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Começa agora mais uma Comissão de Inquérito das manhãs 360. Hoje, é nosso convidado Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa. Bom dia, bem-vindo.
Bom dia.
Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. Dizem muitas vezes que anda no mundo da lua.
Principalmente agora.
Agora anda.
Nos últimos dias.
É muito apropriado. Vamos lá, isto é muito simples: são 25 pontos. Cada resposta certa vale cinco pontos. Se pedir a nossa ajuda e acertar, recebe dois. Vamos aí? É justo. Vamos lá. Quantos homens pisaram a Lua até hoje? Só homens, ainda não houve nenhuma mulher.
É verdade. E não vai ser desta.
Não vai ser desta.
Vão passar lá perto. Devem estar a passar lá perto agora. 12.
12.
12 e homens, todos.
Todos homens, é verdade. O último disse qualquer coisa como: "Saímos como viemos e, se Deus quiser, voltaremos."
Pois.
Parece que sim. Estamos de volta.
54 anos depois. Ou não, 56 anos depois. Vai ser para aí em 28.
Só em 28. Como é que alguém com mais de 30 anos de experiência no setor espacial, como o Ricardo Conde, assiste à missão Artemis? Com emoção, com expectativa?
A resposta talvez mais direta é: assisto com alguma idade. Isso é bom dizer que tenho muita experiência, mas depois já tenho 61 anos. Eu entrei neste mundo para aí em 92, sinceramente, 93. Foi na altura do primeiro satélite português, com o professor Carvalho Rodrigues.
O POESAT, o famoso POESAT.
O famoso POESAT, é verdade. Foi o pioneiro. Era tão visionário o projeto, que muita gente não acreditou e não se deu continuidade. E a seguir ao POESAT, passado um ano, já estávamos a pensar fazer uma constelação de satélites, coisa pioneira na Europa. Repare bem.
Só agora.
Só agora é que se começa, de facto, a fazer isso. Enfim, uma pessoa tem que nascer no tempo correto.
Gostava de fazer parte da tripulação que, em princípio, em 2028, vai pisar a Lua?
Eu vou dizer aqui uma coisa que vai me envergonhar.
Então.
Não.
Não. É claustrofóbico?
Não é claustrofóbico. Sabem aquelas montanhas-russas ou os arcos?
Sim, os parques aquáticos.
Sim. Em Disney, em Paris, com as minhas filhas, elas disseram: "Vamos ali para aquilo". Tem uns talvez 10 metros de altura, depois aquilo cai.
Sim, cai e pica. Dá mau.
Eu acho que morri duas vezes ali. Não aguento isso.
Eu sei qual.
Não aguento isso.
Você a sentir o estômago na boca não é meu.
O descolar em situações de G e tudo, é uma coisa.
Com os pés bem assentes na Terra.
E diga-nos uma coisa, quando entrou para este setor, esperava que passasse tanto tempo até haver estes projetos de regressar à Lua?
Não esperava mesmo, porque na altura criou-se quase como uma rotina. Mas depois colocou-se aqui na altura o programa Space Shuttle, que se perderam vidas também, e depois os custos, que eram incomportáveis. Para terem uma ideia, o custo de uma missão da Apollo era igual ao PIB português às contas de hoje. À volta de $ 300 mil milhões, enfim. Mas com o evoluir da tecnologia, era esperado que fosse no genoma que eu me candidati. Ir à Lua, inclusive explorar outros planetas e asteroides. Fez-se, mas roboticamente.
Por quê? Por que demorou tanto tempo? Por que houve este interregno tão grande?
Primeiro, as motivações na altura acabaram.
Perdi-se com a questão da Guerra Fria.
Sim, e hoje também, atenção. Nós não estamos num contexto muito diferente, até porque há um silêncio, uma cortina de silêncio muito grande ali pro Oriente, na China.
A China está interessadíssima também.
Sim, e há uma perspectiva de não se sabe muito bem, que a China possa antecipar-se e pousar na Lua. O que abre aqui uma grande confusão: first come, first serve. Quem vier primeiro, aquilo é meu. Onde é que nós já vimos isso?
Sim.
No marco do descobrimento. Nós fomos descobrir coisas já descobertas, apoderamos de algumas coisas. E ali vai abrir um precedente complicado. Há uma corrida também, de alguma forma. Aliás, os pressupostos são os mesmos, é uma extensão geopolítica daquilo que se passa aqui na Terra. Uma conquista, neste momento, nós sabemos que não há nada para descobrir na Terra. Cada centímetro quadrado está descoberto.
As fronteiras são outras. Vamos olhar pro futuro, mas aqui fazendo uma pequena viagem ao passado. Qual o nome do computador no filme "2001: Odisseia no Espaço"?
Eu sei, mas não me estou a recordar.
Parece nome de pastilha pra garganta. Mel e limão faz muito bem.
Com três letrinhas apenas.
Quer ajuda?
Quero, muita ajuda. Mas isso do computador é uma batutez.
Então. Hal, Mal ou Al?
Hal.
Era o Hal.
Depois das pastilhas. E eu até costumo.
Até se cansa.
Exatamente.
É provável que nas próximas décadas tenhamos, por exemplo, bases lunares e viagens tripuladas para outros planetas, ou isso vai continuar Como ficção científica.
Provável é, a realidade vai ser essa. O que é ficção aqui? Nós partimos do princípio, não sei se vocês viram uma fotografia agora, já havia aquilo que se chama o "overview effect", o deslumbramento do nosso planeta. E vê-se nestas últimas fotografias que tiraram, uma pequenina camada, que é o que nos prende à vida, que é a atmosfera, e que nós somos o resultado da evolução de milhares de anos. Nós estamos umbilicalmente ligados à nossa gravidade, à nossa atmosfera, e a nossa permanência em situações diferentes implicará uma mudança completa daquilo que é a nossa condição. Portanto, sim, nós poderemos estabelecer-nos com alguma permanência. E o que é isso, permanência? Reparem que três meses, quatro meses na Estação Espacial Internacional, há uma completa transformação do nosso corpo. A ficção aqui é a sua maior permanência e depois nós pensarmos que vamos fazer uma vidinha como fazemos aqui, comemos uma laranjada, vamos ao cafezinho, pedimos um croissant. Isso não é assim. A nossa vida estabelece-se aqui. Uma profunda alteração genética é que nos permitirá viver, eventualmente, em outras condições, em particular condições com exposição à radiação. Onde é que nós podemos viver? É regressar às cavernas na Lua, porque na realidade, debaixo do regolito, é que nós podemos eventualmente proteger-nos. Ou seja, é um regresso às cavernas.
No espaço.
No espaço. Não sei se é isso que será o epílogo da humanidade.
Portanto, nunca será para todos, não é?
Não é. Repare, 150.000 milhões de pessoas que já viveram no nosso planeta, estima-se.
12.
Só 12 é que lá foram. Portanto, quando se diz que é uma grande perspectiva, não sei.
Vamos continuar a falar da Lua. Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa. Vamos continuar no cinema. Estivemos em 2001, agora vamos para 1902, para "A Viagem à Lua", aquilo que é considerado por muitos o primeiro filme de ficção científica. Está a ver a Lua com o monóculo. Quem foi o realizador desse filme?
Não sei. Mesmo.
Não sabe mesmo? Mas todos nós sabemos. Então com ajuda vai lá chegar, até porque as ajudas são...
São para isso mesmo.
São para isso mesmo. Georges Méliès, os irmãos Lumière ou Manuel de Oliveira?
Esse último acho que não.
Não. Por exclusão de partes.
É os irmãos, não é? Não? Não sei.
Não, é Georges Méliès, que era ilusionista e começou a fazer os primeiros efeitos especiais nos primórdios do cinema. A Lua é, de facto, aquele elemento que sempre foi muito para o homem. Neste momento, em termos científicos, qual é que é a meta mais sonhada em termos de exploração espacial?
Repare, a Lua tem os seus desafios.
Ainda está em fase-
Não, repare, é um grande desafio, a questão de se estabelecer na Lua e de alguma forma aproveitar aqueles recursos da Lua para, como imaginário, ser o ponto de partida para outros desafios. Fala-se em Marte. Sabe que há de alguma forma falar sobre a questão da complexidade de viver na Lua.
Marte.
Chegar a Marte.
Marte é uma ilusão. Será daqui talvez 70 anos. E como lhe disse, a parte da genética vai ter aqui um papel muito importante. Agora, há muitas coisas que ainda estão por descobrir. Há muitos asteroides, inclusive muitas características de muitos planetas, em particular nos seus recursos, que é uma das motivações também da conquista da Lua. Não se fala muito disso, mas a Lua tem aquela palavra mágica, terras raras, que motiva muitas coisas. E há um conjunto também de parâmetros geológicos ainda dentro do nosso sistema solar. E nós estamos a falar ainda dentro do nosso sistema solar. Depois há o espaço profundo, que telescópios como a Hubble, como a James Webb, começam a desvendar, que é um bocadinho à procura daquelas respostas da génese da vida. Por que nós estamos aqui os quatro a falar? Há perguntas absolutamente essenciais da nossa existência. Repare algo que é absolutamente fantástico. Repare esta caneta que eu tenho aqui, isto é composta de átomos. Oxigênio, carbono, hidrogênio. Mas nós também somos. Mas que guião é que isto tem? Que guião é que têm os nossos átomos para se juntarem, para nos caracterizarem? Mas outra característica é para criarem um cérebro que pensa sobre os átomos, ou seja, é algo absolutamente fascinante. Portanto, é quase excepcionalidade.
E acredita-se que essas respostas poderão estar lá fora?
Sim, claro que sim. Nós somos feitos do pó das estrelas. Os nossos átomos são os mesmos da Nebulosa de Orion, da génese, da constituição da matéria. É por isso que levanta-nos aqui outra questão, que é aquela velha questão: a inteligência artificial nunca pode ser comparável, em termos cibernéticos, àquilo que possa ser a nossa inteligência? Pois, mas nós somos feitos de átomos E os átomos criaram inteligência, é o corolário que podemos ligar. A inteligência artificial é feita de átomos. Agora deixo
A mensagem. Vamos à próxima pergunta. Tem sete pontos, ainda tem 10 por conquistar.
Isso é um desafio.
Vamos lá. Com que idade Neil Armstrong obteve a licença de voo? Não é quando pisou a Lua, é quando obteve a licença de voo. Quantos anos tinha quando pisou a Lua? Se for mais fácil.
Eu também não sei. Quando é que pisou, agora com os anos. Não sei.
Foi antes de ter a carta de condução. Que teve a licença de voo, não foi que pisou a Lua.
Se calhar aquilo já foi reconhecido. Não sei.
Mas imagino, antes de ter a carta de condução.
Eu tive a minha carta de condução muito-
Tarde. Avançado?
Quase aos 26.
Ele foi muito cedo.
22.
Foi antes de ter a carta de condução. Era miúdo, era um adolescente. Vou dar uma ajuda. 16, 20 ou 23.
20. Foi uma desgraça acertar.
Disse 20, mas estava a pensar em 16, não foi? É, isso.
Mas eu não percebi.
16.
16?
16. Obteve a licença de voo.
Nem sabia que era possível. Só nos Estados Unidos.
As crianças ainda querem ser astronautas? O fascínio ainda se mantém.
Eu acho que a questão das tecnologias espaciais é exatamente pela tecnologia e por aquilo que é a exploração espacial. Pela tecnologia: a robótica, os foguetões, que é isso que faz este imaginário. Mas depois pelos astronautas, para conhecer situações de gravidade. Repare que quando se vê os astronautas da Estação Espacial Internacional, há sempre aquelas experiências, a água. Um bocadinho também, como a Agência Espacial Portuguesa faz com o Astronauta por um Dia, nós organizamos aquela competição Astronauta por um Dia, em que damos a possibilidade aos alunos do ensino secundário terem uma experiência em microgravidade. É muito semelhante.
E continuam a ter procura e adesão?
Sim.
Sempre.
Muito. Este ano, muito mesmo.
Este ano mais?
Sim, muito mais.
Porque terá a ver com esta missão?
Não. Até porque nós abrimos o concurso antes. Tem a ver também com o momento, que nós estamos também num momento de própria Europa.
Querem sair daqui. Querem outra realidade.
Eu acho que quando se sai daqui, mais se deslumbra com o que aqui está. E se nós olharmos para aquilo que são os astronautas e o seu ângulo de visão sobre o nosso planeta, muitas vezes é preciso nós sairmos para apreciarmos o nosso ponto de partida. Mas há esse deslumbramento sobre a exploração espacial e também aquele imaginário que um dia seremos uma espécie cósmica. Ou seja, iremos viver fora daqui, talvez numa condição diferente, não como a condição de carbono que nós somos, mas talvez de silício. Não sei.
O imaginário da base lunar Alpha do espaço 1999. Tão distante.
Sim.
Última pergunta, Ricardo Conde. O curso de Engenharia Aeroespacial, isto está tudo ligado, foi muito pensado. O curso de Engenharia Aeroespacial da Universidade do Porto teve, no último ano letivo, a entrada mais alta do ensino superior. Quanto foi?
Quanto foi a média?
Sim.
Não sei se foi 19 ou 20, acho que foi 19.
É ali.
Agora as décimas não sei, isto depois muda todos os anos.
É entre um e outro.
Está certo. Rigorosamente entre um e outro.
19,5. Se é entre um e outro. Agora estou a pedir a média nós vírgula quatro.
Não, porque era muito redondo, era 19,5. Têm que ser mesmo excelentes alunos. Que saída é que têm estes estudantes?
Os cursos apareceram primeiro na Universidade da Beira Interior, com a Aeronáutica e no técnico, isto em 90, 91, penso eu. E agora quase todas as universidades técnicas têm engenharia aeroespacial. Engenharia aeroespacial é um conjunto de disciplinas transversais a todas as engenharias, matemáticas, físicas, e depois algo dedicado também. Há uma certa diferença entre as várias ofertas cá em Portugal. Aliás, eu penso que a primeira motivação é quem faz estes cursos quer trabalhar no setor. Ou aeronáutica, ou no setor espacial.
E cá em Portugal é possível?
Sim, claro que sim. Nós temos feito um percurso muito interessante durante estes últimos 30 anos, sensivelmente. A nossa entrada na Agência Espacial Europeia foi determinante. Temos à volta de 84 empresas, 80, 84 empresas que trabalham nesta área e já há uma oferta considerável. Depois começamos a ter aqui agendas industriais, empresas que integram, operam. A perspetiva este ano também é de nós termos lançado uma série de satélites. Este ano já lançamos seis satélites, vamos lançar muitos mais, talvez mais do dobro. E depois também há a perspetiva de Portugal tornar-se uma nação de acesso ao espaço e retorno do espaço, ou seja, nós próprios lançarmos os nossos rockets e colocar satélites em órbita e termos regresso de missões espaciais. Portanto, há uma perspetiva que se começa a desenhar, mas que já há um ponto de partida sólido. E há muitos dos nossos estudantes que encontram neste setor já o seu futuro profissional.
E até fora de Portugal, e mesmo na NASA.
É, e não só. Nós olhamos muito na NASA, eu agora tenho que olhar um bocadinho para a Europa.
Faz bem.
A Agência Espacial Europeia. Por exemplo, nós olhamos aqui para o programa Artemis, e em particular o Artemis 2. E falamos na cápsula Orion. Mas a cápsula Orion, a propulsão, o sistema de oxigênio, o power, é a Europa que está a puxar aquilo, é European Service Module. Ou seja, o sistema de propulsão, o sucesso da missão, é impulsionado pela Europa, mas não se fala muito nisso. Porque nós às vezes também nos escondemos um bocadinho nisso. Ou seja, o sucesso do programa Artemis está baseado nas-
Somos demasiado humildes
...no ESM. Sim, e portanto é por isso que "ai, a NASA". O nosso mercado espacial é cada vez mais a Europa e as oportunidades que a Europa tem. Até porque a geopolítica, e nós estamos a olhar aqui para a televisão, aparecem sempre aqui alguns fantasmas cíclicos, que é preciso pensarmos cada vez mais naquilo que fazemos na Europa.
Ricardo Conde, conseguiu 14 pontos.
Isso é uma desgraça.
Antes isto tinha um looping, uma.
Isto é uma desgraça.
Não tenho a noção.
O Nuno Magalhães deve estar a olhar, a ouvir assim.
Mas o Nuno foi totalista.
É, também não conta. Obrigada por ter vindo à Comissão Obrigada.
Obrigado o convite.
Foi um gosto recebê-lo. Muito obrigada.