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"We choose to go to the moon, not because they are easy, but because they are hard."

Continuamos com a cabeça na Lua, mas decerto com os pés de volta à Terra. Sejam muito bem-vindos ao podcast da Rádio Observador, onde acompanhamos os desenvolvimentos da missão Artemis 2, que depois de ter colocado humanos a uma distância sem precedentes do nosso planeta, cara a cara com a face oculta da Lua, já pousou em segurança no nosso firmamento. Na verdade, não foi bem a Terra que primeiro se pisou, primeiro houve amaragem em pleno Oceano Pacífico. Certo é que depois de 10 dias em missão espacial, Victor Glover, Reid Wiseman, Jeremy Hansen e Christina Koch, os humanos que mais longe foram no espaço, já estão de novo sujeitos às leis da gravidade. Eis o momento da chegada ou, se quisermos ser mais precisos, do splashdown.

"Integrity splashdown sending post-landing command now. Splashdown confirmed. Copy splashdown. Waiting on VLDR. Splashdown confirmed at 7:07 PM Central Time, 5:07 PM Pacific Time. From the pages of Jules Verne to a modern day mission to the Moon, a new chapter of the exploration of our celestial neighbor is complete. Integrity's astronauts back on Earth."

A cápsula da Orion vinda da Lua mergulhou no Oceano Pacífico há 1 hora e 7 minutos da madrugada deste sábado, 11 de abril, em horário de Portugal continental. Nestas primeiras palavras da NASA, depois da amaragem, houve a referência a Júlio Verne. Todos nos lembramos da volta ao mundo em 80 dias. Certo é que depois de 10 dias fora do mundo, os astronautas tiveram de esperar não 80, mas sim 85 minutos para serem finalmente retirados em segurança da cápsula, levados a um barco e finalmente entregues a Terra. José Augusto Matos, muito boa tarde, muito bem-vindo mais uma vez. Antes de falarmos do sucesso desta missão, estes 85 minutos à espera do resgate passam a correr, são uma eternidade, com este retorno à gravidade e voltando a ter cima e baixo, 85 minutos parecem uma grande loucura.

Olá, Vicente. De facto, para nós que estávamos a acompanhar em direto, é uma espera um pouco aborrecida, não é? Porque estamos à espera de os ver sair da cápsula e de os ver passar para aquela balsa salva-vidas, aquela balsa pneumática que estava junto à cápsula. No entanto, eles, de facto, quando chegam ao mar ou ao oceano, não podem, claro, sair logo de repente. Há uma série de procedimentos que é necessário fazer, nomeadamente é preciso estabilizar a cápsula para ela não andar muito a flutuar ao sabor da ondulação. E depois há uma série de procedimentos que são efetuados antes da passagem para dentro dessa balsa. Mas de facto, sim, houve ali um compasso de espera ainda um pouco longo, mas tudo correu bem.

Quase um jogo de futebol. Aqui em tempo de tempo.

É verdade, é quase um jogo de futebol, mas de facto eu diria que foi um grande sucesso o regresso e a amaragem. E neste momento há uma grande satisfação na NASA e nos postos internacionais relativamente ao desfecho desta missão.

E nós já vamos mais à frente fazer uma espécie de balanço, também ver que portas ficam também abertas depois desta missão. Mas a cápsula Orion entrou na atmosfera, José, a quase 40 mil km/h e enfrentou temperaturas de 2800 °C. Podemos dizer que esta era uma espécie de exame final da Orion. Se o escudo tivesse falhado minimamente, não haveria, creio eu, resgate no Pacífico, certo?

Claro. Se o escudo tivesse falhado, tinha sido uma tragédia. Agora, de facto, a nave funcionou bem e o escudo de proteção também funcionou bem. E por isso é que eu há pouco referia que neste momento há um sentimento de grande satisfação, e de grande até alegria com o regresso da nave Orion, porque de facto as coisas correram bem e é também um alento para futuras missões, nomeadamente para a Artemis 3, que já é no próximo ano, se tudo correr bem. De facto, aqui também deu-se um passo importante nesse sentido e também no mesmo sentido da Artemis 4, porque a Artemis 4 vai ser uma missão lunar mesmo com pouso na Lua. A Artemis 3 não, é uma missão só à volta da Terra, uma missão orbital aqui à volta da Terra. Mas de facto, eu diria, deu um grande impulso, um grande empurrão para as futuras missões Artemis e há, neste momento, uma grande satisfação e um grande regozijo pelo regresso.

E sabendo que os astronautas acabam de chegar de condições, que vou nomear aqui, extremas, vão agora ter de passar por algum processo, diria, de readaptação à vida na Terra. Os astronautas não vão já para casa, creio eu, ou vão já para casa?

Não, não vão já para casa. Eles hoje irão para o Centro Espacial em Houston e até provavelmente irão dar a primeira conferência de imprensa deles será no Centro Espacial em Houston. Mas relativamente a esse aspeto que referias, é interessante que ontem quando foi do resgate, eles quando chegaram ao navio anfíbio, nos helicópteros da Marinha, viu-se que eles nem precisavam de cadeira de rodas. Porque estavam lá as cadeiras de rodas junto aos helicópteros e eles saíram pelo pé deles, a andar normalmente e foram para dentro do navio sem grandes problemas. Isto por quê? Porque já temos falado aqui noutros episódios que a permanência no espaço obviamente tem consequências no sistema musculoesquelético dos astronautas, mas neste caso não foi uma permanência muito longa, foram 10 dias. E depois também estamos a falar de pessoas que têm um treino físico e uma preparação física acima da média de um cidadão comum e, portanto, também aguentam melhor essa provação no espaço. Daí que eles ontem, como nós vimos na recuperação, saíram pelo pé deles, nomeadamente dos helicópteros, nem precisavam da cadeirinha de rodas que lá estava à espera deles.

Isso é também, acredito, uma forma de sucesso pessoal, não tanto da missão Artemis, mas da fisionomia de cada um dos astronautas. Eles tiveram, José Augusto, cara a cara com o lado lunar que nunca vemos da Terra. Do ponto de vista científico, e até mesmo arrisco aqui, do ponto de vista poético, o que é que se ganha em ter os olhos humanos ali, em vez de ter, por exemplo, câmaras de alta resolução, como temos tido até em Marte? Levar a humanidade a este ponto, o que é que significa?

Eles de facto tiveram essa possibilidade quando foi na passagem pelo lado oculto da Lua, de fotografar e de observar. Mas também já referimos aqui noutros episódios que eles não foram descobrir nada de novo em termos de formações lunares. O lado oculto é bastante conhecido há muito tempo e temos imagens de alta resolução do lado oculto de outras missões robóticas. Mas de facto, já que eles iam à Lua e já que iam fazer esta passagem pelo lado oculto, a NASA entendeu isso, as equipas científicas entenderam que valia a pena fazer imagens. Já agora, para teres uma ideia, eles enviaram milhares de imagens para a Terra, fala-se em cerca de sete mil imagens que foram enviadas. É uma coisa impressionante em termos de imagens, mas de facto essas imagens agora vão ser estudadas e mais do que isso, eles agora, durante os próximos tempos, vão estar em interação com as equipas técnicas, mas também vão estar em interação com a equipa de ciências lunares. E vai haver muitas conversas com a equipa de ciências lunares para que eles troquem impressões e digam como é que fizeram as imagens e o que é que observaram também. E, portanto, vai-se tirar algum proveito científico também destas imagens que foram enviadas, embora, como eu refiro, não descobriram nada de novo a esse nível. O que foi observado já era conhecido.

E podemos falar em missão bem-sucedida, no sentido em que me falava agora José, de que ainda há muita informação para processar. A missão terminou talvez na sua componente de viagem espacial, porque a missão continua desse ponto de vista da análise à informação recolhida.

Sim, é verdade. Nós agora temos aquilo a que habitualmente referimos como o pós-missão. Ou seja, de facto, eles nos próximos dias e nas próximas semanas, irão ter longas conversas com as equipas técnicas que acompanharam o voo. Com as equipas também que estão relacionadas com a nave Orion, porque eles agora vão contar o que é que correu bem, o que é que correu mal, o que é que é necessário ser corrigido para a Artemis 3. E depois vão também ter interação com a equipa de ciências lunares e vão também ter interação com os médicos que os vão acompanhar agora durante algum tempo. Porque, por exemplo, eles estiveram fora do campo magnético terrestre. É claro que quando estamos fora do campo magnético terrestre, não temos a proteção da nossa magnetosfera. E portanto, aqui o perigo principal é o Sol. O Sol é uma estrela que tem períodos máximos e mínimos de atividade. Quando tem máximos de atividade, como acontece nesta altura, por vezes emite grandes quantidades de partículas, e isso pode ser perigoso para uma viagem. Nesse caso, não aconteceu porque o Sol não teve durante estes 10 dias nenhuma explosão solar significativa que pudesse pôr em risco a saúde dos astronautas. Mas mesmo assim, tudo isso vai ser estudado e tudo isso vai ser analisado. E, portanto, eu diria que, como há pouco também estava a referir, que eles vão ter longas conversas nos próximos dias com as equipas que os vão acompanhar.

E também houve aqui uma coisa que me chamou a atenção, José, o tal procedimento de regresso, aquilo ao qual encontrei em certa literatura chamado de trajetória livre. Que fenômeno é este em que os astronautas vêm e que estão seguros nessa rota de regresso, que em caso de falha dos motores, os teria trazido mesmo à Terra? O que é isto?

É verdade. Isso aconteceu mesmo dessa forma. Eles quando fizeram a passagem pela Lua, eles aproveitaram unicamente a atração gravitacional da Lua para dar aquela meia-volta, fazer aquele sobrevoo, e a própria Lua lançou-os de regresso à Terra como se fosse uma fisga gravitacional. Se o motor do módulo de serviço, que depois foi usado no regresso para fazer apenas pequenas correções de trajetória, nada mais do que isso. Mas vamos supor que esse motor, por uma razão qualquer, não tinha funcionado no regresso. Eles conseguiam regressar na mesma à Terra, porque o tipo de trajetória que eles descreveram em redor da Lua foi, de facto, uma trajetória para justamente garantir o regresso à Terra, mesmo que o tal motor não funcionasse. E tem a ver com isso, eles aproveitam, vamos dizer assim, apanhar uma boleia na Lua para voltar novamente para a Terra, mas tudo graças ao campo gravitacional da Lua.

E o sucesso de ontem, na verdade para nós a amaragem deu-se já hoje. Este sucesso é a luz verde definitiva para a missão Artemis 3. Acabei de ouvir o José dizer que a missão Artemis 3 não tem como missão para já ir à Lua, vai orbitar, mas também nessa outra missão, que será provavelmente a Artemis 4, podemos esperar, não muito longe da nossa linha temporal, ter humanos de volta a pisar o pó lunar.

Sim, é verdade, a expectativa é essa. Repara que a Artemis 3 podemos agora rapidamente dar aqui já uma luz sobre isso. De facto, a Artemis 3 está prevista já para 2027. Vamos ver se esse calendário é cumprido, mas neste momento eu penso que é viável até o final de 2027 decorrer a Artemis 3. Mas pode sempre haver percalços, e pode sempre haver atrasos. Mas a ideia da Artemis 3 é muito simples: é colocar a nave Orion à volta da Terra, em órbita terrestre, e ensaiar a nave Orion com uma nave lunar, provavelmente a Starship da SpaceX. Ou seja, ensaiar o quê? Ensaiar manobras de acoplamento, porque elas vão ser depois necessárias na Artemis 4 à volta da Lua.

E isso é exatamente o quê, José Augusto? Manobras de acoplamento?

Nós colocamos as duas naves à volta da Terra em órbita terrestre e a nave Orion irá manobrar e aproximar-se, nesse caso, se for a Starship, porque tudo indica que será essa, irá aproximar-se dela e irá simular o acoplamento como se estivesse à volta da Lua. Por quê? Porque no futuro, na Artemis 4, que talvez em termos de data, 2028, 2029 é uma data mais realista. Depois, nesse futuro, nessa missão em concreto, a tal Starship, por exemplo, estará já à volta da Lua à espera da nave Orion. A nave Orion irá encaixar, irá acoplar à volta da Lua e os astronautas vão descer na tal Starship. Portanto, não é a nave Orion que os vai levar à superfície lunar, ela é apenas uma nave orbital. E sendo assim, o teste do próximo ano, se de facto a Artemis 3 for já em 2027, será extremamente importante para simular essas manobras e ver como é que essas duas naves funcionam, neste caso, em órbita terrestre, mas um dia terá que ser em órbita lunar. Portanto, aí é um passo muito importante. Se tudo correr bem com a Artemis 3, aí sim Teremos campo aberto para que finalmente, talvez 2029, Artemis 4 possa ser efetuada. Aí sim, teremos mesmo a lunagem com uma nave lunar que irá levar os astronautas até a superfície lunar e será um grande acontecimento essa missão.

Muitas vezes ouvimos a NASA dizer que a Lua é apenas uma espécie de um banco de ensaios para Marte. Esta viagem de 10 dias está também a preparar uma viagem de outra monta, está também a abrir esses horizontes? Bem dizemos que temos a cabeça na Lua, mas às vezes eu desconfio que a NASA tem o coração em Marte, José.

Nós um dia havemos ter um podcast que é com a cabeça em Marte. Porque de facto, esse objectivo longínquo existe. Mas eu gostava de salientar, e num outro episódio falámos disso, que as viagens a Marte são muito complexas. Marte está muito mais longe do que a Lua. Nós estamos a falar de uma viagem com ida para lá, volta para a Terra e permanência na totalidade à volta de dois anos terrestres, portanto, é muito tempo no espaço e no planeta. É uma viagem muito complexa. Agora o que é que se pode aprender na Lua no futuro, caso o programa Artemis siga o seu curso normal na próxima década? Nós temos 11 missões Artemis previstas até 2035, 36, nos próximos 10 anos. Se o programa Artemis seguir, de facto, o seu curso normal e for a partir de 2032 instalada uma mini base lunar, essa experiência de viver na Lua durante algum tempo, num mundo hostil, será interessante para Marte. No fundo, nós na Lua podemos aprender a viver durante algum tempo num mundo hostil e aproveitar essa experiência um dia para Marte. Mas a ideia é esta: é muito difícil chegar a Marte, é demasiado longe da Terra, mas eu diria o grande objectivo em termos de exploração espacial nos próximos 15, 20 anos, vamos aí apontar 20 anos. Sim, é um objectivo, de facto, que se pretende alcançar. Não será fácil. E depois também, meu caro Vicente, enquanto estivermos no programa Artemis, não vai haver dinheiro para ir a Marte. Temos que ou para um sitio ou para o outro.

Podemos acreditar que os fundos neste momento estão todos alocados. O coração está em Marte, mas os fundos estão mesmo alocados para esta procura mais próxima da Lua.

Sim, exatamente. Ou seja, o programa Artemis, para conseguir ter a sua evolução natural nos próximos anos. Atenção que o programa Artemis, como também já referimos noutros episódios, é um programa internacional, tem uma série de parceiros, os mais importantes é o Canadá, o Japão e aqui a nossa Europa. Desse ponto de vista, há toda esta envolvência internacional, mas a NASA e os Estados Unidos são o parceiro mais importante. Se por acaso este parceiro, que é o mais importante, daqui a quatro, cinco anos ou seis, mudar de estratégia, o programa fica em causa. Mas mudar de estratégia podia ser para ir a Marte, de facto, é verdade.

Isso se calhar já não é território da astronomia, mas depende de alguma administração ou é independente da administração que esteja à frente do país?

Não, depende exatamente da administração. Aí é que está o problema, é que com este presidente Trump, isto vai continuar, porque ele já o disse e ele quer, de facto, que a Artemis 4 até aconteça ainda no mandato dele até 2029, porque ele depois também obviamente quer tirar proveito político disso. Mas, de facto, com este presidente vai continuar. Agora, nós não sabemos quem vem a seguir, se será uma administração republicana ou se será democrata. E também não sabemos quais serão as prioridades em termos de exploração espacial dessa futura administração. Vamos supor que de repente essa futura administração pensa que o mais importante é ir a Marte, e o programa Artemis ficará em causa porque não vai haver dinheiro para ir à Lua e para ir a Marte ao mesmo tempo. Não vale a pena termos ilusões quanto a isso. Vamos ver. Mas é como disse, de facto, a política aqui é o fator mais importante em relação ao futuro.

E seja para a Lua, seja para Marte, é sempre importante aquilo que dita a Terra de alguma forma. Nós vamos ficar por aqui de coração cheio com o regresso dos astronautas da missão Artemis 2, contentes por vê-los de pés na Terra de novo. Prometemos nós, por aqui, que apesar desta aterragem, desta amaragem, deste regresso ao firmamento, vamos continuar com cabeça na Lua. Um grande abraço, José.

Grande abraço.

"We choose to go to the Moon, not because they are easy, but because they are hard." Roger, roll 13.