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Começa agora mais uma Comissão de Inquérito das manhãs 360. Hoje é nossa convidada Sofia Pereira, líder da Juventude Socialista. Bom dia, bem-vinda.

Olá, bom dia. Obrigada pelo convite.

Bom dia.

Olá, bom dia.

Então, Sofia, sabe ao que vem, não é?

Eu já sei ao que venho. Acho que sei ao que venho. Vou assustada.

Diga.

Mas venho assustada.

Não, não há razão pra isso.

Nada disso.

Somos muito queridos, muito meiguinhos, muito simpáticos.

Eles aqui são horríveis, mas não é caso para isso.

Vamos lá começar com uma relativamente simples. A Sofia Pereira nasceu em 1999. Está correto?

Sim, correto.

Sim? Quem era o secretário-geral do PS nessa altura?

Secretário-geral do PS em 99.

Pode pedir ajuda. São cinco perguntas, cada resposta certa vale cinco pontos. Se tiver ajuda e acertar, são dois pontos.

Eu não quero pedir já ajuda. Eu sinto que vou precisar das ajudas mais à frente.

Não, mas não as gaste. Pode pedir sempre, não gasta.

Eu vou arriscar.

Então vá, assim é que é.

Era António Guterres.

Era sim, senhora. Fez muito bem em arriscar. 1992, 2011. Sofia, como é que explica que não haja mais ninguém a candidatar-se ao lugar de Pedro Nuno Santos? Neste momento, só há um nome em cima da mesa, o de José Luís Carneiro.

Diz bem, neste momento, só há um nome, de José Luís Carneiro. O Partido Socialista é um partido plural, onde cabem várias ideias e várias sensibilidades e nós temos a sorte de ter muitos camaradas e camaradas, mulheres e homens, com capacidade para se candidatar ao cargo de secretário-geral do Partido Socialista. Não sei se será uma candidatura, se será mais do que uma, mas independentemente do contexto em que seja, tenho a certeza que qualquer uma das pessoas será mais do que capacitada para poder ajudar o Partido Socialista.

Como por exemplo, quer dar um outro nome?

Vários. Eu não preciso dar nomes.

Não precisa dar nomes, mas era mais saudável para o partido que houvesse mais do que uma candidatura e, por isso, uma discussão com vários pontos de vista, uma discussão interna?

O que eu acho que é preciso agora, mais do que tudo, é que o Partido Socialista tenha a capacidade de refletir internamente também aquilo que não correu tão bem, quais é que são as circunstâncias, até culturais e sociológicas, que nós nos encontramos neste momento. A crise que há na esquerda portuguesa, europeia, e aquilo que podemos fazer para contrariar estas tendências, nunca abdicando dos nossos valores e dos nossos princípios, que é aquilo que nos rege. O Partido Socialista é maior do que qualquer pessoa que o possa liderar. E mais do que se há uma candidatura, ou se haverá duas candidaturas, ou três, ou o que seja, é importante é que tenhamos a capacidade de, em conjunto, dentro da nossa pluralidade, conseguirmos refletir o que temos que fazer para futuro.

Mas acha que há algum receio por parte de potenciais candidatos de avançar agora, quando se perspectiva que o PS possa passar algum tempo na oposição?

Não creio que seja por receio de contextos políticos que algum camarada do Partido Socialista deixe de se candidatar por esse fato. Acho que as pessoas e qualquer um faz as suas interpretações do contexto em que estamos agora e se, de facto, existir apenas uma candidatura.

Então pergunto-lhe se o próximo líder do PS será muito provavelmente um líder de transição.

O próximo líder ou líder do Partido Socialista não será de transição, o que será é um líder que vai ajudar o Partido Socialista num momento difícil. Como qualquer outro.

Como qualquer outro. Ora bem, para já é José Luís Carneiro, como sabemos. Vamos então seguir para a segunda pergunta. Está muito atual, portanto, imagino que saiba. Quantas vezes já foi revista a Constituição portuguesa?

Ah, agora o tema...

De 76, o grande tema. O tema em cima da mesa. Quantas vezes é que já foi revista, desde 76?

Desde 76 a Constituição foi revista... Eu tenho dois números na cabeça.

Quais são?

Seis ou sete.

Pois, é um desses.

É verdade.

É um desses.

Deixa-me acertar. 82, 80 e... Bem, vou arriscar.

Sim.

Sete.

Tem que seguir a sua intuição. Isto está a correr mesmo muito bem. Foram já sete vezes.

E 10 pontos.

E 10 pontos, já. E 10 pontos, o máximo possível. Estando o PS ainda numa fase de reflexão interna, como percebemos, deve entrar no processo de revisão da Constituição?

Eu acho que não é momento para falarmos de revisões constitucionais. Melhorar a vida dos portugueses e a vida das pessoas que vivem no nosso país não se faz através da revisão constitucional. Aliás, acho que não é sequer ajuizado estar nesse tema neste momento, mas eu espero mesmo que o PSD não rasgue um pacto com 50 anos de não fazer uma revisão constitucional sem o Partido Socialista. Estes são dois partidos fundadores da democracia e, portanto, se assim o fizerem, o Partido Socialista terá de tirar as suas conclusões e também ficaria mais do que aparentado quem é que são afinal os responsibleis.

Mas se o PSD, precisamente para não rasgar esse pacto não escrito, se quiser negociar com o PS, o PS deve ir a jogo de alguma maneira, sentar-se com o PSD, ou deve recusar a partir de entrar nesse processo porque não será prioritário?

Neste momento, eu acho que não é um processo prioritário. Nós temos é que repensar como é que mudamos a vida das pessoas para melhor. Há muitos problemas para resolver na saúde, na habitação, na mobilidade, na educação e no ensino superior. Este governo devia focar-se muito mais no que diz respeito à educação e ensino superior, já que fez asneira durante este último ano nestas matérias. Antes de o fazer, ou de pensar sequer nisso, tem mesmo é que resolver os problemas das pessoas e do país.

Dizia que o PSD não deve quebrar essa tradição, deve juntar também o PS, deve discutir eventuais revisões constitucionais com o PS, mas o PS também deve fazer um esforço para se aproximar do governo da AD, para evitar precisamente que o PSD tome essas decisões sem o apoio e sem uma convergência com o PS?

Não. No que diz respeito a aproximações do PS ao governo, vou ouvindo com alguma regularidade que o Partido Socialista tem quase sempre a responsabilidade de se aproximar do governo em matérias que sejam cruciais para podermos manter a estabilidade do país, ou porque, no que diz respeito à revisão constitucional, se deveria ou não aproximar-se do governo para que se possa fazer em colaboração ou, pelo menos, em conversa com o Partido Socialista. A responsabilidade do Partido Socialista não é a mesma quando está no governo e quando está na oposição. O governo terá a sua própria responsabilidade. Nós, Partido Socialista, não temos que nos aproximar do governo. O governo é que tem que ter a capacidade de fazer as suas diálogos, que é sem entender para aquilo que entender. E vai escolher os seus parceiros preferenciais e também os seus espectantes no que diz respeito a isto. Mas o Partido Socialista não tem a responsabilidade de se aproximar do governo. Nenhuma.

Muito bem, vamos seguir em frente, Sofia Pereira, para a terceira questão. Neste momento está com 10 pontos. Portanto, a totalidade. Está a correr nada mal. Vamos lá então, Sofia. Em que década é que a maioridade em Portugal passou dos 21 para os 18 anos?

Em que década a maioridade em Portugal passou dos 21?

Para os 18 anos. Exatamente. Estamos a ser simpáticos, podíamos pedir o ano mesmo, mas vamos ficar na década.

Posso pedir ajuda? Vocês dão opções?

Damos opções, três opções.

E ganho menos?

E ganha só dois pontos. Se acertar ganha dois pontos. Deixa de ganhar zero.

Pronto, ok.

Mas é um bom trade-off. Quer três opções, então?

Sim.

Então vá lá. Então olhe, as três opções são décadas de 50, de 60 ou de 70. Do século passado, claro. Século XX.

50, 60 ou 70.

Isto teve uma alteração de Código Civil.

Pois.

Eu diria que é muito biológica. Tem alguma lógica, exatamente. Ia dizer, tem alguma lógica.

É uma lógica relativamente à pergunta que fez há bocado, não é?

Não. Não. A pergunta aqui é, de facto, em que década é que a maioridade em Portugal passou dos 21 para os 18 anos? E ganhando alguns direitos, obviamente, e deveres também. Décadas de 50, 60 ou 70. A Carla já o disse aqui e também confirmamos que há uma lógica nisto. Nesta alteração. Nesta alteração, na década, claro.

Foi na década de 70.

Exatamente. Está a ter uma década em que houve grandes alterações no país. Em que se ganharam muitas liberdades. Quase todas, diríamos nós, em termos cívicos. 70, sim senhor, dois pontos.

Onde houve a promoção de vários novos direitos.

Claro, nomeadamente num ano famoso, 74.

74.

Isto demorou três anos a seguir ao 25 de abril.

Vocês deixam as pessoas muito nervosas neste programa. Eu começo a perceber quando o ouço.

Mas por quê? Está sempre uma conversa tão simpática.

É aquele silêncio a seguir às perguntas que vocês não respondem.

Não. Até são perguntas bastante fáceis. É para deixar as pessoas pensar também, refletir um bocadinho. Mas esta pergunta, Sofia Pereira, vem a propósito da sua moção à liderança da JS, que propõe, entre outras medidas, o voto, por exemplo, aos 16 anos. Acha, de facto, que é uma boa medida? Imagino que sim, que é, se para a propor. Mas vai propô-la agora nesta legislatura, por exemplo?

Eu acho que é uma boa proposta. Aliás, vários camaradas da Juventude Socialista o acharam, porque vários ajudaram a redigir. Mas por um motivo em concreto: as pessoas cada vez mais dizem que os jovens não têm interesse na política, não têm interesse na vida do nosso país, e a verdade é que têm. O que os jovens ao longo do tempo foram perdendo foi interesse na vida política partidária, e não na vida política. E quando usam como argumento, para não avançar com o voto aos 16 anos, que os jovens cada vez mais votariam em partidos extremos, ou mais extremos, eu não acho correto, nem acho justo colocar o ônus nesses jovens. Com 16 anos, muitos deles já têm a capacidade de compreender o que querem e o que não querem para o seu país. São jovens prestes a entrar também no ensino superior e que já poderiam, de facto, e têm mesmo, muitos deles, uma vida muito concreta daquilo que acreditam e que não acreditam para o seu país. Os partidos políticos é que têm que ter a capacidade de chegar até eles e de os convencer que têm os melhores projetos. Agora, nesta legislatura, a prioridade será mesmo a habitação digna e acessível para todas as pessoas, classe média, para os jovens, melhores salários, mobilidade, saúde mental, ecologia e eventualmente avançaremos, nunca prescindindo desta nossa convicção Mas eventualmente depois também avançaremos noutra fase no que diz respeito a esta matéria.

E também havia essa proposta na sua moção de alterar o sistema eleitoral. Isso também fica para segundas núpcias?

No que diz respeito ao sistema eleitoral, acho que o Partido Socialista também precisa de fazer uma reflexão para perceber e uniformizar a proposta que assim faria, mas acho que é urgente que se fale sobre essa matéria para democratizarmos cada vez mais a forma como votamos, como elegemos os nossos representantes.

A questão dos círculos uninominais e o círculo de compensação faz parte dessa proposta. Quando diz que o partido tem que ainda refletir sobre isto, significa o quê? Que não encontra grande eco na parte do PS para acolher essas ideias?

O Partido Socialista sempre esteve disponível para acolher propostas e ideias que vêm desde a Juventude Socialista, mas acho que é importante que num tema como este tenhamos a capacidade de juntar mais cabeças, uniformizar a proposta que um conjunto mais alargado de pessoas teriam, confortável, refletiva, ponderada e que pudesse ser de facto consequente para a vida das pessoas.

Sofia Pereira, neste momento 12 pontos ao fim de três perguntas. Vamos à quarta pergunta. Esta tem que ver com as eleições da semana passada. Quantos conselhos o PS perdeu para o Chega nestas eleições?

Demasiados.

Está correto. Tem que ser mais precisa.

Conta? Não conta? Peço ajuda.

Ajuda?

Foi um número que eu não quis dizer.

Não quis memorizar.

Vamos lá então. 62, 38 ou 50?

32?

Não. 62, 38 ou 50.

Não sei.

Arrisque. A sua intuição tem resultados.

Vou dizer 50.

Está certo. Muito bem.

De facto, o PS perdeu 55 conselhos para a AD, 50 para o Chega. Calculo que perder conselhos para o Chega tenha sido mais difícil de assimilar para o PS. A estratégia de contenção do Chega, evitando acordos do PS com o governo, com a AD, evitando qualquer discussão que conduzisse a uma possibilidade de bloco central, falhou.

Sobre duas partes esta pergunta. Em primeiro lugar, se ao Partido Socialista custa mais, não custa só ao Partido Socialista, acho que custa mesmo à democracia e custa a todos, porque o Chega aquilo que tem vindo a fazer ao longo destes últimos anos, sobretudo neste último ano, é promover divisões culturais que não existem, agarrar-se aos medos mais primários de cada uma das pessoas para poder navegar por entre esses receios e propagar as suas mensagens populistas e extremistas, porque o Chega é extremo, é radical de extrema-direita. E por isso acho que, pelo menos a mim, enquanto cidadã, mais do que enquanto dirigente, custa-me muito que isso tenha acontecido. Agora, sobre a contenção do Chega. Eu acho que ao longo do tempo foi-se tentando imputar um conjunto de responsabilidades também ao Partido Socialista no que diz respeito ao crescimento do Chega. Isto é uma coisa um pouquinho maior do que isso. E permita-me também dizer que, por um lado, se a AD neste último ano quis despertar o eleitorado com o Chega, adotando as suas ideias fetichistas e os temas fetichistas da extrema-direita, para poder galvanizar o seu eleitorado e por outro lado, também muitas vezes a comunicação social acho que também devia fazer uma reflexão. Não é normal um partido que à altura, quando aparece com 12%, tinha mais espaço do que o líder da oposição à altura, que por acaso até era Rui Rio do PSD, ou agora quando tem um episódio da sua saúde no meio da campanha eleitoral e é seguido por várias horas as suas ambulâncias, as entradas e as saídas do hospital. Isto é inacreditável e no meu ponto de vista acho que é inaceitável. E portanto, a contenção do Chega faz-se de várias maneiras. Desde logo, não entrando no jogo que André Ventura faz, dizendo um conjunto disparates e barbaridades, que está de concentração na comunicação social, e depois também o discurso público e o debate público que se faz através disso. E isso é que eu não acho correto.

Muito bem.

Sofia, neste momento tem 14 pontos, os mesmos que João Pedro Louro, líder da Juventude Social-Democrata, conseguiu na semana passada. Portanto, a glória está nas suas mãos. O PS pode ganhar ao PSD, só os inquiritos.

Ou a JS ganhar à JSD.

Vejam lá a responsabilidade.

Sofia Pereira, vamos então para a última questão. É de Lamego, certo?

De Lamego.

Isto é picantes. Lamego é terra de bom vinho do Porto, já está na região demarcada, e de vinho espumante. A pergunta é: qual é a famosa marca de espumantes que tem sede no concelho de Lamego?

A Raposeira.

Claro, foi fácil esta. Esta foi dada absolutamente.

Mas é uma filha da casa, não poderia faltar.

Claro. Mas a Sofia acabou por ser eleita pelo Porto, foi a segunda na lista agora nestas eleições. O primeiro foi Fernando Araújo, que já disse que não vai exercer o lugar de deputado para o qual acaba de ser eleito. Não acha que esse tipo de atitudes ajudam a descredibilizar os políticos?

Acho que não. Eu tive a oportunidade, durante estas semanas, de estar várias vezes com Fernando Araújo e é alguém que tem uma profunda convicção que poderia ajudar a melhorar o país. Uma das coisas que nos é muito cara e que devemos estar todos muito empenhados em ajudar a que sobreviva e sobreviva com saúde, que é o Sistema Nacional de Saúde, e o facto de eu sentir que o seu espírito de missão seria melhor cumprido agora com as suas funções de professor e também no hospital. Acho que essa decisão pessoal é mais do que aceitável.

Mas se ele pensava isso já há dois meses, não era melhor não ter integrado a lista de candidatos a deputados?

Acho que não. Acho que deu um grande contributo ao Partido Socialista e mais do que ao Partido Socialista, ao país, com a sua inclusão e estando na lista do Partido Socialista pelo Porto. É uma pessoa muito querida no distrito do Porto, é alguém em quem as pessoas de facto confiam e reveem seriedade e credibilidade e foi um enorme orgulho e privilégio poder estar com ele na lista.

Mas não poderia ajudar mais se assumisse o cargo de deputado?

Acho que é uma decisão pessoal e acho que deve ser respeitada.

Com certeza, mas é uma decisão política também.

Com certeza que será, mas na minha opinião pessoal, acho que a opinião pessoal do Fernando Araújo, no que diz respeito aos resultados destas eleições e à forma como quer estar a fazer política e contribuir politicamente, se foi achando que a sua saída das listas e não integrando o grupo parlamentar como deputado seria o melhor, então eu respeito e tenho toda a minha solidariedade.

Muito bem, então fechamos com 19 pontos.

19 pontos.

19 pontos, com uma garrafa de raposeira.

Nós é que não.

E aí ganha. E Sofia, e para acompanhar a bola de lamego também.

E a bola de lamego vegetariana.

Mas a Sofia é vegetariana, não é?

Tenho uma nova receita de bola de lamego vegetariana, mas sim, uma bolinha com uns tomates.

Ui.

Não podem passar uma melhor tarde.

Sofia Opara, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. Foi um gosto tê-la connosco. Obrigada.

Obrigado.