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No Contracorrente de hoje, José Manuel Fernandes quer voltar a falar de um tema que sempre o apaixonou: a educação. E o que te preocupa desta vez?
Bom dia.
Bom dia.
Se tivesse que fazer aqui uma lista, acho que não acabava. Acho que a educação tem muitos temas para nos inquietarem, mas eu agora estou sobretudo preocupado com questões que têm a ver com a forma como estamos a lidar com esta questão do regresso às aulas e a epidemia. E nós temos vindo a publicar aqui no Observador alguns textos que eu acho que são inquietantes. Por exemplo, o Ação Dom em Cristo publicou um texto em que refletia sobre o facto de que em Portugal, ninguém saber, ou pelo menos ninguém divulgar, quantas escolas estão abertas ou estão fechadas, ou quantas turmas foram mandadas de quarentena. Os números que se conhecem são muito vagos e têm, de resto, muito pouco significado, é tipo quantos alunos foram para casa, coisas dessa cena. O que é muito pouco. Em França ou no Reino Unido, essa informação é conhecida, há um balanço oficial semanal. E mais do que isso, com base nessa informação, por exemplo, em França, já se mudaram as regras sobre a quarentena. Cá não há nada disso, nada se passa. Há uma opacidade, uma conversa mole ou então há pior do que isso. Por exemplo, nós na semana passada, também no Observador, contámos uma história de uma criança que foi mandada toda a semana pra casa, sem que tivesse estado sequer em contato com o menino da mesma turma que testou positivo pra COVID. Teve que ficar em casa, sem que os pais soubessem nada, sem saber se estava ou não, sem testar, sem que os pais soubessem se estava ou não de baixa, sem que ninguém lhes explicasse o que é que deviam fazer, sem nenhuma resposta dos serviços públicos. Foi uma história completamente kafkiana.
José Manuel, mas a culpa é do Ministério da Saúde ou é do Ministério da Educação?
Se calhar, até do ministério, não sei, dos serviços que deviam responder a essas coisas. Sinceramente, parece-me que é dos dois e da mentalidade que existe neste nosso país e dos burocratas e dos governantes, que acham que ficam sempre bem se fizerem os regulamentos, se o regulamento tiver muitas páginas e muitos detalhes. Depois, se as coisas não correrem bem, a culpa não é deles, porque é de quem não cumpriu o regulamento. Eu, aliás, acho que esta mentalidade também é muito uma mentalidade dos portugueses, que acham que tem que estar tudo muito bem escrito. Por exemplo, os miúdos e os pais acumulam-se à porta das escolas, porque o regulamento diz que só podem entrar na escola a conta-gotas, depois de fazerem uma série de coisas. Ora bem, a culpa não é do burocrata, que não pensou que se entrassem a conta-gotas, ficavam à porta. A culpa é dos pais e dos miúdos, que não cumprem o distanciamento social, mesmo quando, por exemplo, não há espaço nos passeios, o que é, obviamente, um problema em que ninguém pensou. Mais, por exemplo, as crianças do primeiro ciclo, neste momento, não fazem intervalos, não saem das salas de aula, ficam muitas vezes com as máscaras colocadas, ficam ali horas fechadas e infinitas, sem irem sequer para os recreios. Ora, isto não faz sentido nenhum, como por exemplo explicava ontem o Eduardo Sá, mas foi assim que resultou daquilo que os burocratas, mais uma vez, determinaram. Portanto, é como ele ontem escrevia, escolas que desconsideram o recreio, e ao desconsiderarem o recreio, estão a comprometer a aprendizagem. No entanto, é isso também que está a acontecer.
E logo ontem que saiu um estudo a dizer que as crianças até são menos suscetíveis à COVID-19.
Sim, foi uma revisão de muitos trabalhos científicos, realizada pelo Colégio Real de Pediatria e Saúde Infantil do Reino Unido. Mas olha, eu, na verdade, até acho que não é uma novidade muito surpreendente, porque nós até já sabíamos que a mortalidade entre os mais novos era baixíssima. Contudo, esta paranoia e tudo o que aconteceu no ano passado e todas essas ordens desencontradas, na minha opinião, estão literalmente a dar cabo de uma geração de estudantes e estão, sobretudo, a destruir ainda mais a escola pública, porque isto não tem o mesmo impacto na escola pública e na escola privada. Este é um governo que se diz de esquerda, diz, mas que parece estar empenhado, ou pelo menos na prática, está a destruir a escola pública e a promover o ensino privado. Por quê? Porque neste momento as famílias que podem, fazem literalmente fila à porta dos colégios privados. Quem tem dinheiro, neste momento, foge do ensino público. Há escolas privadas com mais de mil crianças em lista de espera. Nunca tinha acontecido nada parecido.
Mas achas que isso é por causa da pandemia?
Eu acho que só pode ser por causa da pandemia e visto que está a acontecer. A experiência do ensino à distância no ensino público foi muito traumática pra muitas famílias e aquelas que podem, e já sabes que pra poderem é preciso ter dinheiro, tentam pôr os filhos, ou tentam pelo menos levar os filhos pra colégios privados A semana passada, o Jornal de Notícias fez uma reportagem sobre isso e contava que já há colégios privados sem mãos a medir, literalmente, para tanta procura, que nunca tinham visto nada parecido no passado. E o que é extraordinário é que isto vem do Ministério da Educação, que quando começou naquela história dos coletes amarelos, fez uma cruzada contra o ensino privado. Tem um ministro com um discurso super radical e que agora acaba a fazer um caso desses. Que, aliás, a mim não me surpreende nada, porque um discurso facilitista sobre a escola pública não beneficia nunca a escola pública. Aliás, um outro exemplo disto é o que se passou este ano com o acesso ao ensino superior.
Então, também não estás contente com isso. Todos deitaram foguetes, nunca entraram tantos alunos.
Sim, eu vi o foguetório todo, vi toda a gente a dar saltinhos. Mas também, mais uma vez, não fiquei impressionado, porque acho que nós temos que ver sempre um bocadinho depois de o pó assentar e ver o que se passa. E é bom olhar para o que ficou. Por exemplo, fazer o que fez ontem o Luís Aguiar Conraria num artigo muito interessante que ele publicou no Expresso. Ele esteve a olhar para as médias de acesso e verificou que muitas beneficiaram de os exames deste ano terem sido surpreendentemente fáceis, anormalmente fáceis. E por isso ele escreveu um artigo com um nome muito interessante que se chama "Mais um prego no caixão da escola pública". Repare, ele é professor de uma universidade pública, portanto está a falar de um conhecimento de causa. E por quê? Por causa precisamente de um facilitismo. Esses números são impressionantes. A matemática A, a nota que se repetiu mais vezes nos exames foi, imagina, 19.
19.
19. A física do 10º ano foi 18. Estas foram as notas mais frequentes. Eu diria que parece que estamos rodeados de génios. Só que não estamos, como é óbvio. Estas notas enganam e o pior é que estas notas falsearam as médias de acesso e criaram injustiças relativas. O sistema público de ensino não pode funcionar assim, não pode criar injustiças, não pode ser esta palhaçada. E não pode por uma razão muito simples: o sistema de ensino tem que funcionar como elevador social e não está a funcionar como elevador social. Quando o sistema público falha e o privado é que funciona melhor, isto significa que só aqueles que têm acesso ao privado é que vão progredir, é que vão no futuro ter melhores empregos. É nisso que estamos a falar. Quando o sistema público falha, o sistema de ensino, em vez de corrigir desigualdades, agrava desigualdades. Nessa pandemia, é isso que está a acontecer e todos os dias a situação se está a agravar.
A Caixa Geral de Depósitos apoia o "Contra Corrente".
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