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R7, 60.

Continuando a exercer as funções de primeiro-ministro, o país cairia inevitavelmente num pântano político que minaria-

António Guterres demite-se de primeiro-ministro depois da derrota do Partido Socialista nas eleições autárquicas de 16 de dezembro de 2001. Jorge Sampaio ouve os partidos e o Conselho de Estado e anuncia que vai dissolver o Parlamento, o que acontece precisamente a 17 de janeiro de 2002. Já foi há 20 anos. E numa declaração ao país, explicou porque decidiu usar, como se diz na gíria, a bomba atómica.

Porque a concretização do sufrágio universal trará às instituições uma legitimidade renovada e uma nova energia ao nosso sistema político.

Dois meses depois, o país voltaria às urnas.

Marco a eleição da nova Assembleia da República para o dia 17 de março de 2002. Em obediência à lei, o decreto de dissolução será assinado oportunamente. Até à formação do novo executivo, o atual governo ficará em gestão nos termos constitucionais.

Ora Jorge Sampaio lembrou nesta mesma declaração que as eleições municipais não devem ter, em regra, uma direta tradução política no plano nacional. Guterres percebe o recado, mas o mal estava feito e o presidente da República só tinha mesmo era de dissolver a Assembleia ou então dar posse a um outro líder socialista indicado, o que aliás aconteceu, mas dois anos depois.

Já lá vamos. A verdade é que do Conselho de Estado e da audição aos partidos políticos saiu esta leitura: a de que para sair da crise ou do pântano, como apelidou Guterres, o resultado das eleições só com novas legislativas. Jerónimo de Sousa, em reação à comunicação de Sampaio, explicou bem o único caminho a seguir.

Tendo em conta a demissão do senhor engenheiro Guterres, naturalmente era muito difícil fugir, mais semana, menos semana, a esta data proposta pelo senhor Presidente da República.

Dois anos depois, Portugal estava outra vez na mesma situação. E aí Jorge Sampaio decidiu de forma diferente. Durão Barroso tinha ganho e com o CDS conseguiu maioria absoluta no Parlamento.

Mas com a saída de Barroso para a Comissão Europeia, o presidente da República apontou Santana Lopes como substituto, contra a opinião de todos os partidos, com exceção do PSD e CDS, claro. Mas foi coisa para durar pouco, quatro meses. Nessa altura voltou a dissolver o Parlamento e com um discurso bem duro.

Entretanto, desde a posse do 16º Governo Constitucional e depois de lhe ter assegurado todas as condições necessárias para o desempenho da sua missão, o país assistiu a uma série de episódios que ensombrou decisivamente a credibilidade do Governo e a sua capacidade para enfrentar a crise que o país vive.

Foi uma curta declaração ao país, mas em que Jorge Sampaio não deixou nada por dizer.

Reafirma sucessivos incidentes e declarações, contradições e descoordenações que contribuíram para o desprestígio do Governo, dos seus membros e das instituições em geral.

Contradições, instituições, casos e casinhos que levaram a eleições antecipadas, as de 20 de fevereiro de 2005. E daí resultou a primeira maioria absoluta do Partido Socialista no Parlamento, alcançada com 45% dos votos, que levou José Sócrates ao poder. E o resto é história.

Está uma boa viagem esta a 2002. Já não tinha ideia.

Parece que era, não é? Mas foi há 20 anos, duas décadas.

Não tinha ideia que era realmente há tanto tempo. Bem, mas esta data proposta aqui pela Judite de França também nos ajuda a fazer um zoom out a Portugal e ao mundo, que em 2002, no nosso país, por exemplo, na música, fica obviamente marcado por Shakira. O seu disco "Laundry Service" foi o mais vendido no nosso país, num top que tem também a banda sonora da telenovela "O Clone", já não me lembrava, "Os Divinos" e ainda o disco "Só Eu Sei Porque Não Fico Em Casa", da Juventude Unida.

Grande álbum.

Era 2002. Sabem o que aconteceu em 2002, não sabem?

É verdade.

Sim.

Foi por causa disso.

Não queremos lembrar. Eu pelo menos não quero. Destaque ainda para o facto de nesse ano de 2002 não ter havido Festival RTP da Canção. Não foi uma tragédia, pelos vistos. E para a edição de Madredeus Eletrónico, um disco onde a obra da banda surge remisturada por nomes da música de dança, como os Telepopmusik, que fizeram esta nova versão de "Oxalá".

E ficamos sem perceber a Teresa Salgueiro, com estes cortes todos.

Sim. Pronto.

Mas há ali uma ou outra canção que eu até gosto.

Sim.

E é uma abordagem também original a uma música que é tradicionalmente acústica, a dos Madredeus.

Às vezes parece que está com pouca ligação de rede. Bom, lá por fora, 2002 é o ano de afirmação para Alicia Keys. Ela, que em fevereiro desse ano vence os Grammy de Artista Revelação e Canção do Ano para esta "Fallin'".

2002 fica também marcado pela morte de Jam Master Jay, o músico dos Run DMC, que foi morto a tiro no seu estúdio em Queens, Nova Iorque, o que levou ao fim da banda cujo maior sucesso é este "Walk This Way", em colaboração com os Aerosmith. Mas há outra morte que marca 2002. A 22 de dezembro morreu, de doença cardíaca, Joe Strummer, o vocalista dos Clash, que para além de músico, foi um radialista, portanto um colega nosso. Mas ele foi um pouco mais influente, tendo assinado para a BBC o programa "London Calling", que aliás é título de uma das mais famosas das suas canções. De resto, se quiserem conhecer o trabalho de Joe Strummer como radialista, este "London Calling", acho que ainda há pouco tempo, estava pelo site da BBC. Podem escutá-lo quando quiserem. É bem jeitoso. Deixamos então 2002 para fecharmos com um aniversário, o cassete 60 de hoje. Françoise Hardy, rainha da chanson française, faz hoje 78 anos.

Parabéns.

Parabéns, Françoise. Nasceu a 17 de janeiro de 1944, quando Paris estava ocupada pelos nazistas e consta até que veio ao mundo durante um ataque aéreo que fez explodir as janelas da clínica onde nasceu. "Le Temps de L'amour" é um dos seus maiores sucessos e serve aqui para lhe darmos os parabéns. Parabéns, Françoise.

Parabéns.

Cassete 60.