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Este é o som da comissão de inquérito da Rádio Observador. Hoje é nossa convidada Vanessa Mendes, diretora clínica do Centro de Saúde CUF e que todas as manhãs está conosco ali por volta das 10 para as 7 no podcast "Tratar da Saúde". Bom dia, bem-vinda!

Muito obrigada.

Agora num registo ligeiramente diferente. Não deixa de ser médica.

Mas vocês acordam muito cedo.

Muito cedo. E para falar de temas sérios. São cinco perguntas, cada resposta certa vale cinco pontos, se tiver ajuda e acertar, recebe dois.

Estamos xingados agora a fazer nós de gui-

Não me tratem da saúde.

Vamos lá, então. Na semana passada estreamos este nosso novo podcast, "Tratar da Saúde". Qual foi o título do primeiro episódio?

Não foram muitos ainda, não tenho a obrigação de saber. Neste episódio falamos sobre os smartwatches, falamos da fibrilação auricular. Se não estou em erro, deixem-me pensar aqui um bocadinho, que é para não dizer asneira.

Deixa falar.

Sim. Também era isso.

Estão a me pedir o título.

O título, sim. Não é o líder, é o título. O líder era mais complicado.

Isto é com todo o rigor.

Claro, então tem que ser. Acho que era relógios inteligentes salvam vidas ou só contam passos.

Exato. Em cheio! É isso mesmo. Ainda há muita falta de literacia na saúde?

Há imensa. A verdade é que nós falamos muito nesse programa sobre o AVC. E muitas das pessoas ainda não conhecem os sintomas. Aliás, tivemos agora há muito pouco tempo o caso do Markle, que ficou conhecido de todos nós e que de alguma forma nos ajudou a perceber que tipo de sintomas é que podem surgir, que sinais é que podem surgir. Não vou falar aqui qual o clube futebolístico, para não criar aqui nenhuma rivalidade, mas ainda há pouco tempo a CUF fez uma campanha muito engraçada também no estádio, para as pessoas ficarem despertas. E falava-se da face, a fala e a força. Ou seja, não deixar descair os três Fs: não deixar descair a face, a boca, gritar bem alto e levantar os braços. São coisas simples que as pessoas às vezes não reconhecem. E é preciso efetivamente trabalharmos aqui em políticas de saúde para aumentar a literacia. É fundamental.

E o Doctor Google e o ChatGPT vieram complicar a vida aos profissionais de saúde ou podem ser um apoio até?

Também já falamos sobre isto. Exatamente. Foi esta semana até. A verdade é: podem ser uma ajuda. Na minha visão, enquanto médica, para nós profissionais, podem nos ajudar aqui de alguma forma a procurar melhor evidência, ou seja, agrupam alguma informação que nos pode ser útil, mas sempre com aspecto crítico. No caso do doente, muitas vezes não ajuda. Aliás, há estudos até que nos mostram que antes de uma consulta, a maior parte das pessoas atualmente vão pesquisar. Antigamente era o doutor.

Chegam lá com o diagnóstico feito.

Muitas vezes. Isto acontece. Trazem-nos até uma listinha assim: "Olha, o ChatGPT disse-me isto assim, o que a doutora acha?" E então desconstruir isto às vezes é que é o mais complicado.

Mas dizia antigamente. Antigamente não era assim?

Sim, antigamente não era. Antigamente era quase o oposto. Antigamente o médico era quase Deus e as pessoas acreditavam piamente em tudo que se dizia. Agora há um espírito crítico e eu acho que esta negociação é importante. Acho que tem que se deixar de ter também esta visão tão paternalista do médico e o doente tem que ser incluído no plano. E isso às vezes até nos traz melhores resultados, porque os doentes sentem-se parte do plano e isso faz com que as coisas funcionem melhor. Mas ainda para concluir, o ChatGPT e o Google são ferramentas importantes. Acho que as pessoas podem continuar a usá-las e acho que muitas vezes até para preparar uma consulta, até para perceber um bocadinho o que é que significa aquilo que foi falado na consulta também.

E até para saber o que perguntar.

Exatamente. Mas não podem substituir uma consulta. Uma das coisas que nós falamos no programa é: o ChatGPT não faz exame objetivo e não tem empatia, que eu acho que é também algo fundamental aos seres humanos e que nos distingue. Portanto, acho que é importante manter.

E os médicos têm capacidade de atualização com tanta informação que existe hoje em dia? Têm capacidade de concorrer, por exemplo, com a inteligência artificial ou devem usá-la como uma ferramenta?

Durante muito tempo, para nós médicos, isto foi quase uma afronta. Estudamos tanto tempo e agora vem uma ferramenta que agrupa ali tudo e diz nos tudo em segundos. A verdade, e hoje em dia, cada vez mais existem plataformas de inteligência artificial que agrupam informação já baseada em evidência científica, que nos ajuda muito também. E eu acho que era o que falávamos. O futuro não é a medicina contra a tecnologia, tem que ser o conjunto.

Como sempre foi.

Exatamente. E, portanto, até estes gadgets que aparecem, mesmo os smartwatches, também podem ser úteis para nós. Acho que nada disto deve ser evitado. Temos que incluir e perceber como é que podemos tirar partido destas novas tecnologias que têm surgido.

Vanessa Mendes, a próxima pergunta tem muito a ver com o que estamos a conversar, ou melhor. Mas vamos para os desenhos animados. Não sei se domina bem. Tem um bebê. Tem um bebê.

É, o bebê que já é um bocadinho crescido, mas para mim é sempre um bebê.

Pois, claro.

Que idade tem?

Fez agora quatro anos.

Está na idade.

Então se calhar sabe em que canal passa a série "Doutora Brinquedos".

Ui! Agora apanharam-me. Ele só fez quatro anos, portanto ainda estamos na fase da Bluey e estamos no Spidey. Ainda não chegamos à "Doutora Brinquedos". Isso agora fez-me lembrar o Hospital Avonei Cala, quando estava na faculdade, em que fazia parte do hospital Avonei Cala, era muita gente da "Doutora Brinquedos".

Podemos dar-lhe as três hipóteses.

Quero mais dicas. Não há muitos canais. Há de ser o canal Panda, Disney, uma coisa assim do gênero.

Ou o Canal 2, vamos pensar nestes três. O que acha desses?

O Canal Panda eu conheço bem e eu acho que não é.

Sim, ainda está na fase Canal 2.

Exato. O Canal 2. Também conheço alguns e não acho que seja por aí. Eu vou arriscar na Disney? É? Está a ver?

Muito bem. Pensamento científico aqui.

É mesmo.

É a escolha múltipla dos exames, já estou muito habituada.

É isso mesmo, depois escolta de partes.

E isto passa também pelo desafio do médico na empatia com o doente. Às vezes é preciso explicar as coisas como se ele tivesse cinco anos.

É verdade.

Ao mesmo tempo, com muito rigor. Isso treina-se, é uma coisa que se adquire? É uma necessidade também muito grande numa consulta e também aqui no podcast, seguramente.

Sim. No caso da medicina geral e familiar, nós somos efetivamente treinados para isto. Ou seja, a parte da comunicação é algo que nós treinamos muito durante a especialidade para efetivamente conseguirmos chegar ao nosso doente e termos o impacto necessário. Tem sido um desafio para mim aqui no programa, porque a verdade é: na consulta, o doente, se tem dúvidas, no momento, pergunta, e é fácil eu conseguir explicar. No programa, não. Ou seja, eu tenho que criar aqui um alinhamento que seja percetível para toda a gente.

Até pela duração do mesmo.

Exato. Ainda há pouco tempo, acho que até disse na altura um palavrão, que a Maria João ficou a olhar para mim: "Dislipidemia. O que é isto?" E para nós é algo que é muito comum. Faz parte da nossa gíria médica, mas as pessoas podem não entender. Tem a ver com a parte do colesterol, uma elevação do colesterol. Logo a seguir, corrigi para que toda a gente conseguisse perceber. Mas efetivamente, isto é algo que se treina. Não é fácil, principalmente aqui quando estamos a tentar comunicar, eu acho que é fundamental.

Claro, porque há a questão do tempo. Os temas são escolhidos com que base, Vanessa?

Nós tentamos sempre desmistificar alguns mitos, tentar trazer temas que estão muito falados no momento. E depois também trazer aqui algumas efemérides, dias importantes, para também falarmos sobre alguns temas que possam ser importantes. Tem sido por aí o caminho.

E para garantir diversidade.

Exatamente.

E já que falamos em comunicação e simplificação, Vanessa Mendes, para quando aulas de caligrafia para os médicos?

Por acaso, ainda não sei como é que a Vanessa Mendes escreve. Caligrafia, temos de testar isto.

Não é mau. Os doentes às vezes dizem assim: "Doutora, não parece ter a letra de médico". E eu costumo dizer: "Ainda não a estraguei". Isto porque antigamente os médicos escreviam muito. Não havia computadores e agora escrevemos tudo em computador. É por isso que eu digo "ainda não a estraguei", porque ainda não escrevi o suficiente para conseguir estragar. Acho que está a melhorar.

Muito bem. E por falar em médicos, vamos aqui a uma informação divulgada há pouco tempo, na semana passada. De acordo com os últimos dados, quantos utentes não têm médico de família no SNS?

Eu, como médica de família, tenho a obrigação de saber essa. Essa aí era impossível eu não saber. O número de doentes sem médico efetivamente é muito alto. Nós acabamos o ano, não sei precisar exatamente se é 1,5, se é 1,6, mas há de ser por aí.

É 1,6.

Pronto. Acho que era 1,55 no final do ano.

Sim, e entretanto aumentou. Portugal tem uma das médias mais baixas de anos de vida saudável depois dos 65 anos na Europa. A falta dos médicos de família é uma das explicações para esses valores?

Exato. Sim, e há até aqui um paradoxo, porque nós somos dos países da Europa que têm uma maior esperança média de vida, ou seja, um bocadinho acima da União Europeia, mas depois a nível de anos de vida saudável, estamos um bocadinho mais atrás. E aqui eu diria que tem muito a ver com as nossas políticas de saúde, porque temos políticas muito mais reativas à doença. E menos preventivas. E aqui é que entra efetivamente o papel do médico de família. Nós temos a mais-valia de poder acompanhar o doente ao longo da vida. Esta continuidade de cuidados faz toda a diferença. Faz toda a diferença porque conhecemos o nosso doente. Conhecemos o histórico pessoal, o histórico familiar, os hábitos, os fatores de risco. E aqui a parte da prevenção é fundamental, porque se eu conhecer bem o meu doente, eu consigo prevenir o que quer que seja.

E há aqui uma diferença: é que por vezes as pessoas que não têm médico de família conseguem ter acesso mesmo assim a consultas nos centros de saúde com outros médicos. Não é uma questão de falta de acesso a esses cuidados, por vezes mais demorado, mas o problema é que não há um acompanhamento ao longo da vida por parte do mesmo clínico.

Efetivamente, esta resposta existe e é quase uma resposta Hercúlea dos colegas que estão no SNS. Mas são momentos pontuais. Normalmente, é doença aguda. Não se trabalha aqui a parte dos rastreios, não se trabalha aqui a gestão da doença crônica. E depois há efetivamente alguns eventos, e por isso é que vemos depois aqui os enfartes que existem, os AVCs, porque imaginem uma diabete que esteja controlada, uma insuficiência cardíaca que esteja controlada, provavelmente vamos ter muito menos internamentos, temos muito menos episódios de urgência. E aqui é importante destacar que o facto de não termos médicos de família para todos em Portugal sobrecarrega muito o sistema. E aqui fala-se mais uma vez muito das urgências e da pressão que existe nas urgências, e tem muito a ver com isto.

Com aquilo que acontece a montante.

Exatamente.

Vamos em frente. 12 pontos para já, só faltam mais 10. Todos os meses se assinalam várias datas especiais. No domingo, por exemplo, celebramos o Dia da Mulher. Hoje é Dia Mundial do Rim. Um abraço para o teu primo, Paulo, que só tem um.

Isto é uma private joke. Isto já não é private?

Não é private.

Que é basicamente aquela piada do: eu tenho um rim.

Tenho um primo.

Que não tem um rim e é engenheiro.

Ok. Bem, continuando. Amanhã é o Dia Mundial do Sono, dia que nos é muito querido, é o nosso. Para a semana temos o Dia do Pai, no dia 19. E o Dia Mundial da Felicidade, quando é que se celebra?

Este mês. Lá está, nós temos trabalhado aqui os dias todos. Eu vou sair deste programa, vou sair a saber. É que pertence, exatamente, é em todos os dias. Nós trabalhamos isto, o da felicidade é dia 20. Que é o mesmo dia até do da saúde oral. Agora já sei isto tudo.

Vamos dar destaque ao da saúde oral.

Exatamente.

Mas sobre a felicidade, o último grande retrato à saúde mental dos portugueses é muito desanimador. Portugal é o país mais deprimido da União Europeia e fora dela só a Islândia toma mais antidepressivos. O que se passa conosco? Como é que se reverte este resultado?

Eu não sei se nós somos o país efetivamente o mais infeliz, sei é que a porcentagem de portugueses com perturbação psiquiátrica em Portugal é muito alta. Isso nos faz pensar um bocadinho na saúde mental e no que vivemos. O que nos dizem os números é que, efetivamente, principalmente em idosos, a porcentagem é muito alta e mesmo o consumo de antidepressivos também é muito alto no nosso país. Eu diria que tem muito a ver com o envelhecimento da população. Com o fato de a população ser envelhecida, temos também o isolamento social, que é importante.

Mas depois também temos muitos jovens com burnout, ansiedade.

Isso. Mas eu acho que isso aí tem muito a ver com os nossos hábitos da vida moderna. Porque dormimos mal. Agora começa a haver uma mudança de hábitos nos jovens, muito mais exercício físico, e isso é bom, porque o sedentarismo é péssimo para a saúde mental e o exercício físico vem ajudar. Ainda bem que estamos a mudar esses hábitos. Estávamos a falar do sono. Mesmo a parte das relações interpessoais, as pessoas estão cada vez mais em casa.

Mais fechadas.

Mais o computador, e portanto também nos falta isso. E eu acho que é muito por aí, pois também podemos pensar na parte da sobrecarga da doença crônica. Temos muitos doentes que se isolam muito, porque também estão incapacitados, etc. E eu acho que Portugal tem muito este problema.

Nós temos esse retrato que parece até quase contraditório. Temos uma grande esperança de vida. Somos dos países com maior esperança de vida.

Mas com menos saudável.

Com menos qualidade de vida.

Exatamente.

Estava aqui a falar de hábitos que cada um de nós deve ter, mas é também um dos falhanços do nosso sistema de saúde, não fazer essa literacia para a qualidade de vida.

Era o que falávamos há pouco. Ou seja, nós apostamos pouco em prevenção e somos muito mais de políticas reativas. Eu acho que o fato de nós termos uma esperança média de vida muito alta tem a ver com o fato de nós sermos bons a tratar e a nossa saúde, apesar dos poucos recursos que tem, é boa, é das melhores da Europa. Mas depois, efetivamente, falta-nos a parte da prevenção, porque se nós conseguirmos ter os nossos doentes crônicos controlados, conseguirmos ter os nossos rastreios feitos a tempos melhores, provavelmente conseguimos antecipar muitos problemas e evitar uma série de questões.

E dar-lhes mais qualidade de vida. Em relação à saúde mental, ainda é um tabu para as pessoas?

Começa a ser cada vez menos. Eu acho que estes números têm vindo a aumentar em Portugal, porque as pessoas estão mais despertas para isto.

E não têm vergonha.

Antigamente, as pessoas estavam deprimidas e não o diziam.

Ou não iam a um psicólogo ou a um psiquiatra.

Isso. Havia muito tabu antigamente. Eu acho que cada vez mais estamos a conseguir desconstruir isso e ainda bem. Acho que é um tema cada vez mais falado.

Mas aí temos o problema seguinte, que é não haver psicólogos, psiquiatras suficientes, e os que existem são muito caros, portanto, torna inacessível para muitos portugueses.

É verdade.

Desculpe interromper. O consumo de antidepressivos.

Somos dos países mais altos.

É excessivo? Ou seja, muitas vezes os médicos prescrevem porque é a solução mais fácil?

Eu não diria que é a solução mais fácil, mas muitas vezes pode ter a ver com alguma falta de tempo, para podermos estar com o nosso doente. Os psicólogos têm essa grande vantagem, porque normalmente as consultas são mais duradouras, consegue-se falar sobre alguns temas, desconstruir algumas coisas.

E trabalhar também outros aspectos, não passa logo pela medicação.

Exatamente. Trabalhar algumas estratégias para as pessoas conseguirem estar menos ansiosas, conseguir alguma melhoria do humor. Quando nos chegam, muitas vezes já vêm num estado mais avançado. E, portanto, a medicação tem que fazer parte do plano ou pode fazer parte do plano, e por isso, a nível público, há uma grande medida que é na parte da desprescrição das benzodiazepinas, que foi algo que há uns anos era muito prescrito para dormir, para ansiedade, etc. E agora percebe-se que cria um alto grau de dependência e estamos a tentar voltar atrás. Mas efetivamente foi algo que há uns anos era muito comum. Mas continua a ser muito prescrito, por exemplo, na parte da menopausa. As mulheres, muitas vezes estas alterações do humor são interpretadas como depressões, etc. E muitas vezes é só a parte da menopausa e dar uma ajuda na mulher nesta fase e muitas vezes o humor melhora.

Já que fala nisso, deixe-me só perguntar se mulheres e homens são tratados de forma diferente pelos médicos.

Não, não são tratados de forma diferente. A depressão normalmente acontece mais em mulheres, mas no homem, por exemplo, normalmente são mais graves. Eu acho que é importante olhar para o doente, vê-lo como um todo, e temos que perceber o que está a causar, como é que podemos trabalhar, mas acho que não é diferente. Cada doente é um doente e temos que olhar para ele de forma personalizada.

Muito bem, Vanessa Mendes. Vamos para a última questão?

Vamos. Está a correr muito bem. 17?

A caminho dos 22. Eu acho que este teste é fácil.

Esta agora eu posso falhar.

Não vai falhar. Mesmo que quiser, essa não vai.

Eles têm andado a ouvir o nosso podcast.

Claro. Qual é a principal causa de morte em Portugal?

Essa é fácil. Essa se eu falhar será muito crítico. Sim, também já foi falado.

Passava já nos recursos humanos da Culpa se der essa.

Eu não ouço os episódios todos.

Não, mas esta aqui é conhecida e temos trabalhado. A propósito também do AVC, são as doenças cardiovasculares, o AVC é das principais.

E apesar disso, das causas de morte, já aqui falámos também da pouca qualidade de vida, mas também do aumento da esperança de vida média. Vamos viver até que? Aos 120 daqui a 11 anos? Com os avanços tecnológicos, científicos, farmacológicos.

Certo. O tema da longevidade é cada vez mais falado. Hoje em dia tentamos antecipar uma série de coisas, umas com mais evidência, outras com menos. Eu acho que o mais importante é vivermos com qualidade. Eu acho que nós não queremos viver até aos 100 se andarmos aqui dependentes.

A sofrer.

Isso. Eu acho que a tecnologia vai nesse caminho. Depois é preciso acompanhar com todas as políticas sociais, para também dar apoio para as pessoas se sentirem bem, se sentirem felizes. Honestamente, não sei se o caminho é chegar aos 100, nem sei se queremos chegar aos 100. Eu acho que queremos é chegar o mais tempo possível com qualidade, aproveitar.

Chegar bem. Não é chegar aos 100, mas bem.

Isso mesmo. Tens uma pergunta?

Tenho uma pergunta.

O teu repique.

O repique o quê? Dos maus hábitos?

Sim. Queremos reacionar. Estamos aqui. Assustam-me assim.

Vamos aos AVCs como principal causa de morte. Sabemos que há uma série de maus hábitos, más práticas que podem aumentar o risco. E qual é a pior de todas? Alimentação, tabaco, falta de exercício físico? Para os que querem tirar nota.

Queremos, claro que sim. Eu acho que não há, na verdade, a pior de todas. Eu acho que é um efeito cumulativo e infelizmente, quem tem um evento cardiovascular, normalmente soma muitas. Aqui, permitam-me falar, mas eu tenho mesmo que falar sobre este tema, tem a ver com o excesso de peso e a obesidade. Mais de metade da população portuguesa tem excesso de peso ou obesidade, e este é um tema que temos que falar.

Também é um reflexo de maus hábitos, de vários.

Isso mesmo. Há um ponto importante também a destacar. A obesidade já é considerada uma doença crônica e não tem a ver só com maus hábitos. Isso também é preciso ser desconstruído, porque as pessoas olham para as pessoas com obesidade e acham sempre que é porque comem mal, porque não fazem exercício. E não, há muitos outros fatores, nomeadamente genéticos, que efetivamente tornam aquela pessoa mais suscetível a ter excesso de peso ou obesidade. Isso também tem que ser um tema falado. Mas depois tem a ver, sobretudo, com alimentação, com a parte do sedentarismo, com o tabaco. É uma série de fatores, que depois nos tornam mais suscetíveis a efetivamente termos aqui um evento cardiovascular. Eu não diria que há um no top dos tops, mas há vários. Depois também temos aqui a parte da alimentação com o consumo de sal. Somos também dos países da Europa que mais consome sal e aqui o nosso pão, por exemplo, tem sal. Hipertensão também é um dos principais fatores para a parte da doença cardiovascular. Há uma série de fatores, muitos associados ao estilo de vida, que podemos efetivamente interferir, mas tem muito a ver com a mudança de hábitos.

Portanto, é difícil dar um conselho genérico. Obviamente, cada caso é um caso, mas um conselho máximo para alguém é tudo. E uma coisa leva à outra, na verdade. Quem faz mais exercício físico, se calhar tem menos tendência para fazer muitas asneiras na alimentação.

Eu acho que as novas gerações, por acaso, estão nos aqui a ajudar, e ainda há pouco tempo falava nisso num congresso, porque fala-se muito da doença cardiovascular, do colesterol elevado, etc. E eu acho que este paradigma, se calhar, vai mudar daqui a uns anos. Honestamente. Porque vemos pessoas muito mais preocupadas com a alimentação, com o exercício físico e eu acho que nós temos é que encarar. Eu acho que até então nós olhamos muito, e eu contra mim falo também, porque exercício físico para mim é um pouquinho de sacrifício. E tem que deixar de o ser. Nós temos que olhar para o exercício, para estes bons hábitos de alimentação, como algo que faça parte da nossa vida.

Incluir na agenda.

Exatamente.

Porque senão quando chegar à nossa idade, vai sentir-se prejudicado.

E mesmo os pais têm que incutir também isto nos filhos.

Às vezes são os filhos que educam os pais.

Eu acho que agora isso está a acontecer, mas é um exemplo que temos que passar de geração em geração, ou seja, mostrar que efetivamente praticar exercício, ter bons hábitos, faz parte da nossa vida e não é um sacrifício. E eu acho que vamos conseguir ter melhores resultados quando isso assim for.

Muito bem. Ouviram a doutora, certo?

Ouvimos sim. Já sabes, Paulo. Atenção ao sal.

Vamos todos agora fazer uma corrida.

Vanessa Mendes, correu muito bem. 22 pontos.

Boa.

Três no máximo. Obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Muito obrigado.

E até amanhã, aliás, 18h53.

Sim, lá estaremos.