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"We choose to go to the moon, not because they are easy, but because they are hard."

"Roger, roll pitch."

Bem-vindos a casa. Os astronautas da Artemis 2 foram ontem recebidos no Centro Espacial Johnson, em Houston, no Texas, e com bastantes aplausos. Numa conferência de imprensa transmitida pela NASA, os astronautas não esconderam a emoção e a ligação que vai ficar para sempre através desta missão. Neste episódio, vamos olhar para os próximos passos destes astronautas e do futuro da exploração espacial. Eu sou a Nadine Soares e comigo está o José Augusto Matos. Bem-vindo, José.

Olá, Nadine. Viva.

E o primeiro a falar ontem à noite foi o comandante Reid Wiseman. Falava de uma experiência única e deixava uma mensagem direta aos colegas.

"Victor, Christina and Jeremy. We are bonded forever. And no one down here is ever gonna know what the four of us just went through. And it was the most special thing that will ever happen in my life."

Vão ficar ligados para sempre, uma das mensagens dessa conferência. José, é sem dúvida uma experiência que nenhum destes astronautas vai esquecer e dizem que não foi nada fácil.

A conferência foi muito interessante, porque todos eles passaram a mensagem de que eram uma grande equipa, no fundo, e que foi essa grande equipa daqueles quatro elementos que conseguiu ir à Lua e regressar pra Terra. E, portanto, vê-se que realmente há uma grande união entre eles e há, de facto, ali um espírito de equipa muito forte e isso foi muito importante pra missão e também foi, de certa forma, por isso que eles foram escolhidos já em 2023, porque realmente é uma equipa que funciona bem em conjunto e que trabalha bem e foi importante serem estes quatro e não outros. E, portanto, isso ontem na conferência de imprensa ficou bem patente e depois também a experiência pessoal que foi ter ido à Lua e ter voltado pra Terra, isso também foi emocionante. Aliás, eles emocionaram-se várias vezes durante a conferência de imprensa.

E fica também aqui esta curiosidade, porque ouvimos o comandante Reid Wiseman dizer que as pessoas não têm a noção do que é que aqueles quatro passaram.

De facto, quando ele refere isso, tem muito a ver com a missão em si e certos aspectos que às vezes não funcionaram tão bem relativamente à nave. Estou-me a recordar de um caso que nós comentamos aqui várias vezes ao longo dos episódios, da casa de banho, por exemplo, e outras questões que foram surgindo, porque realmente esta missão era uma missão experimental. Eles iam testar a nave Orion com uma tripulação dentro da nave e iam ver como é que a nave ia até à Lua e regressava sustentando uma tripulação dentro dela. E, portanto, esses aspectos do que eles passaram, enfim, de toda essa experiência que eles tiveram, eu diria que é normal eles comentarem isso, porque, de facto, foi uma experiência, eu diria, dos limites, foi uma experiência realmente extrema e também a experiência de eles estarem à volta da Lua. Eles não estiveram em órbita, deram apenas meia-volta, vamos assim dizer. Mas essa experiência de ver a Lua de perto, de também observarem a Terra ao longe, que eles ontem citaram muito isso na conferência de imprensa, de terem a emoção que lhes provocou a visão da Terra à distância. E, portanto, tudo isso foi uma experiência extraordinária pra eles, em termos pessoais, que eles nunca mais vão esquecer e que também vão passar essa experiência aos futuros astronautas da Artemis. Eles provavelmente nunca mais voltarão ao espaço, nem em nenhuma missão Artemis futura, mas eles vão ser os mentores de futuras gerações de astronautas e de futuras tripulações pra missão Artemis.

Ouvíamos também o piloto Victor Glover nesta conferência de imprensa admitir que estava até com dificuldade em processar tudo o que aconteceu.

"I'm gonna keep it brief because I'm afraid to start talking. I have not processed what we just did, and I'm afraid to start even trying."

Ouvíamos Victor Glover, o piloto da missão Artemis 2. É normal este gênero de dificuldade de processar a dimensão deste feito?

Sim, eu penso que é normal, porque também temos que ter em linha de conta que eles foram pioneiros nesta missão. Ou seja, os homens já não iam à Lua há mais de 50 anos, há mais de 50 anos que não tínhamos uma nave com tripulação a passar pela Lua. E desse ponto de vista, eles vão ficar na história da exploração espacial e na história da exploração lunar. Portanto, eu penso que quando o piloto da nave refere isso, ele também penso que tem noção, ele e os restantes tripulantes, eles têm a noção que fizeram uma missão histórica. Muito semelhante, por exemplo, eu já o comparei aqui noutros episódios, àquilo que aconteceu com a missão Apollo 8, em 1968, em que pela primeira vez, astronautas da Terra foram até à Lua e vieram. E essas missões acabam por ser históricas sempre, porque marcam algo de novo, ou seja, é de facto um tipo de missão que foge ao habitual e que fica registado nos anais da história da exploração espacial. E, portanto, eu penso que sim, penso que eles também têm essa noção histórica que realizaram realmente um voo que já não se fazia há mais de 50 anos.

E também porque foi uma missão bem-sucedida, ou seja, conseguiram voltar aqui à Terra com segurança.

Sim, é verdade, isso foi muito importante. Aliás, a missão, embora fosse experimental, toda a preocupação à volta da missão é que eles voltassem em segurança e que realmente conseguissem regressar à Terra sem grandes problemas. E aí, sim, aí também tivemos uma missão muito bem-sucedida e penso que isso deixa toda a gente satisfeita, nomeadamente a NASA, os parceiros internacionais e a própria tripulação em si. Aliás, eles na conferência de imprensa agradeceram às equipas fantásticas em terra que os acompanharam e que foram sempre muito importantes durante toda a viagem. Portanto, acho que sim, acho que houve ali um grande espírito de equipa, não só entre a tripulação, como também as equipas que estavam em terra no Centro Espacial em Houston e que foram também sempre muito relevantes no acompanhamento da missão.

E por mais técnica que seja uma viagem ao espaço, ouvimos estes astronautas admitirem que sentiam muita vontade de voltar para casa quando lá estavam, de voltar para junto da família e tinham até uma técnica que revelavam que sincronizavam os relógios como um momento para retomar o foco da missão. Perguntava-lhe se considera que é essencial este gênero de hábitos numa operação como esta, uma operação difícil e extrema, para não perderem precisamente o foco do que estão a fazer.

Sim, é verdade. Eu penso que eles ontem na conferência também revelaram isso, que o pensamento deles muitas vezes estava na Terra, e na família e nos amigos que deixaram na Terra. É claro que eles durante a missão têm que estar concentrados nas suas tarefas que estão programadas. E isso é muito importante, a questão do foco na missão e no foco nas tarefas que têm que ser executadas. Mas isso também não invalida que eles, obviamente, quando viam a Terra pela janela da nave, obviamente que se lembravam muitas vezes das pessoas que tinham deixado na Terra e, portanto, há depois também sempre uma espécie de saudade, não é, e de querer regressar o mais rapidamente possível, porque a casa deles é na Terra, não é na Lua, nem é no espaço. E, portanto, desse ponto de vista há essa saudade de casa e ainda por cima eles viam a casa lá muito longe, a uma grande distância.

E esta missão, a missão Artemis 2, está concluída. O que é que podemos esperar agora? Quais são os próximos passos para estes astronautas ou para outras equipes até?

Bem, neste caso, de facto, esta missão, o facto de ter sido uma missão com sucesso e ter sido realmente executada, eu diria, dentro do que estava previsto, enfim, tirando obviamente alguns aspectos imprevistos, mas no geral correu muito bem. Foi de facto um alento para as próximas missões, nomeadamente para a Artemis 3. A Artemis 3 está prevista para 2027, já no próximo ano. Vamos ver se será viável, mas talvez seja viável até o final do ano. A equipe de astronautas que vai na Artemis 3 ainda não está anunciada nem selecionada, mas provavelmente será anunciada em breve. E de facto, eles agora vão ter um papel importante. Estes quatro vão também ter um papel importante como mentores de futuras tripulações, porque eles, no fundo, vão partilhar com essas tripulações a experiência e as dificuldades que passaram, enfim, o que viveram. A Artemis 3 é uma missão apenas à volta da Terra, não é uma missão à Lua, é uma missão para testar a nave Orion com a nave lunar. E depois teremos sim, em 2028, talvez 2029, que talvez 2029 seja uma data mais realista, a famosa missão Artemis 4, que essa sim irá implicar o pouso na Lua. E essa será também um acontecimento histórico, porque vai representar o regresso do homem à Lua, mesmo à superfície lunar, passados mais de 50 anos desde a última missão que foi a Apollo 17. Portanto, essa sim é uma missão aguardada com grande expectativa, porque marcará mesmo o regresso à superfície lunar dos astronautas e, portanto, será algo que nós depois, na altura, iremos acompanhar também com grande entusiasmo e grande emoção. E enfim, e todos aqueles que pelo mundo afora gostam da exploração espacial e gostam de acompanhar estas coisas.

E existe agora a indicação de que agora é uma fase de análise dos dados que foram recolhidos nesta viagem. Que tipo de dados são esses? Não sei se nos consegue ajudar, o que se pode esperar desta análise e quanto tempo é que pode levar uma fase como esta de entender realmente os dados que saíram desta missão?

Sim, é verdade. Eles agora estão naquilo a que nós chamamos habitualmente o pós-missão. Eles nos próximos dias, nas próximas semanas, vão ter longas conversas com as equipes de Terra, ou seja, com a equipe de ciências lunares, que foi uma equipe que escolheu as formações na Lua para serem fotografadas e serem observadas. E, portanto, eles vão falar com eles para darem conta do que viram e, no fundo, do que observaram. E depois também com a equipe que trata da parte da nave Orion e da parte do voo propriamente dito. Ou seja, eles irão interagir com essas equipes para contar como é que a missão correu, quais foram as dificuldades, o que é que funcionou mal, o que é que deve ser corrigido. E, portanto, essa interação é muito importante. E é muito importante justamente para que as falhas que foram detectadas sejam corrigidas para a Artemis 3 e que a Artemis 3, desse ponto de vista, já não venha a passar pelos mesmos problemas ou pelas mesmas falhas que passou a Artemis 2. Portanto, esta interação agora que eles vão ter nas próximas semanas, nomeadamente, será muito importante. E depois também terão um papel importante, como há pouco referia, na parte que diz respeito à futura tripulação da Artemis 3, não é, nas conversas que vão ter com esses astronautas e, no fundo, os conselhos que lhes vão dar. E depois também há a parte médica que eles agora vão nos próximos também dias e semanas vão ser acompanhados pelas equipes médicas para ver como é que eles se adaptarão novamente à gravidade terrestre e, portanto, e à vida terrestre. Isso também será, de facto, uma situação que será acompanhada. Agora, de facto, a interação com as equipes técnicas é muito relevante e nomeadamente também com a parte das ciências lunares, porque eles mandaram para cá muitos dados, mandaram muitas fotografias. Estamos a falar de cerca de sete mil fotos que foram enviadas e, portanto, há sempre informação interessante a extrair dessas imagens.

E o administrador da NASA, Jared Isaacman, aliás, nesta mesma conferência, reforçava que a mensagem de que a Artemis 2 nunca será esquecida, que a Agência Espacial está agora mais preparada para voltar a mandar homens até à Lua. É assim mesmo, este sucesso da Artemis 2 é mesmo esse grande pontapé de saída para outras missões, como por exemplo, a Artemis 3, este papel aqui de mentores dos astronautas. É assim mesmo, assim como diz o administrador da NASA. E perguntava também, sabemos este objetivo futuro de colocar homens na superfície lunar, pelo menos até 2028. Dizia há pouco que 2029 será uma data um pouco mais realista. Eu perguntava-lhe se acha que é possível Demasiado ambicioso?

Eu penso que o atual calendário que prevê a Artemis 3 em 2027 e a Artemis 4 em 2028 é ambicioso. Embora, neste momento ganhou um grande impulso, porque a Artemis 2 foi realmente muito bem-sucedida e, portanto, eu diria, dá alento a esse calendário. Mas eu penso que temos que ser também realistas na análise, porque, por exemplo, a Artemis 3 implica uma missão, como há pouco referi, à volta da Terra, em órbita terrestre, mas vai implicar já a existência de uma nave lunar operacional. E nós, neste momento, ainda não temos essa nave lunar operacional. E, portanto, vamos ver se durante 2027, neste momento há duas empresas que estão a trabalhar em duas naves diferentes, a SpaceX e a Blue Origin, são duas naves diferentes uma da outra, as duas vão estar no futuro nas missões Artemis, e portanto vamos ver se tanto uma empresa ou se a outra, enfim, eventualmente, se tem ao longo do próximo ano essa nave preparada para fazer o teste da Artemis 3. E depois temos ainda a fase da Artemis 4, que também neste momento o calendário aponta para 2028, mas que depende obviamente da Artemis 3, ou seja, há aqui uma série de fatores condicionantes que também condicionam a própria Artemis 4. Portanto, se no próximo ano for possível realizar a Artemis 3, poderá ser possível, eventualmente, também fazer a Artemis 4 no ano seguinte. Mas se houver atraso na Artemis 3, a Artemis 4 também será atrasada. E como nós sabemos que estas coisas têm atraso, e aliás, viu-se na Artemis 2 que já era para ter sido feita há vários meses, tudo é possível a esse nível e, portanto, pode acontecer atraso e deslizar para 2029. 2029 também tem um aspecto curioso, que é os 60 anos da ida do homem à Lua, portanto, até poderia ser interessante, do ponto de vista simbólico, fazer a Artemis 4 nos 60 anos da ida do homem à Lua. Mas como eu refiro, a questão não é por aí, a questão é mesmo se vamos ver se no próximo ano já haverá nave lunar pronta para ser testada com a nave Orion. E portanto, isso mexe muito com esse calendário que estamos aqui a falar.

E vamos estar cá para acompanhar esses desenvolvimentos e os próximos passos da exploração espacial. Obrigada, José Augusto Matos.

Por favor.

Fique a par das novidades destas missões e do futuro da exploração espacial no site do Observador e também na Rádio Observador, para garantir, precisamente, que não fica com a cabeça na Lua.

"We choose to go to the Moon, not because they are easy, but because they are hard." Roger, roll pitch.