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O som, não é?

Esse som inconfundível.

Completamente.

Poirot.

Poirot. É uma música que me deixa sempre muito feliz. Significava que tinha mais um episódio para ver e mesmo que fosse repetido, não havia mal nenhum.

Mas há novidades do belga detetive Hercule Poirot?

Não, não há. Hoje faz anos que Agatha Christie morreu, 46 anos, e isso pode levar-nos a Poirot, também a Miss Marple. Portanto, vamos recordar quem foi esta escritora inglesa célebre pelos seus livros policiais. Aliás, Christie é considerada a escritora policial mais célebre de sempre. E só para que saibam, escreveu 93 livros e 17 peças de teatro.

Nada mal. Mary Clarissa Miller, ou Agatha Christie, nasceu em Inglaterra em 1890, filha de um americano e de uma inglesa. Família rica, estudou com professores particulares, claro está, aprendeu piano, canto e francês, e passava a maior parte do tempo a ler e a escrever poemas e contos.

E em 1912, conhece um piloto do Corpo Real de Aviadores e dois anos depois, casam-se. Quando começou a Primeira Guerra Mundial, Agatha alistou-se como voluntária no Exército da Cruz Vermelha. Cinco anos depois, a trabalhar como enfermeira em Inglaterra, aceita o desafio da irmã e escreve uma história policial em que o leitor, e esta era a regra, não podia descobrir a identidade do assassino antes do final do livro. E o primeiro livro é logo "O Misterioso Caso de Styles". A história de uma proprietária rica de uma mansão, a mansão Styles, encontrada morta na cama, vítima de envenenamento. Pensar que este foi o primeiro livro e a história é tão espetacular. É nesse primeiro que surge pela primeira vez Hercule Poirot, o detetive belga, de chapéu de coco, bigode impecavelmente penteado, que se tornou num dos nomes também mais célebres da ficção policial.

Hercule Poirot seria ainda protagonista de uma série de outros livros, mas foi em 1926 que ela conseguiu chamar a atenção do público para esta personagem com o assassinato de Roger Ackroyd. E a fama surgiu não só pela qualidade do livro, mas porque depois do lançamento, Agatha Christie desapareceu misteriosamente. Foi encontrada 11 dias depois. Alguns garantem que o desaparecimento foi para aguçar a curiosidade do público e assim vender mais livros, mas as razões terão sido outras. O marido disse-lhe que queria o divórcio. E Agatha Christie fugiu.

Ponto.

Fugiu e em 1930, já depois de fugir.

Depois teve voltar, não é?

Divorciou-se. E romancista de sucesso e aclamada pelo público, casou-se com o arqueólogo Max Mallowan e com ele viajou pelo Oriente, onde se inspirou para escrever vários livros, entre eles, "O Crime do Expresso do Oriente"

Sim.

"Morte na Mesopotâmia", "Morte no Nilo" e "Aventura em Bagdá".

Passeando nas margens do Nilo, de barco, é possível ver onde Agatha Christie passou a maior parte do seu tempo no Egito, uma mansão absolutamente incrível, voltada para o rio, que ainda lá está e muito bem cuidada.

Entre os livros, talvez o mais famoso seja "O Expresso do Oriente"

Uhum.

Adaptado para cinema, teatro e televisão, e com destaque para essa versão de 1974, que deu a Ingrid Bergman o Oscar de melhor atriz secundária.

O detetive Poirot aparece em 33 livros, ganha densidade e camadas. É um homem particular, difícil, genuíno, sincero, voluntarioso e um gênio, capaz de perceber a parte mais lunar das pessoas, com uma capacidade dedutiva ímpar e um amor à verdade e à justiça.

E rapidamente ganha fama na história e trabalha muitas vezes com a Scotland Yard. Tem o seu homem de mão, seu ajudante Campo, o delicado e solícito Captain Hastings, e ainda a fiel secretária, que se preocupa com o Poirot. E estes são os personagens da série, os mesmos personagens que atravessaram temporadas e filmes.

Agatha Christie tem outra personagem não tão famosa, mas igualmente curiosa, uma velhinha simpática chamada Miss Marple. E é mais uma conhecedora.

Conhecedora da natureza humana.

Da natureza humana, pronta para aceitar essa natureza, sem preconceitos nem julgamento.

Christie faleceu em Wallingford, na Inglaterra, de pneumonia, no dia 12 de janeiro de 1976. Lá está, a data que estamos a assinalar. Mas vamos voltar a Poirot, que há tanto para dizer. Antes de mais, o ator que melhor encarna Poirot, e aqui, enfim, até Peter Ustinov fez Poirot, mas nada bate David Suchet. Aliás, isto considerado até pelo descendente de Agatha Christie, o neto.

O ator David Suchet foi recomendado para fazer o papel de Poirot pela família de Agatha Christie, que o tinha visto no papel de Blot, na adaptação televisiva de Tom Sharpe, "Blot on the Landscape".

David Suchet disse que se preparou lendo todos os romances de Poirot e cada pequena história característica da descrição sobre a personagem. Disse ainda para a Strand Magazine que tinha um bloco de notas num lado, um monte de histórias sobre o outro, e dia após dia, semana após semana, leu a maior parte dos romances de Christie sobre Poirot e anotou as características até ter um arquivo da personagem. E então fez, não só por saber como ele era, mas tornar-se gradualmente em Poirot.

Segundo muitos críticos e entusiastas, a caracterização do ator é considerada a interpretação mais precisa de todos os atores que fizeram Poirot e a mais próxima do personagem nos livros.

"Mesdames et messieurs, I give to you, Hercule Poirot. He is the greatest detective in the world. I will visit the scene of the crime. This is not one of your detective fictions. We must deal here only with the truth".

Em 2007, David Suchet falou sobre o seu desejo de filmar todas as demais histórias da personagem e esperava consegui-lo até à data de fazer 65 anos. Isso seria maio de 2011, o que conseguiu. Em fevereiro de 2009 foi anunciado que uma outra temporada de quatro histórias tinha sido encomendada pela ITV. Os quatro romances incluem "Os Relógios", "Tragédia em Três Atos", "A Noite das Bruxas" e "Crime no Expresso do Oriente". É uma nova versão. A nova série foi feita e os restantes romances também foram adaptados para outras temporadas até ao ano de 2013, e vamos, com um esmagador sucesso de audiências. Não vi um único episódio que não fosse bom, devo dizer. Este Crime no Expresso Oriente é talvez um dos melhores e é uma nova versão, uma versão um bocadinho diferente, talvez um bocadinho mais noir do Expresso do Oriente. Todos os que se passam no Egito são extraordinários. A Agatha Christie adorava o Nilo. Lá está, tinha casado com um arqueólogo. Viveu naquelas margens durante muito tempo e gostava particularmente daquela era. E depois ainda podemos passear por aquelas mansões extraordinárias da Inglaterra bucólica, ir de férias para a zona de praia do Reino Unido, que é sempre muito fria, e frequentar os melhores restaurantes, espetáculos e cabarés. Já agora, quem sabe qual foi a inspiração para criar Poirot?

Um belga pequenino de bigode ridículo.

Pertíssimo. Foi um refugiado belga chegado à Inglaterra após a Primeira Guerra. Um homem que, de facto, a Agatha Christie viu, um homem baixo, de quem Agatha dizia: "Quero que os leitores riam com Poirot, não de Poirot". A dada altura, e isso soube-se pelos seus diários, a personagem em si começou a enervá-la. As suas constantes correções, aquele comportamento obsessivo que tudo arruma como se fosse à esquadria, a constante atenção ao bigode, aqueles passinhos e a prepotência. Poirot era um homem educado e polido, mas muito prepotente, muito insistente. Achava-se sempre certo e era, aliás, bastante vaidoso. A verdade é que estava quase sempre certo e é curioso que todas estas características que fizeram Agatha irritar-se com a sua própria personagem, com a sua criação, é a razão porque tantos leitores e espectadores gostam de Poirot.

Eu gosto muito de Poirot, Hercule Poirot. E também é engraçada esta trama. Já vimos isto em algum lado. O facto de ter um homem de mão. Tem um senhor Watson também.

É sempre preciso ter um sidekick.

Muito giro. E até também a secretária que trata dele.

Também no Sherlock Holmes existe uma governanta que cuida dele quando ele tem os seus ataques.

Por falar em Sherlock Holmes, se este é o Hercule Poirot definitivo, para mim, o Jeremy Brett era o-

Era o único

...o único Sherlock Holmes. Não vale a pena. Por muitos que venham, será sempre o eterno.

É sempre aquele.

Sherlock.

Ora bem, e pegando aqui na sugestão da Judite França para esta viagem a 1976, recordando o ano da morte de Agatha Christie, encontramos no mundo da música um sem número de acontecimentos que merecem destaque.

Para Bob Dylan, por exemplo, foi o ano em que terminou uma digressão de dois anos, que ficou conhecida como a Rolling Thunder Revue Tour e que levou Dylan e alguns músicos amigos a cidades mais pequenas e a clubes mais modestos. Isto numa altura em que já granjeava o reconhecimento de audiências bem maiores.

Rolling Thunder Revue é também o título de um filme documentário de Martin Scorsese, que podem ver na Netflix e que conta a história dessa digressão em particular, que de resto termina no ano de 76, ano também em que Bob Dylan edita o álbum Desire, com esta Hurricane no alinhamento. É o ano em que Bob Dylan também se engaja socialmente, politicamente. Esta história do Hurricane, que já falámos aqui há dias, é uma delas. E é de 76.

E 76 é também o ano de explosão para a música punk. Em novembro, saiu o primeiro single dos Sex Pistols, Anarchy in the UK, mas já em abril, os norte-americanos Ramones davam o que falar com o disco de estreia e com esta Blitzkrieg Bop.

Ora, isto não é bem punk, não é? Mas sim.

Não é não?

Não.

Ok.

Isto não é punk.

Está bem.

Concorda, isto não é punk?

Eu concordo, claro. Uma treva discordar.

Remédio. Ela está aí à distância de uma vargasta.

Levei uma garrafa de sparadrap.

Mas atenção, mas comprida, que nós agora temos muito espaço.

Temos distância, sim.

Bem, este também é o ano de libertação de Tina Turner, que pede o divórcio de Ike Turner, graças a Deus, a 27 de julho, e já foi muito tarde.

Foi um casamento produtivo do ponto de vista musical, mas muito doloroso para a Tina Turner.

Ainda bem que ela não voltou.

Sim, podia ter voltado. Mas olha, aqui estão eles juntos a recriar o Get Back dos Beatles.

Destaque ainda em 76 para um episódio no mínimo caricato. A 23 de novembro, Jerry Lee Lewis foi preso depois de surgir bêbado à porta de Graceland. Graceland, a mansão de Elvis Presley, de pistola em punho e exigindo ser recebido pelo Rei. Ora o Rei não estava para o aturar, e era o Jerry Lee Lewis a tentar, e chamou a polícia.

Uish! Polícia.

"Bebe menos, Jerry Lee Lewis." É caso para dizer neste episódio.

Não bebas mesmo, depois não escreves estas coisas.

Pois é verdade. Obrigado.

Continua a beber.

Vamos fechar a ronda por 1976 com os Eagles, que tiveram um grande ano. A banda consegue, em fevereiro, ser a primeira de sempre a ser certificada com um galardão de platina, que tinha acabado de ser criado nesse ano, precisamente por vendas superiores a um milhão de unidades para o "Greatest Hits" da banda. Já mais para o final do ano, mas também em 76, a 8 de dezembro, sai o disco "Hotel California", cujo tema-título, de resto, se torna numa das canções mais vendidas do ano seguinte e permanece até hoje como o grande cartão de visita deste agrupamento musical, os Eagles.

Deste agrupamento musical. Pode ser? Desta agremiação?

Eu gosto de conjunto, por acaso.

Eu também gosto de conjunto. Banda.

Conjunto musical.

Mas agremiação também pode ser.

Pode. Vamos lá até ao "Hotel California", no fecho da cassete de hoje.