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Cassete 60.
Samora, the presidente.
Quando dizem que isto anda tudo ligado, não duvidem, anda mesmo. Em 1986, em Moçambique, Samora Machel era presidente. Presidente desde a independência. Dizia-se que o país estava em risco de sair da esfera de influência soviética. Aliás, Samora Machel tinha sido recebido por Ronald Reagan, na Sala Oval da Casa Branca.
Não é por isso de estranhar que Moçambique fosse visitada por elementos do Partido Comunista Russo. Machel estava a poucos dias da sua morte. A 17 de outubro de 1986, o presidente moçambicano embarcou num Tupolev 134, um avião soviético e pilotado por um russo. Acabaria por se despenhar na África do Sul.
Um antigo ministro e destacado dirigente da FRELIMO, sempre atribuiu o acidente a uma conspiração do KGB, uma tese reforçada pelo fato de não ter havido avaria mecânica.
A viúva de Samora Machel diz o mesmo há três décadas. No 35º aniversário da morte, Graça Machel sublinhou o legado do marido.
Que sentimento tem a propósito desta homenagem que acabou de acontecer aqui?
Na verdade, é um misto de sentimentos. Estar aqui reabre as feridas, a dor. De novo, o fato de nós não termos "closure", não sabermos o que é que aconteceu. A dor é muito grande, mas ao mesmo tempo, estes 30 anos reivindicaram a palavra de ordem de que Samora vive. O fato de em todos os cantos do país, todos os estratos sociais, incluindo crianças e jovens que não conheceram Samora.
Mas Graça Machel também tem a certeza de que a morte teve como objetivo calar uma referência regional da lista de homens que lutaram contra a opressão do povo africano, na linha da frente, ao lado de nomes como Agostinho Neto.
O ministro disse aqui que o governo moçambicano não vai descansar enquanto a verdade não for tornada pública. Isto o que é que lhe diz, tendo em conta que essas investigações, 30 anos depois, ainda não foram concluídas?
Eu prefiro não falar nisso. Eu prefiro não falar nisso. Porque já foram repetidas vezes feitos compromissos de que não vamos descansar enquanto a verdade não for conhecida. Já foram vários presidentes, o presidente Nelson Mandela, o presidente Thabo Mbeki, o presidente Jacob Zuma, os presidentes de Moçambique, desde Joaquim Chissano, Armando Guebuza, todo mundo já disse isto. Portanto, eu só vou acreditar quando vir o resultado.
Ora, o engenheiro de voo e nove passageiros das 34 pessoas a bordo sobreviveram a este acidente, que atraiu alegações de sabotagem contra a então administração sul-africana do sistema de segregação racial do apartheid e sobre o qual um inquérito da Comissão da Verdade e Reconciliação sul-africana, em 94, foi inconclusivo quanto às causas do acidente.
Samora Machel tinha 53 anos e regressava de uma conferência com líderes africanos na Zâmbia. No voo vinham membros do partido, ministros, funcionários do governo e tripulação.
Mas voltemos aos dias antes da morte e a uma fotografia que ficou conhecida nas últimas semanas pela personagem que está ao lado, lado a lado com Machel. Nada mais, nada menos do que Vladimir Putin. O então oficial dos serviços secretos soviéticos tinha 34 anos e aparentemente vigiava o presidente.
Ou então não.
Ou então não vigiava.
É que nessa foto não é Vladimir Putin. Parece, mas não é. E foi como um fósforo que esta notícia se tem espalhado à época, mas sobretudo agora. Eu sugiro que faça uma pesquisa online, vão encontrar imediatamente esta foto com Samora Machel, mas não é Putin que está ao seu lado, é um outro agente. Não sabemos se da GRU ou do KGB, mas de facto é parecido com Putin. Só que o presidente da Rússia, na altura, um oficial da Polícia Secreta, não estava em Moçambique, nem em África, sequer. Na altura, vivia ainda em Stalingrado. Não tinha sequer sido transferido para Moscovo.
Mas o que fazia um agente do KGB com Samora Machel? As razões eram simples: Moçambique estava a afastar-se da URSS, que não era aquilo que os soviéticos queriam. Segundo o dirigente da FRELIMO, Machel terá respondido às dúvidas sobre a lealdade do país e do governo, expressadas pelo embaixador soviético, com um pouco diplomático: "Vai aquela palavra feia começada por M, que é melhor não dizermos em rádio".
Mas chegamos lá.
Sim, acho que sim.
De resto, o líder moçambicano era conhecido pelas suas tiradas politicamente incorretas. Segundo o embaixador português José Cutileiro, um dia, sobre a União Soviética e sobre os países cooperantes, como os países de Leste ou a Escandinávia, os Estados Unidos, disse: "Vocês tratavam-nos como pretos. Estes gajos agora tratam-nos como macacos".
É sim. O caso tem gerado muita polêmica em relação a esta questão da fotografia. Bom, esta frase também geraria se fosse mais conhecida. Mas a fotografia voltou a emergir por quê nos últimos dias? E isso é evidente, tendo em conta o facto de Vladimir Putin estar agora no centro do mundo. Ela não é conhecida de agora. Há pelo menos quatro anos foi publicada na internet por um jornalista do Zimbábue, segundo consegui apurar. O Sol publicou há duas semanas. Logo de seguida, os jornalistas José Milhazes veio dizer que não era Putin. O Sol voltou a garantir que sim, que era, e no fim de contas, um fact check feito por uma publicação africana, que também tem uns anos, garante que não, que era, de facto, alguém parecido e alguém soviético, de facto, e alguém talvez do GRU ou do KGB, e alguém louro e parecido com Putin. Sobretudo parecido com Putin agora, ou seja, pouco parecido com Putin jovem, curiosamente. Mas não, não é Putin. Putin não podia estar naquele momento, naquele sítio com Samora Machel. Foi um não facto, mas fica aqui o fact check, o primeiro fact check do Cassete 60. Cassete 60. Rádio Observador