Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
8:19. Vamos conhecer o tema do Contracorrente desta quinta-feira. Para participar só tem de ligar 910 002 41 85, mas também nos pode deixar a sua mensagem nas redes sociais, no site do Observador, ou enviar-nos o seu áudio através do WhatsApp 910 002 41 85. Luís Soares.
Demorou, mas parece que é mesmo hoje que se inicia o mais aguardado dos julgamentos, o de José Sócrates. Muito se falou nos últimos dias das razões para se ter demorado tanto tempo a levar o antigo primeiro-ministro a julgamento. Muito se falou também dos crimes que constam da acusação e não há dúvida de que este será um grande momento, mais um da Operação Marquês. Não deixa, no entanto, de ser surpreendente que até àquele dia de novembro de 2014, já lá vão 11 anos em que José Sócrates foi detido à saída de uma manga no Aeroporto de Lisboa, o próprio e a enorme corte que o rodeava o considerassem intocável. Anos a fio, a carreira do antigo primeiro-ministro tinha sido salpicada por casos e por suspeitas, mas isso nunca impediu que fosse visto no PS como o minho de ouro, um poder de encantamento que se estendia a outros setores da sociedade portuguesa mais à direita e também a certos meios empresariais. Talvez seja a altura de recordar um pouco o que foram esses anos tentando compreender como houve mesmo um período em que Sócrates pareceu ter Portugal aos seus pés. José Manuel, bom dia. Creio que estavas naquela minoria que nunca lhe bateu palmas, verdade?
Sim, houve bastante gente nessas condições e recordo-me designadamente de intervenções na Assembleia, por exemplo, de Paulo Rangel, numa altura em que havia uma concentração de poder absolutamente inusitada e que aparentemente todas as pessoas viviam bem com isso, ou até achavam bem, que era um fazedor, alguém que fazia as coisas andar para a frente, sem perceberem que ao mesmo tempo estava a atropelar a separação de poderes, estava a atropelar os limites da ação executiva e estava a atropelar muita gente. E suspeitava-se que, além disso, estava a beneficiar, tinha benefício próprio. Eu estou convencido e espero que o tribunal consiga demonstrar isso, porque a história de José Sócrates e a carreira de José Sócrates, é cada pedra, cada minhoca. A gente dá um pontapé e está sempre um lacrão lá de baixo. Ele começou como deputado do Partido Socialista e com uma ascensão. Às vezes não há impressão como a primeira, como se costuma dizer. E a primeira impressão que eu tive dele foi negativa. Foi negativa porque ele apareceu nomeado como responsável do Partido Socialista para a área do ambiente. E eu percebi quando fiz umas perguntas, saber como é que ele tinha aparecido a fazer aquilo, que ele não tinha nenhuma convicção ambiental. Na altura, estamos a falar da passagem dos anos 80 para os anos 90, em que as pessoas que trabalhavam nesta área tinham uma paixão por estes temas. Lembramo-nos de Ribeiro Telles, lembramo-nos de Carlos Pimenta, por exemplo, dois governantes emblemáticos nesta área que eram realmente apaixonados por estes temas. E eu fui perguntar como é que ele tinha aparecido ali e percebi que ele não tinha nenhuma paixão, não tinha nenhuma formação prévia, não tinha nenhum gosto especial, tinha uma oportunidade. Percebeu que não havia ninguém no Partido Socialista, no Parlamento, com aquele pelouro. "Para onde é que eu posso ir? Onde é que eu posso ascender mais depressa? Qual é a minha oportunidade? Vou por aqui." Depois trabalhou e até como responsável dessa pasta fez algumas coisas que não são totalmente negativas, mas sempre com o sentido de oportunidade, muitas vezes sacrificando a melhor política, no sentido das políticas públicas, à melhor política no sentido da política que dá votos e que permite ao próprio benefícios, sejam benefícios de ascensão partidária, sejam outro tipo de benefícios, alguns dos quais vão começar a estar hoje em julgamento. Aquilo que me fez impressão foi como ele ao longo do tempo, porque teve sucesso eleitoral, porque beneficiou de uma conjuntura muito especial na altura em que obteve a primeira maioria absoluta do Partido Socialista, pôde acumular poder de uma forma que durante muito tempo pouca gente resistiu. Ele tratou de ocupar as entidades reguladoras, tratou de controlar a comunicação social. Aliás, devo dizer que na área da comunicação social ele contou com a colaboração, às vezes as pessoas esquecem-se disso, daquele a que Francisco Pinto Balsemão chamou o pior ministro de sempre. Um senhor chamado Augusto Santos Silva. Não se fala muito dele, não sem recordar esses pormenores. Depois, na área da banca tratou de ocupar primeiro o Banco de Portugal e depois a Caixa Geral de Depósitos e depois estender os tentáculos ao resto da banca toda. O mesmo se passou nas empresas públicas, acabou por ser responsável pela destruição da maior empresa portuguesa, a PT, porque quis mandar e obrigou a fazer negócios que foram ruinosos. Apesar de tudo, até ao dia da manga, ele esteve não só no Partido Socialista, mas em muitos outros setores da sociedade, e apesar da troica, e apesar de ter chamado o FMI, como ele dizia que não queria chamar, ser uma espécie de mino de ouro do Partido Socialista, de Messias que um dia pode voltar e salvar isto tudo. Ele tinha na altura um programa na televisão, na RTP, onde ia dizer que estava tudo mal e que ele é que sabia como é que se fazia tudo. E isso passava alegremente. Vale a pena perceber como é que isto aconteceu, porque de alguma forma o Partido Socialista tem a maior responsabilidade, mas as instituições portuguesas e a elite portuguesa também têm muita responsabilidade.
E é sobre tudo isso que vamos falar depois das 10:00. Até já, José Manuel.
Até já.
910 002 41 85. Dê-nos a sua opinião em direto no Contracorrente, logo a seguir ao Jornal das 10.