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E no Contracorrente de hoje vamos olhar para o futuro do PSD no dia em que Luís Montenegro apresenta a sua candidatura à liderança social-democrata. O número de telefone para onde pode ligar é o habitual: 910 024 185. Pode usar também este número WhatsApp para enviar a sua mensagem voz. Dê também a sua opinião nas redes sociais e no site do Observador.

Luís Montenegro deve apresentar daqui a menos de uma hora a plataforma da candidatura à liderança do PSD, pelo que é novamente do PSD e do futuro do PSD que vamos falar no Contracorrente de hoje. Até porque José Manuel Fernandes quer voltar a colocar uma pergunta desafiadora: quer saber se existe a possibilidade do PSD seguir o mesmo caminho do CDS. Achas mesmo que isso é uma possibilidade, José Manuel?

Bom dia, novamente.

Bom dia.

Queres que seja franco?

Sim.

Acho que sim. Acho que é uma possibilidade, mesmo que sendo baixa, é uma possibilidade. Os partidos nascem, crescem, definham, morrem, às vezes renascem. Acontece em todas as democracias. Nalgumas até acontece muito depressa, Itália, França. Há poucos exemplos de partidos centenários. Aliás, lembro-me muito poucos, talvez as democracias mais antigas, Reino Unido, Estados Unidos. E os nossos já vão a caminho de meio século, apesar de tudo. Exceto o PCP, mas o PCP é um caso à parte, esse já comemorou o seu centenário, mas também já viveu dias melhores, também é preciso reconhecer. Muito importante desta pergunta não é fazer história, mais é sabermos se e quando o PSD pode acabar como o CDS. E para isso temos de ir ao PSD, para percebermos se também ele está a sofrer de algum dos males que levaram ao colapso do CDS, um colapso que não sabemos ainda se vai ter ou não redenção. Alguém começou a tentar essa redenção este fim de semana passado. Ora vejamos, o que é que matou ou quase matou o CDS? Eu diria que foi indefinição política, porque o partido foi tendo várias linhas. Mudava muito de eleição para eleição a linha política e foi falando por isso para eleitorados diferentes. Primeiro Paulino das Feiras e depois a seguir o Paulino dos Quadros. Uma indefinição que andou a par com outra coisa que foi fatal nos últimos tempos, que foram guerras intestinas, quase viscerais. O que é que temos agora no PSD? Indefinição política e guerras também intestinas. Dir-se-ia que a indefinição política sempre fez parte da matriz que é aquilo que é o PSD. O PSD, ao contrário do CDS, sempre foi um partido pouco ideológico e ao mesmo tempo também não há quase memória de termos um PSD onde não houvesse lutas intestinas. É uma coisa que vai para trás. Eu lembro-me de Sá Carneiro. Sá Carneiro foi o que foi, teve metade do grupo parlamentar a ir-se embora. Balsemão, cada Conselho Nacional era um circo. Mota Pinto também viveu tempos muito difíceis. Os primeiros tempos de Alma Paz foi quando maioria dos absolutistas de Cavaco, aí havia poder para todos e as coisas acalmaram. Mas depois o Cavaco acabou no congresso partidário, talvez mais famoso da nossa democracia, que foi aquele do Coliseu, a famosa disputa entre Fernando Nogueira e Durão Barroso, que ainda hoje nos lembramos de frases dela.

Ainda nos lembramos de muitas frases. José Manuel, mas então se o PSD sempre foi um partido de muitas sensibilidades e de muitos baronatos, por que agora dizes que essa indefinição e essas guerras desta vez podem ser fatais?

Começo mas eu a deepar-me nos detalhes. Deixa-me ler-te um diagnóstico que parece-me acertado. Reza assim: "Como partido sem espinha dorsal ideológica, o PSD tem de viver de projetos mobilizadores que toquem sentimentos profundos da sociedade, como viveu com Sá Carneiro e com Cavaco Silva. Quando isso não sucede, o PSD deixa com facilidade que o seu espaço político seja ocupado pelo partido primo que tem à sua esquerda, o PS." Eu não sei se concordas com esta análise, mas este texto não foi escrito agora. Este texto é de fevereiro do ano 2000, portanto, é um texto que tem 22 anos. Esta é a parte que fui eu que escrevi. Por acaso lembrei-me dele ontem. Isto foi numa altura de mais um congresso do PSD e eu me lembrava que eu tinha escrito algures no tempo um texto com um título parecido com a pergunta de hoje, que era: "Por que não acabar com o PSD?"

Portanto, já eras Contracorrente.

Já era Contracorrente nessa altura. Passaram, de facto, mais de duas décadas, o PSD não acabou, mas às vezes parece. Nestes 22 anos, o PSD só esteve no governo, se nos lembramos bem, em períodos de crise econômica, e só foi para o governo depois dos primeiros ministros socialistas se terem demitido. António Guterres demitiu-se e José Sócrates demitiu-se. Não caíram, demitiram-se. Portanto, nestes 22 anos, nunca o PSD conseguiu voltar a mobilizar o país em torno de um projeto de mudança, como tinha mobilizado, de resto, nos tempos de Sá Carneiro e depois nos tempos de Cavaco Silva, independentemente de o país ser diferente. Já discutimos aqui uma vez também como é que o país era diferente nesse tempo. Aliás, há 22 anos, nesse mesmo texto, eu também escrevi que nesse momento os portugueses ainda pareciam, e cito: "Preferir a forma sonolenta, indolor e inodora de governar dos socialistas. Gostam de um governo que não os entusiasma, mas não os incomoda. E não sentem qualquer urgência nas reformas que eu não poderia dizer que são urgentes." Eu ontem estava a ler isto e até fiquei ... De facto, a gente fala de reformas urgentes há tanto tempo. Acho que se escrevesse a mesma frase hoje, ela era

Ninguém daria pela diferença, acho que podia descrever bem a situação que vivemos.

José Manuel, parece que estás a descrever um beco sem saída, mas a verdade é que falaste do PSD acabar há 22 anos e ele ainda anda por aí e é o segundo maior partido do país.

É verdade. Anda por aí, mas anda sem graça nem formosura. Eu não quero continuar a ler parte desse velho texto, mas antes de irmos mais a fundo e mais à atualidade, deixa-me só acrescentar que nessa altura, mais uma vez, ano 2000, eu de alguma forma já estava a ver aquilo que ia acontecer à esquerda, porque falava que o Bloco de Esquerda podia vir a subir e dizia que se calhar isso podia também acontecer à direita. O Bloco, no ano 2000, ainda só tinha dois deputados, nem sequer tinha 2,5% na votação e depois foi o que foi. De alguma forma, já se estava a ver o que aí vinha. Por isso eu acrescentava nesse texto, e juro não vou voltar a citar esse texto, depois de referir vários problemas do país, outros debates, eu acrescentava isso: "Há aí um espaço enorme para o debate e o confronto político, nos problemas do país, nos debates culturais, há aí clivagens que o centrão não esbate. Há aí muitas sensibilidades sociais e culturais à espera de encontrar representação política. No entanto, tudo isso parece passar muito ao lado do PSD. Talvez que o PSD tenha consciência que alguns desses problemas o poderão fraturar." De facto, o que é que tinha passado em 2000? O PSD vinha num resultado considerado mau nas legislativas de 1999. Mas o que é que tinha sido esse resultado mau? 32,3%, agora teve menos de 30%, e 81 deputados, agora teve 77. E em 2019, como sabes, foi mais ou menos como agora. Um pouquinho mais na votação, um pouquinho menos nos deputados. Quando os estragos que os partidos que exploram as agendas de que eu falava se começam a notar, eu falava que havia essas agendas há 22 anos, acho que é a altura de falar um pouquinho melhor do que se pode estar a passar, porque esses estragos estão à vista.

Mas tu achas mesmo que o Chega e a Iniciativa Liberal são partidos capazes de ir comendo o eleitorado do PSD ainda mais?

Hoje parece-me uma evidência que estão a comer. Os estudos que nós temos mostram isso. Não é uma inevitabilidade que venham a comer o eleitorado do PSD, apesar de todas aquelas coisas terríveis que escrevi logo nesse ano de 2000, é bom não termos ilusões. O PSD de 2000, e agora vou dizer coisas mais terríveis, não tem comparação com o PSD de 2022, apesar de tudo. O de 2022, pelo menos na minha perspectiva, é muito pior. O de 2022 passou pelo maior período de desvitalização política que um grande partido teve em Portugal. Não consigo encontrar palavras mais simpáticas para o que foi a liderança de Rui Rio, uma liderança que acentuou precisamente aquilo que eram esses defeitos estruturais do PSD. Tornou ainda mais uma coisa que do ponto de vista programático, ideológico, não era literalmente nem carne nem peixe. E ao mesmo tempo, entregou-se a tudo o que é possível e imaginário no que toca à guerrilha interna, ao ódio de fação, aos golpinhos, ao pardismo. Eu já aqui falei, por exemplo, de como é preocupante a qualidade do grupo parlamentar do PSD, já falámos aqui sobre isso. Também aqui já disse como pode ser difícil a um novo líder, seja ele qual for, lidar com um grupo parlamentar que não escolheu, lidar com deputados que muitos só lá estão por serem fiéis a Rui Rio. Ora, o que soubemos ontem sobre a lista única que se vai candidatar à liderança da bancada parlamentar só pode confirmar as minhas piores expectativas, porque triste, mas é verdade.

Falas da lista de Paulo Mota Pinto?

Sim, claro. É a única que há.

É a única que há.

Eu ontem estive a percorrê-la com a ajuda dos nossos amigos da secção de política, porque eu olhei para ali e não conhecia a maior parte daqueles nomes. Eu queria ter uma ideia de quem eram elas, porque nunca tinha ouvido falar delas, e eles iam-me dizendo coisas assim: "Esse foi o que arranjou os votos na concelhia X." "Esse só está aí porque é amigo do cacique A ou do cacique B". Ou então porque é uma figura menor da estrutura desse chefe de partido. As explicações eram quase todas deste tipo. Muitas tinham a ver com arranjos feitos para vencer as diretas do final do ano passado. Vínhamos a seguir, era preciso fazer promessas de lugares. Aliás, aquilo que eles sabem é que se tivessem vencido o Rangel tinha sido igual. O Rangel também andou a fazer promessas parecidas e os partidos, aparentemente, agora é assim que se regem. É assim que quem manda nos partidos tem que fazer. O resultado é que tu não encontras nomes de peso em lado nenhum. Quer dizer, mesmo os nomes de peso que podia haver na Comissão de Economia e Finanças da Assembleia. O único nome de peso que o PSD tem na Assembleia, que é o Joaquim Miranda Sarmento, não foi nomeado nem coordenador, nem vice-coordenador para a Comissão de Economia e Finanças.

Isso é surpreendente.

Eu diria que sim. Pelo menos a mim surpreendeu-me. Não sei o que eles lá pensam. Mas depois vais a outras comissões que achas que são de temas que preocupam as pessoas, Educação, Saúde, e os nomes que lá estás também não os conheces. Depois vais perguntar quem são aquelas pessoas. "Esse é o fulano da distrital, da concelhia, ou secretário de não sei de quem." Um desastre absoluto. Agora eu pergunto: como é que poderá o próximo líder mudar isto? Olha, duvido. E sabes o que é que eu duvido? Duvido porque, se calhar, para mudar isto é preciso mudar o Paulo Mota Pinto Paiva Mora Pinto, mesmo nunca tendo sido líder parlamentar, nunca tendo feito grande vida parlamentar, não se lhe conhecendo grandes qualidades de orador, se calhar ainda é um dos poucos nomes que se sobressai no meio daquela bancada. E não é só por ser muito alto.

Mas Montenegro não tem ninguém de confiança?

Não. Ele tem pessoas de confiança na bancada, parece que sim, mas os nomes também são muito pouco conhecidos. Não sei até que ponto é que poderão fazer impacto. E estamos a assumir que será Montenegro o próximo líder do PSD. Parece, de resto, cada vez mais provável. Daqui a pouquinho vamos ver o que ele tem a dizer. Ele já abriu um site no Facebook esta noite, já mandou uma carta ontem aos militantes. Eu estou a dizer que é o mais provável, porque houve abstência de quase todos os outros. Pais Maduro disse muito cedo que não era candidato. Pinto Luz, ontem aqui na rádio, tornou claro que também não é candidato. Ribeiro Esteves meditou, meditou e desistiu. Carlos Moedas, na minha perspectiva, fez a única coisa que podia fazer, que foi dizer que neste momento tem mesmo de se concentrar em Lisboa, porque basta pensar que as próximas eleições em Lisboa são antes das próximas eleições legislativas. Portanto, fica a faltar Jorge Moreira da Silva, pelo menos dos nomes mais conhecidos, e esse parece que vai mesmo avançar, mas creio que tem poucas hipóteses contra a máquina que já foi montada por Montenegro, apesar de Moreira da Silva ter algo diferente. Podemos considerar uma vantagem, uma desvantagem, mas Moreira da Silva já promoveu uma reflexão, que eu acho que é uma reflexão interessante, até tem aspectos muito interessantes naquele think tank a que presidiu, que foi a plataforma para o crescimento sustentável, que esteve a produzir reflexão sobre o país e sobre o futuro aqui há uns tempos, que eu acho que é um trabalho sólido, talvez, na minha perspectiva, excessivamente consensual. Pelo que eu até diria que ele tem, pelo menos, programa de candidatura, mesmo antes de ser candidato, o que já é uma vantagem. Não creio, no entanto, que isso chegue. Chegue nem a ele, nem a Monterroso.

Montenegro.

Perdão, Montenegro.

Dizias que essa não chega.

Já estava a dizer, são tantos Montes.

Para trás a ver onde é que íamos com o Monterroso.

Os dois provavelmente vão viver o mesmo problema, vão prometer fazer uma oposição firme ao governo de António Costa, que é aquilo que tem que se dizer, é aquilo que lhes faz concorrer com, por exemplo, o que está a dizer o Chega. E até dizer isso não será muito difícil. Agora, eu não sei se conseguirão é apresentar duas ou três ideias fortes, mobilizadoras, que eles repitam até à exaustão, que repitam, no fundo, até os portugueses se habituarem a elas e não as estranharem daqui por quase cinco anos, que é quando são as próximas eleições. Voltando à pergunta inicial, à questão de saber se o PSD pode mirrar, por assim dizer, como agora mirrou o CDS, eu diria que sim, se não aprender com aquilo que é possível aprender com os caminhos que foram percorridos por partidos que, por enquanto, nasceram mais inicios, o Chega e a IL, concorde-se ou não com as suas ideias. O PSD não pode, sobretudo, ficar à espera de algo que ficou à espera nos últimos anos, que é que o poder apodreça, e de volta aqui nas mãos, porque se o fizer, vai olhar outra vez com vários problemas, nomeadamente com temas, com assuntos, com urgências que não são os da sua agenda. Isso foi o que aconteceu em 2002, foi o que aconteceu outra vez em 2011. Foi para lá, para o governo, não aplicou o seu programa e depois ainda o culparam por isso. E no PSD também se espera que não se repita, com toda a franqueza, a guerra intestina que marcou o mandato de Francisco Luís dos Santos no CDS, apesar de de vez em quando haver sinais disso. Montenegro está a tentar que isso não aconteça. É o sentido da mensagem dele desta noite, mas sabe-se lá. Guerras dessas, num tempo destes, fora do poder, são muito complicadas. E o terreno está muito ocupado. Para o Conselho de Estado, por exemplo, lá irá Rio. Portanto, ele não deu a oportunidade a outro. Tudo o que tenho vindo a dizer, tudo isto que tenho vindo a sugerir, é se calhar um pouquinho ambicioso, é pedir muito a um partido que verdadeiramente me parece deprimido, tão deprimido que as principais figuras até parecem ter desistido porque não se apresentam na grelha de partida sequer. Ou seja, é um partido que ainda é grande, mas que se continuar assim arrisca-se mesmo a ser, não digo a desaparecer, mas a ser um partido mais pequeno, como aconteceu a tantos outros.

E mais irrelevante. Vamos olhar, então, neste Contracorrente para o futuro do PSD. O José Manuel Fernandes avança com esta hipótese. No limite, o PSD pode estar a passar até pelo mesmo processo que o CDS atravessa. Ora, no dia em que Luís Montenegro vai explicar por que quer ser presidente do PSD, e vamos acompanhar essa declaração e esse momento em direto às 11h, vamos também medir o pulso aos desafios que o partido tem pela frente. Há um risco real de erosão? O Iniciativa Liberal e Chega podem tirar mais eleitorado ao PSD? Convidamos os nossos ouvintes a participar. E já temos conosco a jornalista Maria João Avilez. Bom dia, Maria João, bem-vinda outra vez.

Olá, bom dia, obrigada.

Na sua perspectiva, Maria João Avilez, há o risco, de facto, do PSD perder relevância?

Há esse risco, evidentemente. Luís Montenegro disse creio que ontem que não quer ajustar contas nem vai ajustar contas. O que se lhe pede, e só isso justifica que valha a pena a sua candidatura, na minha perspectiva, é que ele estabeleça uma diferença entre ajustar contas e fazer a rutura essencial. E a rutura essencial, antes de irmos às prioridades, que eu vou passar a dizer quais me parecem ser, é retirar o PSD daquela espécie de limbo que foi o tremendo equívoco Da total responsabilidade de Rui Rio de colocar o partido ao centro, este equívoco tremendo que originou o resultado eleitoral que se sabe, pela confusão que provocou e pela péssima política que serviu este equívoco. E, ao mesmo tempo, ser capaz, depois de cortar com este equívoco, de explicar aos militantes este equívoco e dizer que é de outra forma que se parte, explicar o que fazer com o seu PSD, o seu dele Montenegro se ganhar, que eu penso que evidentemente que é ele que ganha. Onde é que ele quer que seja o espaço do PSD? Como é que ele se vai relacionar com os outros? É a primeira vez que um candidato a líder do PSD se defronta com bancadas, com assinalável número de deputados, de dois partidos à direita do espaço do PS. É muito interessante. Dantes havia o CDS. E depois os líderes do PSD entender-se iam ou não com o CDS, em eleições ou em acordos, etc. Agora, há deputados do Chega e há deputados da Iniciativa Liberal. Como é que Luís Montenegro vê esse jogo e esse estabelecimento de território? Que relação é que ele pensa poder ter ou se está interessado em ter com o CDS, mesmo com o CDS fora do Parlamento. E depois, se ele terá a coragem, a habilidade, a persistência para lidar com o grupo parlamentar hostil e que todos os dias nos são dados sinais por Rui Rio, que não acaba de perder estas eleições. Não se vai embora, não fez um exame de consciência público, não prestou contas ao eleitorado pela derrota. Prestar contas no sentido até de dizer: "Eu escolhi uma estratégia, pelos vistos enganei-me. Outros farão melhor ou diferente." Isto não aconteceu, ele continua lá. Escolheu um grupo parlamentar fraquíssimo, como não há memória em 40 e tal anos, e eu estou na primeira fila da observação desde antes, mas desde 1974. Portanto, dói ver como é que é possível chegar-se a ver um downgrading ano a ano, mês a mês, semana a semana, da qualidade política, intelectual, cívica, curricular dos deputados que me representam a mim e a si. Gostaria também de dizer que há maneiras de substituir, mesmo não estando no Parlamento, o novo líder do partido saberá como lidar, se substitui ou não substitui uma liderança parlamentar e se tudo faz para que haja um mínimo de consonância entre as prioridades que o novo líder nos apresentará, ao PSD e ao país, ou se é este grupo parlamentar tal e qual está, com o qual ele vai ter que lidar. Gostava só também de dizer que vai ser muito interessante saber se o Luís Montenegro tem como... As prioridades são tremendas e muitas. É muito interessante observar isto politicamente. Estamos no momento em que há quatro ou cinco prioridades essencialíssimas. Eu vou dizer quais são, mas gostaria de saber se ele começa pela primeira, donde poderá decorrer o êxito das outras.

Quais são?

É o crescimento econômico, evidentemente, sem o qual não é possível continuar a empobrecer-se desta maneira, num momento de inflação à qual eu penso que o governo não está a prestar, e logo veremos na discussão do programa do governo daqui a dois dias, não me parece que o governo esteja a atender como deveria, com a atenção, a força, a vontade política e os instrumentos a essa inflação. Se o Luís Montenegro vai atender à necessidade urgente e premente do crescimento econômico, e se vai falar, pelo menos, de justiça, educação e saúde, que são três áreas que estão ultraferidas, cuja ferida está a gangrenar, e quando se pegar nelas, mais a mais com o líder fora do Parlamento, distante das decisões que se tomam, se torna ainda mais delicada a sua tarefa.

Maria João. Sim.

Diga.

Maria João Aveleira está, portanto, mesmo a presumir que é Luís Montenegro que vai ser o próximo presidente do PSD?

Eu tenho, como cidadã, e depois como jornalista da minha observação, consideração pela figura, pela personalidade de Jorge Moreira da Silva, pela figura humana, pela figura política que ele é, pelo tipo de temas de que sabe, de que é conhecedor profundo, em que trabalhou e se esforçou, pela maneira como foi ministro de Passos Coelho numa altura dificílima da vida política portuguesa Tenho imensa estima. Penso que parte tão atrasado, como dizia o José Manuel Fernandes, as tropas, a logística, as cabeças das pessoas, dos militantes já estão talvez mais virados para aquilo que eu diria a inevitabilidade da vitória de Luís Montenegro. Mas como sabemos, a política é a maior fornecedora que nós conhecemos de surpresa e, portanto, pode vir a fazer uma surpresa. Só uma coisa sobre o Luís Montenegro. Temos que recordar a seu favor, tudo é uma incógnita, mas há uma coisa que não é uma incógnita, foi o modo muito corajoso, determinado, incisivo e muito combativo com o qual ele foi líder parlamentar no tempo dificílimo, que foi ontem, que o PS estabelece uma narrativa totalmente falsa sobre esse tempo, o PS e a esquerda, mas o tempo muito difícil e corajoso de Pedro Passos Coelho, além dos anos da troica e com Luís Montenegro no Parlamento, que foi um condutor, um parceiro extraordinário de coragem e de combatividade nesses anos. Isso é um ponto muito bom a favor de Luís Montenegro. Agora falta o resto.

Falta o resto. E não o estranha que haja tão pouca gente a avançar? Bom, para já, até é só Luís Montenegro, presumindo-se que Moreira da Silva também vai fazer o mesmo. Até o CDS mostrou mais vitalidade no último congresso, não lhe parece?

Mostrou mais vitalidade e vai ser muito interessante saber o que é que o Luís Montenegro vai fazer com o CDS, porque sempre houve uma tradição que eu penso que pode ser reavivada e interessante. Aliás, lembro que se Rui Rio se tivesse imposto, nos grandes momentos os líderes impõem-se, é isso que os define. Se Rui Rio se tivesse imposto, teria havido uma aliança com o CDS. O CDS estava no Parlamento, e não teria havido uma maioria absoluta. Ora, um líder que tem estes pecados, além da maneira como conduziu a oposição até às eleições e depois onde colocou o sitio ineficaz e equivocado, onde colocou o seu partido no centro, mostra. Eu não me lembro de um PSD assim, e também estou desde 64 a olhar para o PSD. Portanto, não acho que o PSD vai desaparecer. Acho que há hipótese ainda de que não se torne irrelevante, mas sendo a natureza humana o que é, e sendo esses cavalheiros, Miguel Pinto Luz, que eu conheço bem, o Miguel Poiares Maduro, que também conheço, pelo menos ofício de jornalista, e sendo pessoas com carreira, currículo e provas dadas, estiveram aqui entre nós, que ninguém nos ouve, não estiveram para se passar muito com esta espécie de travessia absolutamente metódica, difícil, pouco estimulante, de quatro anos à frente deles, sendo que não se pode excluir, dadas as extraordinárias e curiosas personalidades do Presidente da República e do Primeiro-Ministro, e deste também estranhíssimo e curiosíssimo diálogo que começaram no dia da tomada de posse, não se pode excluir uma surpresa de António Costa partir mesmo para a Europa e haver eleições. Portanto, não há a certeza, não podemos dizer de fonte seguríssima, vai ser uma maioria absoluta que cumpra sua legislatura. Acho, de qualquer maneira, um desafio muito interessante. Estou muito expectante para ouvir o Luís Montenegro e se ele conseguir mobilizar e dizer duas, três coisas que alentem e mostrem aos militantes que mesmo longe, mesmo sem Parlamento, mesmo em condições políticas delicadas e difíceis, que vale a pena. Se ele conseguir mobilizar em nome do país, explicar o que é valer a pena, acho que o PSD não desaparece e pode readquirir a relevância.

Deixe-me colocar uma última questão: como é que acha que o PSD se deve posicionar? Já falou que deve continuar a manter relações com o CDS, mas com os partidos à direita que estão representados no Parlamento, parece que tem que haver definição clara de fronteiras entre PSD, Iniciativa Liberal e CHEGA ou colaboração?

Não, vou dizer. Acho que tem que haver reivindicação do território dele, PSD, que levou alguma pancada, como sabemos agora, que está mais estreito. Ele tem que o recuperar, mas tem que saber o que é manter relações com esses novos partidos e agora com mais deputados. Isso é que também vai ser uma prova muito interessante, ver o que ele tem a dizer a esses dois partidos, que tipo de relação vai ele, reivindicando o território do PSD, de espaço, de programa, de passado, do único partido que reformou, não ter vergonha do seu passado, como Rui Rio teve de Cavaco Silva e de Pedro Passos Coelho, que só contribuíram para o bem do país. Se ele conseguir reivindicar o seu passado patrimonial, da importância que teve no país e de que é feito o seu território e alargá-lo, tem também que tornar claro Que tipo de relação vai manter com o Chega e com a IL? Eu não consigo antecipar, porque não estou dentro da cabeça dele. O que sei é que isso vai ser revelador de uma liderança. Estou muito expectante para ouvir.

Muito expectante e não falta muito. A hora marcada são 11h da manhã. Daqui a 15 minutos. Maria João Vilas, muito obrigada pela sua análise.

Eu é que agradeço. Muito obrigada.

Haveremos de perceber depois como é que a Maria João Vilas olha para a forma como Luís Montenegro vai falar daqui a pouco. Para já, outras opiniões, João Miguel, vamos a elas.

Nas redes sociais, Jorge Duque escreve que o PSD é um saco de gatos e interesseiros, muito sem ética, rasteiram quem trabalha e pensa pela própria cabeça. Uma limpeza precisa-se. Jorge Duque escreve que saiu do partido quando os valores morais e a ética começaram a estar em causa. Pedro Alegria escreve que o PSD é vítima das lutas internas, escolhas de deputados incompetentes, profundos erros de comunicação durante a crise de 2009 a 2015, continuando a cometer os mesmos erros depois do PS ter sido governo. Pedro Alegria escreve que o PSD passou a ser um clube onde o avental quer mandar. O PSD se quer ser governo, tem de mudar de caras, de discurso e ser ambicioso e também atualizar-se. Flávio Madureira escreve que o PSD era tradicionalmente um partido centro, centro-direita. Rui Rio tornou o partido num partido centro, centro-esquerda. O que ele, Rui Rio, se esqueceu, escreve Flávio Madureira, é que já existe um outro partido que ocupa essa oposição e o eleitor questiona-se por que votar no PSD. Quanto a Fernando Félix da Costa, escreve que o que ajudou a matar o CDS e que quer matar o PSD e a direita em geral, são jornalistas sem escrúpulos e com complexos de esquerda, e ainda mais à vezes a reformas do que a esquerda portuguesa. São algumas das opiniões, Carla, que se vão podendo ler nas redes sociais do Observador. Já sabe, o número de telefone é o 910 024 185 para entrar em direto no Contracorrente.

Lemos algumas opiniões, agora vamos ouvi-las. Horácio Rodrigo está no Porto, é fisioterapeuta. Bom dia.

Muito bom dia. Antes de mais nada, muito obrigado por esta oportunidade que me estão a dar. Eu vou tentar ser o mais rápido possível. Não é fácil. Luís Montenegro, acima de tudo, revelou uma coragem e uma capacidade de resiliência muito grande. Luís Montenegro candidata-se ao PSD numa altura em que o PSD não irá para o poder, estará longe inclusive do poder. Ele não está no grupo parlamentar, tem imensa resistência dentro desse grupo parlamentar e mesmo assim ele candidata-se. Candidata-se, penso eu, porque percebeu que o país precisa dele, que o país precisa do PSD e que o PSD precisa dele. Agora, Luís Montenegro tem que ser muito claro para os portugueses e principalmente para os jovens. Tem que ser claro e dizer ao que vem, que reformas é que o país precisa, na área da economia, na área da justiça, na área da saúde, na área do ensino. E acima de tudo falar para os jovens, para o futuro deste país. Captar valores, captar os verdadeiros valores deste país. Tem que se acabar de uma vez por todas com a ideia de que o fato das pessoas estarem filiadas no partido, têm direito a lugares ou têm direito a estar em certos lugares. Não tem! Tem que ser por competência, tem que arranjar pessoas que para além da política tenham vida. Estamos fartos de profissionais da política e é isso que o Luís Montenegro precisa. E se o fizer, não tenho dúvidas que irá buscar, inclusive, pessoas que abandonaram o PSD justamente por esse tipo de questões. E, portanto, penso que o Luís Montenegro é um homem de coragem, que sabe que vai ser atraiçoado, que vai ser acossado na hora em que houverem novas eleições. Que aí vão surgir os do costume, aqueles que só estão prontos quando no fundo cheira a alguma coisa, a algum cargo, a algum poder. Portanto, é isso que eu tenho a dizer. Acho que o país lucra com Luís Montenegro, com a sua experiência. Esteve no governo numa altura muito difícil para este país. Agora ele tem que mostrar qual é a diferença, que é diferente e que inclusivamente poderá muito bem, no caso do Chega, demonstrar que o Chega é um partido demagógico e que no fundo só teve a representatividade que teve por uma única e exclusiva razão: é o cansaço que as pessoas têm, é o desespero que as pessoas têm de não verem a justiça e não verem as coisas a funcionar neste país.

E por isso, muito bom dia, Horácio Rodrigues. Obrigada.

E um grande abraço ao Luís Montenegro e para a sua coragem.

Coragem e resiliência, diz este nosso ouvinte falando de Luís Montenegro, mas dizendo também que agora vai ter de falar aos jovens e tem de apontar para reformas. Temos a opinião agora do Francisco Teixeira de Abreu, economista que está em Barcelona. Enviou-nos uma mensagem de áudio.

Olá, bom dia. Gostava de dar a minha opinião sobre esta questão do PSD acabar como o CDS. Bem sei que a opinião pública fala muito no fim do CDS. Eu discordo dessa análise. Acho que, em primeiro lugar, o CDS voltará certamente a Parlamento nas próximas eleições, porque muita gente se arrependeu de ter votado noutros partidos, porque não tinham previsto que estes deputados não iam ser eleitos, ou pelo menos nem um deputado, e portanto, por uma questão de simpatia, mas também porque o novo líder, Nuno Melo, é uma pessoa muito capaz e já começou a fazer oposição E já pela sua tomada de posse e o discurso que deu, vê-se que tem a capacidade de fazer uma oposição muito eficaz. A questão aqui é a incerteza do PSD relativamente ao novo líder que vão eleger. Mas dada a cumplicidade entre o PSD e o PS, ultimamente, sendo que o PS é um governo absoluto agora e já era quase absoluto antes com a geringonça. Este tipo de cumplicidade impede o PSD de ter um papel preponderante na oposição. E nós vimos isso nestas eleições. O Rui Rio não era considerado o principal opositor de Costa pelo eleitorado, especialmente o eleitorado de direita. Se o PSD mudar essa estratégia com eficácia, acho que tem alguma hipótese, mas há aqui um risco de o PSD não ter essa eficácia e aí vai ficar para segundo plano e vai se deteriorar, se não arranjar uma maneira de se separar claramente do PS. Obrigado e bom dia.

Obrigada nós, Francisco Teixeira de Abreu aqui a apontar para a estratégia que o PSD deve ter de seguir. A questão é, Helena Matos, se os partidos também morrem?

Sim. Isso sim. A questão da imortalidade eu sei que é um grande sonho, mas não.

Não, nem nos partidos. A questão é se o PSD está mais vulnerável nesta altura.

Está muito vulnerável. Este exercício que o José Manuel fez com o texto dele de 2000 é curioso, porque é um exercício, sobretudo agora que nós temos os textos em arquivo guardados no computador. Uma das coisas que faz muito bem é o ego, que é uma pessoa que começa a ler e pensa: "Nós não somos completamente parvos."

Às vezes não faz tão bem assim. Uma pessoa também se engana muito.

Sim, alguns sim, às vezes algumas injustiças, algumas coisas, alguns erros. Mas sobretudo, eu tenho uma amiga que trabalhou na redação do Independente e dizia, quando estavam muito embaixo, ela e uma outra pessoa punham-se a ler o que tinham escrito e diziam: "Nós somos ótimos."

Ter redação antes de tempo faz muito bem.

Sim, às vezes irrita um pouco. Sim, os partidos morrem. E às vezes morrem tão rapidamente, não se percebe. Isso tem a ver, sobretudo, com mudanças de ciclo. Por exemplo, em partidos enormes, como o caso do Partido Republicano Português, e de repente aquilo parecia não corresponder a nada. Há aqui esta circunstância. Nós estamos a assistir a grandes mudanças. Note-se, muito rapidamente o Partido Comunista Português vai ter outro líder, muito rapidamente para aquele funcionamento um bocadinho paulite puriano do Partido Comunista Português. Fala-se também de mudança possível no Bloco de Esquerda. Não já, mas também a acontecer. Temos o PSD, que já está no processo de mudança do seu líder, o CDS mudou, mas não tem representação parlamentar. Temos esta coisa que eu acho absolutamente extraordinária, que é: houve um homem que em Portugal fez um cartão, o Cardoso Pires até usou isso para um romance, porque ele pegava em coisas da realidade e guardava para se inspirar para os romances, que era um senhor que se chamava, agora não me lembro o nome, ex-viajante do Paquete Niassa. O que ele tinha feito de mais relevante na vida era ter feito uma viagem no Paquete Niassa e numa coisa que havia antigamente, que era um cartão de identificação, as pessoas tinham um cartão com o seu nome, os seus contactos, e ele tinha posto: "Ex-viajante do Paquete Niassa." António Costa está quase como o homem que pode ir para a Europa. Se ele fizesse agora um cartão de cidadão, eu esta ideia de António Costa que pode ir para a Europa, parece-me uma daquelas coisas com que nós nos entretemos e que não tem cabimento. Quer dizer, não há, e eu acho que é muito importante ser isto claro, não há, neste momento, nenhum lugar à espera de António Costa na Europa. Os calendários europeus dizem-nos que poderão existir lugares disponíveis dentro de algum tempo, mas não estão reservados para António Costa. A União Europeia tem outros países, tem outros líderes que também se acham possíveis candidatos a esses cargos. Esta é a ideia nacional de que António Costa pode ir para a Europa como todos nós. Mas esta ideia de ir para um cargo na nomenclatura europeia, não vamos dar isso como adquirido. É um forte candidato, mas é isso, é um forte candidato. Mas vamos ter uma grande alteração nas lideranças partidárias, porque quer António Costa vá ou não vá para a Europa, também o Partido Socialista entrará num processo de renovação. E depois temos, além do CDS, que agora tem um novo líder, mas sem representação parlamentar, a Iniciativa Liberal e o Chega. Eu acho que o que tem, neste momento, a liderança melhor resolvida, de todos eles, é a Iniciativa Liberal. Aliás, há aqui uma questão que é, ao que parece, o Cotrim Figueiredo vai partir numa espécie de viagem pelo interior do país.

Hoje de manhã o Paulo Ferreira dizia road show.

Exatamente. Mas é muito importante, porque aquilo que nós vimos, aliás, até falávamos disso aqui quando foi a análise dos resultados eleitorais, era quando se olhava para o mapa de Portugal e para a votação, por exemplo, da Iniciativa Liberal ou do Bloco versus Chega, pareciam peças de um puzzle. De um lado o litoral, do outro lado o interior, o Chega. E aqui tínhamos uma votação muito urbana, muito litoral. A Iniciativa Liberal, neste momento, parece querer ser um partido nacional, aquilo que em boa parte o Chega conseguiu ser, com candidatos mais ou menos exóticos, mas conseguiu ser. Ou seja, a Iniciativa Liberal, quando diz que vai partir para o interior do país, que vai tentar fazer núcleos no interior do país, vai buscar militantes onde? Terá de ir buscar militantes ao CDS e ao PSD. E claro, pessoas que não tiveram militância e que agora poderão achar que a Iniciativa Liberal é aquilo por que sempre esperaram. Mas há uma coisa que a política ensina, que é: quem já esteve na política, gosta de continuar na política. E quem esteve muitas vezes em estruturas, como foi o caso do CDS ou o PSD, o bicho está lá. E eu penso que claramente que a Iniciativa Liberal se está a preparar para ir pescar nessas águas que já foram do CDS, dessa gente que já foi do CDS ou que militou de alguma forma, ou que ia aos comícios, e do PSD. Depois, em relação a Montenegro, eu acho que há um sinal muito interessante quando os homens pensam candidatar às lideranças dos partidos, pelo menos tem sido assim no PSD, que emagrecem ou não.

A sério?

A sério. O Rangel fez aquela campanha da papa Maizena, a partir daí entrou naquele processo de emagrecimento que ele diz ser por razões de saúde.

Mas foi o único.

O Montenegro também. Eu achei, sinceramente, que ele se ia candidatar na cidade do Porto. Convidaram-no a ir ao Porto falar sobre uma coisa que não tinha nada a ver com nada, um militar, não sei quanto, aquelas coisas lá dos tempos do PREC. Era sobre o Pires Veloso, conhecido como o Vice-Rei do Norte. Estava muita gente, o Porto tem uma capacidade de mobilização muito interessante para estas coisas.

Sabes que esse comentário que tu fizeste sobre emagrecer já me foi feito por um antigo líder partidário do PSD.

Ah, e tu querias...?

Disse: "Quando as pessoas emagrecem ou é porque têm uma nova relação, ou então é porque estão a pensar candidatar-se a um lugar qualquer."

Pois, então podemos depois discutir esse lado da tua vida, para não criarmos aqui uma quesilha.

Não vou dizer quem foi a pessoa do PSD, mas foi um antigo. Eles têm tantos.

Pois, portanto.

É difícil de chegar lá assim só.

Mas até nessas coisas o José Manuel tinha de ser contra corrente. Emagreceu, penso eu, por outros motivos.

Mas não há assim muitos líderes do PSD mais cheios.

O Cavaco emagreciu muito. Não era possível mais.

O Rio também, os lupineses também, Marcos Mendes também. Não há assim muitos.

Mas quando estava nessa sessão sobre o Pires Veloso, havia um vídeo, um ecrã onde iam passando testemunhos vídeo das pessoas, várias pessoas que não estavam ali na sessão e que estavam a fazer o seu testemunho. E de repente, uma pessoa vai ouvindo. Apareceu o Montenegro. E o Montenegro parecia muito diferente, estava muito diferente. Parecia que tinha tido ali um refresh. Como as mulheres quando cortam o cabelo ou fazem uma alteração muito grande. E eu pensei: "Este homem vai candidatar-se à liderança." Esqueci-me momentaneamente do Pires Veloso, confesso. E fiquei a olhar, porque via ali toda uma outra forma de se apresentar e pensei: "Isto pode funcionar. Pode vir a funcionar."

Portanto, cuidado com a imagem, não é? Sabemos que isso é importante quando estamos com eleições, não é?

Claro que é. Nós podemos, por exemplo, pensar por que o Francisco Assis não é candidato à Presidência da República pelo Partido Socialista? Porque se calhar tem algumas dificuldades. Não tem a ver com as pessoas serem feias ou serem bonitas. Não, com conseguirem passar uma imagem que funcione. Eu acho que se nota que o Montenegro fez algum trabalho nessa área, passando agora aqui a questão do emagrecimento, que, por exemplo, no caso do Paulo Rangel, não o favoreceu nada. Mas acho que há aqui um trabalho de fundo, além de outras coisas. Acho que ele esteve, se não me engano, em França, também numa instituição universitária ou parauniversitária, ou num centro de reflexão também. Portanto, há aqui um trabalho de preparação. Agora, para quê? O PSD, de facto, é um partido que nós vemos pouco associado, como o José Manuel aqui dizia, a questões ideológicas, que consegue ter projetos mobilizadores. Repare-se, o PSD hoje vale mais ou menos metade da segunda maioria absoluta do Cavaco Silva. Em termos eleitorais. Temos de entender, temos de perceber isto. Os partidos, o PS também já teve. Mas há aqui um patamar. O PSD ainda terá ali uma margem, pode perder mais um, dois deputados, mas depois há coisas que o perder deputados é exatamente o contrário do ganhar peso.

É a dieta ioiô, José Manuel.

Aqui, depois a partir do ioiô, ir lá muito ao fundo, já é muito mais difícil, porque aquilo que está em cima da mesa para o PSD, eu não percebo nada de futebol e confesso que no outro dia ouvi aquele vosso programa matinal aqui.

Os Três Toques?

Nunca tinha ouvido e fiquei fã. Aliás, nem sabia que tu sabias tanto daquilo e fiquei maravilhada.

Eu vou ter que confessar que há um guião, assim muito mal amanhado, mas há um guião.

Sim, mas até para dizer aquelas coisas é preciso saber algo, o que não é o meu caso. Eu confesso aos ouvintes. Eu só muito tardiamente, já adulta, percebi que o Esférico não era um jogador de futebol do Porto. Portanto, estou a perceber a base da qual eu parti.

Podes participar nos Três Toques, que nós também somos assim fraquinhos.

Aquilo que pode acontecer ao PSD é tornar-se o primeiro daquilo que antigamente se chamava a segunda divisão, e que agora creio que tem outro nome. Porque acho que estas coisas de futebol são como aqueles bilhetes de avião, nós cada vez viajamos pior.

Acho que é divisão de honra.

Exatamente. É como a turística, que antigamente era a segunda classe. Os nomes é que se vão adocicando. E eu acho que há aqui em cima da mesa, a Maria João referiu aqui, eu adorei o tom com que ela disse grupo parlamentar, e depois o tom quando refere o fraquíssimo, que eu não vou reproduzir, mas que realmente dava conta do pensamento que ela tem. Ela referiu aqui quatro áreas, o crescimento económico, a justiça, a educação e a saúde, que ela acha que tem de haver uma intervenção do PSD nesta área. Mas eu acho que há aqui outra coisa, que é até onde é que há aqui uma espécie de um elefante no meio da sala, que se chama regionalização O que é que vai acontecer? O PSD vai se tornar o partido mais importante da liga regional. Rui Rio vai tornar-se numa espécie de novo vice-rei do Norte, passando a comparação com o militar de quem eu fui falar ao Porto, que era o Pires Veloso. O que é que vai acontecer? Eu acho que este assunto é crucial para o PSD. Eu acho que é vital perceber-se o que é que vai acontecer e qual é a posição que Montenegro tem nesta matéria. Porque, e voltando aqui ao ponto onde eu estava a referir aquilo que o José Manuel tinha dito, o PSD consegue ganhar alma, força e faz onda quando tem projetos dinamizadores. O PS tem aquela coisa que é de esquerda e socialismo, são três ideias fortes: esquerda, socialismo, estado social. Repete-se isto e a partir daí temos várias declinações. O PSD não tem essa ideologia, vai em torno de projetos. Conseguiu com Cavaco, como é óbvio. Conseguiu, de alguma forma, com Durão Barroso, mas depois Durão Barroso vai-se embora e sendo que Durão Barroso não é um líder com as características de comunicação, porque para comunicar, às vezes, comunicam as pessoas mais improváveis. Cavaco Silva comunicava. E até aquilo que se diz dos jornalistas serem de esquerda e as redações, sim, mas isso ajudava-o no sentido que era o homem que não percebia de comunicação.

Ele falava por cima dos jornalistas.

Claro, como é que não percebia de comunicação o homem que teve 2.900.000 votos? Como é que não percebia de comunicação? Era outra forma de comunicar que dispensava os canais habituais. E depois, teve um projeto mobilizador com Passos Coelho. Ou seja, Passos Coelho chega com um programa que não tinha sido negociado por ele e, em seguida, nas eleições de 2015, aquele resultado, que ele consegue, é em parte pela afirmação de que iria ter um projeto para o país. Na minha opinião, um dos erros terríveis da liderança de Rui Rio foi ter alienado esse capital. Rui Rio comportou-se como alguém que tivesse herdado um território, alguém que tivesse sido chamado.

A Maria João Aveleira fala do equívoco de Rui Rio. Neste caso, era sobre colocar o PSD ao centro, mas depois também disse que teve vergonha do passado do PSD.

Claro que sim. É como imaginemos alguém que herda um trono, a comparação a isto. "Não, mas eu não gosto deste país, porque tem muitas colinas, porque o clima não é bom. Não, eu gostava mais daquele ali outro." Isto não faz qualquer sentido. Aliás, se vir, o primeiro ano e pouco da liderança de Rui Rio, quase dois anos, é a combater a memória de Passos Coelho e tudo o que Passos Coelho tinha feito, tudo o que Passos Coelho tinha dito. Ele foi particularmente eficaz em lutas internas, em combates internos. É muito eficaz internamente, mas onde lhe falta a eficácia é externamente. Acho muito interessante, realmente estar cá a seguir isto há muitos anos, é muito importante. Quando a Maria João diz: "Um líder impõe-se." Eu quase que posso dizer que ela devia estar a pensar em Mário Soares, quando referiu que Rui Rio se devia ter imposto, porque sabe que ele queria ir coligado com o CDS, e depois aceitou, quase de uma forma passiva, aquela decisão do Conselho Nacional de não irem coligados. Porque também é preciso dizê-lo, Rui Rio não esteve sozinho, teve o apoio do PSD. E aqui chegamos a uma pergunta: se teve o apoio do PSD, é esse PSD com que Montenegro ou quem quer que seja que vá liderar o PSD, se vai confrontar. E aquilo que nós temos que perguntar é: o que o PSD quer ser? O PSD quer governar Portugal? Eu, se me perguntarem neste momento, eu acho que uma boa parte do PSD talvez comece a acariciar muito o sonho de ter ali uma coisa no Norte, um poder muito nortenho, numa regionalização, ser o primeiro da segunda divisão, depois lá chegaremos. A ideia do poder, o exercer o poder, no sentido do governo do país, não creio que seja assim tanto. Eu acho que há aqui também um problema com o partido. Nós falamos muito de Rui Rio, mas Rui Rio teve votações muito expressivas dentro do partido, mas mesmo muito expressivas. Portanto, eu não poria apenas a tónica em Rui Rio. E depois temos agora aquilo que já se começou a ver deste grupo parlamentar. Isto é um desastre. Aquelas manobras de bastidores para a Iniciativa Liberal, o Cotrim, não ir para a vice-presidência da Assembleia da República. Estes acordos com o Partido Socialista para colocar, na prática, aqueles cargos que sabemos que são por nomeação, serem todos repartidos entre o PS e o PSD. Eu acho que a cerca sanitária, tudo isto feito em nome da cerca sanitária ao Chega, mas como se vê, também da cerca sanitária à Iniciativa Liberal, que eu creio que os deve preocupar um bocadinho mais que o Chega. Eu acho que o que vai acabar é que o PSD é que vai ficar cercado

Porque vai ficar cercado pelo Partido Socialista, pela Iniciativa Liberal e pelo Chega. Portanto, eu acho que estes primeiros momentos do grupo parlamentar não indicam nada de positivo para os próximos tempos.

José Manuel Fernandes, Luís Montenegro não deve demorar muito a falar. Temos estado a ver como é que Montenegro vai encaixar uma série de questões desde esse passado do PSD, que era a relação não só com a própria bancada, como falaste muito, mas também com os partidos que estão lá representados à direita. Que expectativas é que tens para Luís Montenegro? Não és tão otimista quanto Maria João Avillez foi a falar numa possível liderança de Luís Montenegro?

Eu estou um pouquinho na expectativa, quero ouvir um pouquinho o que ele vai dizer hoje. Não quero ser nem pessimista, nem otimista. Obviamente que é uma tarefa que é bastante complicada pelas razões todas que já foram aqui apontadas, e pelo fato de o PSD ter ficado com o seu clube de fãs. O PSD, apesar de tudo aquilo que eu disse na intervenção inicial e dos riscos que corre, tem uma base eleitoral muito grande, de pessoas que se habituaram, que foram laranjinhas toda a vida e, portanto, votaram sempre da mesma maneira. Aconteça o que acontecer, bate a ver as vezes como o mar batendo na rocha, não se vão embora. Nisso tem até um lado às vezes parecido com o PCP, que durante muito tempo tinha também uma votação muito fiel.

Constante.

Constante. E era um partido também com aspectos às vezes mais orgânicos, tal como o PCP. Por seu turno, das coisas é completamente diferente. O PSD tinha uma capacidade de se identificar com a sociedade civil, por exemplo, em certas épocas da sua vida, que perdeu muito. E quando digo a sociedade civil, é com vários aspectos da sociedade civil. É com o melhor que havia nas universidades, era com um tecido empresarial, que não eram as grandes empresas, eram as pequenas e médias empresas, as empresas mais dinâmicas, que estavam muito identificadas com o tipo de problemas, o tipo de ansiedades que tinham, a forma como viam que de alguma forma aquele partido podia representá-las, sem perder, ao mesmo tempo, contato com uma base mais popular, que também sempre teve, que era uma base muito heterogênea, muito diferente a norte e a sul, e que não era apenas os funcionários, por exemplo, obviamente sempre teve apoio na função pública, mas nunca foi aí o seu centro nevrálgico.

Desculpa, só interromper. As imagens, as fotografias do Sá Carneiro, ainda do Cavaco, os rendeiros, os pequenos rendeiros agrícolas.

Sim, o mais importante é mesmo o Sá Carneiro, que é logo em 1980, se não me engano.

São extraordinárias. Nem o PCP conseguiu uma coisa daquelas.

Isso foi no final do processo de desmontagem do que tinha sido a reforma agrária. E o Sá Carneiro toma como emblemático, não a entrega de terras a um antigo agrário, como na época se dizia, portanto, um antigo grande proprietário, mas sim a pequenos proprietários, a rendeiros, que eram pequenos agricultores.

José Manuel, interrompo-te, porque Inês Ameixa já estás na sala da sede do PSD, onde Luís Montenegro vai fazer essa apresentação.

Precisamente, Luís Montenegro já fala aqui na sede nacional do PSD, vamos escutá-lo.

Um ciclo de renovação e abertura, de ambição e esperança. Portugal precisa da nossa força e da nossa ação. Portugal reclama uma oposição determinada e uma alternativa corajosa. Um PSD que devolva ambição e esperança, que seja humanista e reformista. Um PSD focado na vida cotidiana dos portugueses, das pessoas, das famílias que vivem e trabalham em Portugal. Que lute pela transparência e assegure competência. Que aposte na renovação e que invista no talento. Que desenvolva a economia protegendo o estado social e os mais desfavorecidos. Que defenda os mais idosos, sem deixar de dar esperança aos mais novos. O PSD é a única alternativa ao governo e ao modelo socialista em Portugal. Nos últimos 27 anos, o Partido Socialista governou 20 anos e o PSD apenas sete anos. Desde 1995, os portugueses só têm confiado no PSD em alturas de aperto e de crise econômica. Não aceito que tenha de ser assim. Não tem de ser assim. Quero que os portugueses olhem para o PSD e não vejam apenas responsabilidade e rigor. O PSD foi e é muito mais do que isso. O PSD é liberdade, o PSD é modernidade, o PSD é ambição, o PSD é talento, o PSD é transformação, o PSD é igualdade de oportunidades e mobilidade social. O PSD é justiça social, o PSD é humanismo. O país vive há demasiado tempo amarrado ao socialismo. E o socialismo em Portugal esteve sempre amarrado ao amiguismo Ao facilitismo, ao imobilismo, à burocracia, à subsidiodependência, à vertigem estatizante. Com o socialismo, estamos a caminho da cauda da Europa. Com o socialismo, o nosso rendimento per capita cresceu menos de 0,5%, em média, ao ano. Com o socialismo, já só há seis países na União Europeia com pior PIB per capita do que nós. E em 2022, este ano, um deles, a Roménia, também nos vai ultrapassar. Com o socialismo, há cada vez mais portugueses a ganhar o salário mínimo nacional e cada vez mais o salário mínimo nacional se aproxima do salário médio. O socialismo está a nivelar a sociedade portuguesa e os seus rendimentos por baixo. Com o socialismo, os serviços públicos têm andado à míngua e o Serviço Nacional de Saúde não-Covid espera e desespera, e faz esperar e desesperar os portugueses. Com o socialismo, as desigualdades aumentaram e a taxa de risco de pobreza, antes de prestações sociais, foi em 2019 de 43%, quando em 1995 era de 37%. Com o socialismo, a carga dos impostos passou de cerca de 29%, em 1995, do PIB, para cerca de 35% agora. Ou seja, o socialismo trouxe consigo pobreza, serviços de saúde asfixiados, clientelismo, impostos, dívida e, paradoxalmente, num partido de esquerda e num projeto político de esquerda, um estado social frágil e muitas vezes abandonado. O Partido Socialista Português e o primeiro-ministro têm uma visão paliativa da governação. Perante um problema, nunca olham pra sua raiz e normalmente atiram dinheiro pra cima do problema. O resultado tem sido, muitas vezes, ficarmos sem o dinheiro e continuarmos a ter o problema. Hoje, mais do que nunca, Portugal precisa de uma oposição atenta, responsável, mas também implacável com os desvios do governo. E pra além disso, uma oposição pronta pra governar a qualquer momento, porque como muito bem lembrou o presidente da República na tomada de posse do governo, um cenário de eleições antecipadas será inevitável, caso o primeiro-ministro venha a ceder à sua tentação pessoal e europeia. Portuguesas e portugueses, sou candidato a presidente do Partido Social-Democrata pra ser primeiro-ministro de Portugal. Assumo esta missão com sentido de responsabilidade cívica e com inequívoca humildade democrática. Esta candidatura resulta de uma ponderada reflexão e de uma inabalável convicção de que sou capaz de unir o PSD e de o abrir à sociedade. Infelizmente, nos últimos anos, o PSD tem estado demasiado fechado em si próprio. Um partido com a tradição, a história, a missão e a ambição do PSD só pode sobreviver e prosperar se souber atrair o melhor talento da nossa sociedade. É essencial recuperar essa capacidade e recuperar a ideia de um PSD reformista, um PSD que é reformista por natureza e dinâmico por vocação. Hoje, como nunca, os cidadãos procuram nos políticos características de consistência e responsabilidade, de elevados padrões éticos e profunda competência técnica e política. O PSD tem de se modernizar e vai modernizar-se. Tem de saber comunicar com as pessoas, estar próximo delas. A dispersão de votos no espaço do centro-direita mostra que há lugar pra novos discursos e renovadas narrativas. Esse espaço é por natureza o espaço do PSD. O PSD é o incumbente do espaço não-socialista e tem de voltar a ser a casa-mãe de todas as tendências não socialistas. Cabe-nos apresentar aos portugueses novas causas e uma nova agenda. Pra nós é central chegar aos jovens, captar as melhores qualificações pra política, mostrar-lhes que este partido também é deles, dos jovens, e dizer-lhes que nós seremos no futuro também aquilo que eles quiserem. Nós somos o partido da solidariedade intergeracional. Caras e caros portugueses, Portugal enfrenta hoje desafios complexos num mundo global em constante mudança, que passou em menos de dois anos por uma pandemia e agora vive um conflito na Europa com impacto mundial. Esta realidade trouxe e vai trazer por muito tempo profundas consequências económicas, sociais e políticas, que importa descortinar e antecipar sempre que possível. Desde logo, não devemos esquecer o papel de Portugal na Europa e no mundo Aqui não podemos ter ambiguidades, como desgraçadamente vimos em partidos políticos portugueses que até há bem pouco tempo sustentaram politicamente o governo. Portugal deve estar sem tibiezas ao lado dos seus aliados europeus e da Aliança Atlântica, contra todos os que ignorem ou ataquem o Estado de Direito, a soberania dos Estados e o direito internacional. E deve fazê-lo com humanismo, acolhendo e protegendo vítimas da guerra. E fazê-lo também com firmeza, reclamando da comunidade internacional uma resposta clara contra os crimes de guerra e a barbárie. Caras e caros portugueses, desafios como a inflação, a subida das taxas de juro, a crise energética e o aumento do preço dos combustíveis, mas também de muitos outros bens, incluindo o cabaz essencial pra vida das pessoas e das famílias portuguesas, colocam em causa a nossa endividada economia, que como sabemos, é muito dependente do exterior, numa posição de ainda maior fragilidade. Mas é fundamental que a crise atual não nos afaste das grandes tendências dos nossos tempos. Por um lado, a digitalização e a emergência de novas tecnologias, como a inteligência artificial, por outro, as alterações climáticas e a descarbonização da economia. Ambas vão mudar radicalmente a economia, o trabalho e a sociedade. A transição digital, energética e climática deve ser objeto de um pacto nacional que envolva os órgãos de soberania, os parceiros sociais e a academia. O poder político tem a obrigação de construir uma estratégia que subsista às mudanças do governo e projete Portugal numa das transformações mais relevantes e audaciosas que a nossa contemporaneidade nos trará. Vamos trabalhar numa agenda de sustentabilidade ambiental e de governança, como fator de desenvolvimento econômico e mobilidade social. O PSD insistirá também numa reforma do sistema fiscal, tornando mais simples, mais estável e menos asfixiante. A economia tem de estar ao serviço das pessoas e não o contrário. Essa é a tradição humanista e social-democrata do PSD. A criação de riqueza e o crescimento econômico servem pra melhorar a vida das pessoas, não são um fim em si mesmo. Mas se queremos ser competitivos na agricultura ou no turismo, se queremos fomentar a reindustrialização do país, se queremos atrair investimento e gerar postos de trabalho bem remunerados, temos de baixar a carga fiscal. Os impostos servem pra criar uma sociedade mais justa e igual, não servem pra aumentar o fosso entre os mais poderosos e aqueles que mais precisam. O nosso foco, repito, o nosso foco principal, último, são as pessoas. As pessoas concretas. Quero motivar e mobilizar o PSD pra desenvolver políticas que permitam um saudável equilíbrio entre a vida profissional e familiar, a dedicação à família e a educação dos filhos. A remoção dos obstáculos à natalidade desejada é um desígnio que o país não pode abandonar. Da mesma maneira, temos de ser mais insistentes e proativos no objetivo de fazer regressar ao país muitos daqueles que daqui saíram em busca de uma oportunidade. No campo demográfico e nas suas expressões econômica e social, reitero aqui hoje o que defendi no último congresso do PSD. Portugal precisa de um plano nacional de recrutamento, acolhimento e integração de imigrantes. Um plano nacional de imigração não é retórica política. Eu vou repetir. Um plano nacional de imigração não é retórica política. É cuidar da competitividade da economia, da sustentabilidade da Segurança Social e do equilíbrio territorial. Exemplos como os do Canadá ou da Austrália, ou mais recentemente, no espaço europeu da Alemanha, mostram que só é possível ganhar a corrida pelo talento com políticas migratórias avançadas e inteligentes. Quero também um PSD na liderança de uma agenda pra o trabalho digno, que valorize os salários, que proteja a maternidade e assegure a igualdade de gênero. Quero um PSD a propor um plano educativo que adeque a formação às necessidades presentes e futuras do mercado de trabalho. Cabe ao Estado assegurar a educação das crianças e dos jovens, mas também a formação ao longo da vida, como forma de garantir o elevador social e a prevalência do mérito. Quero um PSD a fazer jus à sua história nas políticas de envelhecimento ativo. E o mesmo digo na proteção das pensões. Nenhuma medida na história de Portugal valorizou tanto as pensões como a criação do 14º mês das pensões nos governos do professor Cavaco Silva. Quero o PSD como reduto da garantia de que os serviços de saúde nunca vão entrar em colapso e que vão ter o cidadão como centro do sistema, que impele, sem complexos ideológicos estéreis, os cidadãos pra poderem ter acesso à oferta do setor privado e do setor social da saúde Nós defendemos o setor privado e o setor social da saúde a pensar nas pessoas, não é a pensar nos proprietários destes serviços. O que eu quero, e o que o PSD quer, é que os cidadãos mais pobres possam aceder aos mesmos serviços que acedem aqueles que são mais favorecidos economicamente. Quero uma administração pública eficiente e atrativa pro talento e a inovação, que ajude os cidadãos e as empresas a gerar riqueza e que proporcione aos seus funcionários carreiras aliciantes. Quero uma justiça célere e acessível a todos, que seja igual para pobres e poderosos e que não dê tréguas à corrupção. Acredito numa sociedade interclassista e empreendedora e num Estado ao serviço das pessoas, da sua dignidade, da igualdade de oportunidades. Acredito num Estado e num governo que não manda nas pessoas, que dá a cada um os instrumentos que a habilitam a alcançar o seu projeto de felicidade. Um Estado garantístico e não um Estado caritativo. Acredito num Estado que promove a liberdade, porque garante a qualidade de vida, o ambiente, a solidariedade, o conhecimento e a cultura. Portuguesas e portugueses, neste momento, como em poucos na história de Portugal, é preciso acreditar. Acreditar no povo português, espalhado em todo o nosso território e na diáspora. Na sua sabedoria, na sua tenacidade, na sua solidariedade. Acreditar em cada ser humano, na sua liberdade, na sua individualidade e no seu bem-estar. Acreditar no PSD e na sua capacidade para, primeiro, liderar a oposição e depois governar o país, com os seus militantes, com os seus simpatizantes, com os seus autarcas e com os seus governantes regionais. Acreditar que somos capazes, somos reformistas, somos inconformados, somos ambiciosos, somos modernos, sentimos a responsabilidade da nossa geração. Acreditar que vamos conseguir atrair os melhores em cada área. Vamos representar os setores mais dinâmicos da sociedade. Vamos trabalhar com os que lutam e sobem na vida, promovendo e multiplicando o seu exemplo. Portuguesas e portugueses, não nos assustam maiorias absolutas nem mandatos longos. Pelo contrário, estamos aqui encarando isso como um desafio e um incentivo pra nos organizarmos melhor, pra sermos mais responsáveis e pra sermos mais criativos. Seremos eficazes na oposição pra podermos um dia ser eficientes no governo. O PSD não vai faltar à chamada. Nós estamos, como sempre, ao serviço das portuguesas e de Portugal. A nossa missão é o futuro e é a pensar no futuro que daqui vos lanço, portugueses, um grande viva a nossa democracia, viva o Partido Social-Democrata e viva Portugal.

Está, assim, oficializada a primeira candidatura à liderança do PSD. Luís Montenegro posiciona-se assim na corrida à sucessão de Rui Rio. Vamos agora entrar num espaço para perguntas a este que é antigo líder parlamentar social-democrata. Explicou por que se candidata à sucessão de Rui Rio. Diz que quer abrir um novo ciclo no PSD. Vamos ouvir Luís Montenegro.

Se há coisa que os portugueses conhecem da minha pessoa e do meu trabalho político, é precisamente o trabalho parlamentar. Portanto, aquilo que eu posso assegurar, como disse, e bem, nesta fase em que sou apenas candidato a presidente do PSD, é que encontrarei, no espaço parlamentar, aquilo que é necessário ao PSD pra afirmar o seu projeto, pra dialogar com os partidos políticos e com o povo português e, naturalmente, contando com aqueles que servem o povo português, sentando-se na bancada do PSD.

Luís Montenegro, que ia responder uma pergunta sobre a bancada parlamentar do PSD, que, ao que tudo indica, estará mais vinculada a Rui Rio, e Luís Montenegro a desvalorizar essa questão na sede nacional do PSD, em que a sala está cheia. Estiveram sentados e estão sentadas ao lado do púlpito Assunção Esteves, também Conceição Monteiro, a antiga secretária de Sá Carneiro, mas há também outras figuras importantes do PSD, como António Litelo Mauro, também Joaquim Miranda Sarmento. Luís Montenegro continua a responder aos jornalistas. Vamos escutar.

...partidário do PSD, é poderem acompanhar-me neste desiderato. O que nos faz estar aqui, o que nos dá uma grande motivação, uma grande força, uma grande energia e uma grande convicção, é sabermos que aquilo que formos capazes de fazer agora, o projeto que defendermos e construirmos, será, num futuro governo, a ponte para que a vida das pessoas possa melhorar e para que cada um encontre, à sua maneira, no seu espaço de liberdade, aquilo que é a realização do seu projeto de vida, com vista a alcançar aquilo que, não tenho medo da palavra, é a felicidade de cada um. Cada um deve ter a liberdade de escolher o seu caminho. E eu defendo, como disse há pouco, um Estado que dê os instrumentos às pessoas pra que elas façam aquilo que querem E possam conjugar aquilo que é o seu desejo com qualidade de vida e bem-estar. É nisso que me estou a concentrar agora. É assim também que irei gerir o PSD a partir do próximo dia 28 de maio e depois do congresso, se os militantes do PSD assim entenderem. E é assim que queremos, nos próximos anos, afirmar a alternativa política para dar ao país um modelo não socialista, cujos resultados estão à vista de todos, e há pouco elenquei vários dos resultados da política do Partido Socialista.

Luís Montenegro a apresentar então a candidatura. É o primeiro candidato a fazê-lo, a primeira candidatura oficial à liderança do PSD e sem papas na língua, Luís Montenegro diz que se candidata à liderança social-democrata para ser primeiro-ministro de Portugal. Diz que quer abrir um novo ciclo no partido. Diz que ponderou, fez uma ponderada reflexão e tem, desde já, a convicção de que é capaz de unir o PSD. Luís Montenegro, que é assim, pela segunda vez, candidato à liderança social-democrata, discutiu a presidência do partido em janeiro de 2020. Perdeu na altura para Rui Rio e agora candidata-se à sucessão precisamente de Rui Rio, que está tão de saída do Partido Social-Democrata depois da derrota nas últimas legislativas de 30 de janeiro. Luís Montenegro surge agora como o principal, primeiro candidato à corrida pela presidência do PSD, sob o mote Acreditar. Luís Montenegro acredita que o PSD será uma oposição firme ao Partido Socialista e acredita também que poderá ser o próximo primeiro-ministro português.

Inês Amancha, vamos continuar a acompanhar esta fase das perguntas que estão a ser colocadas a Luís Montenegro, depois desta apresentação. O primeiro candidato do PSD à presidência do PSD, com essa palavra que estava inscrita na parede por trás, Acreditar, será o mote da campanha que se vai suceder. Vamos a uma curta reação aqui por parte da mesa, José Manuel Fernandes. O que te pareceu esta primeira apresentação de Luís Montenegro?

Luís Montenegro fala bem e, portanto, fez uma intervenção com características oratórias de bom nível. Eu achei que ele sentiu a necessidade, talvez, de ir a temas demais e, portanto, para cobrir um pouquinho o espectro todo, não precisava de falar de todo o seu programa. E talvez tivesse preferido que ele e o PSD se foquem em três ou quatro ideias mais simples, e deixasse para as outras figuras falar das várias áreas, que são as áreas que preocupam setores do eleitorado variados, mas ter um foco mais central. Seja lá como for, é uma candidatura que, pelo menos, comunica bem.

Pelo menos comunica bem. Helena Matos, comunica bem, mais magro.

Não sei. Primeiro, só duas observações. Eu acho que o Luís Montenegro repetiu, talvez a palavra mais repetida tenha sido pessoas, além de PSD. Há aqui muito, e isto nota-se muito, uma tentativa de cobrir, eu acho, eu interpreto isso como cobrir uma área que tem muito a ver com o Chega, quando aparece, diz que fala das questões das pessoas, além do partido das pessoas, animais e natureza. A palavra pessoas, este termo, entrou no discurso político, esta ideia de que estamos aqui para falar para as pessoas. Depois temos sempre aquilo que é um item obrigatório, penso que em todos os discursos, todos os candidatos, todos os partidos, que é a justiça célere. Eu estou disponível uma vez na vida para dar o meu voto a um que dissesse que não pode dar justiça célere, mas que se vai forçar pra que pelo menos não demore tanto qualquer coisa, ou que não diga ou que não prometa, porque isto é um tópico obrigatório. Eu acho que se nós procurarmos em todas as coisas, há sempre isto da justiça célere. Isto é apenas uma observação. Achei curiosa a referência a Cavaco Silva.

Eu achei curiosa a referência que ele fez ao 14º mês dos pensionistas. Talvez a maior parte das pessoas não se recordem disso, mas não sei até que ponto isso consegue. Deve ser uma preocupação dele recuperar o voto dos mais idosos.

Dos funcionários públicos também, não é?

Sim, está bem, mas o problema é que isso aconteceu, salvo erro, em 1988 ou 1989. Estamos a falar de algo que aconteceu há 30 e qualquer coisa anos. Portanto, já deve haver muito poucos pensionistas.

Que não saibam que há esse...

Não é não saber, que não saibam, é que tenham passado pela experiência de ser pensionistas antes dessa reforma. E sem ter passado por isso, isto está capaz de ser poucas pessoas.

Talvez seja a necessidade de criar um contraponto verso ao corte das pensões no tempo da Troika, essa enorme mistificação, mas enfim. Aquilo que ele apresenta aqui como uma ideia ou como uma proposta que valerá a pena seguir, esta questão deste plano nacional de imigração.

De recrutamento, acolhimento e integração de imigrantes.

Sim, e ele refere experiências de outros países. Claramente andou a ver como é que se estava a fazer e o que é que se estava a fazer. Talvez seja a ideia mais distintiva que apareceu em toda esta proposta, porque depois as outras, pronto, é aquelas coisas, acreditamos, queremos mobilizar, vamos fazer. É óbvio que é um homem que se nota que tem traquejo parlamentar, portanto comunica bem, por aí tudo muito certo. É claro que também disse que ia contar com o grupo parlamentar, que por agora só é candidato, depois vai contar com o grupo parlamentar.

E invocou a experiência que teve enquanto líder parlamentar.

Para primeira impressão, acho que não correu mal. Eu destacaria esta ideia forte que ele apresenta aqui de plano nacional de imigração. Agora, há outra coisa que ele disse que penso que será o que ele quer, mas entre o que nós desejamos e aquilo que acontece há uma grande diferença, que é voltar a ser a casa mãe do espaço à direita do Partido Socialista. Não sei se ele usou a expressão direita ou não.

Acho que não.

Acho que não usou o termo direita.

Não me lembro de ouvir essa expressão.

Por isso é que o PSD precisa dos projetos mobilizadores, porque como não pode dizer que é direita, não pode dizer qual é a ideologia que tem, ou tem um projeto mobilizador pra sociedade portuguesa, ou então é apenas um revisor oficial de contas, e aqui estou a referir-me também diretamente a Rui Rio, rigoroso. E isso é pouco. Para uma pessoa mobilizar um país, parece-me que é poquito.

Bom dia. André Azevedo Alves está também conosco no Contracorrente, politólogo, colunista do Observador. Conhecemo-lo bem. Bem-vindo. Ouviu também esta intervenção e este anúncio oficial de candidatura do Luís Montenegro. O que lhe pareceu?

Ouvi. Subscrevo em boa medida o que o José Manuel e a Helena Matos referiram. Sabemos que Luís Montenegro é articulado e, portanto, foi um discurso articulado, tem experiência parlamentar. Nesse aspecto, acho que era o que estávamos à espera. Tocou em temas demais, ou seja, pareceu quase que estava com a preocupação de, no espaço de 10 ou 15 minutos, tentar referir o máximo possível de temas, sendo que na larga maioria desses temas não disse propriamente nada de distintivo. Eu diria que em grande parte dos temas, se calhar, desde o Bloco de Esquerda ao Chega, as referências não seriam muito diferentes. Estou a pensar nas alterações climáticas, a justiça, enfim, um conjunto de temas que não só foram demasiados, como também não houve nada que pareceu-me especialmente distintivo. Concordo que talvez o elemento mais distintivo, ou o único elemento com algum aspecto mais distintivo, tenha sido o plano nacional de imigração. Não sei se a designação será muito feliz. Quando Luís Montenegro referiu a expressão plano nacional de imigração, eu fiquei a pensar que no Chega devem ter ficado com sorrisos abertos, a pensar se o novo líder do PSD ia fazer disso um ponto principal da sua plataforma, no caso do Luís Montenegro ser eleito. Depois, com a explicação do Canadá e da Austrália, acho que a coisa até pode ter eventualmente pernas para andar, mas provavelmente precisará de ser substanciada e explicada de uma forma mais precisa. E confesso que tenho sérias dúvidas que chamar-lhe um plano nacional de imigração, no contexto em que o Chega está em crescimento, se será propriamente algo muito avisado. De resto, parece-me que continua em aberto aquela que é a grande dificuldade do PSD neste momento: qual é a razão para um eleitor, neste momento, votar no PSD? Como o José Manuel Fernandes referia ainda antes da intervenção de Luís Montenegro, é verdade que o PSD, ao contrário do CDS ou de uma forma muito mais expressiva do que o CDS, tem um segmento de eleitorado cativo, muito habituado a votar no PSD, em especial no norte do país, que lhe dá algumas garantias de não desaparecimento e que foi o que garantiu, apesar de tudo, neste período de Rui Rio, que o partido se manteve como principal partido de oposição e com uma relevância a nível nacional. Mas a verdade é que de há muito tempo para cá, e esse foi um ponto, aliás, que Luís Montenegro referiu no discurso, e em que eu concordo com ele, basicamente desde os anos 90, para cá, do século passado, o PSD só consegue ir para o governo em situações de crise. Portanto, isso é algo que me parece que é preocupante e essa preocupação é maior no momento em que agora temos iniciativa liberal e chega à direita, oferecendo duas alternativas claras, marcadamente ideológicas para segmentos diferentes, de que me parece o PSD terá necessariamente que se diferenciar, oferecendo algo que seja uma razão autónoma para o voto no PSD, que não seja só uma questão de esperar pela alternância.

E, portanto, pelo que está a dizer, André Azevedo Alves, e tendo em conta que de facto o PSD já passou por várias crises, por muitos desacertos internos, desta vez, esta fase é mais crítica por esse contexto da direita que está a surgir e dos novos partidos?

Sim, parece-me que é mais crítico por duas razões. Primeiro, porque à medida que o tempo vai passando, o problema se vai agravando. Uma coisa é estar nesta situação 10 anos, outra coisa é estar 20, outra coisa é estar 25. E aquela própria base eleitoral de que o José Manuel Fernandes falava, e bem, existe, mas também vai tendo alguma erosão. À medida que o partido vai perdendo peso, nomeadamente também no poder autárquico, noutras estruturas, essa base não desaparece de um dia para o outro, mas vai ficando progressivamente desgastada e não vai sendo renovada. E, por outro lado, pelo facto de termos desde 2019, mas agora mais marcadamente desde as últimas legislativas, com grupos parlamentares e com algum peso, e são o terceiro e quarto partido neste momento, Chega e Iniciativa Liberal, que me parece que independentemente do que acharmos, da maior simpatia ou antipatia que possamos ter pelas respetivas plataformas políticas e pelos protagonistas, são alternativas claras. Ou seja, eu acho que para uma boa parte do eleitorado à direita do PS, será clara a razão para votar a iniciativa liberal, portanto, menos Estado, redução da carga fiscal, etc. Ou para votar Chega, enfim, uma plataforma mais securitária, antissistema, em linha com outros partidos de direita radical noutros países europeus. Portanto, há aqui duas alternativas claras e consolidadas, que foi algo que nunca aconteceu, mesmo quando o CDS estava mais forte, porque o CDS teve sempre uma plataforma também um bocadinho de agregação de diferentes tendências, como tinha o próprio PSD no sentido mais lato. E portanto, aí parece-me que o desafio para o PSD neste momento, quer por prolongamento da sua própria crise, pela consolidação do PS em torno do Estado e dos mecanismos de poder e pela existência da iniciativa liberal e Chega, é um desafio, se calhar, ou provavelmente mais complicado do que foi alguma vez no passado.

E será por isso que está a haver tanta parcimônia em se avançar como candidatos? Há um agora, eventualmente teremos Moreira da Silva, mas o que temos visto é que todos aqueles que poderiam ser apontados como sucessores de Rui Rio, têm considerado que não é o tempo político para isso.

Sim, eu creio que esse é um fator, mas se calhar um fator ainda com mais peso é a perceção de distância face às eleições. Ou seja, acho que no período pré-eleitoral e nomeadamente na candidatura de Paulo Rangel Como eu escrevi no Observador, pareceu-me que foi essencialmente uma candidatura anti-Rio do que propriamente a favor de Paulo Rangel, e isso provavelmente também explicou porque é que mais uma vez não foi bem-sucedido e Rui Rio ganhou mais uma vez as eleições internas. Mas aí houve, apesar de tudo, uma mobilização que não se vê agora. Eu acho que é notável a falta de entusiasmo interno no PSD em torno destas eleições, não só potenciais candidatos que dizem que não é o tempo e que parecem não querer ser candidatos, mas a própria falta de entusiasmo mesmo na mobilização do partido. E a verdade é que o PSD chega a 2022 a este contexto e Luís Montenegro parece-me uma figura perfeitamente respeitável e com algumas qualidades importantes. Mas a discussão da liderança do PSD em 2022, depois de três vitórias internas de Rui Rio, está reduzida a uma discussão pública entre Luís Montenegro, Rivalda Esteves, Jorge Moreira da Silva. Não me parece mesmo do ponto de vista dos protagonistas, e obviamente devemos dar o benefício da dúvida a quem quer que consiga vencer as eleições internas, e obviamente que líderes que não são conhecidos ou que são menos conhecidos precisam de tempo para se afirmar, mas não são propriamente perspectivas, eu diria, geradoras de grande entusiasmo. É certo que há Carlos Moedas, mas aí acho que é mais ou menos consensual que precisa de estar algum tempo e dar provas do seu trabalho à frente da Câmara Municipal de Lisboa e seria precoce estar a pensar, neste momento, em avançar para a liderança do PSD. Acho que no caso de Carlos Moedas tem uma boa desculpa, que é uma desculpa real para não avançar. Mas há, de facto, esta nota que eu julgo que também é merecedora de reflexão e que se calhar aprofunda ou deve aprofundar esses sinais de preocupação interna, que é esta falta de entusiasmo dentro do próprio PSD. Parece-me que uma boa parte do PSD, se calhar, depois dos fracassos eleitorais sucessivos, poderá estar a acomodar-se à ideia, obviamente não o dizendo publicamente, mas que se calhar o PSD poderá caminhar no sentido de deixar de ser um partido de alternância de poder e passar a ser um partido de média dimensão, com alguma expressão mais forte nalgumas áreas do país do que noutras e nalguns setores do que noutros, mas realmente que poderá não estar no horizonte o voltar ao PSD dos anos 80 e 90, e de ser efetivamente um partido de real alternância ao Partido Socialista.

André Azevedo Alves, muito obrigada pela análise e esta reflexão também sobre a falta de entusiasmo que estará a acontecer em todos os nomes que poderiam avançar e entrar aqui nesta corrida à liderança do PSD. Praticamente no final do Contracorrente, temos ainda tempo, João Miguel, para algumas opiniões que vão sendo escritas.

Vamos. Miguel Couto escreve que Luís Montenegro não tem capacidade para cativar eleitorado, porque Montenegro não tem os valores que os portugueses procuram no PSD. O PSD tem um problema grave de não falar e ouvir os eleitores, por isso pode estar na iminência, escreve Miguel Couto, de ir pelo mesmo caminho do CDS. Hugo Tavares escreve: qualquer que seja o futuro líder do PSD será poucochinho para fazer frente ao PS de Costa. Luís Bernardo escreve que o que faz falta são quadros de qualidade, com competência técnica já demonstrada e seriedade, verdadeiro espírito de missão de servir o país e não privilegiarem os interesses e ambições pessoais. Já José Santos Novais antecipa tempos difíceis para o PSD, dada a maioria do governo, mas o partido, escreve José Novais, tem que galvanizar esperança com uma oposição construtiva e agregadora.

Opiniões aqui neste Contracorrente, olhando para o estado do PSD, registas também essa falta de entusiasmo de que falavam André Azevedo Alves e Helena Matos.

Eu acho que nós temos de distinguir aqui três patamares. Um é o entusiasmo que o candidato a líder suscita dentro do próprio partido, depois o que suscita entre os comentadores e jornalistas, e depois aquele que realmente interessa, que é aquele que suscita nos eleitores. Nós temos o caso de Rui Rio, que suscitou um grande entusiasmo dentro do partido, mas não conseguiu suscitar esse entusiasmo nos eleitores. Cavaco Silva nunca suscitou qualquer entusiasmo. Penso eu que entre os comentadores, à época, as coisas eram diferentes, e jornalistas, ou muito pouco, e efetivamente suscitou um enorme entusiasmo entre os eleitores. Portanto, nós temos de ver, ou será isso que interessa, no caso, é saber se Montenegro, uma vez ganhando a liderança do PSD, consegue comunicar com o potencial eleitorado do PSD, um eleitorado que já não é o que foi. Nós aqui quando ele começou a falar, estávamos a falar das fotografias impressionantes do Sá Carneiro com os rendeiros na devolução das terras. Eram fotografias com caráter popular, que às vezes, num primeiro momento, nós até achávamos que estávamos ali a ver uma coisa do Partido Comunista ou qualquer coisa assim do gênero. O PSD tem de descobrir um outro país. Ou seja, num país em que está instituído o PS, se quisermos, como um partido Estado, e de um Estado que cada vez controla mais, do qual todo o país é cada vez mais dependente, se consegue ou não criar uma narrativa e uma proposta que apareça como uma alternativa a isto, e não apenas como alguém que pode gerir melhor as contas, que pode ter uma mais-valia em alguns setores, que é em parte aquilo em que apostou Rui Rio. Portanto, ou há um projeto para ser poder, ou então há um projeto para influenciar o poder. Eu acho que é este, basicamente, o dilema que neste momento vive o PSD, que é se quer ter um projeto para ser poder, e para ser poder é claramente ter uma alternativa ao Socialismo e ao dependentismo do Estado, mas é claro que isso assusta e mete medo a uma boa parte do eleitorado, ou se, por outro lado, quer ter um projeto para fazer um pouco melhor. O PSD quando chegou lá foi com projetos de rutura. Era porque havia algo de diferente, porque, como aqui já referimos, a ideologia não o ajuda, porque é de facto um partido sem ideologia. Dizia-se que era o partido mais português de Portugal, nesse sentido. Mas agora ou há projeto ou vamos continuar aqui sentados, nós e quem nos suceder, a debater a história de um partido que já chegou a ter 2.900.000 votos e que paulatinamente foi perdendo os eleitores, a influência e que tem uma linda história para contar, mas pouco mais.

É assim, José Manuel, também te parece que não pode ser só mais um ciclo e daqui a pouco muda?

Pois, não pode ser só mais um ciclo. Qual é, digamos, um problema e uma vantagem, apesar de tudo, de Montenegro, que poucas pessoas têm referido? Montenegro não vai ter eleições nos próximos dois anos. Não vai haver eleições pela frente.

Eu uso aqui quase como uma inspiração o facto de António Costa poder sair para a Europa e recuperando aquela mensagem do Presidente da República.

Sim, vou ser franco, não creio muito que isso possa acontecer, a não ser que aconteça alguma coisa, não há lugares vagos. A possibilidade que havia era agora, se tivesse havido a rotação do presidente do Conselho Europeu a meio do mandato, como chegou a especular-se que podia acontecer. Nunca aconteceu antes, mas podia acontecer agora. Não aconteceu, portanto, continua o senhor Charles Michel, logo não há lugares vagos. Não havendo lugares vagos, tem que se esperar pelo próximo ciclo, que é daqui a dois anos e meio. Portanto, é depois quando houver eleições europeias, que é também quando são as próximas eleições em Portugal. Até lá não há autárquicas, não haverá em princípio legislativas, porque elas acendem-se depois das europeias, não há presidenciais, talvez haja umas regionais, não sei agora como é que encaixam as regionais. O cenário dele é ter no máximo umas eleições regionais.

Na Madeira, parece.

Talvez seja capaz de haver eleições na Madeira, é possível. Não sei qual foi a última que houve. Agora, qual é o adversário de Luís Montenegro? As sondagens. Toda a gente vai estar a olhar para as sondagens.

Vai ser o único medidor.

Vai ser o único medidor, vão ser as sondagens. Mas as sondagens põem o PSD muitas vezes nervoso. É como aquilo que vocês falam muitas vezes no "3 Toques de Manhã", os treinadores portugueses no Brasil e os resultados das equipas que são medidas a cada jogo e ao fim de um certo tempo. Aqui é quase a cada sondagem e aquilo cria muito nervosismo no PSD. Se bem que, com exceção provavelmente de Menezes, a maior parte dos líderes aguentaram até terem uma derrota em autarcas ou noutras eleições. Portanto, ele tem que passar estes dois anos até ao próximo congresso, depois haverá outra vez um congresso ordinário, mas sem nenhuma prova muito grande. A maior parte das pessoas tem dito quais são as suas vantagens. Esta é a sua grande vantagem. Se ele nesse período conseguir trabalhar com o grupo parlamentar, porque isso terá sempre conseguido de alguma forma, e equilibrar o grupo parlamentar com um trabalho extraparlamentar que o ponha debaixo do nosso radar, que o faça aparecer nas notícias, que lhe dê protagonismo. Recordo que já houve líderes que conseguiram fazer isso e outros que não conseguiram. Lembro-me, por exemplo, de Pedro Constâncio, quando foi líder do Partido Socialista, até apareceu uma capa de um jornal, se calhar o jornal, que dizia: "Onde é que está este senhor?" Porque ele estava um pouco desaparecido. Em contrapartida, por exemplo, António Guterres estava no Parlamento, mas tinha uma hiperatividade brutal pelo país, era a picareta falante, como lhe disse depois uma vez o Jorge Sampaio.

O exemplo mais recente é Francisco Rodrigues dos Santos, e não correu bem.

Mas Francisco Rodrigues dos Santos tinha alguns problemas que nunca soube resolver muito bem. Independentemente de nós lermos os discursos apenas do Rodrigues dos Santos e não sabemos quem os disse, muitas vezes os discursos estão bem articulados e as coisas estão corretas. Depois há um problema de tom e um problema de ele nunca ter conseguido ganhar alguma gravitas, como se costuma dizer, algum peso diferente.

Nem entre os comentadores e jornalistas.

Nem entre os comentadores, é um pouco isso. Ele teve, entre outros problemas, esse. O Montenegro, o problema que tem, talvez maior, é que a Maria João recordou bem o período difícil em que ele foi líder parlamentar do PSD. Mas uma coisa é ser líder parlamentar, outra coisa é já ter sido ministro. Ele nunca foi ministro, nunca teve um lugar importante, e isso faz alguma diferença, porque não tem um currículo executivo. É possível vencer isso? É. Passos Coelho venceu. Passos Coelho nunca tinha sido ministro, nem sequer líder parlamentar tinha sido e, no entanto, ganhou eleições e mais do que uma vez. Portanto, é possível vencer esse handicap.

Vamos ver, há um ex-ministro que pode ser também candidato. Vamos ver como é que isso corre, Jorge da Silva.

Quer ser ex-ministro não é a única condição.

Este Contracorrente ficou aqui muito marcado por este acompanhamento em direto da declaração de Luís Montenegro. Houve menos ouvintes do que queríamos. As nossas desculpas. Teremos mais oportunidades, seguramente, para falar do PSD. Para já, até amanhã, Helena Matos e José Manuel Fernandes.