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O aparecimento num navio de cruzeiro de um novo vírus de que poucos tinham ouvido falar, um hantavírus, a morte de vários passageiros e os regimes de quarentena a que foram sujeitos os restantes, ressuscitaram à escala mundial o receio do regresso de uma epidemia global como a que vivemos há apenas seis anos aquando do outro vírus, o coronavírus. Dias depois apareceu um outro vírus num outro navio de cruzeiro, agora um norovírus, e de repente, ao receio do termos de voltar todos para casa, somou-se o medo de entrar num desses enormes pacotes que todos os dias aportam às nossas cidades. Haverá razão para tanto alarme ou devemos, pelo contrário, manter tranquilidade e apenas os cuidados habituais? É sobre isso que vamos falar no "Contra-Corrente" de hoje. José Manuel, bom dia. Ai, ai, já voltaste a lavar e a desinfetar as mãos como fazíamos em 2020 e 2021?

Dentro daquilo que é o normal, mais nada do que isso. E de facto, nós temos que perceber que os vírus não são todos iguais. Nós vivemos literalmente rodeados de vírus. Mas quando digo rodeados, é rodeados numa escala que temos dificuldade muitas vezes em entender. Só para teres uma ideia, nós temos 100 milhões de diferentes tipos de vírus, o que faz com que os vírus sejam os seres mais variados do planeta. Cada litro de água do mar, reparem, é um litro, um litro de água do mar, contém 10 mil milhões de vírus. Dez mil milhões de vírus apenas num litro. E há vírus em todo lado e os vírus muitas vezes são essenciais, inclusivamente para funções de outros organismos, como nós. Ora bem, os vírus, no entanto, são muito pequenos. Sabemos que havia qualquer coisa mais pequena que as bactérias. As bactérias conseguem ver-se ao microscópio ótico normal. Sabemos que havia alguma coisa mais pequena que as bactérias, enfim, no princípio do século XX, mas não se sabia exatamente o que era. Por exemplo, quando foi a famosa pneumónica, que era vírus, uma gripe, não se conseguiu identificar a sua origem, precisamente porque na altura só havia ainda microscópios óticos. O microscópio eletrónico aparece na década de 30 do século passado, tem um pouco menos de 100 anos, e são nessa altura que se conseguem ver pela primeira vez os vírus, que são de facto muito pequenos e são máquinas muito simples. Basicamente é uma cápsula de proteína com um bocadinho de material genético dentro. E o material genético dentro pode ser o DNA, que é aquela dupla hélice, ou apenas um dos lados da hélice, portanto, um dos braços da hélice, digamos assim, o que é o RNA. Isto não é exatamente o RNA, não é exatamente isso, mas é parecido. E é o caso deste vírus, deste hantavírus, como era o caso do coronavírus e como é o caso do norovírus. Portanto, o outro, que entretanto apareceu naquele navio maior. Agora, a forma como os vírus infectam as pessoas e se transmitem, e depois até que ponto é que são ou não perigosos, é que é importante. Este vírus, este hantavírus, é um vírus conhecido. Não é conhecido há muito tempo, mas pelo menos há uns 30 anos, mais ou menos. Os primeiros casos diagnosticados e descritos ocorreram nos Estados Unidos. Não é exatamente a mesma estirpe que está agora aqui em causa, que é a estirpe dos Andes. A estirpe dos Estados Unidos é um vírus que até recebeu o nome sem nome, "sin nombre", e dá-se o nome em castelhano porque ele aparece primeiro no Novo México e percebeu-se, de facto, que era um vírus que vinha de roedores. Portanto, pequenos ratos. E naquela circunstância inicial, até tinha a ver com a meteorologia de dois anos seguidos, que provocaram um excesso de roedores nas zonas rurais. E isso permitiu que houvesse transmissão a humanos. De todos os hantavírus conhecidos, só a estirpe dos Andes é que se pode transmitir de humano a humano, mas mesmo assim de forma extraordinariamente difícil, porque isso tem a ver com a forma como o vírus se instala no nosso organismo. E ele instala-se no nosso organismo de uma maneira em que está de facto silencioso durante semanas, e é nesse período que, em princípio, os vírus que se propagam, por exemplo, pelo ar mais facilmente, como era o caso da Covid. Nós espirrávamos, nós respirávamos, nós tocávamos com a mão ou coisa similar uns nos outros e ele passava de um para o outro, de uma pessoa para outra. Este vírus, apesar de também se poder instalar nos pulmões, não tem essas características. Ele esconde-se dentro das células e aí multiplica-se silenciosamente, tão silenciosamente, que o nosso sistema imunitário não dá por ele. E quando finalmente o nosso sistema imunitário dá por ele, já ele está um pouco por todo lado. E então aquilo que acaba por provocar a doença e a morte, e a morte pode acontecer em 40% dos casos, é de facto um vírus muito perigoso quando se instala, acontece por sobrerreação do sistema imunitário. Não sei se te lembras, Carla, mas quando foi a Covid, no início também houve casos desses, porque também havia situação em que o vírus instalava-se e depois era a sobrerreação do sistema imunitário que provocava aquela espécie de afogamento dos pulmões, uma coisa que era descrita no início. Este vírus tem semelhanças, não é o mesmo processo exatamente, mas tem semelhanças.A capacidade de transmissão é quase inexistente. É um vírus que está adaptado ainda basicamente a roedores. Nos roedores vive com eles sem problemas. Está lá. É um vírus como muitos que nós temos connosco que não nos fazem mal nenhum, às vezes até podem ser úteis, como eu já disse. O problema é quando passa para os seres humanos, mas como na maior parte dos casos dos hantavírus eles não se transmitem de pessoa para pessoa, não há grande risco. Neste caso, pode ter existido. Nós não sabemos exatamente como é que é essa transmissão. Mas repare, estamos num caso em que temos um barco. Aquele barco é um barco de cruzeiro, mas de cruzeiros muito especiais. Estamos a falar de cruzeiros nas zonas polares, no Ártico e no Antártico. Naquele caso era um barco que vinha do Antártico. Este vírus dos Andes é um vírus que está presente na Patagónia, em roedores da Patagónia, uma espécie de roedores da Patagónia. E as pessoas teriam embarcado em Ushuaia, que é a ponta sul do continente americano. Eu não sei se naquela viagem em concreto ainda foram ao Antártida ou se vieram logo para Cabo Verde, mas são viagens de semanas. Naquele caso de semanas e que custam dezenas de milhares de euros. Não são viagens baratas. São viagens muito caras e com poucas pessoas, por isso é que também são tão caras. Em barcos relativamente pequenos. E eu até já estive a ver como é que o barco era. Boa parte das cabines são cabines de quatro pessoas, com beliches. Um ambiente muito apertadinho. E mesmo assim, em 170 pessoas, houve poucos casos de transmissão. Felizmente apenas três mortes. Terá havido 11 infeções e apenas três mortes, o que é menos do que a taxa habitual, que é 40%, como eu já referi. Mas é um sinal precisamente dessa dificuldade na transmissão. Ainda vamos saber mais coisas e isto tem muito pouco a ver com o outro, que de repente também se tornou notícia, o norovírus, porque esse norovírus também é um vírus de RNA, como era de resto também o coronavírus, mas o norovírus é muito menos perigoso. A doença é basicamente a chamada gastroenterite. Pode ser muito desagradável, nalguns casos pode ser fatal, mas passa. Vamos falar um pouco sobre isto tudo, sobre estes mecanismos, recordar um pouco o que eram os vírus, porque nós já nos esquecemos um pouco disso, e saber que nós vivemos com eles, que eles estão cá por todo o lado.

Vale a pena fazer esse ponto de situação então. Até já, José Manuel.

Ok, até já.

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