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Começa agora mais uma Comissão de Inquérito das manhãs 360. Hoje, é nosso convidado Miguel Frasquilho, economista, antigo administrador da TAP. Bom dia, bem-vindo de volta. Da última vez-

Bom dia.

Bom dia.

Obrigado.

Obrigada por ter aceitado o convite. É um regresso. Da última vez que cá esteve foi há um ano, fez 17 pontos. Portanto, hoje é para os 25, não é? É desta.

Isso vai depender daquilo de nós.

Vai depender de nós. É onde está.

Eu acho que facilitamos muito esta manhã.

Também acho que sim. Vamos começar? Vamos lá. Começamos então pela TAP e pelo seu fundador, por que outro nome ficou conhecido Humberto Delgado?

Era aquele quando foi candidato. O nome que ficou conhecido.

Por ser assim famoso.

Quando foi candidato.

O general sem medo.

Exatamente. Cinco pontos. Ao privatizar a TAP, o país ganha eficiência ou perde o controle sobre um ativo estratégico?

Eu acho que a privatização é absolutamente necessária. A TAP precisa de ser privada. Vamos por partes. Ela vai ser agora minoritariamente privada, porque não há condições no Parlamento para que ela seja maioritariamente privada. E eu estou muito à vontade, porque eu fui convidado pelo acionista Estado para ser chairman da TAP. Portanto, estou muito à vontade para falar sobre isso. Mas acho que a TAP se deve reger pelas melhores práticas do mercado. Elas são claramente privadas. Aliás, não compete ao Estado gerir empresas. E acho que há uma série de regras e condições que devem ser colocadas para que a TAP continue a ser aquilo que é, um ativo fundamental para Portugal. A manutenção do hub em Lisboa, assegurar a coesão territorial, um preço que seja simpático, já agora. Há uma série de condições. Vamos entrar na fase decisiva.

Mas Miguel, com a atual crise no Medio Oriente, este é o melhor momento para se avançar com a privatização, com a operação?

É o momento que já estava em cima da mesa. A guerra do Oriente surgiu depois, fez com que um dos competidores se afastasse. Portanto, temos neste momento dois, o grupo Lufthansa e o grupo Air France KLM. Vamos ver, temos que aguardar. Para já são dois competidores muito fortes e eu acho que qualquer um deles dá garantias de que continuaremos a ter uma TAP forte, aliás, mais forte, porque vai ficar junto a uma grande família de aviação.

Mas o preço será menos apetecível agora, não?

Veremos. Porque a TAP tem vários ativos que são muito interessantes. Eu diria que os dois mais valiosos, e sobretudo o mais valioso, está nas rotas para o Brasil. A TAP é praticamente monopolista. Voa, a salvo erro, para 12 cidades brasileiras. Não há outra airline que faça isto nas rotas para a Europa. Os brasileiros veem a TAP como a sua companhia quando querem voar para a Europa. Não é nem a Azul, nem a Latam, etc. E depois as viagens para os Estados Unidos também a partir de Lisboa, e esse foi um grande fator que foi muito incrementado durante o tempo de David Neeleman na TAP.

Muito bem. Então e agora para mais cinco pontos fáceis. Quem foi o vencedor do primeiro Big Brother na TVI? Fácil.

Fácil.

Aquele rapaz das galinhas.

Foi o Zé Maria.

Foi.

Isso mesmo.

Então 10. No sábado...

Mas essa saiu completamente. O que o Big Brother tem a ver com a TAP?

Não, tem a ver com a próxima.

Tem a ver com a próxima.

Tem a ver com a próxima.

Esta é sempre a seguir. É uma pergunta, depois o repique.

Ok.

Tem a ver com a expressão reality shows que José Pedro Aguiar Branco utilizou no último Sábado Nação, se lembra?

Já percebi, pronto, ok.

Concorda que a vida política se transformou num escrutínio quase voyeurista?

Acho.

Acha?

Acho.

Foi vítima disso?

Olhe, vamos pôr assim, eu estou afastado da vida política e não tenho a menor intenção de voltar. Vamos considerar a TAP vida política, embora fosse já empresarial. Vida pública.

Com obrigação de declarativas e por aí fora, claro.

Exatamente. Desse ponto de vista, porque vida pública eu continuo a ter, eu tenho um programa de televisão, etc. Mas vida pública/vida política, empresarial, ligada ao escrutínio público, etc. Eu saí há quase cinco anos e acho que se tem degradado muitíssimo desde lá para cá. Aliás, eu notei durante os quase 20 anos em que estive nessa vida, que as condições se foram degradando.

Mas que condições se foram degradando? Isto é, as obrigações aos políticos foram sendo aumentadas?

Acho que teve um escrutínio cada vez maior. Acho que se exagera muitas vezes nesse escrutínio e acho que os políticos são seres humanos como outros, cometem erros, têm as suas virtudes, são seres humanos normais. Eu sou um ser humano absolutamente normal. Gosto de determinadas coisas, não gosto de outras, tenho as minhas preferências.

Mas não é bem isso que está em causa, não é? Estamos aqui a falar de conflitos de interesses, de portas giratórias. Não é isso que deve ser protegido ou clarificado?

Vamos lá ver. Deixe-me então pôr as questões assim: nós queremos decisores políticos que tenham nascido e que saem diretamente para a vida pública/vida política. É isso? Não tenham feito mais nada na vida. É isso? Eu acho que não é isso.

E a lei está a espartilhar.

Eu acho que a lei está muito a espartilhar, sobretudo depois quando se cessa funções. Se não querem que as pessoas tenham ligação a instituições que, por exemplo, tutelaram ou em setores que tutelaram, então têm que criar condições para que elas, quando terminam essas funções, deem o tempo necessário para que depois isso possa eventualmente acontecer. Agora, o que não pode acontecer é uma pessoa, por ter exercido cargos públicos/políticos, de repente não pode fazer nada na vida. Então e vive de quê?Eu acho isto uma coisa verdadeiramente notável.

Já estamos no equilíbrio que nós temos neste momento.

Acho que já se ultrapassou o equilíbrio. Sinceramente, acho que se ultrapassou o equilíbrio. Eu, no meu caso, posso dizer, eu quando fui presidente da AICEP, não havia nada escrito na lei. Não é como os membros do governo, que, salvo erro, durante os três anos seguintes não podem estar em funções, em posições. Mas eu entendi por bem cumprir o mesmo período e felizmente eu tive o convite para ser de chairman da TAP, na altura, pelo governo. Mas eu entendi cumprir esse período para que, entre aspas, não me viessem chatear com coisa nenhuma, porque repare, um presidente da AICEP tem contato com todos os setores de atividade. Se eu recebesse um convite de uma empresa, imagino qual fosse, como é que seria?

De qualquer setor, praticamente.

Exatamente. Portanto, acho que se caiu num exagero. E entendo bem aquilo que o presidente da Assembleia da República disse.

Muito bem, já que falou em AICEP, Miguel Frasquilho. Veja só, isso parece que está tudo ligado.

É verdade.

A terceira pergunta é: em que década foi criada a AICEP, a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal?

A AICEP, enquanto sucessora do ICEP.

Do ICEP, exatamente.

Foi na primeira década deste século. Salvo erro, eu acho que iniciou funções em 2007, mas acho que foi criado em 2005. Não, em 2005 havia a API ainda. Bom, sei que o primeiro presidente foi o meu estimado amigo Basílio Horta e foi na primeira década deste século.

Está certo. Foi em 2002, mais precisamente.

Foi 2002?

Foi 2002. Sim, senhor.

Eu acho que foi mais tarde. Isso foi a API.

Tenho que researchar a AICEP. É possível que tenha sido há 10 anos, depois para a AICEP.

Porque em 2005 ainda existia a ICEP.

A Agência do Investimento Português.

Pronto, OK. Mas foi nessa década. Era a década, exatamente.

Falou agora, de facto, da AICEP e da importância que tem, o Miguel Frasquilho foi presidente da AICEP. Ultimamente, o Estado, o governo tem estado a recrutar gestores da AICEP para outras funções. Francisco Catalão, administrador executivo, responsável pelo sector financeiro.

É agora secretário de Estado.

É secretário de Estado. Agora, mais recentemente, Joana Gaspar foi chamada para Cônsul-Geral de Portugal no Rio de Janeiro.

Mas isso é natural. Quer uma, quer outra, são situações naturais. Eu também tinha.

Mas não se esvazia desta forma? Não há aqui uma falta de prioridade neste caso AICEP?

Isso significa duas coisas. Primeiro, que os recursos que a AICEP tem são competentes, e isso apraz-me muito, que é uma instituição que eu prezo muitíssimo. Foi-se buscar um secretário de Estado para a área da saúde, significa que ele é competente. E quanto aos embaixadores, os embaixadores que estão na AICEP sabem que não vão permanecer eternamente. Eles têm uma carreira diplomática, acho que faz muito bem aos senhores embaixadores, que eu prezo muitos deles, tenho relação de amizade com vários. E tive um grande embaixador durante o meu mandato. Aliás, tive uma equipa excelente, mas o embaixador Pedro Pessoa e Costa, que está hoje em Oslo. Acho normalíssimo que um embaixador ou uma embaixadora que estejam na AICEP regressem depois às suas funções diplomáticas. Aliás, na AICEP também fazem diplomacia econômica, mas fazem. Eu fiz muita.

Claro, e tem um papel importante para as exportações portuguesas também.

Claro.

Que estão a cair no PIB há três anos. Nós tivemos uma subida muito forte, aliás, durante o período da Troika, e agora estão a cair. Será que a tendência se inverteu?

Espero que não. Acho que nós continuamos a comparar mal com países com uma dimensão relativamente semelhante à nossa, que têm números das exportações sobre o PIB que são muito superiores, na casa dos 70, 80, já nem vou para a Irlanda, que é superior a 100%. Nós não chegamos aos 50. Aproximámo-nos, agora estamos um bocadinho abaixo. Houve um salto enorme na altura da Troika, porque o PIB também encolheu.

E as empresas tiveram que ir dar voltas aos mercados.

Mas as nossas empresas viraram-se para fora e bem, mostraram de que raça é que também somos feitos. A AICEP ajudou bastante nessa altura, mas, de facto, temos que pedalar mais.

O que é que falta?

Acho que falta uma mentalidade mais arriscada, mais ousada da parte dos empresários portugueses. Acho que falta virarem-se mais para fora. Acho que faz falta uma AICEP mais forte do que ela é agora, e a culpa não é da AICEP, é do acionista. Eu já dizia isto no meu tempo. Portanto, faltam recursos, faltam pessoas, faltam recursos financeiros, etc. A AICEP não exporta nem investe, mas ajuda, é fundamental para ajudar a exportar e a investir. E, portanto, nós temos que ter uma mentalidade mais aberta para fora, temos que perceber que estamos, perdoem-me a graça, numa economia sem fronteiras, que é o meu programa, e portanto que ajuda precisamente a virar o país mais para fora.

Miguel Frasquilho, mas não estamos exatamente a entrar no ciclo oposto? A economia está a ter cada vez mais fronteiras.

Há atores com grande peso a nível internacional que acham que esse é o caminho mais acertado.

Que não gostam nada do nome do seu programa.

Não, pois se calhar não gostam, pronto, é um problema deles. Mas eu entendo isso, não entendo bem. E a teoria econômica mostra, deixa-me puxar a brasa a minha sardinha como economista, como gestor. David Ricardo já dizia que a economia aberta e sem restrições é o que gera maior valor para os decisores, para as populações, para toda a gente envolvida. Portanto, quanto mais barreiras nós criarmos, aquele Liberation Day de 2025.

Está a falar do anúncio das tarifas.

Das tarifas de Donald Trump, aquilo foi exatamente o oposto de qualquer Liberation Day, foi péssimo para toda a gente, incluindo, e sobretudo, para a economia norte-americana. Eles ainda não se aperceberam porque estas coisas demoram tempo, mas vão chegar lá

Vão pagar um custo por isso.

Sem dúvida.

Isto está a correr tão bem. 15 pontos já.

15 pontos. Totalista até agora, não é?

Sim, totalista. E esta se calhar também sabe assim de cor. Claro que sabe. Vamos ver se se lembra quem foi o primeiro presidente do Conselho Económico e Social, o CES.

Aí é que eu me lembro de vários presidentes, mas o primeiro, quem é que terá sido? Nem me lembro.

Quer arriscar o nome ou quer pedir ajuda?

Temos aqui três alternativas.

Não sei se foi nos anos 80, se foi nos anos 90. Eu próprio integrei em determinada altura o Conselho Económico e Social como economista júnior no princípio dos anos 90.

Não foi muito longe disso.

Pois.

O CES não é muito antigo.

Mas não me consigo recordar.

Então com nomes, vai lá.

Com nomes vou lá.

Nascimento Rodrigues, Silva Lopes, Bruto da Costa.

Nascimento Rodrigues foi com quem eu trabalhei. Silva Lopes, Bruto da Costa, acho que não. Silva Lopes? Falhei.

Nascimento.

Era o Nascimento Rodrigues. Eu achava que ele não tinha sido o primeiro. Exatamente, pronto.

No melhor panóplica.

Exatamente. Ainda tem mais sim, ainda tem mais. Tem que aquecer a cabeça e continuar a treinar. Mas isto é para falar da reforma laboral. Ainda vai haver alterações à lei. Como é que tem acompanhado o processo?

Tenho acompanhado com interesse, mas com algum distanciamento, porque acho que se gerou um circo tal, e perdoe-me a expressão, entre aspas, um circo tal à volta dessas questões da reforma laboral, que acho que depois o que se discute mais é se vai haver reunião, se não vai, se o sindicato assina, se o outro não assina, se a CIP estará presente, se não estará. Eu acho que nós precisamos de algumas alterações à lei laboral. Acho que o caminho da flexibilidade é um caminho muito interessante. Um dos países que tem legislação laboral que é consensualmente mais apreciada é a Dinamarca, com o conceito de flexissegurança. Eu acho que é uma bela referência, porque flexibilidade, toda a gente em Portugal diz logo: "Ai, flexibilidade implica despedir mais e vai ser triste." Não é verdade. A Dinamarca tem um conceito muito flexível e que permite, de facto, despedir, mas também facilita imensas contratações e depois tem os apoios sociais muitíssimo mais fortes, robustos que os nossos e que tornam a vida das pessoas não tão inconstante, não tão incerta. É um modelo em que também se gasta mais, é verdade, e portanto, nós temos que pensar aquilo que queremos, mas eu acho que a nossa legislação laboral deve merecer, de facto, alguns ajustes, deve merecer algumas mudanças. Repare, a flexibilidade pode ser flexibilidade, por exemplo, nos horários. Pode haver turnos mais diferenciados. No mundo em que nós vivemos, isso é cada vez mais a regra e não a exceção. Eu gostava que houvesse mudanças na lei laboral, não tem que ser um bicho-papão.

Mas pelo que está a dizer, também não tem que ser uma reforma, pode ser ajustes. Está a falar que o nome também assusta, o processo foi mal conduzido.

O nome assusta. Nós temos este chavão das reformas estruturais, às tantas devíamos, se calhar, fugir dele, porque ele já está tão conotado de forma negativa e sobretudo há reformas que são necessárias há tantos anos, que depois não acontecem, lá vêm as reformas estruturais. Pronto, enfim, acho que é também uma questão disto.

Muito bem, Miguel Frasquilho, vamos para a última questão.

Vamos lá.

Quantas teclas tem a generalidade dos pianos modernos?

Dos pianos modernos, e eu que toquei piano durante mais de 15 anos. Pois, eu sei, mas acha que eu fui contar as teclas? É teclas brancas ou inclui brancas e pretas?

Não me faça perguntas difíceis.

Pois é. Deixe cá ver.

São sete oitavas e mais um pouquinho.

Pois, são sete oitavas. Sete oitavas...

Mais depois as pretas.

As pretas, pois.

Consegue?

São muitas.

São 80 e tal.

Exato, não está longe.

São 80 e quê? Oitenta e oito?

Pronto, não tem mais.

Oitenta e oito. Sete oitavas, mais uma terça menor.

Mais uma terça menor, exatamente.

Desde o lá dois ao dó sete.

Eu sabia que era sete e qualquer coisa. Depois comecei a contar as notas pretas, porque são cinco em cada oitava.

Então vamos lá ver, entre as notas do banco central e as notas da pauta, eu sei que gosta mais. Questões financeiras à parte, claro.

Eu diria, a resposta correta é que gosto das duas, obviamente.

Mas a música foi uma paixão?

A música é uma paixão.

Para quem toca piano tem um grau desse gosto.

Eu hoje toco muito menos do que gostaria. A vida, a economia, a gestão.

A televisão.

A televisão leva-me quase o tempo todo, mas eu não consigo estar sem. Por exemplo, quando estou a trabalhar e estou sozinho, para não incomodar as outras pessoas, estou sempre com música.

Clássica, sobretudo?

Não, sobretudo pop. Eu sou muito pop.

O que ouve?

O que eu ouço? Posso dizer aquilo que eu gosto mais.

O que está no seu Spotify.

Alguns amigos meus dizem que eu sou muito fuleiro, mas eu não me importo nada. Olhe, eu adorava o Zaba. Adorava e adoro. Para mim, a cantora mais excepcional que alguma vez existiu chama-se Whitney Houston, também já cá não está, é uma pena. Do mundo de hoje, só estou a falar de mulheres. Não, o Zaba tinha um...

O Zaba tinha.

Tinha, era um quarteto.

Mas gosto imenso de Lady Gaga, de Taylor Swift. A Madonna é uma referência já mais antiga.

É um swiftie, também tem pulseirinhas.

Por ser um swiftie mais entradote, mas não tenho pulseirinhas. E não a vi ao vivo em Portugal e foi uma pena, não estava cá. Foi uma pena.

Muito bem. Então essas notas também são importantes.

Não, estas notas são absolutamente fundamentais. A minha vida sem música não teria qualquer sentido. Posso dizer assim.

Miguel Frasquilho conseguiu 20 pontos, portanto superou a última nota, os 17. Para o ano voltamos a falar.

A próxima é para os 25.

Muito obrigado.

Obrigada mais uma vez, Miguel Frasquilho.

O gosto é nosso. Muito obrigado.