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08h12, hora de conhecermos o tema do Contracorrente. Para participar, basta ligar 91 002 41 85, mas também nos pode deixar a sua mensagem nas redes sociais, no site do Observador, ou então enviar-nos o seu áudio, a sua mensagem de voz, através do WhatsApp 91 002 41 85. Carla Jorge Carvalho. Os partidos são recebidos em Belém pelo Presidente da República e, à saída, o tema que mais ocupa os que estão mais à esquerda são as alterações à lei de estrangeiros recentemente aprovadas no Parlamento. Mudando de palco e indo para as televisões e redes sociais, aquilo que também parece inquietar mais o PS e os partidos à sua esquerda é saber que importância terão, no novo enquadramento da disciplina de Cidadania, os conteúdos de educação sexual. Tudo isto para além de outro debate, que também se arrasta, mas este afastando autarcas socialistas de deputados socialistas, que é o tema das demolições de barracas ilegais no concelho de Loures. Já tratámos de todos estes temas em separado, em anteriores edições do Contracorrente. Hoje queremos discutir sobre se este afunilar da discussão pública favorece ou prejudica uma esquerda que sofreu, nas recentes eleições, a sua maior derrota de sempre. José Manuel, bom dia.

Bom dia.

A esquerda, ao escolher centrar-se sobretudo nestes temas, será que pode estar a dar tiros nos pés?

Eu acho que pior do que isso pode estar, na prática a suicidar-se. Vamos lá ver. Estes temas têm tendência para ganhar espaço no debate público, mas ganharam esse espaço em boa parte porque partidos à esquerda e sobretudo à extrema esquerda começaram a dominar o debate e trouxeram uma agenda que não é popular. A agenda de ter as fronteiras abertas. Totalmente abertas. É muito curioso, porque os argumentos para isso foram se sucedendo. Agora, de repente, temos argumentos que é por razões económicas. Há uns anos, quando se invocavam razões económicas para a necessidade de termos imigrantes, era considerado reacionário. Agora, como já não há outros argumentos, vai-se para aí. As contas que são feitas são extraordinárias, porque num dia, por exemplo, suspeita-se dos números oficiais, que aliás são números que vêm do tempo do Partido Socialista. Os números da AIMA não começaram a subir quando chegou lá este governo, já estavam a subir antes e a subir acentuadamente. Tinham subido 33% em 2023. Era primeiro-ministro António Costa. O que é evidente que agora voltaram a subir em 2024. Mas o disparar tinha sido anterior. Anteontem ouvi um dirigente fazer uma conta absolutamente fantástica que ao mesmo tempo que desconfia dos números totais da imigração, e esses números totais apontarão para 15% da população, dizia que os imigrantes que, por regra, recebem salários mais baixos que a média dos portugueses, e por isso têm contribuições mais baixas para a Segurança Social, seriam responsáveis por 30% a 40% das contribuições para a Segurança Social. Trata-se de um historiador, mas isto é matemática da terceira ou quarta classe. Não é preciso ser doutorado para perceber que estas contas não batem certo. Mas tem que se dizer qualquer coisa, sem perceber que em todo lado, em toda a Europa, isto se transformou num tema central da política e na razão principal para os partidos socialistas e os partidos à esquerda dos partidos socialistas estarem quase todos em estado catatónico, em verdadeiro colapso. Colapso eleitoral e muitas vezes colapso de orientação, de princípios. Por quê? Porque a imigração, sobretudo a imigração de quem vem com culturas muito diferentes das nossas culturas, das culturas diversificadas que existem na Europa, mas que têm, apesar de tudo, uma matriz comum, e então em Portugal é uma cultura bastante mais homogênea, criam sempre tensão. Não é a mesma coisa ter emigrado de Portugal pra França nos anos 60, ou ter emigrado da Argélia pra França nos anos 70. E só quem não conhece a realidade francesa é que pode fazer uma comparação de uma coisa com a outra. Por isso mesmo, comparar os imigrantes que chegam a Portugal com os imigrantes portugueses que foram pra França é não apenas demagogia, é cegueira e é irritar os eleitores, porque há muitos eleitores, eu diria quase todos, que de alguma forma têm experiências de imigração na sua vida e sabem que as coisas eram diferentes. E portanto, continuar a achar que não se pode fazer nada, que as portas estão entreabertas. Eu ontem, por acaso, li um texto da Clara Ferreira Alves que dizia uma coisa muito bem. Naquele caso de Loures, o que é que se fazia? Admitia-se que fazia sentido que imigrantes chegados de São Tomé e Príncipe tinham direito a construir ali casas, mas como as casas eram más, tinham direito a receber casas da Câmara Municipal, passando à frente todas as pessoas que lá estavam. E a seguir, isto não parava, porque é óbvio, quando se dá este sinal, se hoje chegaram 10, amanhã chegam 100. Se amanhã chegarem 100, depois vêm 1000. É assim que se resolvem os problemas, é assim que se continua a achar que as coisas devem ser feitas, ou isto tem, no fundo, outro princípio, outra agenda, que uma parte das esquerdas não entendem. E sobre a questão da educação sexual, é muito parecido Eu vi nos últimos dias duas coisas extraordinárias. Primeiro, dizer que a educação sexual vai desaparecer das escolas. Ora bem, o que está em causa são as aulas de cidadania, onde a educação sexual era um dos 16 ou 17 componentes que existia no anterior currículo, que era extraordinariamente vago. Mas antes das aulas de educação e cidadania, existia uma área que tinha que ter seis horas nos primeiros ciclos e 12 horas nos últimos ciclos de ensino, especificamente sobre educação sexual. Eu vou ler só aqui uma passagem. Por exemplo: "No primeiro ciclo, de acordo com uma portaria de 2009, que está em vigor, é necessário falar da noção de corpo, o corpo e a natureza e o seu ambiente social e cultural, a noção de família, as diferenças entre rapazes e raparigas, a proteção do corpo e a noção dos limites, dizer não às aproximações abusivas. Do primeiro ao quarto anos. No segundo ciclo, puberdade, corpo em transformação, carateres sexuais secundários, diversidade e respeito, sexualidade e género, reprodução humana e crescimento, ciclo menstrual e ovulatório, prevenção de maus-tratos, dimensão ética da sexualidade humana." Quem ouvisse ontem o ex-ministro da Educação a escrever, ou a Isabel Moreira a twittar, ou esta gente toda, parecia que isto ia ser tabu. Não, isto está na lei desde 2009. Foi preciso o ministro vir lembrar isso ontem. Eu imagino que a Isabel Moreira era deputada em 2009, votou esta lei, não se lembra, esqueceu, passou-se-lhe da cabeça ou achou que isto é o tema que inquieta o seu eleitorado e é assim que vai ganhar votos. Não, pelo contrário, os eleitores ficam irritados quando ouvem pessoas como o anterior ministro da Educação defender coisas como estas. Eu vou citar o texto que ele escreveu: "A ideia de que as famílias devem ter um qualquer direito de veto sobre as opções de ensino nesta matéria é perigosa, porque assassina a complementaridade e abre caixas de Pandora de uma enorme amplitude." Portanto, no fundo, as famílias não têm uma palavra a dizer. A lei de 2009 diz que as famílias têm uma palavra a dizer. No tempo do governo socialista quis acabar com isso. João Costa, em particular, fez uma cruzada para acabar com qualquer interferência das famílias. Por este caminho, repetimos em Portugal o que aconteceu nos Estados Unidos. O Donald Trump ganhou por causa de dois temas, ou se quiseres, no limite, por três temas: a economia, porque a economia está sempre presente, a imigração e o wokeismo. A esquerda em Portugal, como a economia não está má, fala de imigração e wokeismo. Vai acabar como? Penso que vai acabar mal. Portanto, vamos sobre isso tudo quando formos falar.

Até já.

Até já, João.