpo de astronautas na ESA, na Agência Espacial Europeia, e eu apostaria que será um desses que irá numa futura.

Portugal faz parte da Agência Espacial, certo?

Sim, mas nós não temos astronautas no corpo de astronautas da ESA. Portugal nunca teve, nem tem neste momento. No futuro poderá ter, porque esse corpo de astronautas vai sendo renovado ao longo dos anos e novos concursos irão abrir no futuro, mas nós nunca tivemos ninguém nessa situação. Mas é isso, o Artemis tem também essa vantagem de ser um programa internacional que envolve várias potências espaciais. E ao contrário do que acontecia no passado, há aqui uma abrangência maior nesse aspecto. Mas eu acho que há esse sentimento de nós reconhecermos, somos humanos e estamos a caminho da Lua e vamos dar a volta à Lua. E há uma ligação humana a esta tripulação, a estes quatro elementos que estão ali dentro da nave e que vão a caminho do nosso satélite. Essa ligação existe.

José, para fechar, o José também vai estar connosco amanhã, no episódio de amanhã. Mas perguntar-lhe que particularidades é que podem ser interessantes para estarmos atentos entre hoje e amanhã? Alguma coisa vai ser revelada pela NASA? Vão haver novas imagens, novas comunicações?

As imagens vão continuar a ser reveladas porque neste momento a nave está de facto a aproximar-se cada vez mais da Lua. Amanhã estará ainda mais perto e com certeza os astronautas a bordo com as suas famosas Nikon vão continuar a fazer fotografias.

As clássicas.

No entanto, esta parte da viagem, eu diria que é uma parte mais calma, porque o dia de hoje foi um pouco dedicado a isso, a preparar tudo o que é equipamento para depois fazer imagens à volta da Lua. Há depois uma série de testes que vão sendo feitos ao longo da viagem, por exemplo, com as comunicações. Há também algum trabalho que é feito, por exemplo, em testar situações de emergência dentro da nave. Por exemplo, uma coisa que foi feita, que é ver procedimentos de primeiros socorros. Ou seja, se houver qualquer coisa com a tripulação, em termos de primeiros socorros, o que é que se deve fazer, porque os quatro têm treinos também nessa área. Esses procedimentos vão sendo testados. Esperemos que a casa de banho não volte a falhar, já agora, porque ela falhou também outra vez.

Podemos falar um bocadinho sobre isso. O que é que aconteceu exatamente com a sanita da casa de banho? Qual é que é o procedimento?

A casa de banho da nave Orion é uma novidade nestas viagens, porque de facto nas missões Apollo não havia qualquer compartimento para esse efeito. Aqui há, aqui pela primeira vez também é uma nave, em termos de interior, mais espaçosa e mais moderna do que as naves do tempo das missões Apollo, e portanto foi possível instalar uma mini casa de banho a bordo. Quando foi no primeiro dia da missão, a astronauta que vai lá dentro detectou que estava acesa uma luz de mau funcionamento da casa de banho. A casa de banho tem uma sanita e tem ao mesmo tempo um tubo que serve para urinar e para aspiração de urina. E tudo isso está ligado a um sistema. A gente costuma referir que há microgravidade, mas vamos dizer imponderabilidade. Como existe imponderabilidade, de facto, o tubo, por exemplo, para urinar, tem que ter um sistema de aspiração para puxar a urina. Ela depois, curiosamente, é ejetada para o espaço, como acontecia no tempo das missões Apollo. Mas de facto, esse sistema de aspiração tem uma espécie de um ventilador, que funciona na sanita e que puxa a urina através do tubo. Esse sistema não estava a funcionar, estava encravado. Isso foi comunicado ao centro espacial em Houston e os controladores de voo, juntamente com a astronauta em questão, depois tentaram resolver a situação e ela, de facto, como ela diz num vídeo, agora é canalizadora no espaço.

Era isso que eu ia dizer. Não deve ser fácil estar no espaço a precisar de um serviço.

Conseguiu resolver o problema e portanto a sanita e o sistema sanitário voltou a funcionar. Embora eles tenham sempre um sistema de emergência, que são os sacos semelhantes aos que eram usados no tempo das missões Apollo, que podem ser usados numa situação de emergência.

Seria o plano B.

Exatamente, seria o plano B. Mas de facto ela voltou a funcionar e esperemos que não volte a dar problemas. Embora hoje, por acaso, um dos astronautas que achava que tinha sentido um cheiro estranho na casa de banho. Vamos ver se não há mais nenhum problema que vem a caminho. Mas há estas coisas que vão sendo testadas e mostra que às vezes há imprevistos que podem surgir. Mas, em resumo, eu acho que a viagem está a correr muito bem. Estes dias são os dias mais calmos da viagem. Mas de facto uma coisa que é impressionante é a nave estar realmente no caminho certo e nem sequer foi precisa a correção de trajetória inicial agora, que seria feita nesta altura, e que mostra que tudo funciona consoante o que estava previsto nas simulações. Nesse aspecto, está tudo a correr muito bem e a missão tem sido de facto um sucesso até este momento.

É com estas duas notas que fechamos este episódio. A missão está a ser um sucesso, a correr praticamente na perfeição e por vezes é necessário um astronauta canalizador no espaço.

Exatamente.

José Matos, muito obrigado. É astrónomo.

Obrigado, Ricardo. Até amanhã.

Esteve comigo Ricardo Lopes a analisar os mais recentes episódios desta missão espacial, a Artemis 2. O homem vai voltar à Lua, não o faz há mais de 50 anos. Já está a caminho. Na Rádio Observador vamos acompanhar esta viagem a par e passo para garantir que nada lhe escapa. Por isso, mantenha-se atento e não seja apanhado com a cabeça na Lua.

"We choose to go to the Moon, not because they are easy, but because they are hard."