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Começa agora mais uma Comissão de Inquérito das manhãs 360. Já está conosco a nossa convidada, a escritora Alice Vieira. Bom dia, bem-vinda.

Olá, muito bom dia.

Obrigada por vir aos estúdios da Rádio Observador.

Obrigada também. Fizeram-me vir a Lisboa, onde eu já não venho há cinco anos.

Há cinco anos. Portanto, privilégio nosso tê-la aqui conosco. São cinco perguntas que temos para si.

É uma por cada ano.

Exato, é uma por cada ano que não vem a Lisboa. Cinco pontos por cada resposta certa ou então dois pontos se pedir a nossa ajuda e acertar. Vamos a isso?

É.

Em causa estão 25 pontos.

Vamos lá embora.

Vamos lá. Que livraria portuguesa foi distinguida, em 2011, pelo Guinness World of Records, como a livraria mais antiga do mundo em funcionamento?

Sei lá. Bertrand?

É Bertrand, sim. Vende livros desde 1732.

No Chiado.

Eu fui à inauguração.

É isso.

Por isso é que me lembro.

Consegue se lembrar bem. O certo é que grande parte das livrarias queixa-se que os jovens passam cada vez mais tempo nos ecrãs e menos tempo com livros na mão. São, de facto, as novas tecnologias que estão a matar o gosto pela leitura tradicional ou é preciso reinventar-se a forma de comunicar com os mais novos, Alice Vieira?

Não, eu penso que, para já, os jovens leem mais do que a gente diz, é outra coisa. E depois é preciso motivá-los. Portanto, sei lá, os professores, já não digo a família, porque às vezes até há pessoas que nem leem, não interessa. Mas os professores, ao todo isto, devem motivar os jovens para a leitura. Porque é assim, eu vou muito a escolas, e eles leem, falam e conversam. Portanto, têm é que ser motivados, porque se não forem motivados também, caramba, pá, eles também faziam outras coisas. Então olha lá na ericeira ir fazer surf, que é mais divertido. Mas quando são motivados, eles leem.

E continuam a ler os seus livros.

Continuam a ler os meus livros, embora, vamos lá ver. Eu tenho aí quatro ou cinco só. Livros para crianças, mesmo. Portanto, eu digo sempre, os meus livros são a partir dos 12, 13 anos.

Ou para os pais lerem.

Ou para os pais lerem. Eu digo, os meus livros são para ser lidos por toda a gente. Quer dizer, tirando os mais pequeninos. Eu lembro-me uma vez, acho que foi o Expresso, que dava uns livros, uma vez houve uma semana em que ele dava livros, e houve um livro que era meu. E uma pessoa que eu conhecia disse assim: "Não sabia que tu também escrevias para adultos". E eu disse: "Eu escrevo para toda a gente, por acaso, isso nem sequer está considerado para adultos, está considerado para jovens". Mas também, eu sei lá, a partir de que altura passa a ser jovem, passa a ser adulto.

Há jovens de 80 anos.

Eu digo sempre, para crianças não é. Isso não deem, coitadinhos, que eles ficam muito aflitos. Agora, tirando isso, é para quem quiser ler, é para quem puder ler. E também não gosto de, como é que eu hei de dizer, utilizando uma palavra, enfim, que é impingir os meus livros. Porque uma vez uma miúda contou-me uma coisa, e isso acontece muitas vezes, que ela estava com um livro meu para eu assinar e ela disse-me: "Olhe, comecei a ler, não percebi nada, larguei. Depois passaram uns tempos, voltei, também não voltei, não percebi nada, larguei. À terceira, olhe, é o livro da minha vida". Porque também tem a ver com a idade e com as pessoas que têm, com a que não. Quer dizer, se for muito pequenina, eu às vezes vejo livros meus em miúdos pequeninos e digo sempre: "Olha, vá ler outra coisa, guarda lá em casa quando tu és mais crescido e lês". Porque também tem a ver com a idade das pessoas. Há miúdos evidentemente que começam a ler muito cedo, mas outros não. Portanto, não obrigar ninguém.

Mas disse que é preciso motivá-los, mas como é que se estimula esse gosto pela leitura das gerações mais novas?

Olha, é assim, eu nunca digo a ninguém: "Não leias esse livro que é muito mau". Porque eu acho que não há livros maus. Eu digo sempre que devo a minha paixão pela leitura aos livros maus que eu li quando era pequena. Vocês são todos muito novos, mas as pessoas da minha idade lembram-se muito bem de uma coleção que havia, que era a Coleção Azul, onde havia um livro que todas nós líamos, que era horroroso, que se chamava "Johnny Chófer Russo". Hoje eu vi o que era horroroso. Naquela altura, eu adorei. E o que é que aquilo fez para mim? Eu gostei tanto, quis ler outro, e mais outro, e mais outro. E a gente chega a uma altura em que então aí já consegue ver o que é bom do que é mau.

Sim, e os livros vão melhorando.

Portanto, se nós não lermos nada, aí não se vê.

Não há comparação, claro.

Portanto, deixe ler os livros todos maus que houver, com certeza, e depois logo se vê. O que é preciso é que as pessoas leiam.

Muito bem, Alice Vieira, vamos para a segunda pergunta. Esta é sobre um herói da literatura para os mais jovens. Como se chamava o melhor amigo da personagem criada por Mark Twain, Tom Sawyer? Quem era o melhor amigo?

Sei lá. Eu li muito Tom Sawyer, claro. Tom Sawyer e o...

O Tom Sawyer e o...

Quer uma ajuda?

Então, vamos aqui a uma ajuda.

Vá lá.

Era um cão.

Era um cão. Huckleberry Finn.

Ah, Huckleberry Finn.

Pronto, já está.

Já nem bate mais hipótese.

É que na minha cabeça já vi o que era.

Alice Vieira, há algum segredo quando se escreve para os leitores mais jovens? A Alice quando está a escrever pensa nesse público em particular?

Não, eu quando estou a escrever sempre penso em mim. Sou muito egoísta, concordo, mas eu tenho de gostar daquilo que estou a fazer. E nunca na minha vida eu escrevi uma frase qualquer e disse: "Não, que eles são muito pequeninos e não percebem, deixa por isto". Nunca. Como eu disse há bocado, se eles não percebem da primeira vez, percebem da segunda, percebem da terceira. E é sempre em mim que eu penso. É sempre em mim. Eu gosto, eu não gosto, eu acho que deve ser assim. E depois há outra coisa que é eu emendo. Os meus patrões lá da editora às vezes sofrem muito comigo.

Rever muito, estar constantemente a voltar.

Às vezes já entreguei o livro e ainda estou a emendar.

Então o segredo é não ser condescendente com o leitor.

Não, nada, nem pouco mais ou menos. Eu quando entrego um livro para editar, para os meus patrões editarem, é preciso que eu pense: "Eu não sou capaz de fazer melhor". Porque se eu tenho uma pequena dúvida, por pequenina que seja, penso: "Isto não está mal, mas eu era capaz de fazer melhor." Deito tudo fora. Depois não emendo aquela parte, tenho que deitar tudo fora.

Começa do zero.

Todo. De maneira que às vezes quando eu ligo para a editora: "Não me digas que deitaste fora." Eu digo: "Não, não deitei essa." Eu tenho que dizer para mim: "Melhor que isto eu não sou capaz de fazer." E pronto, se não sou capaz de fazer melhor, então entrego.

E é um público, este dos mais jovens, dos leitores mais jovens, é um público especial. Já lhe aconteceu, certamente, ao longo da sua vida enquanto autora, encontrar seus leitores que começaram ainda muito jovens e que agora já são adultos, já têm filhos. Essas experiências, esse contato com esses leitores é marcante.

Olha, é marcante. Há vários que acontece isso, mas há uma que eu gosto muito. Eu vivi algum tempo em Timor e fui lá dar aulas na escola portuguesa de Timor, logo a seguir à independência de Timor. E uma das minhas alunas dessa altura, da escola portuguesa, era a Jovita. Hoje a Jovita já é professora. Continuamos a falar uma com a outra, contactar. Ela dá os meus livros na escola onde é professora lá em Timor. E eu acho que é muito bom a gente manter contato com as pessoas que foram um bocadinho importantes ou que se lembram de nós. E isso acontece-me com muita gente. E também, como eu vou a muitas escolas, há muitos adultos que eu encontro, que se lembram do dia em que eu fui à escola e que falei com ele. Isso eu gosto, eu gosto que as pessoas fiquem a lembrar. É o que eu digo, dá-me tanto trabalho escrever livros, ao menos que alguém se lembre deles. E que alguém goste deste livro.

Agora, Alice Vieira, vamos pegar numa outra faceta sua, para lhe perguntar agora, não sei se na Ediçá se têm preocupado muito com estas questões, mas quem é o atual presidente do Sindicato dos Jornalistas?

Presidente do Sindicato dos Jornalistas?

Sim.

Não sei quem está no Sindicato dos Jornalistas. Desculpa.

Então, vamos com hipóteses.

Vamos lá ver, desculpe. Eu dou muito mais com a Associação Portuguesa de Escritores, antes era a Sociedade Portuguesa de Autores. Com esses sim, com esses dou muito. Com o Sindicato dos Jornalistas, peço muita desculpa. Já agora, quem é?

Primeiro, vamos dar três hipóteses para ver se alguma lhe diz alguma coisa. Luís Filipe Simões, Alfredo Maia ou Sofia Branco.

Será a Sofia? Não.

Já foi. Foi a anterior.

Pois, essa ainda me lembro.

Sim.

Então não sei.

É o Luís Filipe Simões.

Luís Filipe Simões.

Exatamente, o atual.

Olha o Luís Filipe, desculpem lá, não é por mal.

Não é por mal.

Como eu digo, eu convivo mais com os outros.

A questão é essa. A Alice Vieira ainda se sente jornalista ou é mais escritora?

Não, é aquilo que eu digo sempre quando às vezes me dizem que eu sou escritora, eu digo: "Calma aí, eu sou uma jornalista que também escreve livros, que é diferente." Não quer dizer que a gente escreva melhor ou pior, mas escrevemos de maneira diferente. Eu vou lhe dar um exemplo. Aqui há uns anos, eu e mais quatro amigas escritoras escrevemos um romance em conjunto. Mas o romance era um romance, tinha que ser uma obra só, não era uma data de capítulos diferentes. E depois assinamos todos por ordem alfabética, portanto, ninguém sabia quem é que tinha escrito o quê. Uma vez, por acaso, por brincadeira, começamos a perguntar a um grupo de amigos se eles sabiam quem é que tinha escrito o quê. Os meus textos e os do Mário Zambujal, toda a gente adivinhava. Os outros, não. E é diferente. Eu acho que os jornalistas escrevem frases mais curtas, menos adjetivos, essas coisas.

E isso fica mesmo para a ficção.

Foi muito engraçado, porque dos meus e do Mário Zambujal, toda a gente adivinhou. Todos os outros, ninguém adivinhava.

Deve haver aí qualquer traço comum.

É, os jornalistas é diferente, não digo que é melhor ou é pior, é diferente, é outra coisa.

É diferente.

Dá uma tarimba diferente.

É outra coisa.

E se calhar também a capacidade de edição.

E é isso que eu sou. Por exemplo, eu tenho 80 livros ou mais publicados. Quando a editora me pede mais um, eu digo: "Aí, Sancha". Agora, eu escrevo para dois jornais e para duas revistas. Se esses me dissessem: "Não escrevas mais", isso é que era chato, porque isso é que eu sou e é isso que eu preciso. Tinha um colega meu que dizia: "A gente escreveu uma história para estralhar para a janela". E é verdade, se é jornalista, a gente vê coisas que os outros nem percebem, que os outros não dão muita importância. É diferente, não é melhor nem pior.

É diferente. Vamos para mais uma pergunta diferente. Alice Vieira, como se chama aquele famoso caubói da banda desenhada que costumava ter um cigarro e que mudou para uma palhinha?

Foi horrível. Foi tão estúpido isso.

Foi.

Então não vamos falar sobre isso.

Como é que ele era?

Era o Lucky Luke?

Exatamente. Foi estúpido isso.

Havia mudanças por causa de fumar e não sei o quê. Pelo amor de Deus, quer dizer. E quando ele lá apareceu com a palhinha, eu ia-

Perdeu a graça.

Perdeu a graça. Não é por isso que as pessoas deixam de fumar ou fumam menos ou não sei o quê. Disparate.

Deixou de ser autêntico.

Claro, era, porque aquilo era a imagem de marca.

Era como o famoso caubói da Marlboro, não é?

Pois, olha, aí está.

Mas esta mudança aconteceu no início dos anos 80. Acha que hoje em dia ainda estamos mais sensíveis com estas coisas, seja com o fumar ou com a linguagem, com a forma como brincamos com as pessoas? Acha que estamos muito mais policiais da linguagem?

Muito mais?

Mais polícias da linguagem.

Olha, eu não estou. Eu, às vezes, quando tenho qualquer coisa para publicar, digo assim: "Olha, vocês se quiserem emendar, emendam", mas eu escrevo como escrevia.

Mas isso também é tarimba dos jornalistas, estão habituados a isso.

Eu escrevo como escrevia. Umas mudanças também. Olhe, haviam.

Mas sentiu alguma mudança, por exemplo, na recepção aos seus livros?

Não, isso não. Isso não senti, felizmente. As pessoas e os miúdos, miúdos não, mas jovens, continuam a ler e nem notam essas coisas que os adultos notam e essas porcarias todas. E depois havia coisas que não se podia falar. Foi uma altura tão estúpida, mas já passou.

Nunca se sentiu-

Não, isso não. Nunca senti que eles não me lessem por causa disso. Também nunca senti que a editora-

Era isso que lhe queria perguntar, se as próprias editoras também não se sentem tentadas a orientar os autores.

Tentadas, às vezes, sentiam-se. Agora já não, mas tentadas sentiam-se. Mas também eu tinha toda a liberdade de dizer: "Nem penses nisso".

Também já tinha um outro estatuto.

Claro, maneira que: "Não me digas essas coisas. Faz como eu pus e acabou-se". A única coisa, que eu sou um bocado burra nessas coisas, e quando me mandam as coisas, eu: "Vocês ponham lá isso como é", que é o acordo ortográfico.

Sim.

Tira-se, põe-se.

Não gosta, Alice Vieira.

Do acordo ortográfico?

Sim, não utiliza.

Eu escrevo como sempre escrevi. Por isso é que eu digo: "Vocês lá ponham isso". Do acordo ortográfico, vá que não vá. Agora, há uma coisa que é terem tirado o hífen do verbo haver.

Do hade.

Eu uma vez disse isso a uma professora, que eu vou a muitas escolas, como sabe, e os miúdos ainda não tinham chegado, eu não estava a buscar fora à espera que eles chegassem. E foi ela até que perguntou: "O que pensa do acordo ortográfico?" Eu disse que a minha editora é que lá vê. Não há grandes coisas. Agora, a única coisa que me preocupa muito é terem tirado o hífen do verbo haver. E diz-me a professora: "Eu também. Terem tirado o hífen do haver e do haves, para mim..." Eu pensei que ela estava a brincar, mas depois ela olhou para mim e: "Vamos embora que os miúdos já hão de lá estar". Eu disse: "Ela não estava a brincar".

O hades é o inferno da língua. É verdade.

Olha, é mesmo o inferno. Vou utilizar essa, é que é mesmo o inferno da língua. Às vezes há pessoas, mesmo políticos e tudo.

Pois é.

Eu acho que quando vai um político ou uma pessoa qualquer para um cargo, a primeira coisa que eles devem fazer é consultar o Dicionário. Pronto, passa quem souber, quem não souber, desculpem.

Para não aparecer ali um hades pelo meio.

O hades é uma coisa.

Alice Vieira, vamos à última pergunta. Esta tem que ver com a Ericeira. E qual é o santo padroeiro da Ericeira?

O santo padroeiro? Há algum santo padroeiro na Ericeira?

Pois é. Isto é como santo padroeiro para todos os lugares.

Veja lá se se lembra de festas populares.

Recentes, até.

É o São o quê?

O São.

É o São?

É um São. Como é que estava o tempo na Ericeira?

Isso não dá, porque não há nenhum São bom.

Mas há um que manda no tempo.

Do tempo, pois é. É São Caim. Eu sou muito burra, já disse.

São João, São José ou São Pedro?

Espera aí. Santo António é Lisboa. É São João.

Então quando se diz: "Está chateado hoje, deve estar mal-humorado o São..."

São Pedro!

São Pedro. É verdade. Eu também não sabia. Tive que descobrir

Já está.

É verdade, é o São Pedro.

Olha, é o São Pedro. É o São Pedro? Eu lembro nada.

Já disse que não vinha a Lisboa há cinco anos.

Bem, cá é o Santo António.

Cá é o Santo António. Mas como é viver na Ericeira? Conte lá.

É muito bom.

Falava agora que é off dos vizinhos que cumprimentam. E cumprimentam?

Eu digo sempre isso. Tenho é que me portar muito bem, porque todas as pessoas ali me conhecem.

Pois é.

Eu chego à janela e há alguém que diz: "Olá, vizinha". Eu digo: "Olá, vizinho". O carteiro, eu recebo muitas cartas e muitos postais, também mando muitas cartas e muitos postais, é verdade. O carteiro tem o meu número de telefone, eu tenho o dele também, e de vez em quando liga-me e diz: "Onde é que está?" Eu digo-lhe: "Tenho aqui umas coisas para si, vou lhe entregar, para que é que eu hei de ir à sua casa?"

A Alice Vieira recebe muitas cartas dos seus leitores de todo o mundo.

De todo o mundo. E eu também respondo, obviamente. E é muito engraçado, e eu gosto, porque há muitos até que já vieram a Portugal e depois contam. Ainda sou das poucas pessoas, quando estou lá na Ericeira e vou pôr as coisas ao correio, eu digo sempre: "Olha, cá por mim os CTT nunca vão à falência". Eu devo ser das poucas pessoas que ainda escreve cartas e postais e recebe.

Escreve à mão?

Escrevo à mão. É a única coisa, também, que eu escrevo à mão. E eu tenho uma letra horrorosa, justamente porque é a única coisa que eu escrevo à mão. E depois é muito engraçado, porque há uns tempos recebi uma carta: Alice Vieira, Ericeira. E foi lá.

Foi lá. Por causa do carteiro.

Claro. O seu Paulo olhou para aquilo, já sabia onde é que eu estava.

E tenho aqui uma curiosidade, lá na Ericeira já se cruzou com o José Sócrates.

Ele agora não está lá, por acaso.

Mas sabe, é vizinha, sabe onde é que os vizinhos estão em casa, não.

Sabe onde é que vai ao pão. Eu vou lhe contar. O José Sócrates andava sempre a fazer jogging no Norte. Porque a Ericeira, eu devo dizer já, que é a única terra no mundo, onde eu sei todos, onde é o norte e o sul. Porque lá a gente é tudo norte: "Onde é que isso fica?" "No Norte." "Onde é que isso fica?" "No Sul." E a gente sabe todas. E ele vivia no norte e andava sempre a fazer jogging e mais não sei das quantas. Quando foi das vacinas para o Covid, ele apareceu para se vacinar. E eu conheço muito bem a enfermeira, que ela é que me contou. E a enfermeira disse: "Olhe, ainda bem que apareceu agora, porque está cá muito pouca gente, tem uma pessoa ou duas à sua frente, despacha-se num instante". E o Sócrates olhou para ela e disse: "Eu? Esperar que outros passem à minha frente? A senhora olhe bem para mim. A senhora sabe quem eu sou?" E ela olhou para ele e respondeu: "Por quê? O senhor esqueceu-se?" Ele foi-se embora, nunca mais lá pôs os pés.

Boa história.

Eu vou contar esta história, que eu acho uma maravilha. E depois o Sócrates dizia que não tinha casa, era a casa do primo. Nós lá na Ericeira, quando temos uma casa: "Também é do teu primo?"

Parece ser o santo padroeiro.

Até não.

"14 Pontos", a jornalista que também escreve uns livros, Alice Vieira, muito obrigada por ter vindo.

Muito obrigado.

Obrigada também. São vocês é que me faziam vir a Lisboa.

Obrigada.

Agora estou bem.

Aproveite e vá passear um bocadinho.