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Esta é a Comissão de Inquérito das manhãs 360. Hoje é nosso convidado Álvaro Covões, o fundador e diretor-geral da Everything Is New. Bom dia, bem-vindo de novo.

Bom dia.

É verdade, já cá esteve antes, não é?

Já, esteve em julho do ano passado. Já passou quase um ano, Álvaro. Lembras-te de quantos pontos fizeste?

Não.

22.

22.

Portanto, hoje são mais três e faz o pleno.

O pleno, é isso.

Começamos com uma muito fácil, digo eu, mas é facilíssima. Olha para quem é. Que banda de rock norte-americana ficou famosa nos anos 80 por incluir uma cláusula no contrato que exigia uma taxa cheia de M&M's, mas com uma regra: tinham de ser retirados os castanhos.

Ui. Essa faz-me lembrar a pergunta de jornalistas sobre as exigências dos artistas.

É, é isso. É aí que vamos.

Eu diria que neste caso não era bem uma exigência, deveria ser um contrato marketing para promover a marca.

Eles dizem que era para testar se os promotores liam os contratos até ao fim.

Também é verdade, há quem faça isso.

Era um detalhezinho.

Normalmente, o que eles fazem é pedir algo que não existe. Portanto, se receberem um telefone é porque toda a gente leu. Se ninguém perguntar, é melhor ligar pra lá, porque não leram. Mas é preciso perguntar algo que não exista, porque essa é fácil, é só retirar os castanhos.

Não consegue chegar lá?

Não consigo chegar lá.

Eu vou dar uma ajuda. Van Halen, Guns ou Aerosmith? Está bem a ajuda? Não ajuda muito.

Não ajuda muito.

Bem.

Eu diria que devia ser os Guns.

Jump, Can't Stop Loving You.

Ah, nos anos 80 tinha que ser o Aerosmith. Não? Então olha para ver.

Olha pelas músicas. Jump, Can't Stop Loving You.

Can't Stop Loving You.

Just can't stop loving you.

É Van Halen.

É isso mesmo.

É Van Halen. Dois pontos.

Foi mesmo fácil esta. Também já tiveste que catar chocolates no Nos Alive, Álvaro?

Não.

Qual foi o pedido mais estranho que receberam até agora? Que possas partilhar.

Por acaso eu lembro há muitos anos o Frank Sinatra, que era imprescindível, tinha que ter uma sopa Campbell de tomate, se não existisse, porque ele comia uma sopa antes de subir ao palco, ele podia não subir ao palco. Claro que nem abriu a lata, porque não era um contrato de marketing.

Vais lá estar com-

E funcionava, porque todos nós dizíamos: "Exigências, uma sopa Campbell de tomate". Na altura foi muito complexo, porque ainda não havia determinados produtos, não havia a globalização de hoje. Então lá arranjamos um amigo, que foi a Nova Iorque e trouxe duas latas.

Esse concerto foi no Estádio das Antas.

Exatamente. 92, parece.

Mas isto das exigências dos artistas, isto é mesmo assim ou é também um pouquinho um marketing que se cria?

Não.

São mesmo assim.

As exigências hoje em dia são exigências técnicas.

Claro.

Fundamentalmente para garantir que o espetáculo acontece como eles querem.

E que são cada vez mais profissionais.

Depois existem aquilo que os jornalistas chamam exigências de conforto, que não passam de uma situação de replicar aquilo que eles têm todos em casa. Ou seja, se nós, que andamos de cidade em cidade, chegarmos a um quarto de hotel e ele for muito igual, sentimo-nos em casa. Se eles forem todos diferentes, torna-se tudo muito mais cansativo. Não sei onde é que é a gaveta, não sei onde é que está a pasta de dentes.

Portanto, as exigências são mais a nível de alojamento, por exemplo.

É como a seleção de futebol, por exemplo. A seleção de futebol viaja com o cozinheiro, até a água leva. Por que faz isso? Até por questões de saúde.

Por questões de segurança alimentar também.

E porque nós quando temos outra alimentação, obviamente temos algum distúrbio, o corpo reage de outra forma. É para manter 100%, digamos, a forma física. Isso acontece com os artistas também.

Estamos há pouco mais de um mês do Nos Alive, não é?

Isso.

Do próximo. O que se está a fazer agora para preparar o festival? É montar, agora é estrutura. É isto que se faz.

É isso. Já lançámos várias tendas, palcos. Portanto, estamos a montar uma infraestrutura, porque nós no fim do dia estamos a construir uma cidade. Vamos ter 56 mil pessoas por dia de público e temos uma média de 5 mil pessoas a trabalhar.

Ainda está o mesmo prazer fazer o Nos Alive hoje, como o primeiro Nos Alive?

Dá, porque estamos sempre à procura de inovar. Por exemplo, por acaso esta semana, até foi uma ideia pessoal, foi assim: oitava maravilha do mundo. Não é as oito maravilhas do mundo, só temos sete palcos, portanto, estamos a desenvolver um oitavo, vamos anunciá-lo em breve.

E é um negócio ainda rentável? Os festivais durante três décadas em Portugal têm sido muito importantes, têm sido um grande sucesso, talvez até mais do que noutros países, mas ainda é rentável?

Para uns é, para outros não. Eu diria que o setor cultural, se falarmos em termos macros, o setor ainda não é rentável. Agora, em micro, depende dos projetos e das empresas, mas em termos macros ainda é um negócio muito arriscado. Aliás, eu digo sempre isto, porque ainda há pouco tempo fui à Comissão de Finanças por causa da Lei do Mecenato e como sou presidente da Associação de Promotores, tento reclamar e chamar a atenção das dificuldades do setor económico da cultura, o setor privado. Mas falo sob o ponto de vista global, e eles olham pra mim: "Olha, lá está o tipo dos festivais. Aquilo é só ganhar dinheiro." E eu termino sempre a dizer, para reflexão, temos que pensar, há duas coisas muito importantes. Uma, tem que haver uma explicação racional para nenhum grupo económico ter uma empresa de espetáculos ou de festivaisTem de restaurantes, tem de hotéis. Há umas décadas até de discotecas tinha, mas de espetáculos e festivais ninguém tem. Tem que haver uma explicação lógica para isto. E por outro lado, existe um conjunto de empresas que organizam grandes festivais que ainda têm resultados negativos transitados. E não é uma, nem duas, são várias. Não é que eles sejam maus gestores, mas significa que ainda é um mercado de alto risco e ainda não atingiu a maturidade.

E é um setor que ainda é visto mais como estando perto do entretenimento do que propriamente da cultura.

Depende. Para os políticos da situação, é visto como entretenimento no mundo inteiro e para as verdadeiras pessoas da cultura, obviamente que é visto como cultura. Mas existem os dois mundos da cultura: a cultura do Estado, dos que mandam. Isso já vem desde a Idade Média. O rei decidia que pintores é que se contratava e o que se oferecia ao povo. Isto não mudou nada, continua igual. O Estado continua a decidir o que o povo deve ver. E o resultado está à vista. São salas de cinemas a fechar.

Ainda vamos falar das salas de cinema.

Sim, é já a seguir.

Mas agora eu quero ir a um tema que está na ordem do dia e a pergunta vai acabar por encaminhar para esse tema. Que ator foi o protagonista do filme "A Praia", um filme do ano 2000?

Ui.

Quando eu disser, vais fazer.

"A Praia"? Mas uma ajuda, é portuguesa?

Não. É estranjeira.

É dos estúdios da Oliver. Era loirinho.

Era.

"A Praia"?

"A Praia".

Não vi esse filme.

Filme de Danny Boyle, baseado no romance de Alex Garland.

Não vi o filme, definitivamente.

Então, três hipóteses: Johnny Depp, Brad Pitt ou Leonardo DiCaprio.

Se for alguém ligado à música, tem que ser o Johnny Depp, que é músico.

Mas por que tem de ser ligado à música?

Sei lá, porque...

Aqui o tema é mesmo a praia.

Ó Álvaro, por que está?

Exatamente.

Aqui o tema é mesmo a praia.

Eu, por exemplo, este ano na nossa live temos uma banda rockstar com o ator de Hollywood, que é o Keanu Reeves.

Há vários. Eu acho que o Johnny Depp também é.

É músico.

Mas não é loirinho? Eu disse que era loirinho.

Pois é. Será um dos outros.

Os outros eram o DiCaprio e o Brad Pitt.

Não sei.

"A Praia".

"A Praia". DiCaprio, Depp, não sei, não faço ideia.

Atira um.

Arrisca um.

Atiro um, diria que é o DiCaprio.

Muito bem. Porque ele faz filmes mais assim, mais romances. É meter água. Este foi o que fez depois do "Titanic", mas aqui eram águas mais cálidas. Álvaro Covões, vamos à polêmica dos guarda-sóis nas praias portuguesas. Como é que olhas para esta polêmica? Parece que às vezes temos um excesso de regras, que depois também há dificuldade em fazer cumprir. Como é que olhas para tudo isto?

Isso, por acaso, é uma crítica que eu faço a este novo regime que nasceu com o 25 de Abril. Eu lembro que em 74 falava-se que íamos ser livres e tinha acabado a censura. E depois, de repente, arranjamos uma classe política que todos eles, seja em que setor for, têm que arranjar regras. Não se pode conduzir sem cinto de segurança. Não estou a criticar, mas são regras. Não se pode estacionar, não se pode andar. Na estrada aquilo é um desespero. De repente vemos uma placa 80, passados 100 metros diz 60, radar, quer dizer, temos que travar a fundo. Isto é só regras. E no que diz respeito às praias, o bom senso o que diz, se fosse eu o político a decidir, claro que faria uma zona para areia condicionada, exclusiva para areia condicionada, e outra zona para areia.

Para os restantes banhistas, de chapéu de sol.

Sem privilegiar ninguém. Mas obviamente que uma zona condicionada significa que o condicionário substitui o Estado, porque põe nadadores salvadores, limpa a praia e, portanto, tem que ter algum negócio.

Tem de ter os equipamentos de apoio.

Tem que ter algum negócio. Agora, também é legítimo que nem toda a gente tem dinheiro para pagar, obviamente, uma cama ou um chapéu de palha. E tem direito também a ter um espaço para o chapéu de sol e faz sentido ter uma área distinta para cada um, mas isto é o meu ponto de vista.

E os empresários sofrem muito com este excesso de regras, que às vezes serão difíceis de compreender e de conhecer.

É tão fácil decidir na secretária. O problema é que a maior parte deles nunca meteram a mão na massa, nunca trabalharam.

Aqui estamos a falar da indústria do lazer, não é? Não há um outro olhar sobre esta área em concreto?

Do lazer? Estamos a falar das praias ainda?

Sim, das praias também. Estamos aqui a juntar o bolo.

Não, mas vamos ver. Isto é a mesma coisa que a cidade. A cidade tem parques de estacionamento, tem lugares onde tem que se pagar o estacionamento e tem lugares gratuitos. Eu nem percebi bem qual é a polêmica, o que existe aqui, porque eu sempre vi nas praias que havia uma zona para chapéus de sol.

A polêmica agora é que não é legal fazer essa separação. Os chapéus de sol podem ir para onde quiserem.

Desde que não seja para dentro da área condicionada.

Certo, mas eu acho muito bem. Se a APA, neste caso é a APA que decide isso. Então a APA devia, porque é uma entidade fiscalizadora, tem receitas próprias, devia pagar os nadadores salvadores e a limpeza das praias, coisa que não faz.

Vamos em frente, Álvaro Covões. Mais uma sobre cinema, que está a correr tão bem. Qual foi o filme biográfico sobre um cantor ou uma banda, o que teve mais sucesso e arrecadou mais dinheiro em toda a história do cinema?

Ultimamente não têm faltado os biopics de grupos. Aliás, o grande filme deste ano é o do Michael Jackson, não é?

Sim. Este não é, é anterior.

Sim.

É o filme dos...

Quer dizer-

Ou duo.

Ou duo. Pois é.

Pois é, duo.

Mas é que viste assim nos últimos anos.

Vi, por exemplo, o Bob Dylan.

Certo, que é muito bom.

Mais antigo.

Não muito mais.

Não muito mais, mas um bocadinho mais.

Sim, uns aninhos.

Também vi o do Johnny, aquele que ficou muito célebre quando fez o concerto na prisão.

Johnny Cash.

Johnny Cash. Esse filme foi fantástico.

Esse tem mais uns aninhos do que este.

Queres uma ajuda?

Ganhou mais dinheiro. Vocês deviam ter convidado para estas perguntas uma especialista de cinema. Por acaso o cinema tem muito isso.

Não, mas isto tem a ver com música, por isso-

É a lista do box office, não é? Quanto é que vendeu. Não é o número de espetadores, mas quanto arrecadou.

Neste caso foram mais de 900 milhões de dólares.

Foi? Ui, quem poderá ter sido?

Então vamos a uma ajuda. Michael Jackson, Elvis ou Bohemian Rhapsody, dos Queen.

Eu diria o dos Queen.

Exatamente.

Também vi o filme. Um filme fantástico.

Estás a ver. Como é que voltamos a encher as salas de cinema?

Como?

Sim.

Com políticas culturais, como é óbvio. Eu sei que agora usa-se a desculpa das plataformas, mas eu lembro-me que a história do cinema, e a minha família está ligada ao Coliseu, e o Coliseu foi talvez dos primeiros grandes cinemas de Lisboa a fazer as chamadas séries. As pessoas depois voltavam para ver a continuação. Aliás, o cinema era um grande negócio em Portugal porque havia salas de cinema por todo lado, salas fantásticas. Lembro quando começaram as novelas na RTP, foi Gabriela, Cravo e Canela, que atingiu uma audiência que superou 90%. Não havia ninguém na rua, o país parava.

O Parlamento fechou mais cedo no dia do último episódio.

Exatamente. Mas lembro-me perfeitamente que aquilo foi uma crise diabólica no teatro e no cinema. E o cinema reinventou-se e fez às segundas-feiras, que era quando o teatro fechava, era 50% mais barato. E lá foram as pessoas começarem a ir ao cinema, porque isto é uma questão de hábito. Vou à segunda-feira porque é mais barato, mas depois até agir vir ao cinema, e vou noutros dias.

Também houve a crise dos clubes de vídeo.

Exatamente, foi a segunda grande crise, que alugávamos em cassetes VHS, os filmes que estavam no cinema, que eram clubes piratas. E, portanto, também uma grande crise. Mas depois todos nós fomos outra vez chamados a ir ao cinema porque é muito melhor ver no grande ecrã do que ver na televisão.

Agora é o streaming.

Agora o streaming, que com o Covid, como todos nós fomos obrigados a ficar em casa, habituámo-nos a ver no streaming. Mas na realidade a qualidade não tem nada a ver.

É uma experiência totalmente diferente.

E até mesmo a qualidade do produto que é oferecido é muito mau.

Mas também não temos as pipocas e os chocolates dentro do cinema e as pessoas a mexer no telemóvel.

Sim.

É preciso mudar também isso ou não?

Mas em casa temos o cão, as crianças. O telemóvel também toca. E no cinema, em princípio, está no silêncio. É que, de facto, há coisas que as pessoas não sabem. Quando um empresário decide construir ou transformar um espaço numa sala, num teatro ou num cinema, tem que licenciar na IGAC, na Inspeção-Geral das Atividades Culturais. A Câmara só vai licenciar depois de ser licenciado pela Cultura. Quando a obra termina e se tem a licença de recinto, é como um casamento católico, só o Papa é que o pode desfazer. Neste caso, é o Ministro da Cultura é que pode desafetar da atividade. E, portanto, é uma área da nossa sociedade muito estranha, porque é um casamento para a vida sem qualquer benefício. Paga-se os mesmos impostos que uma garagem, que um parque de estacionamento, que uma loja de parafusos. É tratado exatamente igual, só com uma diferença: se nós fizermos uma drogaria, podemos transformar num restaurante ou num escritório. Uma sala de espetáculos, seja cinema ou teatro, tem que ser aquilo toda a vida, até o ministro decidir que pode ser desafetado. E de facto, esta disparidade que existe entre não se pode fazer mais nada ali, mas se o negócio correr mal, azar o teu, torna este processo muito injusto. E portanto, o governo, foi talvez três ou quatro ministros da Cultura atrás, quando decidiu utilizar o dinheiro do PRR exclusivamente não para a economia, mas para o Estado, na Cultura, no que diz respeito à Cultura. E então fizeram um concurso de aquisição de equipamento de projeção digital, máquinas 4K. Foram investimentos para cada teatro público entre 50 a 150 mil euros e hoje andamos pelo país fora e vemos um caixote em muitos deles no canto do palco, que é o tal equipamento que foi comprado com o PRR. PRR, que não foi extensível às salas de cinema. Portanto, isto é a demonstração clara que, obviamente, os cinemas privados sobreviveram.

As que são privadas.

As privadas, claro.

Claro, porque esse equipamento foi para os teatros municipais e equipamentos públicos.

Todos. É uma lista infindável, é uma coisa assustadora, de equipamentos que se calhar fazem cinema uma vez por ano. E o cinema, como mudou, passámos para o cinema digital, obviamente que as salas privadas tiveram que fazer investimento nesses equipamentos. Portanto, o leasing dos equipamentos, as rendas, os empregados, e depois, com uma quebra na bilheteira, é evidente que muitas salas fecham. E qual é o apoio do Estado?Nenhum.

Nenhum. Ainda não falámos de futebol, Álvaro Covões, é a altura. Estamos quase no Campeonato do Mundo.

Isso é que é.

Agora vai dizer: "Estou a chamar aqui um treinador". Está quase a começar o Campeonato do Mundo. Com quem é que Portugal vai jogar o primeiro encontro? Qual é o primeiro adversário de Portugal?

Eu, por acaso, vi isso ontem no escritório. Há eventos, centros populares que estão a anunciar o jogo.

Sim. E festivais. Quem será? Ajuda?

Se for ajuda, eu chego lá.

Sim, tem estado muito na berra por causa de um problema de saúde pública.

Pronto, já ajudou.

Pronto.

Congo, Colômbia, Uzbequistão.

Se é de saúde pública, é o Congo.

Dois pontos para o Paulo. O que acontece nestas alturas? As salas de espetáculo ficam vazias quando há futebol e sobretudo quando há a seleção a jogar?

Sim, se for a seleção, claro que fica tudo. Até os restaurantes que não mostram os jogos.

Não têm televisões.

Isto é o país do futebol. Isto, por acaso, é a evolução. É que no tempo do Estado Novo, pelo menos havia fado e meio fado, agora é só futebol. Portanto, é o país do um F. Há regimes dos três F, este é o do um F.

Não mudou nada ainda.

Não mudou!

Mudou, Álvaro. Caíram dois F.

É extraordinário, porque tiraram as pessoas da religião e do fado.

Para pior, para afunilar mais ainda no futebol. Claro.

É um fenómeno estranho, mas ao mesmo tempo, eu acho que é um fenómeno muito importante e tenho fé que um dia os políticos entendam que, de facto, se dermos, principalmente na televisão, muitas horas de outras atividades, as pessoas também vão afinar essas atividades.

Claro. Não sei se pode haver jogos da seleção em fases posteriores que possam cair em datas do nosso "alive".

Eu creio que não.

Ok.

Por acaso, normalmente, não sei o que aconteceu ao calendário este ano, porque calhava-nos sempre o fim de semana da final, portanto, só apanhávamos o jogo do terceiro e quarto lugar, que é um jogo que ninguém quer ver. É uma chatice. Até pode ser a nossa seleção, mas bolas, não fomos à final.

Queremos era o primeiro, não é?

Vamos para a última questão, falar de música, finalmente. Vamos lá. Álvaro Covões, a operação militar de 25 de Abril teve duas senhas musicais, uma foi a "Grande Novelia Morena", qual foi a outra?

Pois meu Deus.

E agora o Álvaro: "Finalmente!"

Finalmente música. Isto porque disseste há poucos dias ao "Eco" que é estranho, mas 52 anos depois do 25 de Abril, as pessoas têm medo de falar. O que é isto? Como assim?

Então não têm? Toda a gente tem medo, os cidadãos, os empresários têm medo de falar.

O quê? Contra o governo, protesto? Tu tens medo de falar.

Têm medo da política. Eu não. Mas eu ainda me lembro como isto era antes do 25 de Abril.

E é parecido agora.

É muito diferente, ou não é?

É muito diferente, mas as pessoas têm medo na mesma. Não ganhámos a liberdade plena. Aliás, a prova é que Portugal deve ser o povo da Europa que menos protesta.

Porquê?

Por exemplo, vocês estavam agora a falar da greve, mas a greve é só do setor público.

Mas por quê?

Porque isto é tudo muito giro. Isto faz lembrar a Gabriela Cravo e Canela, quando o doutor Mundinho chegou ao poder, depois não mudou grande coisa. Porque as pessoas quando chegam ao poder, querem é mandar. E mandar, às vezes, é preciso não respeitar bem as regras da liberdade e da democracia.

Mas isso é uma fatalidade portuguesa?

Não, é uma fatalidade do regime, porque nós tínhamos que ser protegidos com leis, com regras, para que o cidadão não pudesse ser perseguido, mas é. Todos nós sabemos. Eu lembro há muitos anos. Há uns anos, houve uma convenção, não sei se era das Nações Unidas, era uma convenção internacional na FIL e eu tinha um espetáculo à venda, na altura chamava-se Pavilhão Atlântico, que era os Arcade Fire. E chamaram-me para uma reunião e um senhor do Ministério dos Negócios Estrangeiros, mais um comissário da polícia, disse: "Não percebemos como é que este espetáculo está anunciado, porque isto não vai poder acontecer, porque há aqui um evento internacional cheio de personalidades que temos de garantir a segurança deles". Curiosamente, era o Mugabe, era o Kadhafi. Na altura tínhamos que os proteger, depois, afinal, eram todos uns grandes malandros. Por acaso, é uma coincidência. E eu expliquei: "Olhe, está à venda, não percebo. Vocês têm que se organizar, está aqui uma licença da IGAC a dizer que eu estou autorizado a fazer o espetáculo". E tinha tirado a licença, porque já sabia que iam pregar uma rasteira. E na altura, eles na rua atrás da FIL, disseram aos restaurantes: "Isto não vai haver catrino lá dentro, vamos fechar a rua, mas vocês vão estar fechados aqui durante uma semana". E houve dois restaurantes que não quiseram. Nem pensar, "eu quero servir os meus clientes". E como eles não tomaram as medidas especiais de polícia, que é a única forma legal para poder fechar a circulação numa rua, que acho que a última vez que fez isso em Portugal foi no Euro 2004. Faz sempre aquele truque da polícia, vá à volta. Conhecem aquele truque? Que é para não cumprir a lei, porque quando se toma uma medida especial de polícia, a lei também diz se prejudicar interesses particulares, tem que se indenizar. É a tal história da democracia musculada. E esses dois restaurantes, claro, foram fiscalizados por entidades três vezes numa semana. Claro que isto não é de uma forma genérica, mas o cidadão tem esta noção, se protestar muito, podem lhe-

Pode sofrer represálias.

Pode sofrer represálias, e é tão fácil.

O país do respeitinho ainda, é isso?

É, porque se ele sofrer represálias, depois não tem como se defender, porque estamos a lutar contra um gigante. Isto é a mesma coisa que o Dom Quixote lutar contra os moinhos de vento. É uma chatice. Mas um diz: "Tu vai lá".

E houve espetáculo dos Arcade Fire?

Não, não houve.

Não houve mesmo?

Não, mas tiveram que indenizar, depois às escondidas. Eu também não desisti, não tenho medo. É uma história muito engraçada, porque eu às vezes tropeço nas coisas na vida. Eu tinha colocado nesse escritório uma fotografia antiga no Coliseu, num espetáculo do Maurice Béjart, nos anos 60. Foi um espetáculo organizado pelo Rubem que veio à frente do palco e fez umas palavras sobre o assassinato de um dos irmãos Kennedy e sobre a guerra do Vietname. E o Estado Novo colocou a companhia nessa noite em Gaia, na fronteira, e até há cartas do Azeredo Perdigão para o Salazar, a pedir para que não cancelasse os espetáculos, e foi cancelado. No dia que eu pendurei esse quadro, foi quando recebi a carta registada do Parque Espo. Eu até tirei uma foto. A carta registada rescindiu o contrato comigo. Ou seja, a proibir o espetáculo.

Claro, coincidências.

Álvaro Covões, fez 13 pontos da outra vez, correu melhor. Também tanto cinema, tanta coisa.

Esta malta enganaram-se.

Tens de vir cá uma terceira vez. Obrigada por ter vindo ao "Atenção aos Negócios". Obrigada, Álvaro.

Muito prazer. Obrigada, Ana Vasconcelos.

Obrigado.