Já foram uma carpintaria, uma zona de passagem para chefes de Estado estrangeiros e até o gabinete temporário de Marcello Caetano. Agora, um conjunto de espaços adjacentes à Sala do Trono do Palácio Nacional de Queluz foi restituído à sua velha glória, reabrindo ao público como os aposentos da rainha D. Carlota Joaquina. Trata-se de cinco salas onde a monarca — uma das mais polémicas e vilificadas da história de Portugal — dormiu, comeu, rezou, conversou, jogou e, por fim, morreu.
Há muito que a localização onde a consorte de D. João VI passou os seus últimos anos de vida — já depois da família real portuguesa regressar do Brasil, em 1821 — era uma incógnita. A sua identificação só foi possível graças a um rigoroso trabalho de investigação conduzido pelas equipas permanentes do Palácio Nacional de Queluz. Seguiu-se um esforço multidisciplinar para devolver a estas câmaras a sumptuosidade digna de uma rainha, desde a restituição de objetos pessoais que pertenceram a D. Carlota Joaquina até à redecoração do espaço. O Observador esteve nestes aposentos meros dias antes da abertura oficial ao público, a 20 de outubro, assistindo aos últimos preparativos, desde a retirada de interruptores das paredes (para tornar a experiência mais imersiva para o visitante) até ao delicado restauro de artigos centenários.
Avaliado em 150 mil euros, este projeto foi empreendido pela Parques de Sintra, a sociedade gestora responsável pela manutenção e musealização não só deste palácio, como também do Castelo dos Mouros e dos Palácios Nacionais da Pena e de Sintra, entre outros. Ao Observador, o seu presidente afirma que a renovação destes aposentos não resulta apenas dos planos de restauro e conservação a 10 anos em vigência. Parte da estratégia incide também na vontade de restituir os espaços o mais fidedignamente possível às suas características originais. “Consideramos que era relevante reforçar a interpretação histórica do palácio através das pessoas que o habitaram. O nosso objetivo é não só permitir que o visitante consiga cada vez mais conhecer o monumento como obra arquitetónica e artística de grande relevância, mas também como é que se vivia nestes paços”, conta João Sousa Rego.
Com esta descoberta, os responsáveis pelo Palácio Nacional de Queluz esperam inclusive ajudar a desmistificar a figura de D. Carlota Joaquina. Apodada de “Megera de Queluz”, a monarca foi eternizada no imaginário comum português como uma mulher parca de virtudes e plena de defeitos, por força do seu caráter tido como conflituoso e libidinoso e pelas suas opiniões políticas. Não tendo como objetivo reabilitar a sua imagem, a historiografia mais recente tem permitido pelo menos desafiar caricaturas e retratá-la de forma mais humanizada. Mostrar como viveu é também um contributo para isso.
▲ Durante a visita, foi possível ver os técnicos a finalizar pormenores e a colocar objetos.
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
Uma visita pelo século XIX
Para conseguir localizar e restituir os aposentos de D. Carlota Joaquina, a Parques de Sintra necessitou do trabalho de equipas técnicas pluridisciplinares. “Uma das nossas grandes mais-valias é a capacidade de reunir especialistas em diferentes áreas, tais como arqueólogos, investigadores, restauradores, jardineiros e arquitetos paisagistas, o que permite termos uma investigação horizontal”, afirma João Sousa Rego. Dessa forma, conta, é possível operar em várias frentes, com parte da equipa a conduzir investigação arquivística na Torre do Tombo ao mesmo tempo que técnicos de conservação e restauro fazem “janelas parietais para conhecer exatamente as diferentes camadas pictóricas das salas e assim perceber como elas eram apresentadas à época”.
Um dos investigadores responsáveis por este projeto é Hugo Xavier, doutorado em História da Arte, que se encontra a trabalhar como curador no Palácio Nacional de Queluz. Ao Observador, o historiador conta que o processo teve início em 2025, quando ele e a restante equipa começaram a investigar arquivos na Torre do Tombo. Foi então que encontraram vários inventários, documentos essenciais para este tipo de pesquisa porque não só registavam os objetos, como também onde estavam situados.
Um destes inventários, datado de 1833, três anos após a morte de D. Carlota Joaquina, deu “pistas muito consistentes em relação à sua vivência no palácio”, tendo sido “possível aferir até os aposentos onde morreu”. Esse foi o primeiro passo crucial para localizar essas câmaras e, ao mesmo tempo, contrariar as teses que perduravam desde o século XX. Segundo Hugo Xavier, “tentavam localizar os seus aposentos no Pavilhão Robillion, que era de uso exclusivo do dono da Casa do Infantado”, ou seja, de D. João VI.
Na lógica do Antigo Regime, os principais membros das famílias reais tinham cada um as suas câmaras privadas, que funcionavam como “apartamentos autónomos” em diferentes zonas dos palácios, garantindo a cada um privacidade e também o seu próprio espaço de influência. Além disso, o conceito da família reunida à mesa é uma invenção mais tardia, pelo que nesta fase isso só acontecia em ocasiões especiais; “normalmente, cada núcleo de aposentos tinha também um espaço para refeições, teria uma cozinha mais pequena” para preparar comida só para aquele ocupante, explica o historiador. Não era, portanto, comum reis e rainhas partilharem o mesmo quarto, mas no caso de D. João VI e de D. Carlota Joaquina, não era sequer crível que vivessem no mesmo pavilhão, já que tinham fortes “divergências familiares e políticas” entre si — uma das razões para a infâmia histórica da rainha. Daí a equipa de investigação considerar que “era um bocadinho difícil os dois comungarem do mesmo espaço”.
▲ Por ordem: a Ante-Câmara, a Câmara, o Oratório e o Camarim.
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Uma outra hipótese sugeria que tivesse regressado ao primeiro piso do palácio, onde viveu durante a sua primeira estada em Queluz, antes da fuga da família real portuguesa para o Brasil fruto das invasões francesas. No entanto, não só essa zona do edifício sofreu um incêndio em 1934, apagando quaisquer vestígios dessa eventual segunda passagem, como os problemas de saúde que se agravaram tornam improvável que se mantivesse num local onde fosse necessário subir escadas.
Os investigadores conseguiram então apurar que D. Carlota Joaquina veio a ocupar uma zona do palácio no piso térreo e que antes tinha acolhido D. Pedro Carlos, filho de Mariana Vitória de Bragança [filha de D. Maria I e irmã de D. João VI] e que, depois da morte da monarca, teve várias vidas. Tendo Queluz entrado em estado de abandono a partir de meados de Oitocentos, na viragem para o século começou a ser submetido a intervenções de restauro e, nesse âmbito, estas salas tornaram-se uma carpintaria. Mais tarde, dando acesso ao pavilhão D. Maria I, residência dos chefes de Estado estrangeiros em visita a Portugal, foi uma mera zona de passagem e de estar. E por breves momentos, no início dos anos 70, Marcello Caetano, Presidente do Conselho do Estado Novo, mandou aqui instalar o seu gabinete temporário enquanto o Palácio de São Bento era intervencionado.
“Esta documentação permitiu perceber que D. Carlota Joaquina ocupou uma ala completamente oposta do palácio e que o fez nos últimos cinco anos de vida. A rainha desce ainda em vida desse piso superior e ocupa, por questões de mobilidade, esta zona que ficava muito perto da Sala do Trono”, explica Hugo Xavier, garantindo que o espaço escolhido é aquele onde se pode “evocar esta figura de uma forma genuína e autêntica”.
Ao todo, foi possível reconstituir 60% dos aposentos da rainha, correspondentes a divisões que estavam a ser usadas para expor objetos do palácio como parte do circuito museológico. As restantes, no entanto, já tinham sido sujeitas a obras ou à afetação a outros espaços — parte delas, por exemplo, veio a ser ocupada pela loja do palácio, construída no século XX. No entanto, os quartos que foram recuperados já dão uma boa ideia do que era o quotidiano de D. Carlota Joaquina nos seus últimos anos de vida.
Este circuito inicia-se pela Sala de Entrada, que dá lugar à Ante-Câmara. Revestida a telas pintadas com cenas de caça e paisagens florestais, esta divisão tem como destaque um luxuoso relógio de mesa [ver caixa] e esconde uma curiosidade reveladora das dinâmicas sociais da época. “Esta era uma dependência onde as visitas da rainha poderiam aguardar, mas tinham de permanecer de pé. Apesar de ter cadeiras, tinha de se esperar de pé pela rainha, não se podia sentar, por uma questão de protocolo”, explica Hugo Xavier.
Segue-se então para a Câmara, termo equivalente ao que hoje consideramos um quarto de dormir. Esta, tal como as outras divisões, é dominada pela decoração e o mobiliário em estilo império, uma vertente do neoclássico em voga no período de vida de D. Carlota Joaquina, “que se preocupou sempre em estar atenta às tendências da época, aos estilos e às novidades”. Isso fica bem aparente nos móveis adornados com metal dourado e no leito de dossel no centro da divisão. Outra particularidade é o pequeno compartimento onde se encontra uma “cadeira-retrete”, versão aproximada de uma casa de banho onde uma cadeira com o assento amovível oculta um penico em cerâmica.
Antes de se avançar para o interior do palácio, rumo à Sala do Trono, uma pequena divisão de gaveto ligada à Câmara apresenta-se como o Oratório, descrito por Hugo Xavier como o “coração dos aposentos”. “Há um elogio fúnebre que é publicado por João de São Boaventura e que refere que, nos últimos anos de vida, D. Carlota Joaquina recolhia-se aqui muito em oração. É algo que percebemos que fazia parte das dinâmicas do quotidiano, daí a comunicação que normalmente os oratórios faziam diretamente com o quarto de dormir”, explica. Além de ter sido revestido de damasco encarnado, como era costume à época, este espaço tem como grande destaque uma “maquineta” dourada, nome dado às estruturas de madeira concebidas para expor imagens religiosas, contendo ao centro uma escultura do Calvário de Cristo.
Por fim, após cruzar a Câmara no sentido oposto, chega-se ao Camarim, uma sala privada onde D. Carlota Joaquina podia estar com os seus convidados, mas não só. “Podia servir para momentos musicais, para trabalhos de costura e até para jogos — sabemos que a rainha tinha uma caixa de jogo em laca chinesa, com fichas em madrepérola, para jogar whist e voltarete, que estavam em voga”, afirma o investigador. Este espaço demonstra assim que a monarca não vivia apenas em devoção cristã, representando “este seu lado mais lúdico e de descontração”.
Em busca das peças de Carlota
Para tentar replicar os aposentos de D. Carlota Joaquina, a equipa de investigação não se ficou por um trabalho de reconstituição aproximada nem por fabricar réplicas, tendo encetado uma busca pelo maior número de objetos originais que pertenceram à rainha. “80% dos objetos que estão expostos pertenceram à rainha”, garante Hugo Xavier, dado que muitos têm etiquetas próprias que confirmam essa titularidade.
A questão é que uma percentagem significativa encontrava-se ou dispersa ou como propriedade alheia, já que o seu espólio foi sujeito a partilhas entre herdeiros e vendido em leilão, como prova um documento com cerca de 800 páginas encontrado pelos investigadores. Este foi um dos documentos matriz que permitiu “ir construindo todo um corpus de informação com associações às peças que existem, às que estão por identificar, às que existem noutros palácios ou em coleções privadas”.
▲ Os retratos do "filho preferido da rainha", D. Miguel, e da sua mãe, adoentada e em final de vida.
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Outro aspeto que foi necessário ter em conta é que as peças que D. Carlota Joaquina comprava não tinham uma localização estanque. “Os objetos circulavam muito entre palácios, casas não estavam montadas de uma forma estática, e por onde o rei ou a rainha se deslocava, muitas vezes os seus bens também acompanhavam essas deslocações”, informa o historiador. Além disso, após a sua morte, muito do seu mobiliário foi remetido para a Quinta do Ramalhão, em Sintra, uma propriedade privada da monarca — e daí, pode ter circulado por outras residências reais. Os Palácios Nacionais de Sintra e de Mafra, por exemplo, cederam peças que pertenceram à rainha para regressarem a Queluz.
Outros casos, no entanto, foram mais espinhosos, tendo a Parques de Sintra de fazer uso da sua política de aquisições para reaver determinadas peças. Uma delas, por exemplo, é uma Cruz-relicário do Santo Lenho, agora exposta na Câmara da rainha. “Sabemos que este foi um dos objetos vendidos logo após a sua morte. É uma peça italiana, de um ourives do início do século XIX, em prata e bronze”, conta, explicando que tinha um espaço destinado a uma relíquia que se acreditava ser um pedaço da madeira da cruz onde Jesus foi crucificado. Este item surgiu numa leiloeira em Lisboa em 2024 e, segundo o curador, “não estava marcada com nenhuma coroa ou com as iniciais gravadas”, tendo-se perdido a associação a D. Carlota Joaquina. No entanto, num dos inventários encontrados estava “descrita tintim por tintim”, tendo sido assim possível reavê-la.
Foram ainda feitas duas outras aquisições para este projeto, ambos retratos que se encontravam fora de Portugal. Um deles é “inédito” e é de D. Miguel, o “filho preferido da rainha”. “Sabemos que passou pela Alemanha, por Viena da Áustria, e depois foi parar a um antiquário italiano”, revela. O outro, obra de Luis de la Cruz y Ríos, é da própria D. Carlota Joaquina, havendo uma outra pintura muito similar no Museu do Prado, em Madrid. ”Estava em Nova Iorque e pertencia ao Museu da Hispanic Society”, continua Hugo Xavier, sendo que esta instituição, pretendendo vender parte do seu acervo, colocou-o em leilão pela Christie’s. A Parques de Sintra conseguiu arrematá-lo, estimando-se que seja “um dos últimos, senão mesmo o último, retratos conhecidos da rainha”, notando-se já “as feições muito marcadas e um bocadinho duras” da monarca em fim de vida.
Carlota Joaquina, um mito que perdura
O Panteão dos Bragança, localizado no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, não é o único a que D. Carlota Joaquina pertence. A esposa de D. João VI também tem a dúbia honra de ser uma das mais desprezadas figuras da história de Portugal, eternizada como a “Megera de Queluz”.
São várias as razões para a sua vilificação. Por um lado, sendo filha de Carlos IV de Espanha, enviada para Portugal com 10 anos para um casamento de conveniência diplomática, a sua proveniência nunca caiu bem em alguns setores nacionais, sendo apelidada “espanhola com bigode”. Por outro, não sendo uma mulher bonita e sofrendo uma queda em criança que a deixou para sempre limitada, era fácil atacá-la apontando defeitos físicos. No entanto, como aponta Maria de Lourdes Viana Lyra em Carlota Joaquina e Leopoldina de Habsburgo, essas características “estavam em sintonia com as qualidades morais”, tidas como “igualmente pouco recomendáveis”.
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Num período em que se exigia às consortes reais recato e submissão, D. Carlota Joaquina recusou o papel passivo a que seria votada e procurou envolver-se ativamente na governação. Quando isso lhe foi barrado, envolveu-se em planos contra o marido, como a Conspiração de Mafra, de 1805, na qual tentou declarar D. João VI incapaz para assumir a regência — o primeiro incidente grave a afastar o casal. Já quando a família real foi para o Brasil, protagonizou outro embaraço para a coroa portuguesa, tentando fazer-se aclamar regente das colónias espanholas na América do Sul a partir do Rio de Janeiro já que, com a derrota de Espanha perante Napoleão Bonaparte, era a única descendente de Carlos IV livre para fazê-lo. Mas provavelmente o posicionamento que mais infâmia lhe trouxe foi ter-se recusado a jurar a Constituição liberal de 1822, apoiando o filho D. Miguel no seu fito de tornar-se rei e restaurar o absolutismo, sendo assim conotada com o obscurantismo do Antigo Regime.
Como resultado, a monarca foi alvo de inúmeras acusações — em vida e póstumas —, desde parte dos filhos que teve com D. João VI serem fruto de numerosas infidelidades até à suspeita de ter envenenado o marido. Tomemos como exemplo a descrição que Oliveira Martins, um dos pais da historiografia portuguesa, faz em História de Portugal.
Carlota Joaquina, megera horrenda e desdentada, criatura devassa e abominável em cujas veias corria toda a podridão do sangue bourbon, viciado por três séculos de casamentos contra a natureza, atiçava essa chama, como a hórrida feiticeira, no fundo do seu antro, assopra o lume da sua cozinha diabólica. Ficara, na ausência do infante, para lhe preparar a volta a ele, e ao pobre rei um morrer desgraçado, sem amigos, sem mulher, sem filhos, sem povo, sem nada!”
Com facilidade em fazer inimigos, o marquês de Bombelles, embaixador da França em Lisboa, disse ser preciso haver “fé, esperança e caridade para consumar este ridículo casamento: a fé para acreditar que a infanta é uma mulher, a esperança para crer que dela nascerão filhos; e a caridade para se resolver a fazer-lhos”. Já Laura Junot — a mulher do general responsável pela primeira invasão napoleónica a Portugal, sendo feita Duquesa de Abrantes por Napoleão — não só fez uma descrição impiedosa e detalhada dos seus defeitos físicos, como insinuou que os seus filhos eram fruto de aventuras extra-conjugais: “o que é notável nesta família de Portugal é não haver um único filho parecido com a irmã ou o irmão”.
Do outro lado do Atlântico, o tratamento foi similar, plasmado em obras historiográficas e de ficção como Carlota Joaquina, a rainha devassa (1968), de João Felício dos Santos, e Carlota Joaquina, a rainha intrigante (1949), de Marcus Cheke. “Traidora como cônjuge, conspiradora como princesa, desleal sempre e sem interrupção”, escreveu o historiador brasileiro Oliveira Lima. “Não há memória, em toda a história portuguesa, de um rei que fosse, como D. João, tão ignominiosamente enganado pela esposa. Chega a causar espanto. Carlota Joaquina, ao procurar os seus amantes, além disso, nem o senso da escolha tinha. Tudo lhe servia, tudo, desde que tivesse a forma aproximada de um homem. Até os subalternos da Quinta do Ramalhão não escaparam à sua depravação messalínica. Na Corte de Lisboa, a mulher de D. João lembrava uma gata, eternamente no cio, a latejar luxúria”, atirou, por seu lado, o seu compatriota Luiz Edmundo.
À luz dos padrões da historiografia atual, este tipo de abordagem é tida como pouco rigorosa, mas mais de um século de reforço destes rótulos cimentaram a sua imagem no imaginário comum. “Há uma imagem temporal muito primária que é feita da própria, alguns textos mais extremistas acabam até por roçar a boçalidade. São visões que não são totalmente imparciais. Claro que figuras como a de D. Carlota Joaquina são polémicas, difíceis, não são de todo lineares. Mas temos de encontrar outras vias de interpretação”, defende Hugo Xavier.
▲ O relógio que D. Maria I ofereceu a D. Carlota Joaquina, um dos ex-libris destes aposentos.
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Esse tem sido um esforço empreendido nas últimas décadas, como o próprio aponta. Nos anos 90, Carlota Joaquina e os Espelhos de Clio, de Sara Marques Pereira, procurou encarar a figura no seu devido contexto. Mais recentemente, Maria Beites Manso e Maria Fernanda Matias lançaram pela Parsifal D. Carlota Joaquina — Entre o dever e a transgressão, que alinha pela mesma bitola mas fundamentando-se em nova documentação entretanto investigada, como a correspondência da rainha. “Percebemos que essa vilania foi, em larga medida, uma construção, reflexo das estruturas de poder e dos discursos históricos pouco habituados a lidar com mulheres que pensavam e agiam por si próprias. Aliás, grande parte dos registos sobre D. Carlota Joaquina foi escrita por homens, ou por mulheres que a viam como rival, ou que defendiam projetos opostos ao seu, como Laura Junot. O que propomos é um olhar que restitua à figura histórica a sua densidade e complexidade”, afirmaram as duas em entrevista ao Diário de Notícias.
Hugo Xavier recorda também ao Observador que, nos últimos anos, saíram estudos como o de Mafalda Magalhães Barros sobre a faceta bibliófila da rainha, que colecionou livros que iam desde romances de Jane Austen — à época, obras recentes e pouco conhecidas fora de Inglaterra — até obras proibidas. A estes exemplos somam-se os que este trabalho museológico dos aposentos no Palácio Nacional de Queluz oferece, visto que os artigos que D. Carlota Joaquina foi adquirindo dão conta do seu “gosto pelo colecionismo” e do seu gosto refinado.
“Penso que esta iniciativa ajuda, porque pelo menos nos introduz a um ambiente muito aproximado — não é o ambiente que foi habitado pela própria, mas tem peças que lhe pertenceram no local em que habitou num determinado momento, numa determinada janela temporal. Penso que isso ajuda precisamente a percebê-la. Dá-lhe substância, há uma certa aproximação até do visitante para com esta figura histórica”, conclui.