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Terminou este sábado em Belém, no Brasil, mais uma Cimeira do Clima, a COP 30. E como tem sucedido quase sempre, os grupos mais militantes já vieram criticar a ausência de mais compromissos firmes, nomeadamente no que diz respeito à ausência de menções à abolição dos combustíveis fósseis. Apesar de tudo, houve acordo, muito por via do protagonismo da União Europeia, e saiu de lá um discurso que garante que continuamos no rumo para cumprir o Acordo de Paris, o que procura limitar a variação de temperatura a 1,5 graus em 2100, por comparação com a temperatura pré-Revolução Industrial. Mas no Contracorrente de hoje, para além de querermos debater estas conclusões, queremos também falar da mudança de posição de Bill Gates, que recentemente passou de uma visão quase apocalíptica para a ideia de que se não se colocar o bem-estar das populações no centro das preocupações, pode acabar-se a fazer mais mal do que bem. José Manuel, bom dia. Sentes que pode estar a haver aqui uma mudança de discurso sobre a urgência do combate às alterações climáticas?
Olha, há pelo menos uma mudança na perceção de urgência política, porque algumas das medidas tomadas ou das medidas anunciadas estão a provocar uma espécie de backlash, uma espécie de reação da parte dos eleitorados em vários países, quer por causa do eleitorado dos meios rurais, quer por causa do consumo de energia, do preço da energia, quer por outros motivos, tem havido uma necessidade de os governos olharem com mais cautela para algumas das suas metas, porque não pode haver mudanças radicais sem um mínimo de apoio popular, de quem vota, de quem paga os impostos, de quem suporta os custos destes processos. Porque é que eu digo isto? Ao mesmo tempo que isto acontece, nós assistimos também a uma espécie de radicalizar do discurso apocalíptico, de um discurso que nos diz que se não fizermos nada, daqui por umas décadas, a civilização será dizimada, haverá tantas tempestades, tantos incêndios, tantas vagas de calor, tantos extremos climáticos que já não será possível viver à face da Terra, morrerão milhões de pessoas. Ora bem, vamos lá ver aqui, porque de facto nestas coisas nós temos que ter, como se costuma dizer, bom senso e algum equilíbrio. Por um lado, é evidente que é muito difícil obter acordos em cimeiras, primeiro como a de Paris, que foi aquela que estabeleceu as metas, e depois naquelas que têm vindo tentar concretizar as metas, porque no fundo há sempre quem tenha que pagar e quem queira receber mais. Sendo que esse equilíbrio está a alterar-se, porque entre os que inicialmente, no início destes processos, eu não gosto de usar este termo, mas poluíam pouco. Eu acho que emitir CO₂ não é propriamente poluir. Nós, cada vez que respiramos, emitimos CO₂ também. Aqueles que estavam nessa categoria, alguns dos que estavam nessa categoria, como a China e a Índia, transformaram-se nos grandes emissores. Alguns estão a fazer muito, e muito depressa, e muito melhor que os outros para alterar o estado de coisas. Estou a falar da China. A Índia não acontece o mesmo e já é o país mais populoso do mundo e, portanto, naturalmente, há enormes desafios. Agora, aquilo que é interessante na posição de Bill Gates, é que Bill Gates aqui há uns tempos tinha escrito um livro que de alguma forma o colocava neste grupo dos apocalípticos. E agora vem dizer: "Atenção, calma lá, porque as alterações climáticas são um tema muito sério, não podemos ignorá-lo, mas primeiro, temos feito grandes progressos. Nem tudo tem corrido mal, não vamos só por esse caminho. Houve imensas coisas que aconteceram nesses últimos anos e depois falaremos um bocado melhor delas. Evoluções não apenas na forma de vida, mas como na tecnologia, sobretudo na tecnologia, que dão outras perspectivas". E ele depois preocupa-se com outra coisa, como tu sabes, ele tem uma fundação que tem distribuído milhões e milhões de dinheiro por todo o mundo, de ajuda ao desenvolvimento, o Bill Gates, a Fundação Bill e Melinda Gates, e ele está muito atento aos problemas da doença, aos problemas da fome, e diz que temos que ter programas, porque, no fundo, as alterações climáticas causam tensões, mas boa parte dessas tensões podem ser amortecidas se houver melhor saúde e a ajuda ao desenvolvimento permitir que as populações estejam melhor preparadas. Dito isto, ele também chamava a atenção para umas coisas que são óbvias, que é: morre muito mais gente de frio do que de calor, mas muito mais, todos os anos. E para morrer menos gente de frio, entre outras coisas que temos que fazer, é gastar mais energia para aquecer as casas, por exemplo. E, portanto, tudo isto é feito de equilíbrios. Não podemos ir só numa direção e achar que só há um problema no mundo. Não, há muitos, e alguns são bem mais dramáticos, nomeadamente em número de mortes, do que neste momento são as alterações climáticas, se pensarmos em doenças como a malária, por exemplo, e outras. Ele procura chamar a atenção para essa necessidade de equilíbrio e para algo que ele chama o prêmio verde ou green premium, que é: nós temos que evoluir para uma economia que não seja tão mais cara que, de alguma forma, limite todas as outras possibilidades de desenvolvimento. E, portanto, tudo aquilo que é produzir os bens que hoje consumimos e de que necessitamos mais caro, não são bons caminhos, porque a prazo vão causar outro tipo de problemas de pobreza, de exclusão e de fome e de doença. Eu acho que é bom ver isto tudo, porque é um texto que é um bom ponto de partida para a discussão, porque precisamente ele chama a atenção para tudo que aconteceu de positivo, em termos das metas já alcançadas. É muito realista. Por exemplo, a Cimeira de Belém continua a dizer que vamos atingir, que vamos comprometer-nos com a meta de um grau e meio de subida da temperatura global. Ele é realista, isso não é possível, isso não vai acontecer. Neste momento, aliás, praticamente todos os modelos já dizem que já foi ultrapassado, ou que também está em via de ser ultrapassado, essa meta do grau e meio. Portanto, em vez de estarmos a fingir que vamos ganhar a corrida, vamos tentar ser mais realistas e preparar-nos para as consequências de uma Terra um pouco mais quente, de um planeta um pouco mais quente. E se as alterações climáticas são provocadas, sobretudo, por um aquecimento global, a verdade é que alterações na temperatura média do globo já aconteceram, e essas estão a acontecer por fatores humanos, portanto, exógenos, não são um vulcão, não é uma alteração da atividade solar, não é uma alteração dos polos, coisas desse gênero, que nós pensamos que tenham provocado as anteriores alterações climáticas. Aqui é o homem. E elas também estão a ocorrer a um ritmo muito mais rápido do que noutros tempos. A verdade é que, por exemplo, no nosso tempo histórico, nem é preciso ir para a pré-história e para as glaciações, no nosso tempo histórico ocorreu, no final da Idade Média, princípio da Idade Moderna, a chamada Pequena Idade do Gelo, com uma alteração das temperaturas que nós não conseguimos medir com a precisão com que hoje medimos, mas que se estima entre um e dois graus, mais frio do que está hoje ou do que estava antes da Revolução Industrial. Teve consequências gravíssimas em termos de fomes, de crises e de doenças, provocou revoluções, mas não acabou a civilização. E, portanto, temos que ir por aqui, temos que pensar um bocadinho. Como ele diz, e nós já falámos aqui em alguns programas, e ele diz isso no texto, eu acho que já referi isso nalguns programas anteriores sobre este tema, sempre que me dizem que é preciso acabar com os combustíveis fósseis até 2030 ou 2040, eu pergunto: "E como é que fazemos aço? E como é que fazemos cimento?"
Claro.
Mas, curiosamente, já há caminhos também para isso. Vamos falar disso.
Até já, então, José Manuel.
Até já.