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Está na hora de ficarmos a conhecer o tema do Contracorrente desta terça-feira, Carla.

E hoje falamos do 25 de novembro. O golpe durou três dias, causou três mortos. Em 2025, na sua celebração, direita e esquerda estão divididas, mas há 50 anos o principal enfrentamento acontecia dentro da esquerda. Helena Matos, bom dia. Hoje a pergunta é: e se o golpe tivesse falhado?

Antes de passarmos para esse assunto seríssimo, eu estou como os paraquedistas há 50 anos. Há 50 anos, mais ou menos por esta hora, os paraquedistas da Base de Tancos faziam sair um comunicado onde anunciavam que não aceitam, agora vou citar, "as traições que vêm sendo feitas pela sua hierarquia reacionária", fim de citação, e portanto manifestavam a sua disposição de colocar, volto a citar, "a Força Aérea irrevogavelmente ao serviço da revolução socialista", fim de citação. Pois eu estou mais ou menos assim nesta disposição de fazer sair um comunicado a dizer que não aceito fazer a apresentação do Contracorrente depois dos Momentos de Glória. É que é muita concorrência injusta. Desculpem, é muito desleal.

Ficaste com vontade de comer um pãozinho?

Ainda por cima comida, Deus meu, quer dizer, por favor. Há coisas que realmente a história não muda. E nós vamos hoje revisitar essa data. E por que é importante? Na medida em que eu creio que o 25 de novembro ganhou uma outra leitura e uma outra acutilância após a geringonça, e pode perguntar-se: "Ó meu Deus, mas por quê? Por que uma coisa acontecida em 2015 veio dar uma nova leitura a essa data?" Pois é mais ou menos óbvio. É que, na verdade, nós vimos a suportar a solução do governo em 2015, e durante alguns anos, aqueles que estavam mesmo divididos a 25 de novembro de 1975. Eu sei que hoje a questão é dizer: é a esquerda, é a direita, a direita está a apropriar-se, a direita não sei o quê, mas a 25 de novembro de 1975, nós assistimos a um muito complexo golpe de Estado. Foi golpe contra golpe, vários golpes, que durou três dias, porque a rendição da Base de Tancos, os tais paraquedistas que queriam pôr a sua força ao serviço da revolução socialista, só se vão render no dia 28. É um confronto que causa três mortos, todos eles militares. Mas há aqui uma questão: o grande confronto não é, de modo algum, entre a esquerda e a direita. O grande confronto é esquerda contra esquerda. Ou seja, aquilo que nós hoje chamamos esquerda moderada, e que era a democrática, e que era basicamente o Partido Socialista, que à época era tratado pela extrema-esquerda como fascista, essa esquerda moderada o que faz é, de alguma forma, conceber um plano que vai deixar anulada a esquerda radical que tinha crescido muito, não em termos eleitorais, mas em termos de poder de rua, com o Cerca a Constituinte, com o juramento de bandeira revolucionário que tinha tido lugar no Ralis. Há uma esquerda cujo nome hoje nós recordamos em torno de Melo Antunes, que de alguma forma vai tentar resgatar a ordem para o país, anulando a esquerda radical e neutralizando também uma direita que seria certamente levada a fazer um golpe. Portanto, é basicamente disso que falamos hoje. Eu acho que é por isso que a data hoje irrita tanto, mas não foi de facto um grande confronto esquerda-direita, mas é um golpe, uma sucessão de operações militares muito complexas, nas quais havia um grupo militar, tal como no 25 de abril, esse sim chefiado por uma figura de direita, no 25 de novembro, Jaime Neves. Mas é uma data da qual se continua sem saber muita coisa, nomeadamente quem é que deu a ordem para que saíssem os paraquedistas, ou seja, aquela unidade que terá desencadeado o golpe, face à qual depois a esquerda moderada veio fazer o contragolpe. Há 50 anos, Lisboa viu passar aviões militares nos céus, viu muitas coisas. A 26, viu militares aos tiros entre si. Mas creio que é uma data que vale a pena recordar, porque sendo do passado, também nos faz algumas perguntas sobre o presente.

Pois é, é isso que vamos fazer então hoje no Contracorrente. Até já.

E não mais comida nos Momentos de Glória, está bem?

Vamos tentar, é difícil. Até já.