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É hora de conhecermos o tema do Contracorrente desta quarta-feira. Se quiser entrar em direto pra nos dar a sua opinião, só tem que ligar 91 002 41 85 ou então enviar a sua mensagem de voz pelo WhatsApp pro mesmo número 91 002 41 85. Carla.
A Proteção Civil tem estado no olho do furacão, quase literalmente. Ainda não tivemos nenhum furacão, mas tivemos ventos ciclônicos e comboios de tempestades. Tivemos também muita destruição e tivemos como não víamos há anos. Ontem, um artigo do almirante Gouveia e Melo sugeria que a ministra se demitisse, e ela já se demitiu, terá sido por causa deste artigo. Nele também se defendia que é preciso rever de alto a baixo a estrutura da Proteção Civil, mas a verdade é que isso tem acontecido depois de cada tragédia e sem grande sucesso. Aconteceu depois dos fogos de 2003, aconteceu depois dos fogos de 2017. Mas será na Proteção Civil que está o problema ou está mais na forma como o Estado português funciona? Este é o ponto de partida para o Contracorrente de hoje, num dia em que esperamos que seja o último desta longa sequência de dias a chover intensamente. José Manuel, bom dia. O problema é mesmo da Proteção Civil? José Manuel, há um botão.
Bom dia. Acho que seguramente não podemos deixar de debater a estrutura da Proteção Civil. Vamos recordar um pouco o que se passou, como ela foi constituída, mas basta pensarmos o seguinte, só pra teres uma ideia. Aqui há uns três anos, quando esses empáticos políticos que nós tínhamos à frente dos ministérios tratavam da Proteção Civil, estou a falar de António Costa como primeiro-ministro e José Luís Carneiro como ministro da Administração Interna, a Proteção Civil, em vez de ter dois níveis de comando até chegar ao terreno, que era o comando ao nível nacional e o nível distrital, passou a ter três níveis de comando até chegar ao terreno. Passou a ter o nível nacional, o nível regional, correspondente às CCRs, àquilo que se chama NUTS 2, e depois passou a ter um outro nível que corresponde às chamadas NUTS 3, que eu creio que 99% dos portugueses nem sabem o que são NUTS 3. NUTS 3 é o nível mais baixo do planeamento, não corresponde aos distritos, corresponde a comunidades intermunicipais. Tem a ver com a organização do resto da administração pública. Detalhe: a GNR e a PSP continuam organizadas em distritos. A GNR e a PSP são as organizações que são instrumentais na Proteção Civil, diria eu, além dos bombeiros, mas esses são organizados sobretudo a nível concelhio e às vezes subconcelhio. E portanto, tivemos uma malha que deixou de encaixar uma na outra. Alguém discutiu isso? Alguém falou do assunto? Não, porque como toda a gente sabe, o primeiro-ministro e o ministro da Administração Interna tinham muita empatia e portanto, desde que haja empatia, o nosso sistema mediático não leva ninguém ao pelourinho. Seguramente vamos ter que discutir isto, vamos ter também que discutir porque algo que foi determinado em 2014, era primeiro-ministro ainda Passos Coelho, estávamos a sair do período da troika, que era a criação de uma unidade militar de emergência, porventura semelhante àquela que existe em Espanha, que tem meios próprios, que se desloca rapidamente, que tem gente treinada só pra isso, fez antes uma espécie de serviço sediado em Abrantes, que dá formação. Basicamente, dá formação a militares dos vários ramos das Forças Armadas pra atuarem em situações de emergência. Bem, eu podia continuar, mas isto acho que mostra algumas coisas que nós não estamos a debater. Estamos a debater se os SMS deviam ser mais precisos ou menos precisos. Aqui há uns tempos nem SMS se via, agora a discussão é se há SMS a mais ou a menos. Eu acho que há muitas coisas que é preciso debater. Há algumas boas sugestões sobre aquilo que deve acontecer, mas temos de ter noção que é ao longo, e tu tocaste num ponto central aí há pouco quando lançaste o tema, que é: quais foram as duas últimas vezes que nós reestruturamos a Proteção Civil depois de dois desastres. Os fogos de 2003, 2004, os fogos de 2017. A casa roubada, trancas à porta, reestruturação, e depois quando chega a altura, toda gente diz que a culpa é novamente da Proteção Civil e que tudo tem que ser reestruturado de alto a baixo. Se calhar, a coisa é mais complicada, não é só da Proteção Civil, é de muitos outros fatores, mas nós nessas alturas gostamos sempre de ter duas coisas, que é, por um lado, desculpas servem pra tudo. Aconteceram estas inundações, estas chuvadas, estes ventos, e a culpa é duas coisas. Logo à partida, é ordenamento do território, serve pra tudo. Nunca ninguém se interroga como é que o território está tão desordenado, o que aconteceu, por que isto é assim. Não, mas está mal, acabou, é uma vítima fácil. O outro, claro, são as alterações climáticas, também servem pra tudo. No caso concreto das cheias, poucas pessoas se lembram que em 2001, ainda há pouco na peça se recordava isso, houve cheias no Mondego e mais graves do que as que estão a acontecer agora com menos chuva. Alguma coisa melhorou, mas isso nunca se fala, isso nunca se refere. E depois há mais coisas de pensamento mágico. Agora, de repente, o pensamento mágico é: enterram-se as linhas. Ontem tivemos um programa sobre isso aqui, o Contracorrente foi sobre isso. Não vamos voltar ao tema. Mas eu creio é que quando nós temos sempre bodes expiatórios e sempre fórmulas de pensamento mágico, e sempre discussões que têm pouco a ver com políticas substantivas e mais com resultados mediáticos dessas políticas, o resultado é mau. E vamos falar um pouco sobre isso, com a ajuda também de pessoas que têm pensado sobre a Proteção Civil, hoje mais focado no tema da Proteção Civil. A seguir, às 10:00.
Muito bem, até já, José Manuel.
Muito obrigado. Até já.
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