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Este é o som que dá início a mais uma conferência de imprensa na Rádio Observador. Todos os dias, a equipe das manhãs 360 destaca histórias, artigos da imprensa nacional e internacional, tudo para partilharmos consigo. E Júlio Magalhães, como não poderia deixar de ser, já boleia contigo, vamos rumar norte, não é?

É isso mesmo, vamos até Braga para algo que ontem eu vi e li, que tem alguma curiosidade. Vai começar um festival em Braga. É um festival de criações artísticas com coletivos de vários artistas na dança, nas instalações, teatro, novo circo. Não vai começar, até já começou ontem à noite. Que vai ser em sítios pouco habituais, este festival, na Biblioteca Pública, no Parque das Camélias e nas Sete Fontes. E vai pedir também a participação do público. É algo muito especial que já está acontecendo na cidade de Braga nestes três dias. E como é que se chama este festival? Performance, Paisagem e Património, ou seja, é o denominado Festival dos 3P. E sabem por quê?

Por quê?

As três palavras começam por P.

Isso é uma coisa. Porque Braga é conhecida há muitos anos pela cidade dos 3P, mas que não são estes, que é: padres, prostitutas e homossexuais, sendo que prostitutas e homossexuais não se dizia assim.

Claro.

E então este festival tem por objetivo acabar com essa carga pejorativa que Braga tem há muitos anos, de ter esta marca que não gostam.

Não é um bom marketing territorial.

Não é um bom marketing territorial. E então este festival, como ele começou ontem, foi feito precisamente para isso, para passar a ser performance, paisagem e património, para substituir padres e prostitutas.

E os outros Ps.

E os outros Ps.

E quem conhece Braga mais de perto sabe que é uma cidade com uma dinâmica cultural.

Braga é uma cidade magnífica, cultural, moderna, com universidade, com empresas, com tecnologia, é uma cidade extraordinária e com muita história, sobretudo história religiosa.

Claro.

E, portanto, era para vos trazer aqui esta curiosidade, porque é de facto uma curiosidade. Vocês não sabiam, pois não?

Não fazia ideia desses três Ps.

Nem de passado, nem de presente.

Mais Ps.

Que os Ps do futuro sejam melhores do que os de antigamente. Bom, vamos agora até Inglaterra. Convido-vos a virem comigo, não poderia deixar de ser, para irmos ao Jubileu de Platina da Rainha, mas com uma estrela improvável, que descobri ontem quando vi na televisão as cerimônias, mas que depois, em mais detalhe, descobri também no artigo do Observador. Esta estrela improvável foi Louis, o neto da Rainha. Não sei se tiveram a oportunidade de ver toda a performance do pequeno Louis.

Eu também já vi o artigo do Observador. Vá-se lá saber por que escapou-me a cerimônia, mas vi o artigo.

Não vi.

Então, basicamente, Paulo, o pequeno Louis, o príncipe Louis, fez tudo o que uma criança normal faz. Pôs dedos na boca, foi repreendido.

No nariz.

No nariz.

Se põe na boca já não é mau, exatamente.

No nariz, foi repreendido pela mãe, gritou quando aqueles aviões que passaram por cima do Palácio de Buckingham fizeram imenso barulho. Portanto, ele gritou, tapou os ouvidos. Há, inclusivamente, diversas montagens que já circularam pela internet. Uma delas até parece aquele, lembram-se daqueles macaquinhos que tapavam os olhos, o nariz e a boca? Há uma montagem desse gênero.

O macaquinho estúdio.

Há, inclusivamente, uma da Rainha a dizer que amanhã, ou seja, hoje é sexta-feira, e ele com as mãos nos ouvidos a gritar. Foi uma estrela improvável deste jubileu da Rainha que, apesar de tudo, também nos lembra que independentemente de serem monarquia e realeza, são pessoas de carne e osso.

O sangue, a cor do sangue, no fundo, no fundo.

E as crianças são sempre crianças, como é evidente. Ainda bem que o são, digo eu.

Este artigo está na seção de lifestyle do Observador, é observador.pt, foi escrito pela jornalista Rita Porto. Vale mesmo a pena passar por lá ver os vídeos e as montagens, porque estão absolutamente deliciosas.

Muito bem. Olha, eu reparei numa reportagem que está no The Guardian, no jornal inglês, não sobre o jubileu, mas vamos para outras paragens, vamos para a China, porque é uma reportagem que nos dá conta de mentalidade de apocalipse, consumo de vingança e êxodo, isto numa Xangai que acaba de ser libertada. É uma reportagem feita na cidade, nesta grande metrópole chinesa, porque esteve dois meses sob forte confinamento e agora vive, de facto, dias de libertação, uma libertação que está a ser vivida entre a alegria daquilo que está a acontecer, mas também o receio de que as restrições por causa da pandemia regressem. A reportagem começa por nos apresentar a Daphne, de 26 anos, uma especialista de marketing que nos últimos dois meses diz que foram vividos por ela como um delírio de febre. Nunca tinha passado por nada disto. Passou os últimos 76 dias quase sempre dentro do seu apartamento, por causa da política chinesa de Covid zero. Bom, ela e os 26 milhões seus vizinhos em Xangai. Esta quarta-feira estavam todos, quase todos, tirando aqueles que estão de fato infectados, livres. E tal como aconteceu o confinamento no início, que foi muito surpresa, também o desconfinamento veio sem pré-aviso. As autoridades também já avisaram que esta abertura é condicional e, de facto, passaram algumas horas para que algumas ruas fossem novamente isoladas, fechadas de alguma maneira, depois de conhecidos mais alguns casos positivos de Covid.

Mesmo assim, nem a incerteza travou a euforia coletiva desta libertação. Daphne diz que estão a viver uma mentalidade como se fosse o apocalipse. É viver cada dia como se fosse o último. E o que é que se faz então nesta Xangai libertada? Muitos foram fazer enormes filas para os restaurantes preferidos, que tinham saudades, como é evidente, comida preferida. Outros foram para lojas de artigos de luxo, naquela prática que se chama de revenge spending ou vingança através das contas. Aqui a Siri já estava a participar da nossa conferência de imprensa.

E cortar o cabelo, Paulo. Desculpa, estraguei-te o punch. Ninguém foi cortar o cabelo, se calhar em Portugal foi o que aconteceu.

Muita gente, de facto. E alguns para corrigir também os cortes de cabelo feito em casa.

Também.

Durante o confinamento.

Aqui me acuso.

E os cabelos brancos e essas coisas todas.

A reportagem do Guardian não refere isso, mas diz que a principal estação de comboios de Xangai ficou cheia, a abarrotar de pessoas desejosas de sair um pouco da cidade, que onde estiveram retidos à força aí dois meses e outros simplesmente andaram a passear pela cidade, usando aquele imenso e pequeno prazer.

De sair de casa.

Só uma última nota: as autoridades chinesas proibiram agora os órgãos de comunicação social de utilizar a palavra lockdown ou confinamento, se quisermos, para classificar o que aconteceu nestes últimos dois meses. Dizem que aquilo que aconteceu nos últimos dois meses deve ser referido, eu vou ver aqui a tradução em inglês, static management style suppression, qualquer coisa como supressão de gestão estática. É uma espécie de operação militar especial, digamos, Chinese style, neste caso, à chinesa e aplicada à pandemia.

Estavas a falar disso e estava a me fazer lembrar quase uma montanha-russa de confinamentos, mas daquelas montanhas-russas em que não se consegue ver a próxima curva.

Não sabemos o que está à frente.

Eu não trago uma reportagem. Parei num artigo de opinião do Washington Post por causa do título e acho que vocês também iriam ler, e devem, recomendo mesmo. O título é: "Uma simples foto pode mudar o mundo, eu sei porque eu tirei uma que mudou". Mais ou menos. Estamos a falar de que foto e quem é o autor deste artigo. Nick Ut, o autor daquela foto do Vietname, da rapariga a fugir do ataque, da menina na estrada a fugir de um ataque de napalm sem roupa. E a questão de uma fotografia que pode ou não acabar com a guerra é uma eterna questão e que está a ser tão discutida e que volta a ser levantada por causa da guerra na Ucrânia. E temos o privilégio de ler a história desta fotografia e tudo o que aconteceu a seguir, na primeira pessoa, pelo autor da foto, com muitas fotografias à volta daquela no momento e do que se seguiu. E está quase a fazer 50 anos esta fotografia. Foi tirada no dia 7 de junho de 1972, numa pequena vila, Trang Bang. O fotojornalista conta que tinha lá ido fazer o trabalho de reportagem. Esta vila já estava destruída pelos bombardeamentos, nem se sabia se havia lá muita população. Perto do meio-dia já tinha tirado as fotos todas, estava a preparar-se para regressar a Saigão, quando vê um avião começar a lançar bombas de napalm. Então pega na câmera para voltar a fotografar aqueles momentos, sem saber se havia vítimas, mas rapidamente elas começam a aparecer e ele descreve, e podemos ver algumas dessas fotos também no artigo. Primeiro uma mulher com a perna esquerda queimada, depois uma mulher mais velha com um bebê ao colo que lhe morre à frente da câmera, outra mulher com outra criança ao colo com a pele a descascar, é a expressão. Até que houve gritos de uma criança, qualquer coisa como: " !" A dizer: "Estou a arder". Esta criança corre na direção dele, a tirar a roupa na aflição com o calor do napalm. Ele tira várias fotos, uma é aquela que nós todos conhecemos, a miúda pé d'água. Ele então deixa a câmera para trás e a partir daí esquece do trabalho, atira-lhe água para o corpo para arrefecer. Erro, não se faz, é muito doloroso. Ele não sabia na altura que não se deve deitar água sobre pessoas queimadas. Depois desse socorro rápido, transporta todas as crianças que foram atingidas pela bomba na carrinha da Associated Press, para quem ele trabalhava, para o hospital mais próximo. O hospital estava tão cheio de pessoas queimadas que disseram que não o podiam receber. E ele aí socorre-se da sua função, mostra a carteira profissional e diz: "Se uma destas crianças morrer, garanto que o mundo vai ficar a saber do que se passou". E diz que não se arrepende desta decisão. A miúda acabou por ser assistida. Queimaduras de terceiro grau em 30% do corpo. Ficou cerca de um ano em vários hospitais, em unidades de queimados, e o fotógrafo foi sempre visitando-a, e a relação mantém-se até hoje, com algumas intermitências, e o tempo já está a acabar, mas vale a pena perceber quem é esta mulher hoje em dia. Ela odiou a fotografia que a tornou famosa, mas agora entende que isso lhe deu um propósito de vida. Graças à fotografia, conseguiu um visto para viver no Canadá, onde vive com o marido e com dois filhos. Ela, que acreditava que com as queimaduras não ia conseguir ter alguém que gostasse dela, e gosta mesmo. O que diz este fotojornalista? Diz que agora deseja que se um soldado russo se cruzar com uma rapariga ucraniana a precisar de ajuda, que tenha o mesmo impulso que ele teve naquele dia e alguma moral da história. Termina este artigo a dizer: "Estou orgulhoso da minha fotografia, das emoções e de toda a polêmica que se criou à volta do mundo. A verdade continua a ser necessária e se uma simples foto pode fazer a diferença, talvez ajude, de facto, a acabar com uma guerra e talvez, então, o trabalho que eu estou a fazer ou que fiz na altura continue a ser vital ainda hoje em dia". Leiam, por favor, no Washington Post.

Fica também essa-

Magnífico.

É incrível, não está não. E vejam as fotos, é incrível.

Mas a forma como contaste foi absolutamente arrepiante. Vale mesmo a pena ler. Fica feita mais uma conferência de imprensa na Rádio Observador antes das 20:00 e a qualquer hora em podcast.

É magnífico isso.

Rádio Observador