Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Hora de conhecermos o tema do Contracorrente desta quinta-feira. Para participar, basta ligar para nós 91 002 41 85, mas também nos pode deixar a sua mensagem nas redes sociais, no site do Observador, ou então enviar-nos o seu áudio através do WhatsApp 91 002 41 85. Carla.

O enviado especial de Trump, Steve Witkoff, esteve ontem reunido com Vladimir Putin em São Petersburgo e depois a Rússia disse disponível para retomar negociações tripartidas com a Ucrânia e os Estados Unidos. Zelensky é favorável a uma reunião trilateral o mais rapidamente possível e admitiu um acordo que congele a linha da frente para pôr fim ao conflito. Durante a noite voltaram a chover mísseis russos sobre Kiev e depois de dias de tensão com Washington por causa do levantamento do embargo ao diesel e da disponibilidade da rede Starlink, importa perceber se os ucranianos vão para este encontro mais frágeis do que nunca. Bom dia, José Manuel. De facto, uma reunião tripartida neste momento não se arrisca a ser uma reunião de Trump e Putin contra Zelensky?

Pode ser, arrisca, de facto. Sobretudo se pensarmos que há um protagonista que está ausente. Esse protagonista chama-se União Europeia, chama-se Europa ou chama-se potências europeias. E está ausente em boa parte por culpa própria. Independentemente disso, dessa ausência, a verdade é que, neste momento, a Ucrânia está numa posição de muita fragilidade, apesar de, do ponto de vista estritamente militar, as coisas não terem corrido mal este ano, sobretudo se pensarmos naquilo que é a frente de batalha. A frente de batalha ao longo dos últimos meses manteve-se, no essencial, estável. Houve uma pequena contraofensiva ucraniana que recuperou alguns territórios. A Rússia não conseguiu atingir nenhum dos seus objetivos mais estratégicos. Houve pequenos avanços aqui e acolá, há zonas sob pressão e há, sobretudo, um enorme desgaste em termos de vidas humanas e de materiais. No entanto, sabemos que a pressão sobre a Ucrânia é muito grande e a atual estratégia russa de bombardear as cidades para tornar o mais invivível possível o próximo inverno, naturalmente, que ao fim destes anos todos de guerra, vamos entrar no quinto inverno de guerra, causam muito desgaste e muita pressão sobre a Ucrânia, sobre Zelensky, sobre a forma de gerir este conflito e naturalmente a vontade de alcançar qualquer tipo de acordo. Mas não é só isso. Eu creio também que em alguns países começa a haver sinais de que o apoio a soluções de sacrifício pela Ucrânia se estão a desgastar. Algumas sondagens na Europa não dão sinal de que tenha havido transferência de apoio para a Rússia, mas dão sinal de que isto tem que ser resolvido, a guerra tem que acabar, esta loucura do preço, só das ajudas do dinheiro que é canalizado para a Ucrânia também tem de acabar. Aqui há muitas dificuldades, isto está difícil e, portanto, há vozes nas opiniões públicas, umas mais descaradas, outras mais discretas, outras apenas a explorarem aquilo que é algum desconforto das opiniões públicas, há vozes que de alguma forma vão minando o apoio à Ucrânia. E a Ucrânia, como sabemos, apesar da imensa capacidade que tem tido de imaginação e de criação, inclusive de novas armas e de novas formas de combater, é um país que não tem os recursos da Rússia, não tem a profundidade da Rússia e, portanto, estará sempre numa posição difícil. Neste momento, sabemos que a isto se acrescentam dois factos que eu considero alguns deles mais conjunturais do que estruturais. O facto mais conjuntural é a eleição de 4 de novembro dos Estados Unidos. Donald Trump é alguém que gere o dia a dia em função das suas prioridades políticas e ele está sob enorme pressão nas midterms, que são agora no princípio de novembro. E até elas passarem e até se conhecer aquilo que toda a gente antevê ser uma grande derrota dos republicanos, falta saber a sua dimensão, ele vai continuar na estrada a fazer campanha e vai, sobretudo, continuar a tentar inventar maneiras de dizer que está preocupado com algumas das principais preocupações dos cidadãos, designadamente aquelas que têm a ver com o custo dos combustíveis e do diesel em particular, que atinge muito diretamente parte da base eleitoral dos republicanos. Portanto, nesse quadro, ele vai fazer aquilo que ele sempre faz, que é inventar, às vezes, muitas medidas que não têm grande efeito do ponto de vista prático, mas que podem ter efeito do ponto de vista do espetáculo. E é no espetáculo que ele sabe viver. E desse ponto de vista, há também muitas coisas que ele vai dizendo que eu, pelo menos, começo a crer que a melhor forma de encarar é não nos levar à letra e tentar perceber, ao fim de um tempo, o que é que fica de toda aquela parafernália verbal. Agora, isso coloca naturalmente muita pressão sobre esta próxima reunião. Apesar de tudo, uma reunião trilateral Rússia-Ucrânia-Estados Unidos é melhor do que aquilo que também não sei se ainda continua em cima da mesa, que era uma outra reunião tripartida, mas desta vez Rússia, Estados Unidos, China. Essa sim é muitíssimo mais perigosa e poderá configurar um tipo de Yalta 2 ou alguma coisa semelhante a isso, com consequências trágicas não apenas para a Ucrânia, mas para a Europa e para o equilíbrio na Europa. São momentos perigosos, são momentos de sofrimento para os ucranianos. Como é que isto vai acabar? Eu sinceramente estou a crer que nós não conseguimos ter uma visibilidade sobre o que vão ser as próximas semanas e meses antes da eleição de novembro. Porque essa eleição de novembro, eu tenho a percepção de que algumas medidas só foram tomadas para iludir o eleitorado. Esta medida do diesel, por exemplo, mais do que uma decisão estrutural sobre o embargo à Ucrânia, é algo para dizer: "Estão a ver, eu estou a trabalhar para fazer baixar o preço dos combustíveis". A história do Starlink ainda está mal explicada, mas também é algo que, entretanto, foi um sinal e no dia seguinte ou dois dias depois, ou algum tempo depois, tudo parece já ter voltado à normalidade. Portanto, é muito difícil perceber o que se vai passar, porque há um lado daquilo que estamos a noticiar, que se for levado a sério ou 100% a sério, é totalmente trágico. Se for mais fogo de vista, aquilo que vai ser determinante vai ser a capacidade de resistência nos próximos tempos da Ucrânia, e essa ao longo dos últimos anos temos visto que é muito forte. Apesar de haver sinais, que são, não os da frente da batalha, mas os da frente das opiniões públicas, a que temos que estar atentos. Vamos tentar perceber isto tudo depois das 10 com a ajuda de alguns especialistas.

Até já, José Manuel. Ligue 91 002 41 85 e dê-nos a sua opinião em direto no "Contra-Corrente", logo a seguir ao Jornal das 10.