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Está no ar a conferência de imprensa da Rádio Observador. Continuamos a olhar pra crise política, Carla. Continuamos. Os jornais continuam cheios de artigos. O Diário de Notícias tenta perguntar ou tentou perceber, com a ajuda de politólogos, se António Costa morreu politicamente ou não. O artigo é do Leonardo Ralha, que fala efetivamente com alguns politólogos. E há aqui um spoiler alert que começa logo no início do artigo, pois a maioria não acredita que, de fato, o António Costa possa ter uma segunda vida política. Mas há nuances que me parecem interessantes. Desde já, José Adelino Maltez lembra que provavelmente este processo vai demorar anos e, portanto, não, António Costa não está em hipótese de voltar a exercer outro cargo político. Mas Patrícia Calca reconhece também que as coisas mudam muito rapidamente e diz que a informação disponível já não é a que pensávamos na semana passada. A realidade hoje já não é a mesma e a narrativa conta muito, notando que precisamente aquela declaração de sábado passado em São Bento mostra que vamos ter pela frente uma campanha midiática muito feroz, e quem é responsável pelas crises é normalmente responsabilizado no momento eleitoral seguinte. E, portanto, se houver uma percepção generalizada de que as suspeitas do Ministério Público têm indícios relevantes, então o PS poderá ser penalizado, lembra esta politóloga, tal como o PCP e o Bloco de Esquerda foram penalizados pelo chumbo do Orçamento do Estado em 2022. Então, e o objetivo do Blaiem? A questão também é colocada, e é aqui que há a nuance. Os politólogos lembram algo que passou relativamente despercebido no tal discurso de sábado de António Costa. Ele disse que não voltará a exercer cargos públicos, mas acrescentou depois a palavra executivos, cargos públicos executivos. E é aqui António Costa Pinto, um outro politólogo ouvido, que reconhece que se a Justiça for célere, tal como Marcelo sugeriu, ou mesmo Augusto Santos Silva ontem à noite, a hipótese da total ilibação de António Costa pode, de fato, abrir caminho a uma candidatura às presidenciais de 2026, porque aí não há um cargo executivo. Ainda assim, António Costa Pinto lembra que nunca houve um caso de um primeiro-ministro inocentado. E outro dado também, os partidos tendem a não recuperar politicamente aqueles que foram vítimas de suspeitas judiciais, mesmo que não se comprovaram. E dá exemplos, o socialista Paulo Pedroso ou o social-democrata Miguel Macedo. É pra ler aqui no DN algumas nuances e olhares sobre aquilo que se sabe hoje sobre a crise política. Júlio, e tu, o que escolheste para hoje?

Posso ser eu.

Ou o Pastor.

Podes.

Queres pegar?

Quer, pega tu, Paulo. Pegando ainda em António Costa e no futuro político dele, eu fui ao Politico, à versão, se quiserem, edição europeia do jornal americano, que se ocupa essencialmente de temas da União Europeia, precisamente que faz as contas a esta saída de António Costa e o impacto que isso pode ter, de fato, nos arranjos da família socialista europeia em cargos de topo da União Europeia. O Politico começa por dizer que, de fato, o centro-esquerda da Europa tinha esperanças de que António Costa conseguisse um papel importante em Bruxelas, como parte daquela grande divisão de cargos importantes após as eleições europeias de 2024. Costa poderia ser, de fato, a escolha dos socialistas para suceder a Charles Michel como presidente do Conselho Europeu, isto a partir de novembro de 2024, portanto, daqui a um ano, quando termina o mandato do belga no cargo. As regras, aliás, impedem que Charles Michel cumpra um novo mandato e, portanto, Costa era um dos nomes pensados para este cargo. Bom, mas esse plano desmoronou, de fato, quando o primeiro-ministro português apresentou a demissão, isto depois da polícia ter feito buscas na sua residência oficial. E embora Costa tenha renunciado, ele permanecerá, por enquanto, no cargo como primeiro-ministro interino. Eu estou a ler pra nós percebermos mesmo os termos que estão utilizados, pra percebermos como é que de fora olham para isto. Como primeiro-ministro interino, até que novas eleições portuguesas sejam realizadas em março do próximo ano. Bom, ele não foi considerado culpado de qualquer ilícito, diz o Politico. Claro, sabemos, e ainda pode acabar, de fato, por aceder a um cargo em Bruxelas. Não seria a primeira vez, diz o Politico, que um alto funcionário da União Europeia seria nomeado após estar envolvido num escândalo no seu país. Dois exemplos que o Politico recupera: em julho de 2014, portanto há quase 10 anos, Jean-Claude Juncker foi eleito presidente da Comissão Europeia, isto um ano depois de ele ter apresentado a demissão do cargo de primeiro-ministro de seu país, no Luxemburgo, após um escândalo que envolveu os serviços secretos do país, que teriam tido má conduta sob a sua tutela. Portanto, um dos casos. Outro caso, o da sucessora de Jean-Claude Juncker, a atual presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que foi envolvida num escândalo quando era ministra da Defesa alemã, com uma alegação de contratos duvidosos e muito lucrativos que o seu Ministério da Defesa teria atribuído a consultores externos sem a devida verificação e supervisão. Ainda assim, um e outro acederam ao cargo de presidente da Comissão Europeia. Mas, aqui diz o Politico, o sistema jurídico português é notoriamente lento. O caso de corrupção indiciado contra o antecessor socialista de Costa, José Sócrates, em 2014, ainda está em curso, diz o Politico, e poucos esperam qualquer tipo de clareza sobre a situação de Costa dentro de um ano. Ou seja, pode haver casos de pessoas envolvidas em escândalos, mas eles têm que estar esclarecidos na justiça de seu país para acederem a cargos europeus, coisa que o Politico diz que provavelmente não acontecerá com António Costa. E uma alternativa a obviar Costa no plano europeu seria o espanhol Pedro Sánchez, que segundo rumores, seria um dos principais candidatos ao cargo de secretário-geral da NATO em junho passado, mas Quando ele parecia estar destinado há uns meses a ser afastado do poder em Espanha, sabemos a reviravolta que deu. Aliás, hoje está a investidura de Sánchez no governo espanhol e esse cenário está afastado, porque após 15 semanas de negociações com os partidos de esquerda e com separatistas catalães, consegue continuar primeiro-ministro. Plano C na Europa para sendo político, a ex-líder finlandesa Sanna Marin, ou então outro nome nórdico, a primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen, que poderá ter dificuldades, neste caso esta dinamarquesa, em defender as suas duras políticas de imigração perante outros socialistas europeus. Portanto, tudo em aberto com estes problemas, se quiserem, ou esta evolução na Península Ibérica, tudo em aberto também no plano europeu. Não está fácil a vida da família socialista na Europa.

Para ler no Político.

No Político.

José Carlos.

Eu costumo receber aqui, e vocês também, às tantas, um jornal digital, mais ou menos, que é o Mais M, Mais Marcas, Mais Meios, Mais Mercados, que a diretora executiva é Carla Borges Ferreira, que normalmente traz boas análises, boas notícias também, é bem feito. Basicamente, não conheço, conheço só pelo que recebo no e-mail. E desta vez começa com esta pergunta: a comunicação de crise, a vitimização como estratégia. E então o que foi feito em função daquele que é o plano melhor da situação que vive o país? Perguntou a vários especialistas se do ponto de vista de comunicação, a crise está a ser bem gerida. A opinião é quase unânime e os especialistas são estes, são conhecidos: António Cunha Vaz, João Tocha, Luís Paixão Martins, Maria Domingues Carvalhosa e Vítor Cunha foram ouvidos com esta questão. Vou tentar resumir aqui rapidamente. Dizem eles: "António Costa esteve muito bem quando apresentou a sua demissão perante a nota do gabinete do PGR. Depois fez uma segunda intervenção que teve aspetos positivos, quando esclarece a importância de projetos de investimento pelos quais se bateu para que se concretizassem em Portugal. Já no que se refere às declarações sobre Lacerda Machado, foi um momento de emoção e de nervosismo que não devia ter sucedido. Quanto aos dois visados que lhe eram próximos, deveria ter aplicado a presunção de inocência dos mesmos e aguardado por mais informações." Esta é uma das opiniões, eu já disse os nomes, portanto, isto vai mudando de nome para nome. Este especialista aponta como falha grave de António Costa a não exoneração e retirada de confiança ao ministro João Galamba, que há muito se tornou um fator de turbulência e de problemas para o executivo. Diz ele: "Quando observei o anúncio público da instalação do data center realizado pelo primeiro-ministro, a leitura da sua linguagem corporal, da oralidade, fizeram-me comentar que ele não estava muito firme naquele anúncio." Outro especialista avalia a estratégia do ainda primeiro-ministro como acertada dentro do possível, resultado como mau, como tinha de ser. A estratégia foi a possível, era difícil ser diferente, com a contínua publicação de investigações em curso, que às vezes prejudicam e outras beneficiam os possíveis provocadores. Só se pode reagir, comenta este, muito fez o primeiro-ministro na contenção de danos, com as surpresas a que tem sido sujeito no que à atuação do governo tem dito. Ou seja, lato sensu, diz ele. Por sua vez, acredita que a habitual boa comunicação de António Costa fê-lo beneficiar da indulgência dos jornalistas. Nenhum o questionou se soube se era mesmo apenas por causa do último parágrafo do comunicado do PGR que se demitia. Daqui por diante, o primeiro-ministro demonstra que é mestre e terá tido ajudas, o dinheiro encontrado, a má imagem pública do Galamba e a classificação sem nexo de Hugo Lacerda Machado, porque é seu amigo e não por possivelmente ter feito algo menos próprio. E vai por aqui adiante. Já não temos mais tempo, provavelmente. Mas fica aqui uma ideia. Sobre estes dois momentos de comunicação do governo tiveram impacto invulgar e apenas explicável pelo alarme social provocado pelas fugas de informação do Ministério Público. Isto diz outro dos especialistas.

Recorta o jornal?

É mais. Que eu recebo todas...

Online, não é?

Sim, online. E por acaso devo dizer, é muito bem feito. E tem muitas notícias, normalmente, muitos artigos e também muitas análises.

Rádio Observador, Vila do Conde