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José Manuel Fernandes, talvez porque hoje é sexta-feira, quer virmos falar de sexo no seu Contracorrente. Bom dia. Sexo.
Bom dia. Sim, sexo. Verdadeiramente não é de sexo, é de sexos, é dos dois sexos. A razão disso é por causa da BBC. Eu ontem estava a ler a imprensa britânica. Por estes dias, a gente passa muito tempo a ler a imprensa britânica por causa do Brexit. Eu estava a ler o Telegraph e de repente dou de caras com uma crônica sobre um vídeo educativo, sublinho, educativo, que a BBC produziu pra ser distribuído nas escolas inglesas. E devo te dizer que a princípio nem queria bem acreditar naquilo que estava a ler.
Então, como é que era esse vídeo?
Era um de nove vídeos de apoio ao que lá chamam de educação pessoal, social e pra saúde. Eu imagino que deva ser uma coisa parecida com a nossa educação para a cidadania. Esse vídeo era sobre educação sexual e nele um miúdo perguntava a um professor o que era isso dos diferentes gêneros. E o professor respondia-lhe que era uma coisa "chytante". O termo era mesmo esse, "chytante". E depois acrescentava mais ou menos isto, eu vou traduzir mais ou menos o que lá estava: "Sabes, temos homens e mulheres, mas agora temos mais de 100 identidades de gêneros, se calhar ainda mais".
Como? Cem identidades de gênero?
Exatamente, ouviu bem. Nós já tínhamos uma lista de 71 identidades de gênero definidas no Facebook. Eu confesso que fico a imaginar como é que se chega lá. Mas agora a BBC ainda conseguiu ir mais longe. Já não chegam as letras de um alfabeto, nem dois alfabetos, nem três alfabetos. Como é óbvio, isso já não é ciência, nem educação, nem civilização, acho que é um bocado loucura. Aliás, já daqui há dois anos, tinha sido precisamente de Londres que tinha chegado o disparate, concretamente do metrô de Londres. Deixou de haver "senhores e senhoras" e as pessoas passaram a ser tratadas com "hello, everybody", uma espécie de "olá, malta". Também numa altura, no Canadá, um pai conseguiu que o Estado não indicasse o sexo do filho no documento de identidade. Uma coisa que agora o PAN quer também que aconteça cá. Por quê? Disse ele: para não limitar as suas escolhas baseadas, e agora cito, apenas no exame dos órgãos genitais. O pai cedeu, o Estado aceitou e no fundo a criança passou a não ser menino ou menina. Mas isso agora é diferente, porque chegamos à famosa BBC e a um vídeo educativo pra ser distribuído nas escolas. Eu acho que já estamos num nível que começa a ser um bocado perigoso.
Estranho é, mas perigoso, por que dizes?
Eu acho que é perigoso, porque é bom distinguir as coisas. Eu acho que uma coisa é o sexo com que nascemos e outra coisa diferente, e bem diferente, são as preferências sexuais que mais tarde descobrimos. Eu acho que fora algumas anomalias, que são excepcionais e têm a ver, às vezes, com questões genéticas, nós basicamente somos do sexo masculino se temos um cromossomo Y e um cromossoma X. E somos do sexo feminino se temos dois cromossomas X. Somos homens e mulheres não por uma construção cultural. É uma consequência da biologia. E a nossa biologia é fruto de milhares e milhões de anos de evolução. De resto, eu acho que isso é uma coisa que a gente aprende na escola, a reprodução sexuada, só as bactérias e seres muito inferiores é que não têm reprodução sexuada, é porque existem dois sexos e é mesmo uma conquista da evolução das espécies, é muito importante pra evolução das espécies. Em contrapartida, ainda agora temos conhecimento, através do maior estudo sempre, que por exemplo, a evolução pra homossexualidade não é porque há um sexo gay, é uma questão sobretudo cultural. O que reforça o meu ponto, é que uma coisa é o sexo com que nascemos e outra coisa são as nossas preferências sexuais. Eu acho que misturar as duas coisas gera confusão. Misturar as duas coisas, no fundo, não é ciência, é mais ideologia.
José Manuel, voltando ao vídeo, o objetivo de vídeos como esses não será o de procurar defender o direito à diferença das minorias?
Eu acho que isso é muito importante, mas isso está a ir por um mau caminho e eu acho que até no limite, prejudica as minorias. A defesa dos direitos das diversas minorias, sexuais e outras, acho que não se faz acabando com os sexos e substituindo por gêneros. Sobretudo quando há esta multiplicação de gênero. Isso não quer dizer que não existam pessoas transgêneros, por exemplo, nem quer dizer que a homossexualidade seja uma anomalia. A anomalia é pretender que todas as diferenças entre homens e mulheres são apenas construções culturais, por exemplo. A anomalia é querer impor uma linguagem orwelliana logo às criancinhas, que elas nem entendem, só faz confusão. O que é importante, na minha perspectiva, é que todos possamos exprimir as nossas identidades, aquilo que somos. E essas são muito mais complexas e ricas do que as catalogadas em gêneros, em tribos, em gangues, em modas, em etnias, em nações, naquilo que nós quisermos. No limite, cada identidade é única. Acho que isto é única, é nossa. E deve gozar de uma liberdade única também. O que estas listagens acabam por fazer é arrumar-nos em gavetas, é catalogar-nos, é limitar-nos na nossa liberdade. E esta é mais uma razão porque eu acho que tudo isto é muito perigoso. Eu acho que é até retrógrado, apesar de parecer progressista.
Contracorrente com José Manuel Fernandes, à conversa com Carla Jorge de Carvalho. Segunda-feira, a não perder, nova edição aqui na sua Rádio Observador. Rádio Observador, 98.7, Lisboa. Rádio Observador. Ouça este e outros conteúdos em observador.pt/rádio e subscreva os nossos podcasts.