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Car7, 60.

No dia 7 de novembro de 1991, o basquetebolista Magic Johnson espantou o mundo ao anunciar que iria sair dos Los Angeles Lakers depois de descobrir que estava infetado com o HIV.

First of all, let me say good after-- late afternoon. Because of the HIV virus that I have attained, I will have to retire from the Lakers today. I just want to make clear, first of all, that I do not have the AIDS disease, because I know a lot of you want to know that, but the HIV virus.

Nesta declaração à imprensa, aguardada com ansiedade, Magic Johnson explicou que não tinha sida, mas antes o vírus, numa altura em que muitos pensavam que a doença afetava exclusivamente homossexuais. O anúncio de Magic foi o primeiro entre as grandes estrelas do desporto e a notícia foi tão chocante que deixou a América incrédula.

Ainda assim, no anúncio, apesar de estar muito nervoso por dentro, como era compreensível, Magic apareceu com um sorriso a garantir que ia durar muitos anos.

My wife is fine, she's negative, so no problem with her. I plan on going on, living for a long time, bugging you guys like I've always have. So you'll see me around. I plan on being with the Lakers in the league. Hopefully, David will have me for a while.

Magic foi, de facto, uma das maiores estrelas da NBA. Jogou 13 temporadas e ganhou cinco campeonatos. Foi selecionado pelos Lakers em 1979. Acumulou prêmios ao longo dos anos. Chegou a regressar em 92 para jogar no All-Star Game, mas voltou a retirar-se durante quatro anos. Em 1996, aos 36 anos, jogou 32 vezes pelos Lakers antes de se reformar do basquete definitivamente. Ainda hoje detém o recorde do maior número de assistências. Esteve na equipe olímpica em 92, nos Jogos de Barcelona, onde ganhou o ouro. Johnson foi homenageado como um dos 50 maiores jogadores da história da NBA em 1996 e selecionado quando a NBA comemorou os 75 anos, em 2021.

Aquela declaração que mudou a vida do atleta chegou a ser, na altura, comentada pelo próprio presidente dos Estados Unidos.

I did catch a little bit of it on television. His statement here, saw the heartbreak of some of the kids that idolize him. And so it's a tragedy.

George Bush disse que a revelação de Magic era trágica, sobretudo pelo fato de ser um ídolo de tantos jovens, mas também por isso usou a notoriedade para ser um porta-voz dessa doença. Anos mais tarde, ao recordar aqueles dias, Magic Johnson contou que pensou na morte.

The hardest thing is to think that you're gonna die, so you have to prepare, but you're still living and you still feel that you're this healthy guy, but everybody's telling you you're not. And on top of that, I learned quickly how differently I'd be looked at now that I had HIV.

Na altura, contrair o vírus era encarado como uma sentença de morte. A verdade é que Magic conseguiu manter-se sem sintomas de doença até que, em 1996, os medicamentos retrovirais, que incluíam uma tripla combinação terapêutica, prolongaram a vida de muitos que tinham o vírus.

Magic passou depois por uma fase em que deixou de ser bem-vindo, nem no restaurante em que costumava ir, e a notícia afetou toda a família, claro. O filho, com 10 anos, deixou de ter amigos na escola e recorda que até deixaram de lhe apertar a mão.

Ten years old, it's a tough pill to swallow when you're at school and everything's fine. You go to recess, everybody, we're playing basketball together and kickball. And then the next day you come and people didn't either want to be close to you or just wouldn't shake your hand anymore.

A verdade é que a revelação de Magic Johnson levou a que, no dia seguinte a esse anúncio, a realização de testes ao HIV tenha duplicado nos Estados Unidos e no mês seguinte, só no estado de Nova York, aumentou 60%.

Logo em 1991, Magic criou uma fundação que ajuda pessoas com o vírus e passou os últimos 32 anos a fazer campanhas educativas pelos Estados Unidos. Apesar da reação inicial, a situação contribuiu para derrubar tabus. A noção de que uma figura tão adorada pelos americanos tinha sido afetada pelo vírus levou as pessoas a terem uma visão mais empática, mesmo que essa mudança de mentalidade não tenha sido automática. De repente, todos passaram a conhecer alguém com HIV. Magic Johnson, um dos atletas mais adorados no mundo.

Eu lembro-me disto e lembro-me também de haver essa desconfiança, como é que ele vai jogar basquete, e depois pode se aleijar e sangrar no campo. Todos estes mitos associados ao início, a esse início da doença.

Houve uma altura em que ele regressou e depois saiu outra vez. E saiu porque teve muitos colegas de equipe que não queriam jogar com ele.

Havia um que esteve contra a convocação dele para o Dream Team de 92, creio que foi o Karl Malone.

Foi o Karl Malone.

E que veio falar disso até num documentário sobre a vida de Magic Johnson. E houve outros que também tinham receio, tentavam lidar com isso da melhor maneira possível, mas o treinador ajudou-o bastante nessa fase. Eu creio que era o Pat Riley, se não estou em erro.

Era o Pat Riley, sim, senhor. Era o Pat Riley.

Bem, o próprio Magic Johnson foi uma grande inspiração para muitos músicos, principalmente no universo do hip-hop. Ele próprio, dizia-se que encarnava uma personagem um bocado hip-hop lifestyle na vida dele. E o seu nome aparece citado em muitas canções, mais antigas, mais novas, desde Kendrick Lamar, Lil Wayne ou Eminem, mas também no rock, onde há uma que se chama precisamente Magic Johnson e que faz parte do disco Mother's Milk, de 1989, dos Red Hot Chili Peppers. Ou não fossem eles uns grandes californianos fãs dos Lakers. Agora vou ser um bocadinho mau. Eu imagino todas as canções do Red Hot assim. Não são todas. Pois não, estou a ser mau.

No cinema também são muitas as participações de Magic Johnson, ora como ator, ora fazendo dele próprio. E, para além disso, tem também créditos de coprodutor em alguns filmes, que é como quem diz, investiu dinheiro em algumas produções. Uma delas chama-se "Brown Sugar", uma comédia romântica de 2002, pouco memorável, que tem como pano de fundo o mundo do hip-hop. É caso para dizer que é melhor a música do que o filme. Ouçam a música, não vejam o filme, porque esta banda sonora tem Mos Def, Common, Jill Scott, The Roots, Erykah Badu e são apenas alguns dos artistas que participaram precisamente nessa banda sonora editada pela Magic Johnson Music, outra das aventuras empresariais do ex-basquetebolista, e bem-sucedidas, porque ele tornou-se um empresário com muito sucesso. Mais recentemente, no ano passado, tivemos a série da Apple TV+, "They Call Me Magic". Quatro episódios onde o início da carreira deste astro do desporto é contada com a ajuda do próprio e de quem com ele partilhou a vida e os campos de basquete.

Os Earth, Wind & Fire aparecem várias vezes nesta banda sonora da série "They Call Me Magic" e esta "Let's Groove", que vamos ouvir já de seguida, até ilustra uma cena muito engraçada de um amigo dele. Fala de uma festa de aniversário do Magic Johnson em 85, poucas semanas, meses, depois dos Lakers terem sido campeões da NBA. E olhem lá, uma festa de aniversário em que o convidado musical era Luther Vandross. Vem aqui o homem só para cantar na minha festa de anos. Ainda não vi esta "They Call Me Magic".

Mas há outra, não é? Aquela da HBO.

Como é que se chama?

De ficção. Sobre os Lakers. Sobre esse período.

Comecei a ver e ainda não acabei.

Eu vi a primeira temporada e é extraordinária. Tem um John C. Reilly em grande forma.

Vamos a "Let's Groove", Earth, Wind & Fire, no "Cassete 60" hoje dedicado a Magic Johnson.