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José Manuel Fernandes, quero hoje sair um pouco da nossa política doméstica para contrariar a narrativa dominante sobre o que se está a passar nos Estados Unidos. Achas que os números de que se tem falado não são os verdadeiros?

Bom dia.

Bom dia.

Não, os números são os verdadeiros e são, sem dúvida, números impressionantes. A nota é que muitos jornalistas, sobretudo na televisão, parecem às vezes ter um prazer quase mórbido na apresentação desses números e apresentam-nos quase sempre associando essas mortes a mais uma trampolinada, se me deixe dizer assim, qualquer do presidente Trump. E se não houver trampolinada, também não há problema, porque eles tratam de apresentar qualquer decisão do presidente Trump como se fosse uma trampolinada. Eu acho que esta forma de acompanhar o que se passa nos Estados Unidos, para ser franco, acho que é enviesada, é enganadora. E o problema é que não engana apenas quem está a ver as televisões. Eu acho que acaba por enganar os próprios jornalistas que, no fundo, preferem não ver bem a realidade, não ver bem o que se está a passar.

E o que se está a passar? Qual é a realidade?

Primeiro de tudo, há um aspecto importante que eu acho que temos que ter em consideração. Há, de facto, muitas mortes nos Estados Unidos, mas dos países que neste momento são notícia, os Estados Unidos é o maior de todos eles e é um peso enorme e é bom não o esquecer. Se considerarmos as mortes por milhão de habitantes, as mortes proporcionalmente ao tamanho do país, há muito menos mortes nos Estados Unidos do que, por exemplo, aquelas que houve em Espanha, Itália, no Reino Unido, em França. Enfim, já para não falar da Bélgica e ainda outros países europeus, que não vou continuar a citar daqui em diante. Depois, quando digo menos, não estou falando menos um bocadinho, umas décimas. Estou a falar menos metade. É muito significativo. Agora podemos dizer: "Está bem, mas as mortes continuam a crescer muito depressa." Continuam a crescer depressa porque, repito, o país é grande, a curva, se olharmos para ela, já está a achatar também e em alguns pontos mais críticos, como Nova York, está também a descer. Portanto, há alguma inversão. Finalmente, há outro aspecto também importante, e esse aspecto é talvez o mais surpreendente, é que apesar dos espetáculos quase diários de Trump e daquelas conferências de imprensa, daquilo tudo, ele não tem assim tanto poder como isso, na prática, porque ele pode aconselhar, mas o confinamento ou desconfinamento e o que se passa no terreno, esse poder é dos governadores. Portanto, muito do que melhor ou pior se é decidido, não é culpa nem mérito dele. E isso a maioria do nosso noticiário não é capaz de distinguir. Mas finalmente, aquilo que eu acho que é mais surpreendente é uma coisa que toda a gente não estava à espera.

Então, o que é? Vamos lá.

É que Trump está com os melhores índices de aprovação do seu mandato. Ele continua a ter índices negativos, mas melhorou bastante. Isto é, com milhões de desempregados, uma coisa exponencial, é assim exponencial, com aquelas dezenas todas, milhares de mortos, com as bolsas em queda livre, ele melhorou. Melhorou na popularidade, não é surpreendente.

Isso é muito surpreendente. Como é que isso se explica, José Manuel?

Primeiro de tudo, eu acho que é possível, porque está a suceder a ele, se bem que numa escala menor. Ele melhorou, mas não melhorou assim muito, porque sucedeu praticamente a todos os líderes apanhados nesta crise. Quer dizer, nós temos às vezes ideia de que só aconteceu com o nosso António Costa. Não é verdade. Houve líderes que saltaram imenso na sua popularidade, como Macron, como Boris Johnson, mas o Trump também subiu de popularidade. Há aqui um efeito de povos que se reúnem atrás de quem está a conduzir o barco, por assim dizer. Depois há outro fator, e esse fator é muito importante, até porque é um fator que se está a projetar no futuro. É que esta crise virou os americanos contra a China e sobretudo contra o regime chinês, contra a liderança chinesa, contra Pequim, digamos assim. E não é uma reação xenófoba, é uma reação que neste momento une as elites, une as pessoas mais qualificadas e une também a população em geral. E é sobretudo uma reação contra os métodos e as mentiras de Pequim e também contra a transferência que houve das cadeias de produção para a China. Ora, quem é que desde a campanha de 2016, desde que foi eleito, fala contra a China? É Trump. Quem é que, também desde a campanha de 2016, diz que é preciso trazer as fábricas de volta da China para os Estados Unidos? Trump. Quem é que antes desta crise estava a impor sanções à China? Trump outra vez. O que isso significa? Significa que ele tem tido um discurso coerente sobre a China. Ele às vezes é coerente. E que esta crise, se lhe tirou um grande argumento eleitoral, que era o sucesso da economia, deu-lhe outro argumento eleitoral, que é ele agora ter um inimigo externo, e às vezes o inimigo externo é ótimo para os presidentes no poder.

Mas tu achas que pode resultar?

Se queres que te diga, acho que já pode estar a resultar. Esta semana, por exemplo, houve eleições para um lugar na Câmara dos Representantes que tinha ficado vago. A Câmara dos Representantes são mais de 500 círculos. Este é um círculo da Califórnia, o 25º. Quem é que ganhou? Ganhou um republicano apoiado por Trump. Agora, aqui o significativo é que era um círculo que era democrata, tinha sido conquistado pelos democratas E há 22 anos que os republicanos não conseguiam reconquistar um lugar no Congresso aos democratas em todo o estado da Califórnia. E aconteceu agora. Bem sei que é apenas uma eleição intercalar, é uma eleição no meio de uma pandemia, mas é um sinal, eu diria que é um indicador.

Então é por isso que tu dizes que os nossos jornalistas podem voltar a ter uma surpresa.

Exatamente, porque aquilo que aconteceu há quatro anos, ninguém estava a ver o que se ia passar e depois passou, pode acontecer quando não se quer olhar para a realidade. Ou apenas se está a olhar para uma espécie de caricatura da realidade que é criada por nós próprios. Por exemplo, ainda ontem foi publicada uma sondagem na CNN que colocava Trump atrás de Joe Biden a nível nacional, mas isso é sistemático, não é? E também aconteceu há quatro anos, ele ficou atrás de Hillary Clinton no voto nacional. Só que essa sondagem coloca Trump à frente nos estados decisivos, que são aqueles que decidem as eleições. Portanto, é esta realidade que se nós quisermos perceber o que se pode passar nos Estados Unidos, temos que conhecer e temos que compreender. Eu acho que é muito engraçado, eu também me rio muito, também fico muito divertido a trocar memes, a gozar com aquelas fanfarronadas e com aquele cabelo, digamos assim, aquelas coisas todas do Trump. Isso pode nos fazer rir, mas na verdade não é jornalismo. Jornalismo é ser capaz de compreender, por exemplo, que ele tinha razão no que respeita à China e que isso é uma vantagem eleitoral. Jornalismo também é dar o enquadramento correto aos números que nos chegam todos os dias nos Estados Unidos e não fazer deles quase que uma festa. Jornalismo é ter a cabeça aberta, em vez de preferir, diria eu, bater com a cabeça na realidade, à espera que ela nos faça a vontade. Por isso eu aconselhava que estivéssemos atentos. É que apesar de toda esta catástrofe e apesar de todos os memes, eu diria que Trump ainda não perdeu as eleições de novembro.

José Manuel Fernandes e o "Contra Corrente das Manhãs 360" também disponível no site do Observador em podcast.

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