Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Olá, professor Carlos Fiolhais.
Olá, João Miguel.
Professor, na terça-feira, 20 de dezembro, passam 26 anos da morte de um grande divulgador, senão o maior divulgador de ciência de sempre, Carl Sagan. Carl Sagan escreveu não só centenas de artigos científicos, mas também dezenas de livros, muitos deles traduzidos para português, e foi o autor da famosa série de televisão "Cosmos: Uma Viagem Pessoal", de 1980, transmitida em mais de 60 países e vista por mais de 600 milhões de espectadores. O número é tão grande que eu até me abarrilhando. Enfim, a lista de prêmios do Carl Sagan é enorme. Professor Carlos Fiolhais, quem foi este físico norte-americano que inspirou e ainda inspira gerações de curiosos e cientistas?
Foi, de facto, um homem extraordinário. Foi um cientista astrofísico, cientista plantário, mas foi e é conhecido, sobretudo por isso, um grande comunicador de ciência. Eu lembro perfeitamente de, na altura que eu estava a fazer meu doutoramento na Alemanha, estive lá entre 1979, 1982, foi precisamente quando apareceu a série do "Cosmos". E, de facto, aquilo era um guião de televisão, o livro, apareceu o livro e a série associados, o que mostra que o livro não tem que ser inimigo de um filme, mas ele fazia o guião, era o principal ator. Ele apresentava a série e de facto nunca se tinha visto nada assim. Nunca a televisão tinha sido usada daquela maneira, vou dizer a palavra espetacular, para mostrar o que é o universo. O título é elucidativo, Cosmos, que é tudo o que existe, o que existiu e o que existirá. E ele encanta-nos a falar de bilhões e bilhões de estrelas, a falar da Terra ser um ponto azul claro no vasto universo, a falar de todas as transformações que se deram neste pequeno planeta. E, portanto, ele conseguiu fascinar-nos. E eu, de facto, depois quando voltei, reparei que o livro já estava também publicado em Portugal, pela Gradiva, e eu ajudei depois essa editora. Tenho ajudado essa editora, porque continuo a publicar os livros dele, os livros dele aparecem primeiro na coleção Ciência Aberta e agora tem uma coleção própria de obras de Carl Sagan. E vale a pena para as novas gerações, aqueles que não estavam cá nesses luminosos anos 80. Havia uma onda de otimismo no mundo e de crença no poder da ciência, que de facto é enorme, mas parece que não temos outra vez alguém com a capacidade de comunicação que ele tem, principalmente o entusiasmo com que ele falava das coisas, falava do nosso papel no mundo. Ele tem uma frase muito curiosa no final desse livro, "Cosmos", que é uma frase que me marcou de alguma maneira. Ele diz que nós somos a consciência do universo e, portanto, nós, se por alguma catástrofe desaparecêssemos, o universo deixava de ter consciência, o que significa que nós temos uma obrigação de sobrevivência por nós próprios, por a nossa espécie, mas também para com o vasto cosmos, do qual, diz ele, e tem razão, nós somos todos descendentes.
Isso é verdade.
Nós somos uma parte do cosmos, que não é estranha. Ele lembrava isso, a nossa matéria é a matéria das estrelas. Muitos dos nossos átomos estiveram no Big Bang, outros foram feitos em estrelas. Ele lembrava-nos isto. Isto é uma mensagem que é científica, mas também tem um lado poético. E ele conseguia combinar muito bem as duas coisas, o científico e o poético.
Ele era um eterno curioso, não é? O Carl Sagan.
Sim, ele nasceu em Nova York, é um nova-iorquino, de origem judaica, de uma família humilde. É muito curioso. A mãe o levou aos cinco anos a uma feira que houve em Nova York, aquelas feiras internacionais, na qual ele ainda ouviu, acho que foi nos últimos anos de vida de Einstein. Einstein morreu em 55. E havia a voz do Einstein, e ele diz que ainda se lembra aos cinco anos ter ouvido a voz do Einstein.
Uau!
E portanto, ele desde pequenino gostava da ciência, entusiasmou-se com a ciência, fez depois o seu doutoramento em Chicago e foi professor na Universidade de Cornell. Mas ele foi, sobretudo, um professor do mundo. Ao usar esse meio poderoso que é a televisão.
Sim.
Ele tornou-se numa estrela. Ele era um homem que falava das estrelas, mas ele próprio se tornou uma estrela e com um poder de comunicação extraordinário. Tem livros, não é só o "Cosmos", tem "Os Dragões do Éden", sobre a história da vida. Tem um livro muito curioso, que é dos livros finais que ele tem, "O Mundo Infestado de Demônios". Esse livro é um conjunto de artigos que ele escrevia para os grandes jornais americanos ao domingo. Ele escrevia para toda a gente, jornais populares. E aí ele previu aquilo que já estamos a ver hoje. Ele morre em 1996, morre relativamente novo, morre de pneumonia, mas associada a uma doença que ele já tinha, que era uma doença fatal. Mas nasceu em 1934, morre em 96 e, portanto, morre com 60 e poucos anos.
Novo.
Novo. E o que é muito curioso é que ele previu o que está a acontecer. Ele diz: "Vivemos num mundo em que quase tudo se deve à ciência e tecnologia, mas também é um mundo em que quase ninguém sabe de ciência e tecnologia".
É verdade.
O ciência pop está neste contexto. E ele diz: "Esta mistura entre poder dado pela ciência e ignorância é uma mistura explosiva que ainda nos vai prejudicar". E o que a gente vê, às vezes ao mais alto nível, vejamos casos de governos dos Estados Unidos e do Brasil, felizmente já destituídos, mas vemos que é essa mistura explosiva do que ele falava. Lembrou-nos qual é o nosso papel. A nossa ambição é conhecer o universo, ou devia ser conhecer o universo, e é com esse conhecimento que nós podemos viver melhor no mundo.
O Carl Sagan, professor, tinha a obsessão pela busca por vida extraterrestre.
Sim.
Li que foi Carl Sagan quem, de resto, sensibilizou a NASA para a necessidade de enviar mensagens para o espaço, sonhando com a possibilidade de essa mensagem ser capturada ou captada por um extraterrestre. É verdade isto?
Sim, é verdade. Ele era cientista planetário, portanto fez estudos e publicou vários estudos, por exemplo, sobre Vénus, sobre o efeito estufa. Por que é que não há vida em Vénus? Sobre Marte, ele esteve naquele processo das primeiras sondas Viking, que foram analisar e verificaram que não havia vida em Marte, pelo menos aparentemente, porque ainda é um assunto sob debate. Sabemos que não existe aparentemente vida, mas será que existiu alguma vez? Será que há fósseis de vida em Marte? E depois há as sondas que foram mais longe. Há uma que foi a Júpiter, a Galileu, e há outras, Pioneer 10 e 11, que foram para os confins do sistema solar, e duas que saíram do sistema solar mesmo, que já passaram a chamada heliosfera, que é a fronteira do nosso sistema solar, as Voyager 1 e Voyager 2. E nessas últimas Pioneer, ele propôs então uma placa, e a NASA aceitou isso, que é uma placa que a gente não sabe se algum dia vai ser encontrada, mas tem lá gravadas algumas mensagens sobre coisas que nós sabemos, sobre o átomo de hidrogénio, sobre o Pi, por exemplo. E ele tinha, de facto, essa obsessão. Ele acreditava que existia vida fora da Terra, até vida inteligente. Há uma piada que ele um dia conseguiu fazer, mas com base científica. Numa dessas naves que era para ir para Júpiter, ele pediu à NASA, e fizeram, ele era conselheiro da NASA, que desse umas voltas à Terra e lançasse os seus detectores sobre a Terra para ver se, visto do espaço, se se conseguia identificar, suficientemente longe, a vida na Terra. E ele não só conseguiu identificar a vida, ele e a sua equipa, como vida inteligente. Então ele escreveu: "Há vida inteligente na Terra" como título do artigo. A gente sabe que também há uma estupidez na Terra, mas o título do artigo era uma brincadeira, "Há vida inteligente". E ele, no final, também fez um filme, acho que com a Jodie Foster, chamado "Contato", baseado num romance dele. Não foi ele que fez o filme, mas o guião do filme é um romance dele, chamado "Contato", em que ele se aventura nos mundos, que nós não sabemos se são de fantasia ou não, estamos nos limites do nosso conhecimento. Fazer atalhos no espaço-tempo, os chamados buracos de minhoca. Ele falou com um físico amigo dele, que sabia de cosmologia. Será que é possível ir para um outro lado do mundo, etc.? Isso é usado nesse filme do "Contato", não sei se o João Miguel viu.
Acho que não vi. Mas eu tenho memória de passarinho, no que diz respeito ao cinema.
Portanto, aquilo que ele não podia pôr na ciência, ele pôs na ficção científica.
Muito bem. Se hoje sabemos mais sobre planetas como Vénus e Marte, devemos-lo a Carl Sagan. Ele tinha essa obsessão pela vida extraterrestre, mas também era ativista, opôs-se fortemente à proliferação nuclear e até chegou, li, a ser preso num protesto contra a realização de testes nucleares. Professor, esse lado ativista do Carl Sagan é menos conhecido, mas não é menos importante.
Não, ele interessava-se, de facto, pelo futuro da Terra. Há bocado falámos isso. Se a humanidade tivesse uma catástrofe. E a ameaça naquele tempo, porque ele morre nos anos 90, era a Guerra Fria, a possibilidade de haver uma guerra nuclear. E ele fez estudos com outros cientistas, até apoiados pela NASA, que são estudos que têm a ver com mudanças do clima da Terra devido a um desastre nuclear. Não havia tanta consciência que há hoje, havia apenas num estado mais limitado, sobre o aquecimento global, mas havia a possibilidade de um aquecimento global também súbito, devido a uma guerra nuclear, uma guerra com bombas de hidrogénio. Bombas de hidrogénio, no fundo, são imitações na Terra, em pequena escala, daquilo que se passa no interior do Sol. É a libertação de uma energia terrível.
Já falámos aqui sobre isso, não é?
Sim, e ele tentou então ir falar com os políticos, ir falar com líderes religiosos. Inclusivamente, encontrou-se com o Papa João Paulo II, foi ao Vaticano. Ele era agnóstico, mas tinha uma expressão muito curiosa. Ele até diz isto, que eu acho que é algo que nos deve fazer pensar. Diz ele: "Ama te ao próximo", mas usa essa expressão não no contexto religioso apenas, mas de consideração pelo outro, de respeito pelo outro.
Ética humanista.
Ética humanista, ele é um grande humanista. Porque se nos próximos milhões de anos-luz, tu não encontras outro próximo. O que significa, o próximo da Terra é as pessoas com quem dividimos esse pequeno ponto azul claro, a nossa casa comum.
Isso é muito bonito.
Isso é muito bonito. Ama te ao próximo, porque não há o outro. Em milhões de anos-luz, não há o outro.
Exatamente.
E portanto, ele tinha esta capacidade de saber comunicar. O João Miguel também é um comunicador e percebe isto. Ele não era apenas um cientista, mas era alguém que sabia transmitir mensagens de humanidade. Pegar na ciência, elevar a ciência aos humanos com mensagens de humanidade.
E tem tido sucessores o Carl Sagan, professor?
Isso tem sido mais difícil, mas há o deGrasse Tyson, que é um físico norte-americano, diretor do Planetary Biden, no Museu de História Natural em Nova Iorque, que de algum modo é herdeiro. Porque ele conta a história que um dia foi visitar o Carl Sagan quando era jovem, 17 anos, e houve ali uma química especial entre eles. Ele teve três esposas, a última, Ann Druyan, tem feito, com a ajuda do deGrasse Tyson, tem feito sequelas do "Cosmos", já foram feitas duas sequelas do "Cosmos". E há livros até sobre essas continuações. Mas eu devo dizer que ele era inimitável. Nós temos imensa saudade do Carl Sagan. Quem não conheça, veja o "Cosmos" no YouTube, leia os livros, os livros estão aí nas livrarias e bibliotecas. Veja os livros, porque aqueles livros são extraordinários e fazem-nos de algum modo sentir outros, sentir diferentes. Quer dizer, são livros que nos enchem. E era preciso, de facto, haver alguém nesta era da internet, nesta era que ele já não viveu, ou viveu de uma forma apenas muito parcial, nos anos 90 já havia, mas haver alguém que neste tempo saiba juntar-nos em torno de mensagens simples. E as mensagens simples é que nós somos parte do cosmos e não somos uma parte estranha num mundo estranho. Somos uma parte cada vez mais conhecida, num mundo cada vez mais conhecido. É uma mensagem de otimismo nas palavras dele. Alguém que pensa que vale a pena conhecer e que nós podemos encontrar realização no ato do conhecimento.
Muito bem. Boa mensagem para fechar o "Ciência Pop" desta semana. Professor Carlos Filhais, uma vez mais, foi um gosto, até para a semana.
Foi um gosto, até para a semana.