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José Manuel Fernandes quer hoje falar no Contracorrente de política e de vergonha por causa de Odemira e da entrevista de ontem do Rui Rio. Não gostaste de o ouvir dizer que aquela situação envergonha Portugal?
Sinceramente, começo a ficar um pouco cansado de ouvir a palavra vergonha na boca dos políticos. Lembra-se seguramente daquela vez em que o Ferro Rodrigues tirou a palavra a André Ventura porque ele insistia em usar o termo na Assembleia e depois logo a seguir descobrimos que o próprio Ferro Rodrigues o tinha usado muitas vezes no passado. É verdade que muitos de nós sentimos, e sentimos demasiadas vezes até, vergonha de algumas coisas que se passam em Portugal. E é verdade também que muitos de nós sentimos até vergonha de alguns dirigentes, nomeadamente de alguns políticos que temos ou que tivemos. Até há algum que tivemos que sentimos bastante vergonha. Tudo isso é verdade, mas quando vejo os políticos a usarem e abusarem da palavra vergonha e dessa mensagem, sobretudo políticos com responsabilidade, acho que temos que nos interrogar sobre, afinal, quem é responsável e quem é que lá está para resolver os problemas. Isso é que é o ponto.
Percebo, mas Rui Rio não está no governo e ontem ele quando falou em vergonha fez acusações até muito concretas.
Tens razão, Rui Rio não está no governo, mas apesar de tudo, dirige o maior partido da oposição. E vamos lá ver, o problema de Odemira, o problema dos imigrantes das estufas, do tráfico de seres humanos, da quase escravatura, não é um problema de ontem, é um problema que tem anos. E também aí, apesar de tudo o que ele disse, ele disse muitas coisas acertadas, onde é que esteve o maior partido da oposição? Eu digo, à exceção de uma deputada, que foi a Filipa Roseta, esteve calado. E esteve calado porque, tal como os outros partidos, aqueles trabalhadores são politicamente invisíveis. Não votam, porque a maioria deles nem sequer português fala, e muitos deles nem sequer aparecem nas aldeias, porque vivem naqueles contentores longe das aldeias. Mais, também são socialmente invisíveis, porque ninguém os representa, não têm associações, não têm sindicatos. Apesar disso, sabia-se que existiam, aliás, basta ir lá à zona para ver que eles existem. Eu, por exemplo, estive à procura e a mais antiga reportagem que encontrei no Observador, e o Observador é um jornal muito antigo, temos quase a fazer sete anos, é de julho de 2014. É quase desde que nós começámos. Nós descobrimos logo aquilo, não foi preciso andarmos muitos meses. Nós aparecemos em maio e em julho já tínhamos uma reportagem sobre Odemira e o que se passava em Odemira. Na altura falámos sobretudo com tailandeses.
E houve mais reportagens noutros órgãos de informação.
Sim, sem dúvida, mas porventura, mesmo assim, devo dizer, talvez não suficientes. O tema talvez não tenha tido a visibilidade na comunicação social que merecia. Não me importo de também responsabilizar, em parte, a nossa classe dos jornalistas. E quando digo que não foram suficientes, é que entra pelos olhos dentro que não chegaram para despertar a opinião pública para uma realidade que é mesmo chocante. E agora temos de deixar de ser hipócritas. Temos de deixar de ser hipócritas os políticos que nada fizeram e temos de deixar de ser hipócritas nós também, porque de facto, em boa parte preferimos olhar para o lado.
Achas mesmo que preferimos olhar para o lado, José Manuel?
Eu estou a exagerar um bocadinho, mas nessas alturas, um pouquinho de exagero não faz mal. Mas sinceramente julgo que há muitas coisas em que os bichos urbanos, chamemos-lhe assim, preferem não saber, não ver, não conhecer. E nós temos de ter consciência que não há milagres e que o acesso generalizado que nós hoje temos a muitos bens de consumo tem um preço. Eu de vez em quando, como sabes, às vezes puxo os galões da minha idade e hoje vou fazê-lo para recordar uma coisa. Por exemplo, eu quando era miúdo, mesmo quando era adolescente, já me lembro que, por exemplo, comer morangos, que é uma coisa hoje vulgar e barata.
Em qualquer altura do ano.
Em qualquer altura do ano, dizes bem. Mas comer morangos era um pequeno luxo, mesmo para uma família da classe média desafogada. Eu era de uma família da classe média desafogada, não vou iludir. E estou a falar de morangos. Não estou a falar de framboesas, nem de mirtilos, e então kiwis nem existiam à venda. Ananases era uma coisa que se comia uma vez por ano, duas vezes por ano. Vinham dos Açores, era uma preciosidade. E lembro-me, por exemplo, de ir ao fim de semana com os meus pais, na época dos morangos, que era uma época reduzida, comprá-los nos cabazes minúsculos que se vendiam à beira da estrada e que se compravam aos saloios, como na altura se dizia, dos arredores de Lisboa. Espero não estar a ofender ninguém a chamar saloios.
É assim, são mesmo.
Era assim. São mesmo. Era uma festa, mas mesmo assim, depois os morangos eram racionados pelos vários irmãos porque não havia fartura.
E hoje é uma fruta que nem é cara.
Pois, dizes bem, não é cara. E por quê? Por causa das estufas de Odemira, do sul de Espanha e de outras que há aí por todo lado. Quer dizer, ao princípio não sabiam a nada, é verdade, mas hoje até já voltaram a ter sabor e tudo. Por quê? Vou te insistir. A agricultura evoluiu brutalmente, é uma agricultura industrial, mas competente, que tem uma produtividade que não se compara com a agricultura de outros tempos Mas que coloca problemas, coloca desafios ambientais que merecem muita atenção. Mas é incrível, por exemplo, como é que se escreve muito mais sobre os benefícios do olival intensivo, do que se escreve ou se escreveu sobre as condições de trabalho dos holandeses, paquistaneses, nos paletes dos depósitos que por aí andam.
É verdade, tem-se ouvido falar muito mais do olival intensivo.
É por isso que eu acho que devíamos calibrar melhor os nossos critérios de vergonha. De repente, todos estão envergonhados porque descobriram que há contentores em Odemira cheios de imigrantes a dormir. Mas esses contentores que estão lá até têm o selo de uma resolução do Conselho de Ministros. E isso, de facto, é uma vergonha, a tal vergonha de que só a Filipa Roseta denunciou na altura certa, mas ela foi uma voz no deserto. Por exemplo, nessa altura, o PCP e o Bloco, sempre tão inquietos com os pobrezinhos, não tegiram nem mugiram. Mas agora, por exemplo, descobrimos o que se passa em Odemira, porque é um concelho onde vive pouca gente e há meia dúzia de casos de Covid e esses foram suficientes para dar o alarme. Agora, eu gostava de saber uma coisa, e vou aqui quase lançar um desafio: o que se passa em alguns subúrbios de Lisboa, aqueles onde houve surtos no verão passado? Pois eu tenho quase a certeza que há muitos locais onde as condições em que se vive e em que se dorme não são muito melhores do que as daqueles trabalhadores de Odemira. Não são contentores, provavelmente não são contentores, mas entra-se nas casas e lembro-me de ver que são, às vezes, muito parecidas. Isso e a lotação de certos transportes públicos a certas horas da manhã. Eu desconfio que se fôssemos andar por aí àquelas horas em que o sol ainda mal se levantou, encontraríamos mais vergonhas. São vergonhas invisíveis, porque novamente, estamos a falar de pessoas, estamos a falar de gente que não vota, que não tem quem as represente e por isso, sinceramente, e regressando novamente à entrevista do Rui Rio, ele tinha razão para estar zangado com o que se passa em Odemira. Ele tem razão quando diz que não se compreende, por exemplo, porque é que a PJ anda a investigar e não vê nada ao fim destes anos todos, ou quando diz que não se pode tratar assim, seguramente, seres humanos em parte nenhuma do mundo. Mas, por favor, não venha também ele com a conversa da vergonha, porque o PSD é um partido suficientemente grande para já ter feito mais e os políticos não podem ir à televisão apenas para repetir o que nós dizemos à mesa do café. Sinceramente, mais do que a vergonha de Odemira, preocupa-me muito aquilo que eu acho que é uma hipocrisia que há quando falamos disto tudo. Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7 na Grande Lisboa ou 98.4 no Grande Porto.