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Cassete 60.
Hoje o Cassete 60 é inteiramente dedicado a Lisboa e às lendas que acompanham a cidade. Começamos pela mais antiga, a que explica a origem de Lisboa e que nos conta como o herói grego Ulisses navegou além das colunas de Hércules e subiu até à foz do rio Tejo. Ali encontrou o reino de Ufiúsa. Decidiu fundar a mais bela cidade do mundo, dizia, a que chamaria de Ulisseia. Surgiu-lhe a rainha de Ufiúsa, que era uma mulher metade serpente, que apaixonada, fez uma proposta a Ulisses: ele poderia construir a sua cidade, desde que ficasse ali para sempre. Ulisses concordou, mas a verdade é que queria voltar para a mulher e traçou um plano para fugir. Numa noite criou um engodo e enviou um dos seus homens no seu lugar, mascarado, enquanto escapava de barco.
Sempre uma mulher, não é? E quando a rainha descobriu que foi enganada, envenenou o sósia de Ulisses. Desceu até ao porto para alcançar o seu amado e fez tal força que moldou a única montanha em sete, pelo serpentear do corpo, criando então as tais sete colinas e acabando por falecer desse esforço. Sem rainha, os homens de Ulisses ficaram e chamaram a cidade de Ulíssipo.
E chamaram muito bem. No metro dos restauradores encontra-se o painel de azulejos dedicado à lenda de Ulisses, um painel da autoria de Lima de Freitas. Faz parte de um conjunto de 14 painéis inspirados nos mitos e lendas da cidade de Lisboa e abarca os grandes temas do esoterismo e misticismo lusitano. Os restantes painéis estão no cais da estação de comboios do Rossio.
Helena Galvão Soares é responsável pela recolha de mitos e lendas sobre Lisboa. Conta-nos uma outra, a de que a cidade nasceu como Roma, por entre sete colinas. Atentem no número sete, são sete os pecados mortais, são sete as maravilhas do mundo. Mas se lhe dissermos que, na verdade, Lisboa não tem sete, mas sim oito colinas.
É lá.
Que revelação bombástica.
É verdade. A primeira referência às sete colinas surge no Livro das Grandezas de Lisboa. É uma obra do século XVII, de Frei Nicolau de Oliveira. Nela são apontadas as colinas de São Jorge, São Vicente, São Roque, Santo André, Santa Catarina, Chagas e Santa Ana, todas visíveis na chegada a Lisboa pelo Tejo. Mas falta uma, a da Graça.
A tua?
É verdade. A mais alta da cidade, apenas encoberta pelo Castelo de São Jorge. E atribui-se a falta da Graça na contabilidade, porque a descrição do monge foi feita a partir da vista do rio, onde a colina do castelo, de facto, tapa a Graça. Ou isso, ou então o senhor tinha miopia. E falamos agora do Lagarto da Penha, menos conhecida também. Conta a história de um peregrino que descansa junto à imagem da Virgem da Nossa Senhora da Penha e ali adormece. Um enorme lagarto do tamanho de um jacaré aproxima-se do peregrino para o atacar e a Senhora da Penha avisa-o em sonhos para sacar da navalha e matar o lagarto.
Malvada! Mas não podemos falar de Lisboa sem falar de Santo António. Diz a lenda que quando estudava na escola da Catedral, o menino terá sido tentado pelo demónio, que ele terá repelido. E o que fazes quando isso acontece?
O sinal da cruz.
Ora aí está, foi o que ele fez. O demónio foi-se embora, claro, e a cruz ficou gravada na pedra, onde ainda a podemos ver na escadaria da Sé.
E depois, há a famosa lenda de Martim Moniz. Estávamos no século XII, D. Afonso Henriques e os cruzados faziam cerco ao Castelo de Lisboa, território muçulmano à época. Numa das investidas, Martim Moniz, sacrificando a vida, lançou-se para as portas entreabertas, impedindo com o corpo que elas se vestassem e permitindo assim que os cristãos forçassem a entrada e conquistassem o castelo.
Já vi isso acontecer muitas vezes no metro.
Sim, acontece diariamente.
Pessoas entaladas nas portas. Em homenagem a Martim Moniz.
Com certeza.
Martim Moniz, que está perto da Rua da Protesga, onde é difícil encaixar alguém.
É verdade.
Muito bem. Descobri também, a propósito de Lisboa, já que foste para as lendas e mitos, olha para as canções que foram escritas sobre Lisboa. E uma delas é esta dos Madredeus, chamada "Moro em Lisboa". Gosto muito desta canção, tinha saudades de te ouvir.
Eu gosto do "Mirador de Santa Catarina".
É dos Madredeus?
É, é instrumental.
Boa.
Ainda assim, Lisboa fica bem atrás de Nova Iorque, essa sim, a cidade mais cantada do mundo, presente em mais de 30 mil canções. Aquelas que se conhecem, claro. Esta é a conclusão de uma análise feita por um motor de busca de viagens em colaboração com a Musicmatch, empresa que reúne uma base de dados de letras de músicas e respetivas traduções.
E foram analisadas 14 milhões de canções em várias línguas e a capital portuguesa surge em 57º lugar entre 300 cidades.
Nada mau.
Não, eu acho que é um lugar respeitável.
Médio.
Nesse top, para além de Nova Iorque, Paris surge em segundo lugar, com cerca de 20 mil canções, e Londres fecha o pódio.
Quanto a Lisboa, é citada em 538 canções, segundo este estudo, com Coimbra a conquistar o segundo lugar, graças à tradição fadística e estudantil. E depois não vem o Porto, ainda vem Sintra. Sabiam?
Não.
Terceira cidade mais cantada do país. Está feito assim este Cassete 60 sobre lendas e mitos de Lisboa, com a Judite França. Já de seguida vamos ter uma síntese de notícias. A Rádio Observador, a propósito da Semana da Mobilidade, está a emitir a partir do Rossio.
Cassete 60