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É hora de conhecermos o tema do Contracorrente desta quarta-feira. Se quiser entrar em direto para nos dar a sua opinião, só tem que ligar 91 002 41 85, ou então enviar-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp para o mesmo número, 91 002 41 85. Carla. Hoje é dia do eclipse. Temos uma programação intensa aqui na rádio. Também já falamos no Contracorrente de como alguns eclipses nos ajudaram a perceber melhor o universo em que vivemos, mas hoje, ou não tivesse este programa o nome que tem, não vamos falar de eclipse. Vamos falar da crise que atravessa o setor do vinho, com milhões de hectolitros por escoar e com muita gente a falar de novo na necessidade de arrancar vinhas. Mas para não destoarmos por completo, temos uma proposta: por que não pegarmos óculos, sentarmos numa espreguiçadeira enquanto esperamos pelo eclipse e fazê-lo com um copo de vinho na mão para brindar ao momento? José Manuel, alinhas nisso? Bom dia.

Bom dia, Carla. Tens de perguntar ao Ricardo Conceição.

Se calhar é melhor o Ricardo fazer isso depois.

Não sei.

Ele vai conduzir a emissão especial.

Ele vai conduzir a emissão especial, nós vamos fazer a partir do mato e eu vou estar lá. Portanto, se o Ricardo organizar um copo na mão, tudo bem, mas não sei se vamos fazer isso.

Eu acho que o Ricardo não se está a ouvir.

Em serviço não se bebe, é o que se costuma dizer. Bem, mas independentemente disso, de facto, há uma crise neste setor com muitos fatores. Eu acho que o fator principal, a nível global, é que se está a consumir menos vinho e, portanto, um pouco por todo lado há quebras de produção e, sobretudo, quebras de consumo. Algumas regiões do mundo que se esperava que fossem os consumidores do futuro, começaram a recuar. O mais importante é a China. Portanto, os mercados de exportação estão em contração. E Portugal tem uma produção que ainda é bastante elevada. E o que é facto é que, se a nível global, o vinho armazenado daria, segundo alguns cálculos, para três anos de consumo, há muito vinho por escoar. Em Portugal começa a acontecer o mesmo e aquilo de que muitos produtores se queixam, isto é mais agudo na região do Vinho do Porto, no Vale do Douro, é que os pequenos produtores, aqueles que dependem de compradores para escoar a sua produção, aqueles que não têm canais de comercialização diretos, estão a receber a notícia que este ano se calhar não vai haver quem compre, se calhar o preço vai ser mais baixo do que se espera e há mesmo algum desespero. Vale a pena referir que no caso concreto português, houve uma enorme evolução deste setor e, ao contrário do que poderíamos imaginar, hoje é um setor que não produz muito menos do que no tempo de Salazar, em que havia aquele famoso cartaz: "Beber vinho é dar pão a um milhão de portugueses". Isto talvez não fosse propriamente um apelo ao alcoolismo, mas era um apelo a que se mantivessem hábitos que em Portugal são culturais, no sul da Europa, no Mediterrâneo, são hábitos culturais e que na estrutura económica do país, este cartaz é de 1938, é um cartaz da Junta Nacional do Vinho, era muito para manter uma estrutura de produção muito assente na pequena produção, nos pequenos produtores, nos tais que eram precisos muitos para produzir o que se produzia, 1 milhão de portugueses, como dizia o cartaz. E para teres ideia que isto não devia ser exagero, na altura estimava-se que existissem em Portugal 320 mil hectares de vinha repartidos por 337 mil produtores, o que dá menos de 1 hectare por produtor. Quer dizer, portanto, são microproduções, mas isto era a base social do Portugal dessa época e também a base social do Estado Novo e a preocupação, mais do que promover o desenvolvimento, era promover a estabilidade social. Daí estas preocupações. Isto foi mudando. Quando chegamos a 25 de abril já era diferente, já tínhamos muito menos produtores, mas mesmo assim havia um mercado que, por exemplo, dependia imenso das colônias e das exportações para Angola e para Moçambique, que eram mercados cativos, e isso ia sustentando. Só que não era uma produção de grande qualidade. As prioridades políticas da época não eram fazer aumentar a produção, era mesmo a estabilidade social. Inclusivamente, foram criados muitos organismos corporativos para sustentar essa malha de pequeníssimos produtores. Isso foi se desfazendo, e ainda bem, nos anos mais recentes, mas mantêm-se resquícios. A estrutura mudou imenso. Nós hoje temos uma estrutura completamente diferente, temos um profissionalismo completamente diferente, a qualidade dos nossos vinhos não tem comparação com o que era nesses tempos, mas apesar de estar a dizer isto, há muitas questões que se mantêm Muito delicadas, designadamente no Vale do Douro. No Vale do Douro continua a haver muitos pequenos produtores, continua a haver uma situação de dependência de soluções antigas. Uma dessas soluções antigas é uma coisa chamada benefício. Não sei se sabes o que é o benefício, Carla.

Não, não sei.

O benefício é uma atribuição, eu não diria quase administrativa, mas é quase administrativa, a cada produtor da capacidade de produzir vinho do Porto. Portanto, como o vinho do Porto vale mais que o vinho corrente, pelo menos tradicionalmente valia mais que o vinho corrente, agora os valores já não são tão diferentes assim, ter ou não ter o benefício, o benefício vendia-se, trespassava-se, era fundamental para garantir o rendimento. No entanto, há claramente aqui uma crise. Quer dizer, para teres uma ideia, as vendas totais de vinho do Porto estavam acima dos 10 milhões de caixas de 9 litros no ano 2000 e agora são 7 milhões. Portanto, é uma quebra de mais de 30%, mais de 30% de quebra na venda do vinho do Porto. E os valores, até nos anos mais recentes, são também muito significativos. Quer dizer, vendiam-se 90 milhões de litros. Estou a falar em euros. Não, em litros. Vendiam-se 90 milhões de litros em 2006, hoje vendem 62 milhões. Em euros, o valor manteve-se quase, mas descontando a inflação, isto quase não vale nada. Mesmo assim desceu. Isto é uma evolução contrária ao que acontece com o chamado vinho do Douro. O vinho do Douro está a produzir mais, triplicou a produção. Isto também tem a ver com a transformação do Douro. Antigamente, todo o vinho do Douro era só vinho do Porto. Teve a ver com essa transformação e até com a aproximação do valor. Em 2006, cada litro de vinho do Douro valia €3,30 e hoje está a valer €4,96. Na altura, a diferença para o vinho do Porto era muito significativa. Estamos a falar de €3 para quatro euros e tal, e hoje em dia aproximou-se imenso. Portanto, o valor já é muito mais próximo por litro. Mas isto não está a compensar. E, por outro lado, a estrutura da produção, sobretudo no Douro, é diferente. Dito isto, apesar de Portugal, se não é o primeiro país do mundo em consumo per capita, anda lá perto. Porque, ao contrário do que está a passar em países como a França, como a Espanha, como a Itália, os portugueses continuam a beber muito vinho. Agora, há um problema, que nós também vamos tentar falar dele. Há um problema e esse problema, para os produtores de vinho, não é um problema que desapareça, que é um problema de alterações de hábitos, sobretudo entre os mais novos. Às vezes no bom sentido. Há uma substituição por bebidas que, mesmo em exagero, não são bebidas pouco saudáveis, mas aquilo que acontece muito entre os mais jovens são hábitos de consumo de outras bebidas alcoólicas, algumas delas até mais fortes, até mais perigosas, sobretudo em consumos noturnos, e isto não favorece algo que faz muito parte da nossa cultura e ainda continua a ser muito importante para o nosso tecido económico e para a sustentabilidade de muitos meios rurais, meios agrícolas do interior do país. Vamos tentar falar um pouco disto tudo e também tentar perceber por que nós falamos de mudanças de hábitos culturais, quando tu também deves ter apercebido uma coisa que eu percebi e depois procurei explicações e já me deram. De repente, eu comecei a notar nas séries de televisão, nas séries que nós vemos nos canais, sobretudo as mulheres, quando chegam a casa, vão ao frigorífico, abrem a porta, tiram uma garrafa de vinho, enchem um copo, geralmente um copo elegante.

Sim.

E sentam-se ao telefone a conversar. E eu disse: "Olha, isto é bom, faz-me beber o vinho". Depois perguntei: "Mas por que isto acontece?" De repente, todas as mulheres nas séries começaram a beber vinho e alguém me deu uma explicação. "Sabes, uma das coisas mais difíceis na arte de representar é o que se faz com as mãos".

Como não se fuma.

Antes havia um cigarro, agora não se pode ter cigarro, há um copo de vinho. Vá lá, não são todas más notícias.

E socialmente, o copo na mão facilita muito a conversa, não é?

Exatamente. Antigamente também era o cigarro que facilitava.

É verdade.

Pedia-se lume. Agora pede-se: "Vai um copo?" "Olha, e hoje à noite vamos ver o eclipse. Boa altura de ver o eclipse. Vai um copo?"

Com um copo e os óculos na cara.

Os óculos.

Até já.

Até já.

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