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Está na hora da conferência de imprensa das manhãs, 360. Não sei se alguma vez vos aconteceu olhar assim pra uma casa e pensar: "Bem, deve ser incrível viver ali". Acontece-me muitas vezes.

E depois vês que é a tua casa. Ai, não.

Às vezes também.

Também.

É incrível para se viver. Bem incrível, adorava ter as chaves daquela casa. Pode até ter graça imaginar, mas para os donos dessas casas tão desejadas, as fotografias para as redes sociais mudaram completamente a experiência de viver assim num lugar engraçado. O artigo é da CNN Portugal, conta a experiência de vários moradores de bairros pitorescos de Londres, como Alice Johnston, que vive há anos no famoso bairro de Notting Hill, do filme da Julia Roberts e do Hugh Grant. Diz que tem mixed feelings sobre este bairro amado pelo Instagram, porque diz que já assistiu aos comportamentos mais loucos, tudo com o objetivo de tirar a fotografia perfeita. Conta que uma vez estava com um amigo a passear o buldogue francês do amigo, quando uma turista lhes perguntou se lhes podiam emprestar o cachorro.

Já ouvi dizer disso.

Para uma fotografia rápida. O amigo e o cão lá consentiram. A instagramer posou com o animal em frente de uma brilhante porta azul e acabou a oferecer £5 como sinal de agradecimento. Mas nem sempre as coisas correm bem. Ela conta que num domingo de Páscoa foi acordada às 6h por adolescentes franceses a tirar fotografias na porta de fora da casa dela. Noutro episódio, estava a vestir-se depois de tomar banho e havia um idoso a tirar uma fotografia à sua janela. Diz que até hoje fica nervosa sempre que se lembra disso, porque foi quando se apercebeu que a sua privacidade estava ameaçada. E quando as casas privadas se tornam atrações turísticas, chegam a existir confrontos. Nas zonas rurais, os moradores podem colocar vedações ou outro tipo de barreiras, mas quando essas casas estão nas ruas das cidades mais movimentadas do mundo, o que é que podem fazer os habitantes? A Alice conta que há uma casa num tom rosa pálido, perto também de Notting Hill, que se tornou um lugar tão popular para as fotografias, que os moradores desistiram de tentar fazer com que os turistas respeitassem as distâncias. Em vez disso, colocaram uma caixa para doações e pedem que contribuam com dinheiro para causas de caridade em troca de uma fotografia. A Alice Johnson diz que tenta ser compreensiva com os viajantes que chegam à sua cidade. Lembra-se que também ela gostou de andar a tirar fotografias em zonas históricas, como o bairro de Alfama, aqui em Lisboa. E diz que encontrou recentemente algumas fotografias dela própria, em adolescente, no carnaval de Notting Hill, ainda antes de se ter mudado para a capital britânica. Diz que adora viajar e por isso tenta ser compreensiva quando outras pessoas viajam para o sítio onde vive. Só pede que respeitem os limites, o que muitas vezes não acontece. Este é só um exemplo, há muitas outras histórias de outros moradores. O artigo é longo e mostra o lado cor-de-rosa, mas também o menos simpático de se ver nos bairros mais instagramáveis. Está na CNN Portugal.

Eu vou a uma notícia do "El País" sobre falsos culpados em Espanha. "Falso Culpado" era um título de um filme do Hitchcock e aqui também há muitos falsos culpados, porque pela primeira vez um estudo identificou as sentenças revistas desde a entrada em vigor do atual Código Penal Espanhol, em 1996, até 2022, e este estudo contabilizou 88 inocentes condenados a penas de prisão. Isto de um total de 243 condenações erradas. É um número relativamente baixo se comparado com o dos Estados Unidos, em que a taxa é nove vezes superior, mas os peritos que analisaram estas condenações acreditam que seja possível encontrar mais erros judiciais no futuro. Este artigo fala de alguns casos de sentenças que foram revertidas, mas que não resultaram na libertação dos condenados. É o caso do marroquino Ahmed Touhmouy, que continua preso numa prisão catalã, apesar de ter sido ilibado de um dos crimes pelos quais havia sido condenado. Está na prisão desde o início dos anos 90. Também diz que já não acredita numa indenização do Estado espanhol. Desde uma reforma de 2015, caso surjam novos elementos, pode pedir-se a revisão da pena e não é necessário provar a inocência, basta simplesmente que se prove que não deviam ter sido condenados, que haja alguma dúvida. Antes era necessário que os novos elementos provassem definitivamente a inocência, agora basta que determinem a absolvição. A dúvida razoável passa a servir também para quem já foi condenado. O que pode facilitar a revisão de algumas penas, como aconteceu com um homem que foi condenado por três violações na mesma noite, na mesma cidade. Entretanto, foi absolvido de uma delas porque se provou que o ADN não era o dele, mas as outras duas condenações mantiveram-se embora as provas fossem apenas circunstanciais, ou seja, não havia provas forenses de que tenha sido ele o autor dos crimes. Foi apenas identificado, mas da primeira foi absolvido, o que não foi suficiente para o tirar da prisão. A maioria dessas condenações erradas não implicava pena de prisão, mas trabalho comunitário ou multas. Agora, 36% sim, ou seja, 88 das 243 sentenças erradas. Entre os fatores que mais contribuem para estas condenações erradas estão, de acordo com os autores do estudo, más práticas dos agentes implicados, seja advogados, polícias, procuradores e juízes, a aplicação incorreta da ciência forense e erros de identificação por parte de vítimas e de testemunhas. A inspiração para dar visibilidade a estes casos de falsos culpados em Espanha nasceu de uma série bastante popular da Netflix, "Making a Murderer", em que um homem nos Estados Unidos luta para provar a sua inocência. E eu fiquei com vontade que também se fizesse o mesmo cá em Portugal, para termos uma ideia do número de condenações erradas que existem. Está no "El País".

Na Economist, uma viagem ao negócio da cirurgia estética. Um trabalho que começa por nos apresentar Peter Makhlouf. Ele faz parte da comunidade libanesa que vive no subúrbio de Boston, portanto nos Estados Unidos, e como tantas pessoas desta comunidade, ele vai a Beirute todos os verões para visitar a família. Recentemente, a viagem anual passou a ter um propósito extra: fazer uma cirurgia plástica. Esta peregrinação plástica tornou-se tão comum que Makhlouf, que tem 29 anos, diz que não conhece ninguém que não tenha feito uma cirurgia plástica. E de facto, ele não está sozinho. Os procedimentos cosméticos têm-se tornado mais baratos, menos invasivos e muito mais comuns nos últimos anos, tanto em países de rendimentos médios, como é o caso do Líbano, como nos mais ricos. E cerca de um quinto das pessoas em países como o Brasil ou a China, dizem que planeiam comprar tratamentos como injeções anti-rugas nos próximos cinco anos. E os jovens estão particularmente interessados. Este negócio da estética médica já é uma indústria de $82 bilhões e as previsões dizem que vai dobrar nos próximos cinco anos. De facto, à medida que as intervenções cosméticas se tornam populares, receber injeções, laser ou ser operado, pode tornar-se semelhante a fazer um check-up anual. É o que diz Marcelo Araújo. Ele é cirurgião plástico no Brasil, país onde a cirurgia estética é muito forte. E ele diz também que estes retoques já são tão comuns entre os jovens que eles até desenvolveram gírias próprias entre eles, fazer ajustes, fazer manutenção, dependendo do tipo de intervenção que vão fazer. Fazer manutenção, exatamente, ou ir à revisão, se calhar. Por seu lado, Tiffany Demers, que é fundadora de uma aplicação chamada UpKeep, em que se podem agendar injeções cosméticas, diz que os jovens de 18 anos não fazem ideia que isso costumava ser estigmatizado num passado recente, nas últimas décadas. E ela diz que hoje, para eles, é como comprar um batom ou um produto de maquiagem. É a mesma coisa, o efeito é o mesmo. De facto, este boom dos tratamentos estéticos foi estimulado em parte pela pandemia. Qualquer pessoa que tenha passado horas em videoconferência pode atestar e testemunhar a angústia de ver o rosto pálido na tela do computador ali mesmo em frente. Assim como um espelho que está colocado num ângulo que não é nada lisonjeiro. Estas chamadas do Zoom destacaram bochechas flácidas, testas enrugadas.

Duplo queixo.

Queixo caído, exatamente. Duplo queixo.

Se estamos a falar de mim desta maneira, eu vou-me embora.

Estamos a falar de todos, se calhar. E de facto, o dinheiro economizado com bloqueios e tempo para se recuperar durante os períodos de confinamento. Não saíamos de casa, não gastávamos dinheiro, poupávamos em transportes, em viagens. Muitas pessoas decidiram passar pela faca. Nos Estados Unidos, em 2021, quatro quintos dos cirurgiões plásticos faciais disseram que tiveram um aumento de pacientes que procuravam procedimentos explicitamente para melhorar a sua aparência em videochamadas. Portanto, para corrigir o tal efeito Zoom.

Portanto, o que fosse para baixo não interessava.

Exatamente. E estes negócios aumentaram obviamente nessa altura, devidamente. E este boom do Zoom, como se chama neste setor, parece ter acelerado a indústria, mas já estava em andamento antes disso, agora disparou de alguma maneira. Quando a cirurgia estética descolou nas décadas de 80 e 90, era privilégio das estrelas de televisão. A queda de custos, a tecnologia, estão agora a democratizá-la, tanto em países mais ricos como nos chamados países em desenvolvimento, que têm rendimentos menores. A China e o Brasil são exemplos disso, que já foram citados aqui, mas com uma classe média cada vez maior. E está-se a tornar vulgar fazer aquela intervenção, como é que é? O ajuste ou a manutenção?

A manutenção.