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José Manuel Fernandes costuma ser muito crítico aqui no seu Contracorrente, mas hoje quer fazer um elogio. E parece que é mesmo um grande elogio. José Manuel, bom dia.
Bom dia. É mesmo, porque eu queria assinalar a visita do Papa Francisco ao Iraque. Eu estava ontem a ver as imagens do seu regresso e fui à procura de saber um pouquinho mais sobre a viagem e achei uma coisa verdadeiramente extraordinária. Estamos a falar de um homem que tem 84 anos e que em vez de ficar no conforto de Roma e do Vaticano, foi numa altura destas pra uma das zonas mais perigosas do mundo. Eu estava a ver aquilo e sabes o que me veio imediatamente à cabeça?
Não, diz lá.
Para variar, foi uma ideia um pouquinho provocadora. Interroguei-me se neste mundo em que cada vez vivemos, eu diria que vivemos entre, vou usar uma palavra um bocado provocatória, que é cobardes, se não restaremos só a um homem corajoso. E se esse homem corajoso não é mesmo o Papa Francisco. Lembrei-me, naturalmente, das primeiras palavras de João Paulo II, quando há tantos anos, em 1978, chegou àquela janela do Vaticano, depois de ter sido eleito Papa, e fez aquele apelo tão simples que é: "Não tenhais medo". Foi um apelo que na altura ajudou a mudar o mundo. Sobretudo ajudou a mudar o mundo de onde vinha João Paulo II, que era o mundo comunista, e que em breve cairia como um castelo de cartas. Depois também me lembrei daquela fabulosa imagem do Papa Francisco a rezar missa na Praça de São Pedro completamente vazia, no auge da primeira vaga da pandemia, está agora a fazer um ano. Eu acho que foi também um ato de coragem, de grande simbolismo, essa missa numa praça vazia, assim como foi um ato de grande simbolismo ele agora ter rezado missa numa praça de Mossul entre ruínas. Quem não viu as imagens deve ir vê-las, porque são as ruínas de uma cidade que esteve ocupada até há pouco tempo pelo Estado Islâmico. Entre aquelas ruínas, havia ruínas de igrejas que esses radicais tinham dinamitado e depois incendiado. E ele esteve ali, rodeado de cristãos, que se juntaram, e sem medo. Também sem máscaras, mas o importante é que não tinham medo. E isso é a mensagem-chave, não ter medo.
Agora deixa-me ser do contra. A viagem correu entre enormes medidas de segurança, não é? Achas mesmo que o Papa correu riscos assim tão grandes?
Quase que me apetecia devolver a pergunta e perguntar quantos líderes se arriscariam a fazer a mesma viagem. Quantos é que embarcariam num helicóptero que apesar de tudo podia ser abatido por um míssil terra-ar. Quantos rezariam missa ao ar livre, entre ruínas, num sítio tão complicado onde podia haver sempre um sniper. Tudo isto quando ainda nos primeiros dias de março, não foi assim há muito tempo, foi há dias. Uns 10 rockets, uma dúzia de rockets caíram perto de uma base norte-americana ali no Iraque. Um bocado mais a sul, porque foi ao pé de Bagdá. É certo que havia muita segurança, sem dúvida. É certo, mas também não foi um passeio numa avenida. Houve diferenças, nós vamos de automóvel normal, ele foi num carro blindado, é óbvio. O Iraque ainda é um país muito instável e é bom ter uma coisa bem presente. O Iraque era um país onde em 2003 viviam um milhão e meio de cristãos. Desse milhão e meio de cristãos, restam hoje, calcula-se que 270 mil. Quer dizer que desapareceram mais de um milhão e duzentos mil do Iraque, fugiram ou foram mortos. As pessoas muitas vezes não têm bem noção desta realidade, mas basta passar os olhos pelos relatórios de uma associação chamada Apoio à Igreja que Sofre, que faz um relatório todos os anos, fica arrepiado com o que se passa com os cristãos no Iraque, mas em muitas outras partes do mundo. Na região que o Papa visitou, as perseguições foram terríveis, sobretudo durante esse período em que aquela zona, que é a planície do Ninive, esteve ocupada pelo ISIS.
E era aí mesmo que o Papa queria ir. Aliás, João Paulo II já tinha esse projeto.
Pois, é que a planície do Ninive, que é onde fica Ur, as ruínas de Ur, é onde se acredita que tenha nascido Abraão. Abraão é uma figura central nas chamadas três grandes religiões do livro, que é o judaísmo, o cristianismo e o islão. São as três religiões abraâmicas, como se diz. O Papa Francisco queria juntá-las todas as três em Ur e por isso quis que fosse consigo um representante dos judeus, mas infelizmente o Estado iraquiano não deixou, porque foi só possível realizar um encontro com o principal líder religioso do Iraque xiita, que é o Aiatola Ali Sistani. Mesmo assim, isso é muito importante e foi um ato de grande coragem. Há muitos católicos conservadores que têm criticado esta aproximação que os últimos papas têm feito, não só às outras correntes do cristianismo, porque o cristianismo também está dividido, como ao judaísmo e ao islamismo. Voltou a acontecer novamente. Eu não sou crente, portanto não tenho fé, mas respeito muito o imenso apelo das religiões e por isso dou a maior importância a esta diplomacia, a este diálogo, a toda esta aproximação. Eu acho que há muitas pontes que têm que ser atravessadas, sobretudo no Oriente Médio, e é preciso muita coragem para atravessá-las, porque algumas, por assim dizer, cruzam abismos, literalmente abismos.
O que queres dizer com isso de cruzar abismos?
Quer dizer que cavaram-se grandes diferenças. Basta lembrar todas as guerras que houve. Por exemplo, no tempo em que o ISIS esteve naquela região, os seus militantes marcavam os cristãos como sendo os nazarenos. De certa forma, como os nazistas marcavam os judeus. Portanto, punham uma espécie de marca. O preconceito era que o cristianismo ali, naquela zona, é visto como sendo uma coisa do Ocidente. E de facto, durante muitos anos, a Europa até era conhecida como quase sinónimo de cristandade. Mas a verdade é que o termo nazareno vem de Nazaré. Por quê? Porque Cristo vinha de uma família de Nazaré. E Nazaré é uma terra que fica hoje em Israel, portanto, é uma terra do Médio Oriente. Mais, um dos primeiros apóstolos, São Tomé, o famoso São Tomé, de "Vê como São Tomé", terá andado precisamente ali pelo Nínive, terá andado logo no século I, logo a seguir à morte de Cristo. Portanto, tudo se mistura e sobretudo, tudo tem a mesma raiz, tudo conduz a Abraão. E acho que aquilo que é fundamental na coragem do Papa Francisco, mais do que entrar de helicóptero e rezar aquela missa naquela praça, foi lembrar isso mesmo, foi recordar o que é comum, ou melhor, a raiz comum dessas três grandes religiões. E por isso eu acho que vou ler-te só o início de uma oração que ele fez depois de um discurso, é uma oração que ele fez aos filhos de Abraão e que ele leu precisamente na ída pelo ninho de Ur, e depois diz-me se não é preciso coragem para dizer isto que eu vou ler: "Deus Todo-Poderoso, nosso Criador, que amais a família humana e tudo o que as vossas mãos fizeram, nós, filhos e filhas de Abraão, pertencentes ao judaísmo, ao cristianismo e ao islão, juntamente com os demais crentes e todas as pessoas de boa vontade, agradecemos-vos por nos terdes dado como pai comum a fé de Abraão, filho insigne desta nobre e amada terra". Eu acho que não é preciso dizer mais nada. Eu só recomendo que leiam a oração toda, que tem partes muito bonitas. Eu às vezes devo dizer que discordo do Papa Francisco em algumas coisas, mas eu gosto muito desta coragem que ele teve e tem nestes momentos. Eu sou o José Manuel Fernandes, obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou 98.4, no Grande Porto.