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Aconteceu há 100 anos, começou em Braga, terminou a 6 de junho de 1926, na Avenida da Liberdade, em Lisboa. A queda da Primeira República foi liderada pelo General Gomes da Costa e viria a dar origem, anos mais tarde, ao Estado Novo. Que revolução foi esta? Que impactos teve no Portugal dos anos seguintes e até no regime político que hoje vigora? É isso que vamos debater no Contracorrente de hoje com o José Manuel Fernandes e a Helena Matos, a que se vão juntar vários convidados ao longo das próximas duas horas. Pode acompanhar-nos também em vídeo nas redes sociais do Observador. É uma transmissão realizada em direto pelo Bruno Canas, onde pode deixar os seus comentários sobre este tema. Pode também usar o nosso número de telefone 91 002 4185 e enviar-nos uma mensagem de áudio através do WhatsApp. E claro, pode ouvir-nos a partir de agora na Rádio Observador, com a condução da Carla Jorge Carvalho. Bom dia, Carla.

Bom dia, Nelson. Vamos então recuar 100 anos, a 28 de maio de 1926. Iniciava-se em Braga uma revolta militar que resultaria na queda da Primeira República. O general Gomes da Costa marchou sobre Lisboa quase sem oposição, pois já quase ninguém defendia o regime saído do 5 de outubro de 1910. O Estado Novo de Salazar só começaria anos mais tarde, em 1933, mas o regime que então se iniciava e que se autodefiniu como sendo uma ditadura militar, não tinha obrigatoriamente de conduzir a Salazar, pelo que vale a pena perceber por que os revoltosos de maio triunfaram, por que quase ninguém quis defender a Primeira República e também tentar encontrar paralelos entre o que se passava no Portugal de há 100 anos e os desafios dos dias de hoje. É o que vamos fazer hoje no Contracorrente. José Manuel, essas comparações são uma tentação. O nosso regime pode estar em risco, como esteve a nossa Primeira República?

Para responder diretamente à tua pergunta, eu diria, nos mesmos termos, não. Em termos de pensarmos que há algumas questões com que nos temos que preocupar, sim. E eu diria, talvez a principal questão com que nos temos que preocupar é não o paralelo das circunstâncias exatas, não o paralelo de poder haver o mesmo destino, até porque as circunstâncias, de facto, são muito diferentes, mas sim algo que na história dos nossos últimos dois séculos é de alguma forma recorrente. E o que é recorrente é o facto de nós termos tido sucessivos regimes, uns democráticos ou aproximadamente democráticos, outros não, mas que quando começam a necessitar de reformar o que quer que seja, acabam por não o conseguir fazer e caírem sem que ninguém os defenda ou praticamente os defenda. Se reparares, nós tivemos um fim da monarquia e uma revolução republicana em 1910, que também praticamente ninguém defendeu a monarquia. Exceto o Pádua Couceiro, que ainda tentou salvar a honra do convento, o rei e os monárquicos foram sem resistência maior. Não quer dizer que eles depois não tivessem voltado a ter tentativas de restauração monárquica, mas não é isso que está em causa. O regime não tinha quem o defendesse, em boa parte já tinha acabado antes. Já tinha acabado antes quando a tentativa reformista, que foi com João Franco, ainda com o rei Dom Carlos, terminou com o assassinato de Dom Carlos e, portanto, não conseguiu produzir resultados. Depois tivemos a Primeira República, e a Primeira República também termina numa altura em que não é apenas aquilo que se fala muito, que é a instabilidade, que é isso, que é aquilo, que é aqueloutro. É um regime que acaba por ele próprio perder, na minha perspectiva, moralmente toda a sua validade na Noite Sangrenta, em 21 de outubro, quando são assassinados alguns dos seus fundadores e o próprio primeiro-ministro António Granjo. E quando se percebe, eu diria, definitivamente, que não há maneira de naquele regime haver alternativa à alternância, a não ser o Partido Democrático, o partido que criou um sistema em que ele tinha que estar sempre no governo. O partido de Afonso Costa, na altura, António Maria da Silva. As próprias tentativas que são feitas pelos últimos governos, que continuam a mudar com muita frequência, por exemplo, de pôr as contas certas, porque esse é um tema que já era tema na monarquia e volta a ser tema na República, isso também não leva a lado nenhum, também é fracasso. Quando há o momento em que Gomes da Costa faz a sua proclamação, aquilo basicamente é uma proclamação, não há confrontos.

É um passeio na avenida.

É um passeio na avenida. Em muitos aspectos, é tão pacífico ou ainda mais pacífico que o nosso 25 de Abril. As tropas vêm por aí abaixo, estavam a muitos dias a escala de Lisboa, ainda há umas tentativas de sair ao caminho. Vinte manhã, não há um Pádua Couceiro, há um Sousa Dias no Porto, que ainda tenta, mas os soldados dizem: "Não, não estamos para isto, não queremos, não vamos disparar contra eles." Aquilo cai. Aliás, quando chega a Lisboa o Gomes da Costa, já um outro almirante. Já o governo se tinha demitido, já o presidente da República tinha entregue o poder a um outro oficial-general, um almirante, neste caso.

Cabeçadas.

Cabeçadas, Mendes Cabeçadas.Que ele tinha que ir. E depois temos, 48 anos depois, o 25 de Abril, que também ninguém defende. Ainda há um brigadeiro das tropas de cavalaria, cavalaria são tanques, ou carros de combate, como aprendemos a dizer agora por causa da guerra da Ucrânia, que ainda sai ao caminho dos nossos capitães de Abril, mas que não tem discussão nenhuma, há aquela cena no Largo do Arsenal e aquilo acaba logo, e portanto não há resistência. E se repararmos, volta a haver também uma incapacidade de desatar os nós. Aqui não há uma crise económica como havia na Primeira República, o país até está a crescer economicamente nessa altura. Em 73, com a crise do petróleo, tinha havido um solavanco, mas a seguir a 73 tinha havido vários anos de crescimento económico exponencial, rapidíssimo, no final da década de 60, a partir da entrada na EFTA. Mas o tema difícil, que era a guerra colonial, não estava resolvido. Marcelo Caetano não tinha conseguido fazer as reformas que ele queria fazer e aquilo, mais uma vez, morre sem que ninguém defenda. E toda a gente, de um dia para o outro, adere à nova situação. Coisa que se tivéssemos visto o Estado de Avalado apenas umas semanas antes a saudar o Marcelo Caetano, não diríamos possível. Mas foi assim que aconteceu, como de alguma forma já tinha acontecido também no final da monarquia e no final da Primeira República. Estamos numa situação semelhante? Nós podemos dizer que no que diz respeito à capacidade de fazer reformas, eu diria que sim. No que diz respeito a tudo o resto, eu diria que não. Nós hoje temos um tipo de instituições completamente diferente, temos uma condição económica que não se compara, temos, sobretudo, um enquadramento internacional que é extraordinariamente limitativo. E aquilo que tinha muito poder em qualquer um destes momentos, que são para todos os efeitos as Forças Armadas, nunca estariam para aí viradas numa altura destas. Na queda da Primeira República, nós temos umas Forças Armadas inflacionadas por causa da participação na Primeira Guerra Mundial, sobretudo com imensos oficiais e gente que nunca mais acabava de encher os quartéis. No final do Estado Novo, no anterior regime, também tínhamos umas Forças Armadas, por causa da guerra em África, enormes e a ocupar grande parte do bolo do orçamento de Estado. Agora não é esse o caso e também não é essa a cultura, e portanto a integração é completamente diferente. Não vejo riscos desse lado. Mas independentemente disto, eu acho que vale a pena, se olharmos por esta perspectiva, que é perceber como é que em Portugal se vão criando bloqueios que depois não são desfeitos, e ao não serem desfeitos, criam situações de apodrecimento, pode não ser o apodrecimento completo, mas de degradação dos regimes, eu acho que isso vale a pena debater, mesmo que as circunstâncias não vão levar à mesma saída, nem sejam exatamente as mesmas. E eu acho que é importante falar disso, porque nós temos falado muito pouco. Falamos muito, por exemplo, do fim da monarquia, da instauração da República, de uma forma bastante gongórica até. E agora não falamos do fim da República quando era importante perceber por que a República acabou e não viver ainda em mitos. É esse o propósito, não viver ainda em mitos. E reparem, nós vivemos em mitos. Nós temos pessoas que continuam a ter influência na forma como olhamos para isso, porque continuam a ser apresentados como historiadores, quando são políticos. Estou a falar, por exemplo, do Rui Tavares, que ainda aqui há uns meses dizia: "Este é o ano em que temos que nos lembrar de como acabou a democracia no 28 de maio." A verdade é que no 28 não havia democracia. Para mim, o principal critério para definir se um regime é ou não democrático, não é saber se tem eleições de vez em quando, é saber se consegue substituir de forma pacífica os seus governos, mandar embora quem está no poder. E a Primeira República falhou redondamente esse teste. Aliás, há duas alturas em que isso acontece, acontece primeiro em 1915, onde chega Pimenta de Castro ao poder e imediatamente há uma revolta popular, militar e com centenas de mortos em Lisboa. E depois há novamente, em 1921, com republicanos mais conservadores do que os radicais do Partido Democrático, e são novamente postes na rua, não é mando militar exatamente, mas com violência. E de facto, os governos ganhavam sempre as eleições e os governos eram do Partido Democrático ou dominados pelo Partido Democrático, não havia alternância. Pode haver muitas outras coisas, a instabilidade, podemos falar da Formiga Branca, que eram as milícias populares do Partido Democrático, podemos falar disso tudo, mas a chave é perceber, nunca houve verdadeiramente alternância pacífica. E as poucas vezes que também havia de haver, ela acabou em sangue, com momentos sangrentos, 1915, 1921. Ora bem, não podemos mitificar este regime, como boa parte das oposições mitificaram durante muitos anos e continuam a falar-se disto. E é importante não mitificar, porque aquilo que eraFoi complicado na Primeira República, não foi apenas ser um regime parlamentar que não conseguia gerar maiorias estáveis. Não foi só isso, foram muitos outros fatores que fizeram com que o regime falhasse todas as suas promessas. O regime prometeu que ia baixar o analfabetismo, não o fez, ia aumentar a participação na educação, não o fez. Pelo contrário, houve indicadores que se degradaram durante este período, que ia haver crescimento económico, não aconteceu nos termos em que haviam sido prometidos. O país, durante a década de 20, tem um dos seus períodos de empobrecimento relativo, estamos a falar de comparação com a Europa, com os principais países europeus mais complicados, nos séculos 19 e 20 não é o único, mas é um dos períodos realmente complicados. É um regime que não entrega aquilo que promete e que cria mecanismos que são, na prática, opressivos. Hoje, há uma expressão que tem vindo a ganhar relevo, que é a ideia de que nós temos democracias plenas, os liberais, e depois democracias eleitorais. A democracia eleitoral, e depois temos autocracias. A democracia eleitoral são aqueles regimes onde há eleições, mas não se cumpre o tal critério dessas eleições acontecerem.

De poder haver uma passagem tranquila de poder.

Uma passagem tranquila de poder. Depois isso tem vários graus, aquelas instituições internacionais que vão analisando a saúde das democracias falam-nos disso, mas aqui era, porventura, até pior do que isso. O outro equívoco, o outro mito muito ligado ao 28 de Maio, é a ideia de que no 28 de Maio já lá estava tudo. Aliás, é uma coisa que o próprio Estado Novo alimentou. Salazar vai fazer discursos a Braga, há um filme famoso chamado "A Revolução de Maio", em Todos os Santos celebrava-se o 28 de Maio, aqui em Lisboa havia uma Avenida 28 de Maio, agora é a Avenida das Forças Armadas, aqui perto de onde nós estamos, ali no Campo Grande. Portanto, estas coisas todas criam essa ideia que havia continuidade. Ora, o 28 de Maio é um bocadinho como o 25 de Abril em termos de confusão. Há uma diferença grande. Não é tão grande como isso, porque os generais são um bocado puxados, são líderes, mas têm mais papel do que tiveram os generais propriamente no 25 de Abril, na operação do golpe de Estado, digamos assim, ou do pronunciamento. Se bem que depois, como todos sabemos, logo nessa noite do dia 25 de Abril, nós tínhamos os generais na televisão, naquela Junta de Salvação Nacional. Aquilo tinha ali tudo. Tinha de tudo, tinha monárquicos, tinha republicanos de esquerda, republicanos de direita, republicanos conservadores, tinha católicos, tinha ateus, tinha tudo aquele movimento, porque de facto, o regime anterior estava tão saturado que já ninguém o travava. O próprio partido no poder já desejava o seu fim de alguma forma. Portanto, temos uma situação que, em muitos aspetos, devíamos perceber depois o que se passou a seguir, porque o que se passa a seguir também tem algumas semelhanças com o que se passou no nosso 25 de Abril, que é nós termos sucessivamente três presidentes. O Gomes da Costa vai para o exílio rapidamente. Aliás, ele politicamente era uma pessoa muito confusa, como alguns dos nossos protagonistas do 25 de Abril. Muito confuso, ele tinha aspetos de esquerda radical e direita radical, tinha as duas coisas. Uma das pessoas, por exemplo, que depois vai ter um papel importantíssimo na ascensão de Salazar e no próprio salazarismo, que é o General Carmona. O General Carmona tinha sido ministro durante a Primeira República, era um republicano, era um maçom, fazia parte da maçonaria. É alguém que, por exemplo, inclusivamente tem um papel importante no julgamento, que não é um julgamento genial, digamos assim, do que se passou na Noite Sangrenta, julgo que era o presidente do tribunal. Não é propriamente aquilo que nós imaginamos como sendo alguém que está ali para fazer a ruptura com a Primeira República, não é um monárquico, não é um católico conservador no sentido tradicional do termo. Agora, nós temos que perceber outra coisa, que é: a Primeira República tinha criado uma tal aversão ao regime na maior parte da população, que isso abriu caminho ao que veio a seguir, e o que veio a seguir foi indiscutivelmente uma ditadura. Curiosamente, no princípio, aquilo chamava-se ditadura militar. A primeira vez que ouvi o termo ditadura militar, sabes onde é que foi?

Não.

Eu, a uma altura, tinha um dentista que ficava ali numa rua ao lado do Liceu Camões, aqui em Lisboa. E havia um edifício do outro lado da rua, que tinha lá uma plaquinha que dizia assim: "Construído no tempo da ditadura militar." Eu, por exemplo, olhava para aquilo, ditadura militar, mas então alguém se orgulha disso? Olhavam-se mesmo. Não era um termo que nós dávamos. O Estado Novo não se autointitulava de ditadura, se bem que fosse um regime autoritário e ditatorial. Mas ali não era ditadura militar, o que acontecia, quer-

Porque implicava firmeza.

Repara, primeiro há um aspeto aqui, o termo ditadura, historicamente, mediadamente no século 19, não tinha o significado que tem hojeBasicamente, governar em ditadura era governar com o Parlamento fechado. E as ditaduras muitas vezes eram períodos curtos. O rei, por exemplo, no século XIX, dissolvia o Parlamento, permitia que viesse outro governo, esse governo governava em ditadura, na prática preparava as próximas eleições para as ganhar e depois havia eleições e voltava a haver um Parlamento. Isso aconteceu várias vezes no século XIX e era o sentido, não só aqui, mas noutros países que tinham ditadura. Depois, no princípio dos anos 1920 do século passado, o termo ditadura em si ganhou algum prestígio, digamos, porque as ditaduras estiveram na moda. Havia muitas ditaduras na Europa, porque tinha havido períodos de grande instabilidade política, de grandes crises, Primeira Guerra Mundial, guerras intestinas e, portanto, tivemos ditaduras. A primeira ditadura com características revolucionárias, chamemos assim, é a ditadura mussoliniana, do Mussolini. Às vezes vejo comparações entre a Marcha para Lisboa, do Gomes da Costa, e a Marcha sobre Roma do Mussolini. É um disparate absoluto, não tem nada a ver uma coisa com a outra. Quem conhece minimamente a história do Mussolini e como ele preparou aquilo tudo, como aquilo levou anos, como aquilo foi antecedido por violência organizada do lado das milícias fascistas, mas também havia milícias comunistas, havia de tudo. E como aquilo depois é feito. Aliás, na Marcha sobre Roma, o Mussolini chega de comboio. É uma encenação. Não foi o que se passou com o Gomes da Costa e o que se passa já no final com o Gomes da Costa, quando ele desce a Avenida da República com 15 mil soldados, com o povo a aplaudir, é em parte pelo facto de conseguir ser presidente, porque entretanto o Mendes Cabeçadas já lá estava. E ele acha que eles estão a roubar a revolução. Já é uma guerra entre os próprios revolucionários. É completamente distinto. Mas as ditaduras tinham, nessa altura, esse relevo. Havia a ditadura comunista, havia a ditadura fascista, estamos a caminho de ter a ditadura nazi, havia ditaduras na Hungria, na Áustria, uma tentativa de o fazer, em Espanha tinha havido a ditadura do Primo de Rivera, também com lados que inspiram, de alguma forma, alguns dos militares nesta altura. A ditadura tinha uma outra imagem. Evidentemente, tudo isto vai mudar, sobretudo com a Segunda Guerra Mundial e com a perceção de que são as democracias que triunfam, pelo menos na Europa Ocidental. Portanto, há que perceber estas coisas todas para perceber as diferenças e as semelhanças. Quando olho para isto, de alguma forma, não acho que seja um paralelo que leve às mesmas consequências, mas é um paralelo que me inquieta, é que novamente temos aquela sensação de que não conseguimos fazer reformas de que necessitamos. Só as fizemos quando tivemos cá a troika, uma imposição externa, uma crise financeira outra vez. Agora, respirámos da crise financeira, ultrapassámo-la num primeiro momento, mas há muito discurso que vai novamente e temos um sistema político outra vez muito partido, muito incapaz de fazer o que quer que seja, só que nós estamos sozinhos. Isto é um tema na Europa e não creio que possamos de repente dizer: "Não, isto vai tudo acontecer porque há aí uns populistas que vão ganhar o poder, como ganharam." Na verdade, mais uma vez, as comparações não são idênticas.

Vamos falar sobre isso, aliás, porque temos aqui no estúdio o professor José Miguel Sardica e temos também em linha. Professor, bem-vindo, mas vamos aproveitar agora a oportunidade e o tempo mais limitado do António Costa Pinto, professor, historiador.

Tempo e espaço limitado, por aquilo que percebi.

Tempo e espaço limitado. António, bem-vindo. Ainda assim, ouviu esta última síntese do José Manuel Fernandes, olhando para aquilo que pode ser comparável e o que não, mas é muito tentador olharmos para estes dois períodos. Encontra semelhanças, algum tom comum?

Não encontro semelhanças nos processos, mas o 28 de maio de 1926 enquadra-se, sem sombra de dúvida, numa dinâmica, utilizando palavras que hoje estão na moda, de autocratização, de crise da democracia e de autocratização de muitas democracias na Europa ou regimes liberais-democráticos, independentemente agora do sufrágio universal. Mas eu creio que no caso português, há uma mini vaga. Nós estamos a falar, por exemplo, de Primo de Rivera em Espanha, estamos a falar, por exemplo, de Piłsudski na Polónia. No caso português, tivemos o precedente da ditadura muito rápida de Sidónio Pais. Mas quais eram os três pontos que eu gostava de salientar? Primeiro lugar, memória. Não há memória do 28 de Maio na democracia contemporânea, por duas razões. Em primeiro lugar, porque a memória do autoritarismo em Portugal no século XX foi monopolizada por Salazar e o salazarismo. Ou seja, o 28 de Maio, na construção, aliás, não interessa agora saber se é falso, é claro que é, mas não tem interesse agora saber, na construção do Estado Novo, 28 de Maio foi o primeiro ano da Revolução Nacional, mas a Revolução Nacional é obviamente obra de Salazar. Porque o 28 de Maio foi, em Portugal, muito mais complexo. Foi uma coligação negativa que teve, sem sombra de dúvida, um ponto comum: a crítica ao parlamentarismo, às eleições, neste caso até consideradas eleições não livres e justas, aos partidos políticos e a uma classe política que perdura no poder.Mas foi uma coligação negativa que teve republicanos, militares como Gomes da Costa, que vem tudo menos do fascismo. Teve monárquicos, integralistas, conservadores. Teve até já alguns fascistas, um pequeno movimento fascista, mas na realidade, a ditadura militar, e essa talvez seja a segunda característica que eu gostava de salientar mais importante, é que a ditadura militar é feita por militares que são, em muitos casos, republicanos e que pensam na ditadura como um regime de exceção. Eles pensam em tudo, excetuando o que virá aí, que é, sem dúvida nenhuma, o regime de Salazar. E se me permitem, há um terceiro ponto que eu acho muito interessante e que tem a ver com o general que no meio de todos os conflitos de poder nos primeiros meses, não é verdade? Gomes da Costa desaparece passado algumas semanas, Sinel de Cordes, enfim, não interessa estarmos a dar agora muitos detalhes para os nossos ouvintes. E quem é o homem que vai dirigir a ditadura militar e que se vai legitimar como presidente da República? O general Carmona. E o general Carmona não se transforma em ditador. E poderia ter feito. O general Carmona poderia ter sido um Primo de Rivera, poderia ter sido um Pilsudski. Em grande parte, porque o 28 de maio tem também uma componente republicana conservadora, que mais tarde, evidentemente, após muitos conflitos políticos, alguns de uma extrema violência, a ditadura militar vai conhecer golpes e contragolpes de extrema violência, com dezenas de mortos, vai dar origem então a uma solução política estável, dirigida, como todos sabemos, por Oliveira Salazar.

António Costa Pinto, bom dia, daqui Helena Matos.

Bom dia.

Há, contudo, também uma outra questão e que confrontou esses militares, talvez com a sua impossibilidade executiva, mesmo que em ditadura, e que era a enorme crise financeira. Ou seja, quando eles tentam negociar, e aí seja o Avemferraz ou o Sinel de Cordes, eles tentam negociar o empréstimo, o chamado grande empréstimo.

Claro.

Mas consideram que não podem aceitar as condições da Sociedade das Nações para a atribuição desse empréstimo, que implicava, segundo eles, condições humilhantes, que era serem supervisionados. E, portanto, ao verem-se sem a possibilidade de aceder àquele que era chamado como o grande empréstimo, são obrigados, de alguma forma, a ir buscar aquele que designavam como pessoa competentíssima, mas era só uma pessoa competentíssima, porque eles achavam que era um civil destituído de qualquer habilidade política.

Ele seria apenas o salvador das finanças.

Sim.

Mas transformou-se no salvador de Portugal.

Sim, e viria a fazer ali um trabalho. Eles ainda admitiram que ele fosse o ditador das finanças, depois é que perceberam que ia ser outra coisa. Mas portanto, a crise, a enorme crise econômico-financeira em que Portugal estava, de alguma forma impediu os militares de serem o ditador, porque de todo em todo eles não conseguiam, parece-me a mim. Acharam que tinham de ir buscar alguém que tivesse as finanças em dia.

Exatamente. Eu não quero entrar em debates que eventualmente serão menos quem nos ouve, mas muitas vezes há também fatores de caráter conjuntural e há também fatores de afirmação política. Mas eu gostava de salientar um ponto que tem sido relembrado. A primeira plataforma que é apresentada por Gomes da Costa a um governo da ditadura militar em 1926. Como sabemos, Gomes da Costa vai desaparecer-

Para os Açores

...muito rapidamente da cena. Para os Açores, exatamente.

Ele vai em junho.

É um programa interessante, porque é feito, em grande parte, por jovens integralistas autoritários, e é um programa que diz três coisas, mas a primeira é talvez a mais importante: nós queremos estabelecer um governo que não se baseie no Parlamento, queremos encontrar uma outra forma de representação política, que é a corporativa, ou seja, no fundo, um programa que será mais tarde realizado por Salazar. O que eu quero dizer com isto? Quero dizer que Salazar apresenta-se, sem sombra de dúvida, como o salvador das finanças. Tem um ponto central, que é evidentemente a capacidade com que ele vai controlar o governo a partir do Ministério das Finanças, mas a seguir, convém também não iludir, a eliminação da componente republicana conservadora. A presença de ministros católicos, do centro católico, no governo, vão dar origem a um ascenso de Salazar, que convém não esquecer, cuja primeira instituição política a ser criada é a União Nacional, é a construção de um partido tendencialmente único em 1930, e a partir daí a construção do regime. Mas eu mantenho, Helena.

Sim.

É muito interessante, provavelmente só para académicos, eu tenho certeza, perceber como é que os militares, como é que de vários candidatos, digamos assim, à ditadura, a começar por Carmona, vão mais ou menos pacificamente ceder o poder a um civil.

Na minha opinião, porque tinham medo do Orçamento do Estado, porque note, o Salazar chega a apresentar a demissão ao Carmona.

Sim, mas há outra coisa que eles-

Eles não conseguiam governar. Eles tinham medo.

Eu sei que chega.

Sim, mas eu acho que há um outro fator que, porventura, o próprio SalazarTeve sempre a obsessão de governar com o apoio dos militares. Ele sabia que também precisava dos militares para governar. Nunca quis fazer uma coisa que marginalizasse os militares.

Pois, mas isso implicasse afastar alguns àquela linha que eu estava-

Claro, mas eram eles próprios que faziam esse trabalho.

Porque não se viam fazer o próximo movimento de Estado.

Claro. Como tem uma enorme prudência na construção do seu regime. Muitas instituições vão continuar a ser dominadas inclusivamente por militares. Todo o poder local inicialmente é dominado por militares, todas as instituições, algumas que vão sendo criadas, como por exemplo a censura e outras, militares. Ou seja, Salazar tem a noção clara e aliás, temos que reconhecer, bastante realista, se considerarmos a história do Estado Novo e se considerarmos que os grandes desafios, não quero agora desenvolver o tema, os grandes desafios ao seu regime vêm sempre de golpes de Estado militares, de candidatos da oposição militares, desde Norton de Matos até ao general Delgado. Ou seja, Salazar tem a noção clara da origem do seu regime e por isso é extremamente prudente na sua institucionalização.

António Costa Pinto, muito obrigada por teres vindo ao Contra-Corrente, lançando aqui esta análise e já vamos à passagem do 28 de Maio para um regime ditatorial mais estruturado, mas com o professor José Miguel Serdica, agora sim, muito bem-vindo. Estávamos aqui a tentar ler o ar dos tempos da altura, olhando para o atual, esta ideia de fim de ciclo é a característica mais comum entre este Portugal e o Portugal de há 100 anos.

Muito bom dia, com todo o gosto que aqui estou novamente. Eu acho que as comparações entre aquilo que se passou há 100 anos e aquilo que se passa hoje são fáceis de fazer, são marketizáveis, isto é, ajuda a vender esta história, a aproximar. E nós podemos ter sobre isso uma visão que diz que sim, que há alguma correlação, ou pelo menos há alguma repetição daquilo que eram os impasses a que a República de 1910, 26 chegou, e a nossa situação de hoje. Mas apesar de tudo, o contexto, como já aqui foi salientado, não é exatamente o mesmo. Há duas coisas que eram, na altura, absolutamente óbvias, que era o impasse económico, ou seja, os anos 20 foram efetivamente dos piores anos do ponto de vista social e económico, talvez só comparáveis em instabilidade social e também em incerteza económica aos curtos anos de 1974 a 76. E em relação à economia, deixe-me só dar estes dois números: o custo de vida em Portugal entre 14 e 24, portanto em 10 anos, subiu qualquer coisa como 2600%, o que é 26 vezes mais. Uma nota de mil escudos em 1914 valia 50 escudos em 1924. E portanto, resgatar as finanças era a tarefa fundamental. É aliás por aí que começa o herdeiro disto tudo, que se chama Salazar. Contrariamente ao que às vezes ainda vejo dito e escrito, Salazar não tem nada que ver com 1926. Pese embora ele tenha sido ministro das Finanças durante cinco dias, ali em junho de 26, já lá iremos, mas a situação económica não se compara com hoje. Embora se compare o passado com a nossa atualidade, porque de facto, se nós pensarmos que houve um resgate internacional em Portugal em 2011, portanto 2010 e depois o resgate pedido em 2011, é engraçado constatarmos que estamos em 2026 e, portanto, a democracia tem 50 anos, mas a democracia de hoje, quando digo de hoje, digo desta conjuntura, tem 15 anos. E portanto, nós quase que temos no regime iniciado em 74, 76 e até hoje, meio século, que tem vindo a ser falado, nós temos aqui uma nova república que é a nossa, que é a nova república de 2010, 11 até 2026, oxalá não acabe agora, mas é um ciclo temporal tão curto quanto aquele que foi o de 1910 a 26. E outra coisa que existia na altura e que hoje não existe, não só o condicionamento internacional, nós hoje somos parte de um espaço europeu que tem as suas regras. O que não existe hoje, felizmente, é a intensa militarização das instituições, da autoridade, do clima mental, da retórica pública, a que se assistiu com a guerra de 1914 a 18 e que foi o lastro deixado pelo consulado de Sidónio Pais entre os finais de 17 e o seu assassinato em inícios de 1918. Mas há um outro aspecto que também é muito importante, que é: por que nós hoje celebrámos a República, e bem, celebrámos 74, e bem, até 76, até às eleições de dezembro de 76, que serão evocadas em dezembro deste ano, e por que há uma certa reserva em, eu não digo celebrar, digo recordar ou evocar uma data tão importante do nosso século XX, como foi 28 de maio de 1926? Eu acho que há, na opinião pública, e em face de um certo bloqueio ou de uma certa incerteza que nós hoje sentimos, há o medo de recordar, talvez não como nasceu a ditadura, mas sobretudo como é que se perdeu a República, como é que a democracia republicana, que factualmente não o era, ou já não o era, ou nunca o foi entre 10 e 26, como é que se perdeu e como é que abriu a porta, porque as duas coisas estão interligadas.Um dos regimes mais instáveis, mais incertos e mais violentos, como foi a República entre 1910 e 1926. Como é que este superlativo vai conduzir ao outro, que é a ditadura ocidental, repito, ocidental, porque no leste houve outras que duraram até 1989, mas a ditadura ocidental mais longa. Ou seja, como é que uma espécie de República de Weimar latina, para utilizar o exemplo daquilo que a história da Alemanha nos dá, como é que a versão latina da República de Weimar, e a comparação acaba aqui, porque Salazar não é Hitler, como é que a instabilidade típica da República de Weimar e da nossa república vai conduzir depois a um superlativo enorme, que é 48 anos de ciclo ditatorial, militar em primeiro lugar, e depois civilista e constitucionalizado com Salazar, seis ou sete anos depois do golpe de 28 de maio de 1926. Portanto, o 28 de maio ajuda-nos, desde logo, a revisitar a República, a desmistificar a República, porque sobre a República impende, ainda hoje, tanto na análise histórica como no discurso político em geral, impende aquela visão que é: foi um regime que democratizou um liberalismo elitista e, portanto, deu ao país verdadeiramente como nunca no século XIX tinha acontecido, uma democracia. O que não é verdade, e não é verdade porque o direito de voto recuou, a liberdade de imprensa recuou, a estabilidade política recuou, mas esta é a visão que a esquerda tem. E a visão à direita, de que a República nunca foi mais do que um estado de coisas eternamente revolucionárias, que viveu da violência e do monopólio do PRP democrático, a fação mais jacobina que Afonso Costa liderou entre 1910 e 1917, e que vai servir esta visão. É a visão que depois João Amial e Salazar vão ter e vão justificar o Estado Novo, que é: "nós não queremos voltar", a expressão é deles, "a uma balbúrdia sanguinolenta." E a República ficou assim, digamos que dividida entre aqueles que a elogiam e veem na República uma espécie de farol democrático, que foi depois atraiçoado por uma fronda reacionária nos anos 20, culminando em 28 de maio de 1926, e uma direita que diaboliza a República. E isto tem um efeito, que é não compreender que, apesar de tudo, há uma diferença entre a chamada República Velha, até Sidónio, e depois a chamada Nova República, ou Nova República Velha, porquanto alguns dos atores eram os mesmos, mas outros mudaram, que é uma república que vive uma conjuntura diferente. Ou seja, há erros fundacionais no regime, e eu listaria muito rapidamente não só o isolamento geográfico e sociológico em que a República nasce em 1910, é um regime pequeno-burguês, urbano, radical, jacobino. Depois, um segundo erro que é os democráticos terem criado, de fato, um monopólio que só permitia a alternância pela subversão. E, portanto, a direita, às vezes simplesmente o centro-direita, só chegava ao poder ou por intentonas ou por golpes. Depois a República abriu, é verdade que mitigou a partir de 1918, uma guerra contra a Igreja, contra o catolicismo, e o catolicismo era a matriz identitária do país de que os republicanos se veem líderes a partir do 5 de outubro de 1910. E depois há um outro erro, que esse sim vai ter repercussões depois, a partir de 1918, 1919, que é a absoluta rutura do afoncismo com o mundo laboral. Afonso Costa passou à história com o cognome pouco simpático de racha sindicalistas. E sobre isto tudo, uma última frente aberta que é a guerra, ou seja, o voluntarismo suicidário de utilizar a Flandres como uma espécie de inimigo interno para corrigir divisões internas, para criar uma união nacional, uma união que iria para a guerra e, portanto, que não admitia oposição interna, não admitia discussão interna para defender a África, para impedir a Espanha de qualquer intento anexionista, mas sobretudo para financiar a República e para unir politicamente a opinião pública, ou seja, para obrigar unionistas, evolucionistas, monárquicos a estarem com o governo da República, que era o governo jacobino de Afonso Costa. E a Nova República, quando nasce sob os escombros de Sidónio. Quando nasce, há aqui um fenômeno muito importante que é Fátima, que é o catolicismo redivivo e uma espécie de ingrediente ideológico para as direitas conservadoras, não necessariamente ditatoriais, mas para uma direita conservadora que quer erguer um país novo. E para acabar a comparação com hoje, e aí sim, há semelhanças. Da mesma maneira que nós hoje podemos dizer que temos um partido de governo e duas oposições, aquilo que existia na chamada Nova República era também, voltaremos seguramente a isso, uma espécie de centrismo republicano, que eram os herdeiros que o PRP tinhaUma emergência muito complicada de uma esquerda democrática que nunca verdadeiramente se veio a enraizar e o campo das direitas, algumas delas ainda liberais, outras antiliberais, que assim vai começar a organizar-se e vai começar a capitalizar na ruína económica, na instabilidade, na violência, no colapso da ordem pública generalizado, que a partir de 1918, 19, sobretudo com a chamada Noite Sangrenta em 1921, vai abrir anos muito difíceis ao regime até maio de 26.

Está traçado este retrato de uma forma muito sintética, muito rápida. Professores, tentámos de facto mergulhar no país de há 100 anos, tentar perceber se isto nos trouxe algumas consequências. Helena Matos, isto mostra-nos que somos um país não de reformas, mas de revoluções?

Não quero tirar conclusões para o presente. Já vivi uma revolução, é muito interessante, sobretudo quando se é adolescente.

Não queres passar por outra?

Não, eu queria reformas, porque como é óbvio, as revoluções são muito interessantes, mas em geral comprometem muito aquilo que depois vem a ser a possibilidade dos países viverem, de facto, melhor. Ou seja, muito daquele período muito interessante de 74, 75, 16, mas nós pagamos um preço. As revoluções têm um preço, têm um custo. Em geral, os filhos da burguesia divertem-se bastante, mas os filhos do povo depois vão pagar mais ou menos o preço de tudo aquilo que aconteceu. Portanto, eu espero reformas, sem dúvida. Agora, eu acho que nós temos aqui, em relação a esta espécie de revisitação, que se nota muito agora, tem algumas coisas que se tem ouvido na rádio, lido nos jornais. Eu acho que há uma boa parte da sociedade portuguesa que, na verdade, vive no salazarismo, alimenta-se ideologicamente do salazarismo e se pudesse descobrir, não é três Salazares como a Ventura, era infinidades de Salazares por esse país, esta ideia que temos de estar sempre a lutar contra um fascismo. Salazar, na minha opinião, não foi um fascista, mas sem dúvida ditador, mas não um fascista. Para o caso também não tira nada, porque se tivesse sido fascista teria durado muito menos. Mas nenhum regime que precise de um elevado grau de repressão, sem ser um espaço totalitário, Portugal era um país com fronteiras abertas, as pessoas entravam, saíam, conseguiria ter durado tanto tempo. Hoje nota-se muito isto e nós notamos também isso, por exemplo, em Espanha, a forma como a esquerda espanhola transformou uma coisa, que era uma lei de memória, numa coisa ideológica, acabando na extraordinária ironia de fazer um funeral ao Franco. Quando se começa a andar com os ditadores aos ombros, o senhor pensa: "Houve aqui uma inversão completa." É como se houvesse esta ideia de que estão reproduzidas as condições para um novo 28 de maio e que, portanto, nós temos de estar sempre em luta. Isto acrescido uma outra coisa, que é a ideia de que o 28 de maio aconteceu num país que era uma democracia. Portanto, a ideia de que havia ali uma democracia mais ou menos plena, o 28 de maio interrompeu essa democracia e existem agora condições para que se reproduza um novo 28 de maio. É como se houvesse, sobretudo numa esquerda mais radical, a ideia de, não havendo amanhãs para anunciar amanhãs que cantam, então tornarmo-nos uma espécie de cativos do passado. Boa parte das nossas discussões hoje levam ao passado. Há um passado e nós poderemos repetir esse passado. É como se estivéssemos sempre a viver nos anos 30, nos anos 50, sempre toda aquela linguagem. É um despropósito, nada daquilo faz sentido, mas nesse sentido, o 28 de maio, até porque Salazar não começa com o 28 de maio, 1926, ele vem em 1928, já aqui foi dito, quer o José Miguel Sardinha, quer o António Costa Pinto, o José Manuel também referiu isso. Aquilo que nós temos é um golpe. Não me parece sequer muito bem organizado. Houve coisas muito melhor organizadas. Eu acho que acontece num período de absoluta exaustão e desistência, sobretudo da parte dos republicanos. Ou seja, ninguém consegue mobilizar-se para defender aquilo. Nós tínhamos tido a Noite Sangrenta. Quando Machado Santos é morto, o que ele diz é: "Rapazes, matam um republicano." Já não há mais para dizer. Aquilo é um açougue, a forma como matam as pessoas, aquilo tudo. Estão com elas numa caminhonete por Lisboa. O que é aquilo? Quando se teve de acabar, se teve de mandar a guarda republicana, e foram os republicanos que fizeram isto. Teve-se de mandar a guarda republicana para fora de Lisboa, porque, na verdade, ela estava transformada numa milícia de setores do Partido Republicano. Acontece que há um governo que não consegue tomar posse. E não consegue tomar posse, o chamado governo dos cinco minutos, porque o homem que o vai chefiar, estamos a falar na RepúblicaPercebe o que o esperava. Ele já está no Palácio Belém para o que o António José de Almeida lhe der esse posto, que começa a perceber o que vê à volta, que a sua vida e a dos seus ministros vai ser muito preene. Quer dizer, nós estamos a falar de um período em que se punham sindicalistas amarrados às locomotivas de comboio. Estavam ali, não podiam sair dali, amarrados ou não amarrados, para que os comboios pudessem circular.

Explicar, para que não houvessem atentados contra os comboios. Porque também o sindicalismo tinha um lado anarquista.

Sim, ia perguntar por aí. Eram muito os anarquistas?

Sim, o movimento sindical é sobretudo anarquistas na Primeira República. Aliás, o Partido Comunista Português, ao contrário do que é habitual na maior parte da Europa, os partidos comunistas nascem dos partidos socialistas, em Portugal nasce do anarquismo, são figuras que vêm do sindicalismo anarquista para os primeiros dirigentes comunistas em Portugal.

Portanto, as elites republicanas têm, de alguma forma, um exaurimento de tudo aquilo. Olhando para a República, eu não acho nunca que tivesse havido programas governativos consistentes, programas de como governar Portugal. Eu tenho sempre muito medo quando as pessoas dizem: "Nós vamos governar porque somos as direitas ou somos as esquerdas", mas não chega a dizer que são as direitas ou que são as esquerdas, têm que dizer mesmo como é que pensam governar, ao que vêm, o que querem fazer para a educação, para a saúde, para o orçamento. Porque aquilo que nós notamos é que eles levam anos a dizer que são republicanos. Pois, eram republicanos, mas isto não chega. E acaba num processo que quando se chega a 1926, na verdade, o Gomes da Costa veio por aí abaixo, mas também ninguém lhe foi ao encontro para que ele não viesse. E depois fica ali, nem sei o que vem, eles vão lá falar com ele. Porque isto também se prende, e também aqui foi referida esta ideia da ditadura como interregno. A ditadura como interregno é algo que remonta a um período notável da história, que é o Império Romano. E quando o Império Romano se começa a debater com todas aquelas questões, que depois levam ao seu declínio, interpreta a ditadura, a ideia de ir buscar um ditador, como um período de regeneração. Eles vão buscar, por exemplo, este é um dos casos, o Cincinnato, que tinha sido um militar, e fazem dele ditador. E o Cincinnato, de facto, faz ali um período em que governa de uma forma absoluta e depois volta para a sua horta. Aliás, os Estados Unidos têm uma cidade chamada Cincinnati. E têm, aliás, uma sociedade. Portanto, esta ideia do homem que vem exercer o poder de forma absolutamente despojada durante um tempo para regenerar um regime, era uma ideia transversal de que isto podia acontecer e em alguns momentos seria a saída para regimes que estavam bloqueados. E, portanto, para os republicanos, que ainda por cima tinham vários imaginários em torno de algumas questões, uns por questões maçônicas, outros por outras questões em torno de algumas coisas do Império Romano, portanto, eles acabam por ter esta ideia que começa a surgir como uma possível solução. Quem está no golpe de 28 de maio de 1926 são republicanos, conservadores, mas são republicanos, eles são republicanos.

Nem todos são conservadores, atenção.

Pois.

Não há todos conservadores. A ala esquerda do Partido Democrático, José Rodrigues dos Santos, ao princípio também dá a ideia de poder apoiar aquilo que depois vai estar na volta de 27.

O Gomes da Costa é muito difícil dizer o que ele era, depois mais tarde vai ter uma relação mais ou menos interessante com o Salazar, mas quer dizer, eles vão fazer aquele golpe, e depois havia aquela enorme emergência financeira, porque não há dinheiro. Não há dinheiro e tenta-se negociar o grande empréstimo, penso que era de 12 milhões de libras, junto à Sociedade das Nações. Mas tudo isto não é, de modo algum, o possível para governar um país. E daí, então, o ir buscar aquela espécie de civil que viria resolver ali o problema financeiro, mas sendo que eles tinham um projeto, o projeto político estava nas mãos daqueles homens que tinham feito o golpe. É claro, eles começam mesmo depois a afastar-se entre si e é curioso que eu acho que temos aqui duas coisas. Há um homem que ganha legitimidade no meio disso tudo, que é Carmona. Carmona, pronto, Gomes da Costa é afastado, vai para os Açores e é escolhido um novo presidente da República. Mas, no meio disto, e quando Salazar chega ao poder, já encontra um presidente da República com legitimidade, porque tinha acontecido aquilo que eles chamavam um plebiscito, e Gomes da Costa tinha sido eleito. Pode dizer-se: bem, as eleições não foram nem mais livres, nem menos livres do que aquelas que o tinham antecedido. E dá-lhe uma legitimidade própria perante os outros protagonistas. E, portanto, Carmona fica. E é curioso que a relação, e isto vai ser estrutural naquilo que depois vai ser a afirmação do Estado Novo, porque realmente, o que aqueles militares achavam de Salazar era uma coisaEra o padreco, ele tinha andado no meio dos militares. Aqui também foi referida a linguagem muito peculiar do Gomes da Costa e de alguns dos outros.

Linguagem de caserna.

Completamente. E nós estamos a ver a figura. O Cunha Leal chamava-o de monge voluntariamente castrado. É curioso, porque apesar disso tudo, ele manteve sempre correspondência com Cunha Leal ao longo da vida. Mas não começa por ser visto como um perigo e ele mesmo vai alimentar sempre esse discurso de que estava absolutamente disponível para partir para Coimbra. Em todas as intervenções que vai fazendo, ele vai sempre alimentar essa ideia de que está ali em sacrifício, destruição da sua saúde, que é um homem que até morreu velho, mas vai sempre acalentar estas duas ideias, que estava disponível. Ele diz: "Sou um modesto professor da Universidade de Coimbra e nem sequer um dos melhores. Fugi sempre da política, fui um dia deputado, cinco dias ministro. O que quer dizer que em matéria política o meu passado não autoriza grandes entusiasmos. Suponho ter, porém, uma qualidade: é saber servir quando me mandam servir. Tenho um lema na vida, não provoco, não fujo. Estou aqui por nomeação legal do senhor Presidente da República. Mais do que tudo, estou aqui por uma imposição da minha consciência. Se assim não fosse, creiam, vossas excelências, que não estaria. Um homem que está nestes termos tem de estar enquanto a consciência lhe não mostrar que deve sair." Claro, a prosa é ótima, ele estudou, leu muito os jesuítas, mas, como nós sabemos, isto é política pura. Isto acontece já em 28, há dois sinais que são muito claros de que Salazar não vai ser um ministro de passagem e que vai ter um papel naquilo que vier a ser o futuro daquilo que se designava por situação. Um, é que ele começa a ser sinalizado pela oposição como o ministro que sustenta a ditadura, ou seja, com o seu trabalho, é ele que está a permitir que aquele governo se mantenha. E depois, porque o governo para o qual ele foi convidado cai e é substituído com o mesmo chefe do governo. E os jornais quando dão a notícia de que já está constituído o ministério, que era como eles chamavam ao governo, diz que mantêm-se o senhor ministro das Finanças. Ou seja, a ideia de que manter Salazar é crucial. Estávamos em 28, eles achavam ainda que iam fazer política, e aqui há uma figura que é crucial e que é Carmona. Carmona vai pressionar para que Salazar se mantenha como ministro das Finanças, porque ele sabe que há um problema orçamental terrível. Até que ele mesmo é confrontado com isso, penso que já no ano 34, quando Salazar lhe apresenta a demissão. E apresentou-lhe a demissão, por todo um conjunto de razões, e Carmona percebe a dificuldade. Aí já não apresentou demissão, só como ministro das Finanças, já era chefe de governo. Sabendo já que Carmona já não tinha possibilidade de não o voltar a convidar. Há aqui este período, o golpe de maio de 1926, o que nós poderemos perguntar é qual teria sido o seu futuro se não tivesse encontrado num civil.

Num modesto professor de Coimbra.

O professor de Coimbra nunca foi modesto. E também nunca foi tão insignificante como ele disse. Mas tinha o extraordinário orgulho das pessoas. O despojamento em Salazar é uma forma de orgulho, na minha opinião, é só a minha opinião. Aquela ideia, que realmente não era corrompível, alguém que se corrompe põe um preço a si mesmo. Tem esse imenso orgulho. O orgulho dos pobres é a coisa pior que há, o mais terrível que existe. E nesse sentido. O golpe do 28 de maio poderia muito facilmente ter tudo terminado noutro golpe, noutra chacina. Porque, de facto, per si, eles vão mostrar, e agora temos a história, o Pedro saberá falar melhor que eu sobre esse assunto, eles não vão mostrar entre o 28 de maio de 1926 até que Salazar vem para o governo em 1928. Produziram retórica, muita retórica, muitas declarações, mas não vão conseguir mostrar a tal capacidade de governar o país. Tentam negociar um empréstimo, tentam não sei o quê, mas não saíam dali.

Esse período, professor, é de facto decisivo para que Salazar apareça?

É muito importante porque a situação em que o país estava no dia 28 de maio de 1926 era um golpe militar nas ruas, que tinha um denominador comum mínimo, que era liquidar o estado de coisas, a tal anarquia republicana, a tal incapacidade de a República fazer reformas, porquanto os governos sucediam-se, sabotavam-se uns aos outrosA esquerda democrática não deixava o chamado silvismo, portanto, os governos liderados por António Maria da Silva, que era uma espécie de centrão, a gíria que se usava na altura era os bonzos. Os bonzos eram aqueles que adornavam tanto pra esquerda, quando sentiam que à esquerda podiam ter algum apoio, como namoravam também com uma direita muito heterogênea, e uma direita que ia desde republicanos conservadores a integralistas, a católicos, a monárquicos, a fascistas, que também existiam, nunca foram majoritários, mas existiam, e sobretudo, o interface entre civis e exército. Porquanto o exército, e é importante também dar esta nota, o exército tinha não só militarizado as suas reivindicações de se sentir usado na guerra pelos políticos, porque também havia isto. O exército tinha sido sacrificado, o CEP tinha sido sacrificado em França, em 1918. O Gomes da Costa é, aliás, comandante de uma das divisões em La Lys, que foi aquele massacre alemão em abril de 1918. Havia aqui toda aquela noção de que o exército tinha sido sacrificado à política, e o exército começa a emergir como o depositário da ordem. E a palavra ordem é muito importante, porque ela não é inventada em 26. Ela está em toda a imprensa, hierarquia, ordem, saneamento. Esta república, afinal, é uma república de vários escândalos. O célebre escândalo que Alves dos Reis teve e que é revelado exatamente em finais de 25, inícios de 1926, e um exército que se tinha visto até ultrapassado pela GNR, pela militarização da GNR, quando os governos mais radicais, ali em 1919, 20, 21. A Helena referiu aqui o célebre governo dos cinco minutos, Francisco Fernandes Costa, em 1920, que era um político de um republicanismo centrista, conservador, sensato. Ou seja, a militarização nas ruas, a mistura entre Formiga Branca de Afonso Costa, a nova GNR, que foi armada até aos dentes, era quase um exército novo. Tudo isto criou um bloqueio enorme à República, que culmina na Noite Sangrenta.

Eu queria só acrescentar aqui uma coisa. Nós hoje temos do Alves Reis aquela ideia, as notas, o homem fez... Mas à época a questão não era só ele ter falsificado as notas. Falsificado, quer dizer, pode sempre discutir-se se elas eram falsas ou não. A questão era, e estava em todo lado, se tinha havido conivência ou não do banco e do próprio governo, aquilo remetia pra uma coisa terrível, que eram as emissões secretas de papel-moeda. E portanto, era como se houvesse, pensemos, no caso B, a ideia, agora, pra o século XXI, de que no Conselho de Ministros estava alguém metido naquela fraude. Bem, já de si uma falsificação daquele tamanho é um escândalo terrível, mas havia a possibilidade de haver implicações políticas, e isto é demolidor.

Exato. Era o próprio sistema que estava podre por dentro e, portanto, há um sobressalto que a opinião pública tem. E quando chegamos a 1926, de fato, aquilo que nós vamos ver é a tomada do poder do exército. Um exército também muito fracionado internamente, mas que ali funcionou como um corpo. Não são apenas oficiais que se juntam a civis pra mais uma intentona, como tinha havido muitas desde 1910, mas é uma tomada de posição do exército como um corpo contra aquela anarquia republicana que só entre 19, Pós-Sidónio, em 26, em governos, foram 29. Vinte e nove a dividir por sete anos e meio ou oito anos, dá uma média de quatro meses pra discutir. Era impossível manter aquilo, era impossível fazer eleições. Houve eleições em 25, não resolveram nada. Tinha havido eleições em 21, que são eleições muito importantes, porque são as únicas eleições em que a direita republicana ganha. E o resultado disso foi o quê? O governo de direita ser pura e simplesmente chacinado na Noite Sangrenta, em outubro de 1921. E portanto, quando nós chegamos a 26-

Repare, deixa eu só falar. É as únicas que ela ganha, porque são as únicas que organiza.

Exatamente. Isso também era assim, quem organizava. Hoje em dia nós temos primeiro as eleições e depois há governo. Durante cento e tal anos, o governo era nomeado e depois organizava as eleições que o iam ratificar, que iam construir uma maioria. Mas pra voltarmos aqui a 1926, a ideia de uma ditadura administrativa durante seis meses, durante um ano, pra devolver ao país a ordem, pra sanear as finanças, isto era a linguagem do exército, mas era também a linguagem que a elite republicana tinha. A Seara Nova falava disso, a direita republicana falava disso. O próprio António Maria da Silva, que é o governo que é vencido pelo 28 de maio, estava a conspirar para talvez entender-se com os militares ou com uma fração deles, para um governo sem assembleia durante seis meses ou um ano, havia o horizonte de serApenas uma ditadura temporária de tipo à romana, como João Franco ao fim ao cabo tinha feito durante seis meses em 1907, 1908, uma espécie de Saldanha, de saldanhada que tinha sido o golpe que o Duque de Saldanha tinha feito em 1870. E de facto, a primeira vez que há generais na rua depois de 1870 é em 1926. Minto, em 1925 já tinha havido uma espécie de ensaio geral.

Uma revolta.

Filomeno da Câmara, Sinel de Cordes, Raul Esteves, já tinham tentado em abril de 1925, não conseguem na altura. Eles são detidos, são julgados. É Carmona que os defende em 25 dizendo: "A pátria está doente." E aquilo que nós lembramos desse 25 é isto: o país tem-

Eu acho que uma pátria que sentava no banco dos réus.

Os seus heróis, os homens que tinham tentado salvar o país. E portanto, aquilo que nós vamos assistir em 26 é uma espécie de competição interna entre várias fações para se saber se a ditadura vai ser apenas um meio para um fim, regenerar a república e voltar a uma república mais ordeira e mais regenerada, mas isso rapidamente se mostra impossível e, portanto, vão começar a ganhar mais relevo aqueles que diziam que não, a ditadura não é um simples meio para um fim, a ditadura é ela própria um fim, é ela própria a solução. E, portanto, nós vemos aqui o quê? Gomes da Costa toma o poder, Mendes Cabrasades entende-se com ele, juntamente com o Armando de Gama Ochoa, para um curto governo ali em final de maio, princípios de junho. E depois há dois momentos políticos que vão começar a arrumar estas forças. É quando Gomes da Costa passa a ser o líder único em junho de 26 e Carmona, que afasta Gomes da Costa a 9 de julho de 1926. E Carmona tem uma importância enorme, porque Carmona era o homem que estava em Évora no 28 de maio. Ele também se subleva, mas não é a figura mais importante no 28 de maio. Tinha um homem de mão, que é este general Sinel de Cordes também. E é Carmona que, a partir de 1926, vai começar a organizar uma ditadura militar mais estável. Ele vai ter de enfrentar vários rivais. A situação não é nada arrumada ainda. Ele vai ter republicanos e a esquerda na rua no chamado Reviralho, aqueles que queriam revirar a situação e restaurar a república, mas vai também ter de enfrentar, por exemplo, um golpe fascizante, o chamado Golpe dos Fifis, Filomeno da Câmara e Fidelino de Figueiredo, em agosto de 1927. Portanto, a ditadura militar, ela própria, tem adversários militares à esquerda, e civis, adversários militares à direita, interessados em cimentar uma ditadura militar mais de cariz fascista ou mais fascizante. E ele só vai começar a arrumar essas forças quando, em 1928, entregar o governo a Vicente de Freitas e dar a Salazar as condições que ele não tinha tido ali em junho de 26, quando ele é ministro apenas durante quatro ou cinco dias, percebe a balbúrdia das Forças Armadas ainda e, portanto, volta para as suas aulas em Coimbra. O ministro das Finanças é o tal Sinel de Cordes e Salazar, metodicamente, entre 26 e 28, vai começar na imprensa a explanar o seu plano financeiro. O déficit público, como é que se combate, o fomento económico, porque a ordem dele é sempre esta: resolver o problema económico, o problema financeiro e, portanto, o problema económico. Depois começar a arrumar a casa socialmente e depois então ir às instituições, à política.

Deixe-me só acrescentar, ele tem uma política de notas oficiosas, por exemplo, que sempre que se paga alguma coisa de dívida, faz sair comunicação. Ele publica gráficos. Eu vi muita imprensa dessa época, nunca tinha visto um gráfico quanto. São gráficos muito rudimentares, mas eram moderníssimos, porque não havia outros, para dar conta da questão de despesa. Portanto, há uma política de comunicação.

De transparência?

E de comunicação. Ele impõe quatro condições para se tornar ministro das Finanças. É cada ministério que compromete-se a limitar e organizar os seus serviços dentro da verba que lhes é atribuída pelo Ministério das Finanças. As medidas tomadas pelos ministérios, com repercussão direta nas receitas ou despesas, serão previamente discutidas e ajustadas com o Ministério das Finanças. O Ministério das Finanças pode opor o seu veto a todos os aumentos de despesa corrente e ordinária. E o Ministério das Finanças, pois claro, compromete-se a colaborar com todos os ministérios para reorganizar as despesas. Portanto, com isto, ele controla todo o governo.

E ele é, sobretudo, um ministro das Finanças, mas é um superministro político. Aliás, referiu, e muito bem, aquela retórica dele de modéstia, de ter sempre a mala feita para voltar para as suas aulas em Coimbra e para a sua vida académica. Mas vale a pena lembrar que ele toma posse em abril de 28 e o discurso de tomada de posse dele não é simplesmente o discurso de alguém que vem para cuidar das finanças. Ele diz qualquer coisa como: "Sei muito bem o que quero e para onde vou. Não se dê que chegue lá em poucos meses. No mais, que o país estude, que analise, que faça o que entender, mas que obedeça quando chegar a altura de se mandar." Citei mais ou menos como é. E, portanto, ele vem para ser o superministro das Finanças, de que o Carmona não abre mão.Tática política que é: quando em colisão com o governo, ele demite-se e Carmona diz aos militares: "Eu sem o Salazar não fico. Portanto, vocês arranjem lá outro." E é assim que é Vicente Freitas, é Ayvannes Ferraz, é Domingos de Oliveira, o último, e depois Salazar. Porque o segredo dele, e o Estado Novo também é isto, foi tornar-se indispensável, foi tornar-se a charneira de um equilíbrio, que é ele que faz, o equilíbrio entre militares e civis, entre republicanos e autoritários, entre as direitas, de que ele também faz parte. Ele é a direita tecnocrática e é a direita que o catolicismo também apoia, discretamente, é verdade que sim, mas ele é o homem da doutrinação católica, que vinha desde o centro católica em 1917, e é o homem dos grandes interesses econômicos. E os grandes interesses econômicos estão com ele, porque só Salazar iria resolver o déficit orçamental. Isto parece um elogio, mas é preciso compreender a obra financeira de Salazar e o quanto o país estava, à falta de outro termo, se calhar há outro melhor, mas o quanto o país estava sequioso disto, estava sequioso de ordem. Porque a retórica política mudou. Em 1910 era democracia, liberdade. Em 1923, 1924, 1925, 1926, as pessoas, os republicanos, apenas querem um módico de ordem, de horizonte futuro.

Estabilidade?

Estabilidade. E de facto, o Estado Novo surge num contexto que era também internacional, de uma espécie de sedução do autoritarismo, até porque as pessoas não sabiam verdadeiramente o que eram os regimes autoritários que aí vinham. Mas há, de facto, uma espécie de rendição coletiva à solução ditatorial, que acontece um pouco em todo lado. Aconteceu cá, aconteceu em Espanha, em Itália, com contextos diferentes.

Mas que é por um cansaço do que se passa antes e é muito violento o que se passa antes. Havia os ideólogos, havia quem pensasse disso desde o princípio. E curiosamente, por exemplo, Salazar, desse ponto de vista, não é o ideólogo antidemocrático como, por exemplo, é Marcel Caetano. Nessa altura, Marcel Caetano, desde muito novo, tem textos em que é ideólogo antidemocrático. Não é o caso de Salazar.

"Ordem Nova", que era o nome do jornal dele. Salazar é muito mais um realista que vai adaptando o seu comportamento e a sua linha de ação àquilo que é a conjuntura, até conseguir estabilizar o seu Estado Novo. E quando ele o constitucionaliza, obviamente, é uma obra dele, e percebe-se que o Estado Novo vai ser salazarista. Aliás, é curioso como nós qualificamos o Estado Novo como o salazarismo e, por exemplo, não se utiliza o termo hitlerianismo, não se utiliza o termo mussolinianismo, porque no caso italiano, no caso alemão, são regimes em que o partido, em que o exército, em que há um chefe, há um Führer e há um Duce, mas não é a liderança personalizada, burocratizada, que Salazar monta.

Eram regimes revolucionários.

Eram regimes revolucionários, eram regimes armados, eram regimes bélicos.

Ou seja, são dois regimes que poderiam sobreviver ao líder, ao contrário do regime português, é isso?

A guerra aqui vai mudar muito. Ou seja, nós temos um Estado Novo que ao fim e ao cabo dura até 74, oficialmente até 74, mas temos dois Estados Novos. Uma coisa é até a Segunda Guerra Mundial e depois os fascismos caem todos nessa altura. E é curioso notar que os únicos na Europa Ocidental que se mantêm é Salazar e Franco. E essa é talvez a prova de que eles não eram o fascismo. Franco tem um lado muito mais fascizante, mas Salazar, sobretudo, é um político tecnocrata, católico, burocrático, um civil.

Muito conservador, até na forma como pensava algumas questões da sociedade.

E, portanto, melhor aceito pela conjuntura internacional de 1945 em diante. Mas o segredo dele foi, sobretudo, manobrar entre estas diferentes sensibilidades, entre esta frente oposicionista, que em 26 está reunida atrás do exército, mas que já lá estavam integralistas, fascistas, interesses econômicos, monárquicos estavam lá. Gomes da Costa, inclusivamente, é muito oscilante nisto. Ele tinha simpatias monárquicas, mas depois é republicano. Era um homem extraordinariamente imprevisível. E é Carmona que, aliás, diz a Salazar quando o manda convidar a Coimbra em 1928, que ele diz: "Bom, não, se é para repetir a mesma instabilidade de há dois anos, não, eu quero continuar." E é Carmona que diz: "Não, digam lá ao Fredinho que ele pode vir tomar posse", porque a situação em 28 era uma situação já muito mais estável. E Carmona vai ser, talvez, o único político que Salazar respeita.Salazar sabia que devia a Carmona o seu lugar e devia a Carmona o ter lhe oferecido as condições para ele se cimentar.

Sim, Carmona tinha mais de 700 mil votos.

E Carmona tinha uma legitimidade e, sobretudo, Carmona garante a Salazar o quê? Garante, pelo menos, que o exército está com ele. É verdade que o exército vai ser também um corpo ainda muito instável. Salazar vai ter sempre relações algo tempestuosas com o exército, porque o exército sentiu-se sempre o dono daquele regime e, portanto, também houve setores que não levaram a bem a civilização, terem sido arredados. Por isso é que Salazar entrega aos militares a censura. A chefia do Estado é militar sempre, até ao fim, até 74, e Carmona era, e foi durante muitos anos, o seguro de vida dele. Ou seja, Salazar sabia que enquanto Carmona lá estivesse, Salazar era indispensável. E, portanto, é a aliança entre um financeiro, acadêmico, reservado, competente, e um militar que fazia a ponte, ele próprio, entre o republicanismo militar conservador, que entra para o Estado Novo, porque Carmona é o seu líder. E de facto, nós vemos pôsteres na altura com os dois rostos.

Sim, cheguei a ver a expressão: os dois presidentes.

Exatamente.

Há uma coisa que eu tenho, que é uma memória que eu tenho da minha infância. Eu cresci nos anos 60. Os anos 60 já está um pouquinho longe disto, mas lembro-me de que era pequeninos avós, tinha duas avós, après tinham vindo para Lisboa no princípio do século, portanto, tinham estado em Lisboa durante a República, já. Quer dizer, uma na parte final da República, a outra já durante grande parte da República. Uma delas, uma vez, recordo-me disto perfeitamente, eu cheguei e ela tinha uma coisinha que devia ter dois ou três centímetros de altura, muito pequenina, em cima do móvel de um senhor que eu não sabia quem era. E perguntei quem era, era o Carmona. Não era o Salazar. Eu nunca vi uma fotografia ou um busto, alguma coisa que fosse de Salazar, nem na casa de uma avó, nem na casa da outra. Mas estava ali um Carmona, e eu perguntei: "Mas quem é este senhor?" "Não, foi um presidente da República, salvou-nos da confusão." E a outra avó, que morava num sítio diferente destes, mais perto ali numa questão de Bombal, aliás, na casa onde eu depois cresci, dizia: "O menino não sabe o que é que isto era. Passavam tiros aqui por cima." E de facto, eu depois tive a ver, mais tarde tive curiosidade de ver, nalgumas daquelas revoltas e conflitos militares da Primeira República, havia troca de tiros entre o alto do Parque Eduardo VII e a Avenida França e, de facto, a minha casa ficava na linha de tiro. A minha avó não estava a inventar, tinham mesmo passado ali por cima. E portanto, para o Salazar, a conversa era outra. Já não era tão ligado ao que tinha sido a Primeira República. Naquela altura, estávamos nos anos 60, era salvou-nos da guerra, que é uma coisa que vai depois durar muito tempo e ser um ativo que vai ser muito presente. Mas isto não é ideológico, isto era muito pessoas que tinham vivido em Lisboa, tinham vivido a confusão da Primeira República em Lisboa e, portanto, mais do que o Salazar, a própria figura do Carmona era ali alguém que tinha permitido que tivesse sido aquela confusão. Não há aqui, por exemplo, grandes referências à economia, até porque eu tinha outras referências, quer numa casa, quer noutra, sobretudo na casa de uma das avós, que eram restos, por exemplo, açúcar mascavado que tinha ficado dos racionamentos da Segunda Guerra, e que não haviam os potes na última prateleira, para os meninos não tocarem lá. Umas coisas tinham ficado, as coisas se guardavam do tempo em que tinha havido racionamento no tempo durante a guerra. Não eram dias fáceis. Quer dizer, nem uma, nem outra eram pessoas ricas, nem eram pobres.

Uma das coisas em que se nota esta, não aludo alguma questão de adesão, mas é uma espécie de viver com o Estado Novo. A República tinha tido grandes figuras na área da medicina. Havia grandes republicanos na área da medicina.

O principal, o Egas Moniz. Que era ministro, que foi negociador do Tratado de Versalhes.

Agora, quando, por exemplo, Portugal em 1937, já com o Estado Novo aí já institucionalizado, organiza uma conferência que é uma conferência contra a tuberculose, uma conferência internacional contra a tuberculose. E em cima de 37 estava a acontecer a Guerra Civil de Espanha, portanto, eles não podiam vir de Espanha, nem era possível. Portanto, vêm médicos internacionais a Portugal de barco e são acolhidos. E o que se nota é, muitas vezes, até de todos esses médicos que estão aqui numa altura em que o mundo já está a ficar um pouco convulso. Mas é como se, por exemplo, para muitos dos médicos que estão ali, estamos a falar daquelas famílias de médicos portugueses, Gentis Martins, toda essa gente, quer dizer, em Portugal, neste momento, é possível fazer isto. Há coisas pungentes nesse congresso, porque Portugal tinha, por razões que tinham a ver com o Egas Moniz, uma importante escola de radiologia. E, por exemplo, lá um chamava-se um milionário americano que tinha vindo a Lisboa para ver se alguém via aqui com outros olhos as radiografias de uma filha que claramente deveria ter tuberculose. Portanto, há esse congresso e isso nós vemos ali a adesão de figuras que porventura não teriam nada a ver com o salazarismo, mas porque tinha sido possível

Organizar aquele congresso, estar aqui, trocar informações que temos de ver, que estamos na fase também das criações do Instituto Português de Oncologia, tudo isso. É como se, de repente, todo aquele esforço que tinha havido em torno da República, todo aquele entusiasmo, se lhes tivesse quase desgraçado nas mãos e, de repente, numa outra situação, numa outra circunstância política pela qual muitos não têm propriamente identificação ideológica, mas que permite condições de trabalhar no dia a dia, de evoluir, de investigar, de estudar. Nós vemos coisas que começaram com enorme entusiasmo na República. A Maternidade Alfredo da Costa começa a ser construída durante a República. Nós ouvimos falar da médica e de tudo isso, sim, mas a verdade é que não conseguiram fazer a Maternidade Alfredo da Costa.

Há um exemplo: os bairros sociais, o problema da habitação.

O Arco do Cego.

O Arco do Cego é um bairro que ainda hoje é importante, hoje em dia até é um bairro de classe média alta. Esse bairro é lançado na Primeira República, fica ali a aboborar até que finalmente já acaba nesta época, porque há esta perceção de não se conseguir fazer, as coisas não aconteciam. E eu acho que isso é uma das coisas que nos leva a voltar para cá hoje, porque há um outro momento que também olhando para a política destes anos é uma mistura, em muitos aspetos, explosiva, que é, por um lado, há enquistamentos que nós chamaríamos ideológicos, mas sem a carga ideológica que depois viria a firmar mais tarde, no sentido de termos modelos de sociedade completamente antagónicos, que é uma coisa típica do século XX, mas talvez não ainda em Portugal, com algo que marca muito este tipo, que é o antagonismo das figuras, os ódios de figuras.

As rejeições.

As rejeições. E nós às vezes olhamos para o que é a nossa política hoje e encontramos, não apenas em Portugal, mas noutros países, coisas que às vezes não têm a ver com soluções políticas diferentes, mas apenas a ver com ódios, com políticos que não se entendem e a quantidade de partidos republicanos que se foram multiplicando durante aqueles 16 anos. E dir-se-ia: uns eram conservadores. De facto, o Partido Democrático no fim tinha uma ala esquerda que já era praticamente socialista, mas o Partido Republicano, no essencial, era um partido burguês. O António Alfonso Costa era um advogado, grande advogado, o milionário da advocacia. A pessoa ganhava muito dinheiro e com isso não tinha bem estas características. E isto às vezes também pode ser um sinal, porque isto é comum noutros regimes europeus da época. O professor José Miguel Serdica falou da República de Weimar, a Weimar portuguesa. Não creio que nos vá acontecer o que aconteceu a Weimar, mas há aqui aspetos que é o cansaço com a incapacidade de resolver os problemas. Eu acho que, porventura, um dos maiores problemas que tem não é só em Portugal. Às vezes dizem: "Os nossos maiores problemas é que estão a surgir redes sociais e que as redes sociais populistas." Não, os problemas são quando, de repente, os regimes não são capazes de resolver o problema das pessoas. E isso era muito presente em muitos destes regimes. O caso português é um caso limite. Há uma coisa curiosa que é a revolução republicana. Foi tão radical que ainda antes da revolução socialista na União Soviética, o Lenin dava como exemplo, apesar de haver os rachas sindicalistas, mas ele dava como exemplo dizendo: "A revolução radical que nós precisamos." Aquela ideia de que há primeiro uma revolução burguesa e depois uma revolução socialista.

Ia acrescentar alguma coisa.

E só duas notas finais. Vale a pena nós olharmos para esta história em 1926, porque é mais um exemplo, tal como em 1910 e 1974, como os regimes políticos, pelo menos no nosso país e se calhar noutros casos, caem sobretudo por exaustão interna. Muito mais do que pela força de uma alternativa. A monarquia caiu em 1910, incapaz de se autorreformar, de se democratizar verdadeiramente. A República caiu pelo caos político, social e também económico que gerou nos anos 20. O Estado Novo caiu por um bloqueio irresolúvel em África e também pelo arrastar, digamos assim, de um autoritarismo que na altura já estava fora do seu tempo. E portanto, para o nosso regime, e oxalá ele dure ainda muito tempo, é um alerta de que quando as reformas não surgem, quando os bloqueios se arrastam, quando há uma sensação de sempre a mesma coisa, que as eleições não resolvem, que os governos rodam entre si e não conseguem dar algum elã novo, estão criadas as condições para que haja um divórcio entre a opinião pública e o governo ou os governos em geral. E a outra nota é que a ditadura que sucedeu à República pareceu durante alguns anos poder resolver o problema económico e, de facto, durante alguns anos deu esta sensação de normalidade e é uma hipótese arrojada. Não a digo como apoio ao Estado Novo, digo-a como alerta para a consciência política de hoje. Se Salazar, um ditador, e já se sabia o que é que ele era, se ele tivesse ido a eleições até à Segunda Guerra Mundial, eleições livres, ele tinha-as ganho.

É uma afirmação muito interessante que fica aqui no fecho deste Contracorrente. Muito obrigada, professor José Miguel Serdica. Sim, o jornal vem agora à hora certa para atualizarmos as notícias. O Contracorrente regressa amanhã com outro tema. Até amanhã.